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Fazedoras de opinião
por Margarida Portugal

Fabricar matéria de pensamento tem sido tarefa quase exclusivamente masculina. Mas a voz das mulheres soa cada vez mais alto. O peso das suas ideias e convicções aumenta de dia para dia.

A jornalista Maria João Avillez tem acompanhado de perto a política nacional através dos seus principais protagonistas, mantendo há décadas uma presença constante na imprensa e na televisão.
Constança Cunha e Sá, colunista do Diário Económico, é outra acutilante comen-tadora na área da opinião política.
Uma conceituada voz proveniente do mundo académico é a de Maria Filomena Mónica, socióloga e escritora, colunista do Público.
No mesmo jornal, Teresa de Sousa, que há vários anos esclarece as grandes e pequenas questões relativas à Europa, é hoje uma especialista em política internacional.
Clara Ferreira Alves, acutilante na sua Pluma Caprichosa, uma coluna semanal no Expresso, é uma opinião de peso no campo dos usos e costumes lusos e da cultura.
Helena Roseta, bastonária da Ordem dos Arquitectos, firme na defesa das suas causas, mantém uma influente coluna na revista Visão.
No dia-a-dia da militância política, mas em campos opostos, têm "fabricado" opinião duas mulheres de fibra: Odete Santos (em cima), deputada do PCP, uma muito solicitada comentadora televisiva, e Maria José Nogueira Pinto, do PP, comentadora da Rádio Renascença.
Há mais homens do que mulheres a assinar as colunas de opinião dos jornais e revistas portugueses. O que apenas surpreende porque há cada vez mais mulheres na docência, no direito, no jornalismo, mesmo nas secções de política das redacções. Há até mais mulheres a ascender a cargos de governo até aqui exclusivamente masculinos, como é o caso da nova ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite. E o mercado de revistas femininas prolifera.
A que se deve então a sua inferioridade numérica no debate público das ideias? A uma reduzida base de recrutamento. E a preconceitos quanto àquilo que interessa às mulheres. Porque isso de opinião feminina, é coisa que simplesmente não existe. Palavra de líder de opinião.
Não vale a pena tentar desenvolver qualquer reflexão sobre a razão pela qual as mulheres sobem menos ao palanque público para se fazerem ouvir, sem definir uma premissa fundamental: não há opinião feminina.

"Faz tanto sentido falar de opinião feminina como faz sentido falar de opinião masculina, ou seja, são géneros distintos, mas que não devem condicionar a própria opinião", explica Clara Ferreira Alves, que assina uma rubrica semanal na Revista do Expresso. "Prefiro falar em opinião prescindindo do adjectivo masculino ou feminino. Prefiro a opinião substantiva", diz.
Uma tese que Maria Filomena Mónica, colunista do Público, não podia subscrever mais. Na sua opinião, "não existem diferenças intelectuais entre homens e mulheres. As diferenças são apenas biológicas". Constança Cunha e Sá, jornalista e comentadora, também não distingue "entre opiniões ditas femininas e opiniões supostamente masculinas", apenas considera "pessoas cujas opiniões me interessam e outras que pura e simplesmente não leio. Nesta matéria, não faço distinções de género".
A deputada comunista Odete Santos é um pouco menos taxativa na forma como aborda esta "complexa questão". Embora não aceite que "a biologia - o sexo - determine por si só uma forma especial de fazer política, por exemplo", as mulheres "encontram circunstâncias especiais na sua vida que criam em algumas, como dizia Sophia de Mello Breyner, 'aquele eterno gesto oblíquo das mulheres'. E noutras, a capacidade de 'fazer frente'", acrescenta Odete Santos, citando ainda o poema Antígona daquela poetisa. Mas não é isso que legitima a existência de uma opinião feminina. Porque "obliquidades, encontramo-las igualmente nos homens. E também como oposição à norma, encontramos neles a capacidade de fazer frente".
Maria José Nogueira Pinto, do Partido Popular, argumenta. "Todas as mulheres são diferentes entre si, não só no modo como intervêm mas também na própria forma mentis. Mas, obviamente, o feminino está lá, não é nem realçado nem sufocado. Existe naturalmente."

