
Sempre pensei que os rocambolescos enredos das telenovelas eram meros frutos de mentes criativas. Até que, aos 19 anos, a minha mãe fez-me uma revelação.
Luísa Soares
Naquela tarde, tinha tido mais uma ruidosa discussão com o meu pai. Desde muito pequena sempre me tinha baralhado a falta de afinidade que havia entre nós. Como é que era possível eu não amar o meu pai? Esta pergunta retumbava na minha mente desde muito cedo, e era fonte de uma angústia extrema. Não me lembrava de alguma vez o ter beijado ou abraçado. E o pior era quando me perguntavam o porquê. Na minha cabeça infantil não havia respostas. “Provavelmente porque sou má”, pensava caladinha a ver se ninguém percebia. E foi com esse colossal e solitário sentimento de culpa e vergonha que cresci.
Naquela tarde, após a discussão, a minha mãe andava silenciosa atrás de mim. Entrei no quarto e ela seguiu-me. Sem rodeios, disse: “Sabe, o seu pai não é realmente o seu pai.” Foi como um soco no estômago e, ao mesmo tempo, uma lufada de ar fresco. Pela primeira vez havia uma explicação. Não apagava nada do que sofri, mas apaziguava a inquietação que já fazia parte de mim. Mais de mil pensamentos invadiram-me a cabeça: “Como é que puderam manter uma mentira por tanto tempo? Como foram capazes de me deixar sofrer tanto? E agora?” Ferida, não permiti que a minha mãe desabafasse. Dei-lhe apenas espaço para as revelações básicas.
Fiquei a saber que conhecia o meu pai biológico e que, de certa forma, acompanhou o meu crescimento. Tinha sido, desde sempre, o meu médico. E, juntando os factos, percebi porque me tratava de forma tão especial. Era um galanteador e, antes de saber o que sabia, cheguei mesmo a ponderar se não havia qualquer outro interesse por trás do seu comportamento. Sem lhe dizer que sabia a verdade, fui a uma consulta. Esperava que ele dissesse qualquer coisa. Não o fez. Decidi aboli-lo da minha vida. Pelo menos, tentei. Mas apanhava-me a pensar o que sentiria por mim, ou por que razão nunca me procurou. Pela primeira vez consegui ter respeito pelo homem que me criou como pai, ainda que ciente de quão distintos éramos (e de que, no fundo, nunca seria capaz de ocupar o papel de pai).
Passados quase 30 anos, a minha mãe adoeceu gravemente. A esperança estava por um fio até que percebi que o meu pai biológico era um dos responsáveis pelo hospital em que estava internada. “Alguém a tinha de salvar!”, pensei. E ao mesmo tempo: “Estou prestes a perder a mãe, e nunca cheguei a falar sobre a minha história com ela ou com o meu pai biológico.” Procurei-o para que me ajudasse com a minha mãe… e também para falar sobre as minhas origens. Atendeu-me de imediato. O encontro foi carregado de emoção. Falou-me da sua vida e, de forma breve, da relação de amor que viveu com a minha mãe. Olhou-me de forma doce, abraçou-me, e prometeu acompanhar o tratamento da minha mãe.
O meu coração não me cabia no peito de tanta alegria. Queria recuperar o tempo perdido. Voltámos a ver-nos algumas vezes. Mas a confusão de sentimentos era enorme. Num último encontro, ele revelou-se desorientado. Não sabia se me via como filha ou como mulher. Igualmente confusa, tentei reverter a situação mas não consegui. Preferi afastar-me. O lugar de pai ficaria para sempre vazio.
Ao fim de dois dias, a minha mãe não resistiria à doença. Passei a minha vida em revista. Vi-me, contra a minha vontade, no centro deste enredo. Fui fruto de uma paixão. Desejada ou não, resultei de um encontro de amor e não apenas de luxúria. Talvez isso tenha resgatado a minha alma e ajudado a atravessar as partes mais agrestes deste caminho. Cresci, estudei, constituí uma família e acho que fui bem sucedida. Percebi que sou resistente e não sei se por obra do destino ou do amor da minha mãe estava fadada a existir. Agora, não abro mão de um final feliz.
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