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Há cada vez mais pessoas a descobrir
que a felicidade é um estado psicológico com raiz na alegria.
Este sentimento é um verdadeiro antídoto para a depressão,
a doença do século XXI. A ciência provou que ser alegre faz
bem à saúde. E os cursos que ensinam a arte de restaurar a
alegria estão na moda.
Viver cansa.
Pedro Paixão escreveu um livro sob este lema, e nós
estamos de acordo. Apercebemo-nos disso quando ficamos doentes,
quando temos um acidente qualquer que nos troca as rotinas ou
quando nos concentramos nas contrariedades e frustrações
típicas de mais um dia de trabalho.
Cultivar emoções positivas, como a alegria, sempre
foi algo avesso à tradição portuguesa,
mais propícia ao fatalismo e ao fado, e que valoriza
a nostalgia do passado, com tudo o que tinha de bom e se perdeu
com os anos. Camões lá teria as suas razões
quando falava no descontentamento descontente - no amor e, quem
sabe, na vida - cuja versão moderna se traduz num "vai-se
andando com a cabeça entre as orelhas".
Miguel Soromenho, um entre centenas de peões que atravessam
diariamente a passadeira junto ao Cais das Colunas, em Lisboa,
teria encontrado mil razões para andar farto da vida,
mas decidiu mudar de semblante e denota um razoável sentido
de humor. Um acidente de viação que lhe pôs
a vida em risco foi uma maneira de acordar de uma vida desinteressante,
feita de correrias e obrigações. Aos 34 anos,
deixou o carro na sucata e passou a andar de transportes públicos.
Afinal, nunca gostou de conduzir nem de andar cheio de stress
dentro do carro.
Os colegas de trabalho reconhecem que o Miguel deixou de ser
aquela pessoa complicada e nervosa para ser outra, que desfruta
das pausas laborais no hotel e assume uma atitude simples e
descontraída.
"Foi
preciso sentir-me fisicamente em risco para me obrigar a pensar",
recorda Miguel. Aquelas fracções de segundo
em que viu à frente tudo o que valorizava e nunca tinha
feito, ficaram gravadas na memória. "Viver só
cansa quando, de tão agarrado a preocupações
e receios, deixo passar minutos e horas sem usufruir do simples
facto de estar vivo."
Para muitas pessoas, a alegria de viver não passa de
um chavão publicitário, algo vagamente ficcional
e raramente concretizável no quotidiano. Geralmente,
nem questionam a possibilidade de ser de outro modo. É
preciso que alguma coisa aconteça à sua volta
e que as perturbe, a ponto de se interrogarem a si próprias
com um "O que estou a sentir? Por que razão me
sinto assim?" O corpo dá sinais de fadiga, fica
permeável a infecções. Tarefas que eram
feitas facilmente começam a ser quase impossíveis
de realizar, os nervos ficam à flor da pele e cometem-se
erros por falta de distanciamento.
Investigadores em saúde mostraram, há pelo menos
duas décadas, que existe uma relação
directa entre o estado emocional e o aparecimento de problemas
somáticos - no corpo - sem uma causa orgânica:
as pessoas com estados
depressivos e ansiosos são mais propensas a problemas
físicos e a acidentes de vária ordem. Mas, para
algumas pessoas, a vivência de situações
extremas permitiu-lhes ver outras facetas da mesma realidade
e introduzir inovações na sua forma de estar
e na de terceiros.
Um caso
paradigmático aconteceu no final dos anos 60, no estado
americano de West Virginia. Após uma tentativa de suicídio,
um jovem que ninguém conhecia internou-se voluntariamente
num sanatório e descobriu, ajudando outros doentes,
que a sua vocação era ser médico. Já
na faculdade, os seus métodos pouco convencionais para
ajudar pessoas hospitalizadas - entre eles, os afectos e a
terapia do riso - geraram admiração e controvérsia
dentro da classe médica. Tendo passado com
distinção e fundado o Instituto da Saúde,
o médico dedicou 30 anos da sua vida a integrar o riso,
a confiança e a humanização no sistema
de saúde dos Estados Unidos, que considerava dispendioso
e elitista.
