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A noite mais longa do ano é também a mais mágica. O momento em que as crianças acreditam que todos os seus desejos se irão realizar. Uma história que perpetua a esperança, o amor e o perdão. E assim deve continuar.
Por Pilar Diogo
A criatividade, o imaginário são as ferramentas de base necessárias ao saudável crescimento das crianças. São os sonhos infantis, o nosso extraordinário mundo povoado de fadas, duendes, monstros, bruxas que nos fazem crescer, resolver conflitos interiores e que, mais tarde, nos permitem ter a capacidade de resolver problemas maiores. Daí que – a par do sentimento crítico e da capacidade de analisar o mundo, que devem ser estimulados nas crianças – alimentar esse universo de faz-de-conta, de magia, onde se inclui o Pai Natal, através de histórias contadas nas horas da confidencialidade, antes de dormir, entre aconchegos e beijos, não só é algo benéfico como indispensável. A imaginação permite-nos alargar os nossos horizontes e reduzir a angústia perante as situações de stress. As crianças vivem muito na realidade, um quotidiano por vezes até bastante agressivo, e muito pouco no sonho.
Da ficção à realidade
• O Pai Natal é a bondade personificada, a generosidade, o amor, tolerante. Tudo qualidades para dar como exemplo às crianças
• Nas longas cartas redigidas ao Pai Natal, as crianças expressam os seus desejos mais profundos. Neste cenário particular, elas investem no sonho, na magia. E é isso que torna aquele pedido único
• Quando a criança descobre a verdade, faz uma experiência de realidade, é uma ocasião emocionalmente forte para a criança, que aprende a destrinçar imaginário e real
• A aquisição de autonomia afectiva permite-lhes afastar-se da magia, entrar na idade da razão
• Quando a criança começa a questionar os pais sobre as atribuições do Pai Natal, os pais devem sempre, segundo Manuel Coutinho, responder cautelosamente com uma pergunta, não correndo o risco de dar informação nem a mais nem a menos: “Porque é que me estás a fazer essa pergunta?” E, aos poucos, devem ir adaptando o discurso às perguntas
• Quando revelar a verdade, insista no facto de que se trata de uma história maravilhosa, em que você mesma acreditou, e os seus pais antes de você. E que assim deve ser perpetuado. E, sobretudo, que a magia do Natal está ligada ao prazer de estarmos juntos, de estarmos presentes na vida dos outros, e não só às prendas
• Os pais não devem sentir-se deprimidos se as crianças ficarem decepcionadas porque não receberam tudo o que queriam. A frustração faz tanto parte da vida como o prazer e há que aprender a gerir isso. Quando se obtém tudo o que se deseja, como continuar a sonhar? |
Existe uma função psicológica nesta figura na qual as crianças têm necessidade de acreditar, deleitando- -se com a visão de um velhinho de barbas, uma espécie de avô bondoso que não esquece ninguém, que tudo desculpa, rasgando os céus num trenó puxado por renas. Existe nesta figura o sentimento de esperança, de perdão, do renascer para um Eu melhor.
Para Manuel Coutinho, psicólogo clínico, “actualmente o Pai Natal é um misto de uma sociedade que apela ao consumo e que tenta transmitir alguns valores de generosidade, mas fá-lo de maneira algo ilusória, porque em torno desta figura simpática que muito contribui para o imaginário das crianças, e de todos nós, pouco tem sido feito para a munir de valores reais, de autenticidade, de nobreza de sentimentos, de verdade em detrimento de uma atitude meramente comercial”.
E às dúvidas daqueles pais que ainda se questionam se é benéfico os filhos acreditarem nesta figura, Manuel Coutinho responde que “é importante que as crianças possam fantasiar com esta figura. Povoar o imaginário dos mais pequenos é necessário, porque todas as histórias acabam por ter uma moral, uma lição. E a moral da história do Pai Natal é a de que nós estamos sempre a tempo de nos tornarmos melhores pessoas, que somos mais felizes se nos dermos aos outros, como fez São Nicolau. A criança tem de compreender que, se cumprir as normas, vai ser melhor para ela e ela vai ganhar – não bens materiais – com isso, transformar-se-á numa pessoa melhor, mais humana. O verdadeiro valor do Pai Natal tem de ser humanista.
E este não é o momento do ajuste de contas, se os filhos tiveram más notas ou se portaram mal. “Não há um Pai Natal tirano, muito menos um Deus tirano. A dar, os pais devem dar sempre presentes. Nem sequer se devem confundir as coisas. Uma coisa são as notas, as avaliações, os desempenhos escolares; outra, são os afectos. Se os pais acham que as crianças não os merecem, então devem ajudá-las a merecê-los, e não o contrário”, afirma Manuel Coutinho. Mas frisando sempre que “as melhores ofertas não são as materiais, mas as dos valores, da amizade, do afecto, da solidariedade, da tolerância, da compreensão, do respeito e da generosidade... e essas não se transmitem só numa noite, mas todos os dias, durante uma vida, de geração em geração. Até porque não se ‘compram’ as crianças com bens materiais, cativam-se. É a interacção com os outros que é importante”.
O Pai Natal restabelece o elo com o passado, com outros Natais, com a tradição e os rituais tão importantes nas famílias. Ele é um avô que, como refere o sociólogo Jacques Godbout em L’Esprit du Don (em colaboração com Alain Caillé, Éditions La Découverte), “restabelece a filiação, o elo com os antepassados que a sociedade moderna rompe constantemente. O Dom é uma cadeia temporal. Ele traz os presentes do universo e autoriza os pais, pela sua presença, a serem também filhos, pelo espaço de um momento”.
A riqueza das recordações de infância não deixa ninguém indiferente, como diz Patrick Estrade, psicólogo e psicoterapeuta, formado pelo Instituto de Psicologia de Berlim, no seu livro Estas Recordações que nos Comandam (Bizâncio), “porque são o diário (...) do que vivemos. Um caderno um pouco particular, todavia, no sentido em que não retrata fielmente tudo o que vivemos mas retrata fielmente – demasiado fielmente por vezes – o que nos parece importante ter vivido”. E, quando não são a marca de acontecimentos terríveis e traumatizantes, “as recordações de infância são nichos afectivos extraordinários, fascinantes, surpreendentes de loucura, de inteligência, de ternura, de malícia. A vida aparece aqui em toda a sua simplicidade”.
Por isso, vamos celebrar o maravilhoso, cuidar das nossas recordações, incutir os verdadeiros valores nas crianças, para que um dia possamos ouvir: “Mãe, lembras-te daquele Natal?” |