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Cultivar a alegria
por Clara Soares Ilustrações de Júlio Vanzeler

Há cada vez mais pessoas a descobrir que a felicidade é um estado psicológico com raiz na alegria. Este sentimento é um verdadeiro antídoto para a depressão, a doença do século XXI. A ciência provou que ser alegre faz bem à saúde. E os cursos que ensinam a arte de restaurar a alegria estão na moda.

Viver cansa. Pedro Paixão escreveu um livro sob este lema, e nós estamos de acordo. Apercebemo-nos disso quando ficamos doentes, quando temos um acidente qualquer que nos troca as rotinas ou quando nos concentramos nas contrariedades e frustrações típicas de mais um dia de trabalho.
Cultivar emoções positivas, como a alegria, sempre foi algo avesso à tradição portuguesa, mais propícia ao fatalismo e ao fado, e que valoriza a nostalgia do passado, com tudo o que tinha de bom e se perdeu com os anos. Camões lá teria as suas razões quando falava no descontentamento descontente - no amor e, quem sabe, na vida - cuja versão moderna se traduz num "vai-se andando com a cabeça entre as orelhas".
Miguel Soromenho, um entre centenas de peões que atravessam diariamente a passadeira junto ao Cais das Colunas, em Lisboa, teria encontrado mil razões para andar farto da vida, mas decidiu mudar de semblante e denota um razoável sentido de humor. Um acidente de viação que lhe pôs a vida em risco foi uma maneira de acordar de uma vida desinteressante, feita de correrias e obrigações. Aos 34 anos, deixou o carro na sucata e passou a andar de transportes públicos. Afinal, nunca gostou de conduzir nem de andar cheio de stress dentro do carro.
Os colegas de trabalho reconhecem que o Miguel deixou de ser aquela pessoa complicada e nervosa para ser outra, que desfruta das pausas laborais no hotel e assume uma atitude simples e descontraída.

"Foi preciso sentir-me fisicamente em risco para me obrigar a pensar", recorda Miguel. Aquelas fracções de segundo em que viu à frente tudo o que valorizava e nunca tinha feito, ficaram gravadas na memória. "Viver só cansa quando, de tão agarrado a preocupações e receios, deixo passar minutos e horas sem usufruir do simples facto de estar vivo."
Para muitas pessoas, a alegria de viver não passa de um chavão publicitário, algo vagamente ficcional e raramente concretizável no quotidiano. Geralmente, nem questionam a possibilidade de ser de outro modo. É preciso que alguma coisa aconteça à sua volta e que as perturbe, a ponto de se interrogarem a si próprias com um "O que estou a sentir? Por que razão me sinto assim?" O corpo dá sinais de fadiga, fica permeável a infecções. Tarefas que eram feitas facilmente começam a ser quase impossíveis de realizar, os nervos ficam à flor da pele e cometem-se erros por falta de distanciamento.
Investigadores em saúde mostraram, há pelo menos duas décadas, que existe uma relação directa entre o estado emocional e o aparecimento de problemas somáticos - no corpo - sem uma causa orgânica: as pessoas com estados
depressivos e ansiosos são mais propensas a problemas
físicos e a acidentes de vária ordem. Mas, para algumas pessoas, a vivência de situações extremas permitiu-lhes ver outras facetas da mesma realidade e introduzir inovações na sua forma de estar e na de terceiros.