A história real de Patch (penso) Adams, que deu origem
ao filme protagonizado pelo actor Robin Williams, continua
a servir de exemplo a organizações e projectos
que têm por missão fomentar a alegria de viver
nos doentes, complementando os tratamentos convencionais e
acelerando os seus processos de recuperação
(ver caixa).
Actualmente, os cientistas da saúde apostam na descoberta
de soluções não apenas farmacológicas,
para lidar com o crescimento exponencial de doenças
crónicas com base no comportamento. O caso não
é para menos: os custos galopantes com medicamentos
para combater a depressão preocupam governos e não
se afiguram uma opção atractiva para o cidadão
comum.
Na medicina actual, sabe-se agora que os estados depressivos
promovem a libertação de hormonas que alteram
as defesas corporais, enquanto que os
estados emocionais positivos aumentam a produção
de anticorpos naturais e promovem a libertação
de endorfinas - um analgésico natural para a dor -
e de serotonina - um neurotransmissor que tem um efeito antidepressivo
ao nível do sistema nervoso.
Um estado
de espírito alegre parece criar um efeito de bar-reira
protectora em situações de conflito, permitindo
que a pessoa relativize as suas experiências - rindo-se
delas até - em vez de se deixar consumir por elas.
Investigações recentes sobre o impacto do riso
no estado de saúde demonstraram que ele funciona como
um comprimido anti-stress, por facilitar processos como a
oxigenação e a dilatação dos vasos
sanguíneos. O relaxamento físico que decorre
de uma boa gargalhada ou da simples boa disposição
parece confirmar o ditado popular segundo o qual "um
sorriso por dia dá saúde e alegria".
Esta sabedoria é comum nas pessoas com grande longevidade.
Os testemunhos televisivos de aniversariantes que celebram
os seus 100 anos são quase sempre do tipo: "Não
tive grandes felicidades, até tive muitas desgraças,
mas estou grata à vida." Na maioria dos casos
não tiveram doenças, ou foram raras, e quase
nunca foram ao médico.
A Biologia conseguiu mostrar, através de experiências
com gémeos, que entre 25 e 50 por cento dos factores
que determinam um estado de espírito positivo - que
inclui capacidade de ser alegre - são hereditários.
Mas a Psicologia tornou claro que esta disposição
é trabalhada ao longo da vida. Aqui, a personalidade
conta: pessoas com uma vida emocional estável podem
não ter muitos momentos de êxtase, mas também
não têm muitas neuras e sentem que levam uma
vida boa - faça chuva ou faça sol.
Com tantas
vantagens para a saúde e a qualidade de vida, não
tardaram a surgir aplicações práticas.
Nos média, começam a aparecer artigos sobre
a arte de ser feliz e os livros que propõem métodos
para restaurar a alegria de viver estão entre os mais
vendidos.
Em algumas empresas que apostam na inovação,
os departamentos de Recursos Humanos começam a aperceber--se
do valor do factor A, a "alegria no trabalho", investindo
em programas e cursos de desenvolvimento pessoal para grupos
de funcionários. No nosso país, estas iniciativas
são escassas. Pelo contrário, o número
de pessoas que, a título particular, se inscreve e
frequenta cursos de aperfeiçoamento pessoal tem aumentado
nos últimos cinco anos. Na maioria dos casos, trata-se
de aprender a estar de bem com a vida, o que tem reflexos
na saúde, no trabalho e no relacionamento com os outros.
As palestras e workshops em que, por vezes, é feita
a apresentação de um filme ou documentário
com relatos e exemplos práticos, são compostos
por exercícios de comunicação simples
que quase sempre pretendem recuperar uma energia perdida,
algures entre a infância e a idade adulta.
A Contagiante Alegria de Viver é um dos módulos
mais apreciados no curso de Robiyn, um antigo piloto de aviões
com raí-zes goesas, que se tem dedicado a dar conferências
em vários países sobre a arte de viver em harmonia.