Todas estas mulheres fazem opinião, enchem colunas nos jornais com as suas ideias, fabricam matéria de pensamento, iluminam os cantos recuados da reflexão, agitam mentes e perturbam os espíritos, são agentes de inquietude e desassossego, acrescentam convicção à constatação. Pertencem ao restritíssimo clube das líderes de opinião portuguesas.
Maria José Nogueira Pinto, que é comentadora da Rádio Renascença, acha que a qualidade de "fazedora de opinião está associada a uma autoridade técnica ou de saber, e não apenas a uma pura e simples mediatização". E na sua opinião, as líderes de opinião em Portugal provêm de três nascentes: a política, o meio académico e o jornalismo. Mas não em número suficiente.
Há casos ilustrativos: Maria Filomena Mónica é o "expoente maior" de uma líder de opinião ligada ao mundo académico, de que Manuela Silva também serve de exemplo. "A crítica política, por exemplo, é feita a partir de uma análise sociológica e dentro de uma visão histórica que vai muito para além do fait--divers politiqueiro e circunstancial", diz Maria José Nogueira Pinto.
No caso do jornalismo, a dirigente popular escolhe Teresa de Sousa (por causa da sua especialização em temas europeus), Laurinda Alves (especialista em "temas do quotidiano muito próximos do real das pessoas") e Maria João Avillez, de quem distingue "a clara independência que lhe conferiu um estatuto de liberdade, fundamental nesta área".
Opiniões oriundas da esfera política necessitam de "juntar um estatuto político próprio à tal autoridade técnica", defende Maria José Nogueira Pinto, apontando Maria de Lurdes Pintasilgo e Manuela Ferreira Leite como dois casos exemplares. Representam ambas "situações onde se estabelece claramente para a opinião pública o peso da intervenção política e o capital próprio, válido em qualquer contexto que não o exclusivamente partidário", remata.
Teresa de Sousa também elege Maria de Lurdes Pintasilgo como uma daquelas personalidades "cuja opinião publicada tem uma influência na opinião pública mais esclarecida" e acha que, no mundo da política activa, Maria José Nogueira Pinto, Elisa Ferreira ou Helena Roseta são nomes cuja "opinião tem peso". O mesmo é válido para Maria João Avillez e Judite de Sousa, no caso do jornalismo político televisivo.
São, no entanto, nomes que configuram excepções à regra. "Lamentavelmente, ainda prevalece nos jornais a ideia de que a opinião feminina deve concentrar-se em questões de natureza mais 'leve', mais 'doméstica', mais emocional, deixando para a opinião masculina as análises das grandes questões internacionais, políticas ou económicas", constata Teresa de Sousa.

A política é o território de eleição de Constança Cunha e Sá, uma admiradora confessa dos escritos da jornalista do Público, Ana Sá Lopes, e também de Helena Matos, "não porque sejam mulheres, mas porque sabem escrever sobre política com humor e inteligência. É quanto basta". Também ela acha que "o dia-a-dia de qualquer órgão de informação mostra que o comentário político é uma excepção dentro de um universo jornalístico que é maioritariamente feminino". Porquê? Constança não tem dúvidas: "Porque existe a ideia, profundamente enraizada entre nós, de que as mu-lheres não se interessam por política", pelo que "quando se convida uma mulher para colaborar num órgão de Comunicação Social, pretende-se antes de mais obter o tal olhar feminino que não passa pela política - como não passa por quase nada de relevante - mas enfim!", desabafa a colunista do Diário Económico.
Teresa de Sousa corrobora. "O que não há é uma opinião intelectual feminina - para lá do universo estrito da política e do jornalismo político. Ou há muito pouca. Os comentadores, os analistas dos jornais e dos meios audiovisuais, fora do círculo fechado da 'política portuguesa', são homens."