Um caso paradigmático aconteceu no final dos anos 60, no estado americano de West Virginia. Após uma tentativa de suicídio, um jovem que ninguém conhecia internou-se voluntariamente num sanatório e descobriu, ajudando outros doentes, que a sua vocação era ser médico. Já na faculdade, os seus métodos pouco convencionais para ajudar pessoas hospitalizadas - entre eles, os afectos e a terapia do riso - geraram admiração e controvérsia dentro da classe médica. Tendo passado com
distinção e fundado o Instituto da Saúde, o médico dedicou 30 anos da sua vida a integrar o riso, a confiança e a humanização no sistema de saúde dos Estados Unidos, que considerava dispendioso e elitista.
A história real de Patch (penso) Adams, que deu origem ao filme protagonizado pelo actor Robin Williams, continua a servir de exemplo a organizações e projectos que têm por missão fomentar a alegria de viver nos doentes, complementando os tratamentos convencionais e acelerando os seus processos de recuperação (ver caixa).
Actualmente, os cientistas da saúde apostam na descoberta de soluções não apenas farmacológicas, para lidar com o crescimento exponencial de doenças crónicas com base no comportamento. O caso não é para menos: os custos galopantes com medicamentos para combater a depressão preocupam governos e não se afiguram uma opção atractiva para o cidadão comum.
Na medicina actual, sabe-se agora que os estados depressivos promovem a libertação de hormonas que alteram as defesas corporais, enquanto que os
estados emocionais positivos aumentam a produção de anticorpos naturais e promovem a libertação de endorfinas - um analgésico natural para a dor - e de serotonina - um neurotransmissor que tem um efeito antidepressivo ao nível do sistema nervoso.

Um estado de espírito alegre parece criar um efeito de bar-reira protectora em situações de conflito, permitindo que a pessoa relativize as suas experiências - rindo-se delas até - em vez de se deixar consumir por elas. Investigações recentes sobre o impacto do riso no estado de saúde demonstraram que ele funciona como um comprimido anti-stress, por facilitar processos como a oxigenação e a dilatação dos vasos sanguíneos. O relaxamento físico que decorre de uma boa gargalhada ou da simples boa disposição parece confirmar o ditado popular segundo o qual "um sorriso por dia dá saúde e alegria".
Esta sabedoria é comum nas pessoas com grande longevidade. Os testemunhos televisivos de aniversariantes que celebram os seus 100 anos são quase sempre do tipo: "Não tive grandes felicidades, até tive muitas desgraças, mas estou grata à vida." Na maioria dos casos não tiveram doenças, ou foram raras, e quase nunca foram ao médico.
A Biologia conseguiu mostrar, através de experiências com gémeos, que entre 25 e 50 por cento dos factores que determinam um estado de espírito positivo - que inclui capacidade de ser alegre - são hereditários. Mas a Psicologia tornou claro que esta disposição é trabalhada ao longo da vida. Aqui, a personalidade conta: pessoas com uma vida emocional estável podem não ter muitos momentos de êxtase, mas também não têm muitas neuras e sentem que levam uma vida boa - faça chuva ou faça sol.

Com tantas vantagens para a saúde e a qualidade de vida, não tardaram a surgir aplicações práticas. Nos média, começam a aparecer artigos sobre a arte de ser feliz e os livros que propõem métodos para restaurar a alegria de viver estão entre os mais vendidos.
Em algumas empresas que apostam na inovação, os departamentos de Recursos Humanos começam a aperceber--se do valor do factor A, a "alegria no trabalho", investindo em programas e cursos de desenvolvimento pessoal para grupos de funcionários. No nosso país, estas iniciativas são escassas. Pelo contrário, o número de pessoas que, a título particular, se inscreve e frequenta cursos de aperfeiçoamento pessoal tem aumentado nos últimos cinco anos. Na maioria dos casos, trata-se de aprender a estar de bem com a vida, o que tem reflexos na saúde, no trabalho e no relacionamento com os outros.
As palestras e workshops em que, por vezes, é feita a apresentação de um filme ou documentário com relatos e exemplos práticos, são compostos por exercícios de comunicação simples que quase sempre pretendem recuperar uma energia perdida, algures entre a infância e a idade adulta.
A Contagiante Alegria de Viver é um dos módulos mais apreciados no curso de Robiyn, um antigo piloto de aviões com raí-zes goesas, que se tem dedicado a dar conferências em vários países sobre a arte de viver em harmonia. Não gosta que lhe perguntem se este é mesmo o seu nome, defende que nascemos para ser felizes, embora nem sempre o saibamos. Residindo em Portugal há três anos, viaja regularmente de norte a sul para dar a conhecer ao cidadão comum a possibilidade de renascer. Sem parar de sorrir, explica com entusiasmo que é preciso matar atitudes que já não nos servem, para que outras, mais criativas, se manifestem.
"Quem vive triste não precisa de tomar drogas, intoxica-se naturalmente com as substâncias libertadas pelas hormonas no sangue, que resultam de pensamentos autodestrutivos", adianta. Razões para isso, Robiyn encontra-as nos medos
herdados ou construídos, que minam o caminho e que conseguem anular vidas inteiras.