Não gosta que lhe perguntem se este é mesmo
o seu nome, defende que nascemos para ser felizes, embora
nem sempre o saibamos. Residindo em Portugal há três
anos, viaja regularmente de norte a sul para dar a conhecer
ao cidadão comum a possibilidade de renascer. Sem parar
de sorrir, explica com entusiasmo que é preciso matar
atitudes que já não nos servem, para que outras,
mais criativas, se manifestem.
"Quem vive triste não precisa de tomar drogas,
intoxica-se naturalmente com as substâncias libertadas
pelas hormonas no sangue, que resultam de pensamentos autodestrutivos",
adianta. Razões para isso, Robiyn encontra-as nos medos
herdados ou construídos, que minam o caminho e que
conseguem anular vidas inteiras.
A sua
teoria é simples: todos os exemplos de harmonia em
potencial podem ser vistos na natureza. A semente de uma árvore
consegue contrariar as leis da gravidade no momento em que
o rebento emerge da terra, cria raízes e se expande
no sentido ascendente, em direcção à
luz do sol. Se aplicarmos os princípios da Biologia
e da Física e vivermos sem resistências, criamos
as condições para estar alegres e passar essa
qualidade energética aos outros.
À luz do seu modelo, a alegria infantil de que a natureza
nos dota perde-se na proporção em que entramos
em competição, ou sempre que procuramos nos
outros ou nas coisas a fonte para o nosso equilíbrio.
Exemplificando com as regras básicas da condução,
afirma que "por vezes, é preciso fazer marcha
atrás antes de passar às mudanças para
andar em frente sem bater". Este é o ponto de
partida para transformar o que sentimos como incómodo
em algo com sentido para a nossa evolução pessoal.
Pedro Laia, estudante informático residente em Sintra,
seguiu as pistas de Robiyn e, aos 25 anos, sente-se bem melhor
do que nos tempos em que andava constantemente revoltado com
a escola, com a família e com o mundo.
"Para mim, o importante era resolver problemas e encontrar
soluções. E um curso de alegria não tinha
graça nenhuma." Mas lá foi. Conseguiu voltar
a rir sem vergonhas nem como forma de fugir aos problemas.
"Rir uma vez por dia dá saúde e alegria",
era um ditado que sabia de cor. Só que nunca se tinha
permitido fazê-lo. Para seu espanto, descobriu que enfrenta
situações problemáticas com tranquilidade
e menos esforço.
O mesmo aconteceu a Maria da Graça Aparício,
que decidiu aplicar as descobertas feitas aos 49 anos na sua
prática profissional. Médica de família
no Centro de Saúde de Abrantes, tem verificado na prática
os efeitos benéficos da nova ferramenta terapêutica:
"Já me aconteceu ter um paciente deprimido que
vinha à consulta para obter uma receita de antidepressivos.
Prescrevi-lhe três sorrisos por dia, ao espelho, e um
pensamento positivo acerca de si próprio." Surpreendido
com o facto, mostrou o papel da médica à família
e, na visita seguinte, confessou-lhe que tinha sido um sucesso.
Sempre que o entende, Maria não hesita em motivar os
que a procuram por causa de sintomas de stress a verem que
o que nos acontece é sempre um reflexo de decisões
nossas, que podemos alterar a qualquer momento.
"Dantes,
pensávamos que as discussões de casal eram normais
- até ao dia em que parámos e decidimos olhar
um para o outro, com calma, como uma parte de nós próprios."
Paula Pires e Rui Costa, ele arquitecto e ela professora,
são um alegre casal do Montijo que abriu mão
do clássico "Eu é que tenho razão",
para se render à prática da aceitação
de defeitos.
A decisão teve efeitos surpreendentes, dentro e fora
de portas. Paula lembra-se bem dessa experiência: "Quando
alguém começava a discutir comigo, eu lançava
um sorriso ou prestava atenção sem o habitual
contra-ataque. Era o suficiente para que a pessoa também
mudasse a sua atitude. Hoje, raramente me deparo com situações
de conflito, tal como o Rui."
A incapacidade para aceitar a vida com espírito aberto
e alguma descontracção esconde muitas vezes
problemas que, no passado, não foram bem resolvidos,
deixando na memória respostas a situações
críticas que depois se repetem na presença de
novas situações que a pessoa codifica como ameaçadoras.
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