Mas se este país é "redigido por homens", como afirma Clara Ferreira Alves, como explicar o mercado das revistas femininas? Constança ensaia uma explicação. "Considera-se que o público feminino, um alvo fundamental nos dias que correm, não está para perder o seu tempo e o seu dinheiro com, por exemplo, a actualidade política."
Teresa de Sousa tem outra tese. "Somos um país culturalmente atrasado, onde o conhecimento interessa pouco face à 'emoção' e ao escândalo, onde é de bom tom dizer-se mal de tudo e de todos e é isso que vende e atrai." Mais: "[Em Portugal] toda a gente se sente capacitada para dar a sua opinião sobre tudo - o que sabe e o que não sabe - ao contrário do que prevalece na maioria dos países europeus. Em suma, o 'mediático' sobrepõe--se ao racional e ao fundamentado."
E acresce ainda a isto o facto de "as mu-lheres muitas vezes prestarem um mau serviço 'às outras mulheres' porque se deixam enredar por sentimentos de ridícula rivalidade feminina", lembra Clara Ferreira Alves. O que não impede que "momentos de união e solidariedade, mútua simpatia e admiração" possam acontecer. Eis um.
"Tenho saudades da existência intelectual e física de Natália Correia e da voz moral e activa de Sophia de Mello Breyner, mulheres de uma geração que está a desaparecer", confessa a jornalista, que respeita "muito a seriedade intelectual e a generosidade de Helena Roseta, uma pessoa de corpo inteiro".

Maria Filomena Mónica está optimista. "No tempo do Eça, há mais de 100 anos, praticamente não existiam mulheres jornalistas. A este respeito, a geração dos meus filhos já é diferente da minha." E mesmo que haja menos mulheres para "os lugares ao sol", Clara Ferreira Alves acredita que, em matéria de "poder intelectual, a distribuição é mais equitativa entre as mulheres".
Mesmo assim, recorda Odete Santos, sobre os ombros delas continua a pesar "a casa, os filhos, os netos e os idosos, o que as afasta quantas vezes da política activa... E falta tempo para pensar. E falta tempo para agir. Estamos forçadas a fazer como os actuais professores de Filosofia: a colocar notas de rodapé nos textos de mulheres ilustres. O que torna mais difícil transformar o mundo".

Os números da verdade

Basta um voo rasante sobre as fichas técnicas dos jornais, revistas e órgãos de informação mais proeminentes do país para detectar a desproporcionalidade entre os nomes de homens e de mulheres que são convidados a exporem ali a sua opinião. É um daqueles aspectos em que não há excepções.
O Público, por exemplo, oferece as suas páginas a 11 colunistas, dos quais apenas dois são mulheres, respectivamente Helena Matos e Maria Filomena Mónica, muito embora disponibilize espaço regularmente para a opinião dos jornalistas da casa, uma boa parte dos quais mulher.
O Diário de Notícias reserva-se a singularidade de ter um Provedor do Leitor mulher, Estrela Serrano, mas conta com apenas três mulheres entre as mais de duas dezenas de colunistas que exibe na sua ficha técnica. São elas Helena Sacadura Cabral, Maria Elisa e Vera Roquette.
No Jornal de Notícias, o cenário é similar: ao todo, o diário nortenho tem um contingente de 25 colunistas, dos quais apenas quatro são mulheres: Manuela Ferreira Leite, a actual ministra das Finanças,
a jornalista Judite de Sousa, a ex-autarca de Sintra, Edite Estrela, e a escritora Alice Vieira.
Nos semanários, nada de novo a este respeito. Mesmo o venerando Expresso, que conta com 22 colunistas na sua ficha técnica, não exibe mais do que três nomes de mulheres entre eles: Edite Estrela, Inês Pedrosa e Maria João Lopo de Carvalho.
Na revista Visão, onde o número de colunistas é de 14, apenas a ex-primeira-ministra Maria de Lurdes Pintasilgo, a bastonária da Ordem dos Arquitectos Helena Roseta e a escritora/bióloga Clara Pinto Correia marcam a diferença de género. O Independente é, de todos os semanários, o que abriga mais nomes de mulheres nas suas colunas - sete, no cômputo geral - mas trata-se também
do jornal que mais colunistas possui:
34, ao todo.
E não se julgue que nas televisões a situação se altera.
A SIC Notícias, por exemplo, possui 12 comentadores residentes que convoca regularmente para discutir assuntos da sua especialidade. Destes, apenas um é mulher. Trata-se de Isabel Meireles, comentadora de assuntos internacionais.

 

 



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