A sua teoria é simples: todos os exemplos de harmonia em potencial podem ser vistos na natureza. A semente de uma árvore consegue contrariar as leis da gravidade no momento em que o rebento emerge da terra, cria raízes e se expande no sentido ascendente, em direcção à luz do sol. Se aplicarmos os princípios da Biologia e da Física e vivermos sem resistências, criamos as condições para estar alegres e passar essa qualidade energética aos outros.
À luz do seu modelo, a alegria infantil de que a natureza nos dota perde-se na proporção em que entramos em competição, ou sempre que procuramos nos outros ou nas coisas a fonte para o nosso equilíbrio. Exemplificando com as regras básicas da condução, afirma que "por vezes, é preciso fazer marcha atrás antes de passar às mudanças para andar em frente sem bater". Este é o ponto de partida para transformar o que sentimos como incómodo em algo com sentido para a nossa evolução pessoal.
Pedro Laia, estudante informático residente em Sintra, seguiu as pistas de Robiyn e, aos 25 anos, sente-se bem melhor do que nos tempos em que andava constantemente revoltado com a escola, com a família e com o mundo.
"Para mim, o importante era resolver problemas e encontrar soluções. E um curso de alegria não tinha graça nenhuma." Mas lá foi. Conseguiu voltar a rir sem vergonhas nem como forma de fugir aos problemas. "Rir uma vez por dia dá saúde e alegria", era um ditado que sabia de cor. Só que nunca se tinha permitido fazê-lo. Para seu espanto, descobriu que enfrenta situações problemáticas com tranquilidade e menos esforço.
O mesmo aconteceu a Maria da Graça Aparício, que decidiu aplicar as descobertas feitas aos 49 anos na sua prática profissional. Médica de família no Centro de Saúde de Abrantes, tem verificado na prática os efeitos benéficos da nova ferramenta terapêutica: "Já me aconteceu ter um paciente deprimido que vinha à consulta para obter uma receita de antidepressivos. Prescrevi-lhe três sorrisos por dia, ao espelho, e um pensamento positivo acerca de si próprio." Surpreendido com o facto, mostrou o papel da médica à família e, na visita seguinte, confessou-lhe que tinha sido um sucesso. Sempre que o entende, Maria não hesita em motivar os que a procuram por causa de sintomas de stress a verem que o que nos acontece é sempre um reflexo de decisões nossas, que podemos alterar a qualquer momento.

"Dantes, pensávamos que as discussões de casal eram normais - até ao dia em que parámos e decidimos olhar um para o outro, com calma, como uma parte de nós próprios." Paula Pires e Rui Costa, ele arquitecto e ela professora, são um alegre casal do Montijo que abriu mão do clássico "Eu é que tenho razão", para se render à prática da aceitação de defeitos.
A decisão teve efeitos surpreendentes, dentro e fora de portas. Paula lembra-se bem dessa experiência: "Quando alguém começava a discutir comigo, eu lançava um sorriso ou prestava atenção sem o habitual contra-ataque. Era o suficiente para que a pessoa também mudasse a sua atitude. Hoje, raramente me deparo com situações de conflito, tal como o Rui."
A incapacidade para aceitar a vida com espírito aberto e alguma descontracção esconde muitas vezes problemas que, no passado, não foram bem resolvidos, deixando na memória respostas a situações críticas que depois se repetem na presença de novas situações que a pessoa codifica como ameaçadoras.

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