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FAMÍLIA








A sonhar com o Natal muito tempo antes,
as crianças fazem longas listas de presentes
que gostariam de receber no sapatinho.
São recados aos pais – e ao Pai Natal – que
ficam confusos com a selecção a fazer.


Por Júlia Serrão

 
Todos os anos voltamos a render-nos à atmosfera de magia que a época natalícia nos provoca, criando o nosso ambiente de luz, afectos e solidariedade. E, tal como nós, também as crianças mergulham, e ainda mais, no seu mundo que, nesta altura, é por excelência de ilusão e idealização de presentes.

Ainda Outubro ia a meio, as ruas não tinham vestido os típicos cenários alusivos ao nascimento de Jesus e Francisco, de sete anos, já sabia que esse tempo estava perto. As conversas sobre o tema circulavam entre amigos, no colégio que frequenta. “Este ano, pediu-nos uma Play Station Portable e mais um herói de uma série televisiva”, comenta a mãe, Teresa, de 47 anos. “Os pedidos dele são sempre razoáveis, pelo que achamos que merece até mesmo uma extravagância.” Os pedidos das crianças não são independentes da educação que recebem em casa e dos princípios que a regem, mas há sempre que contar com o imprevisto. O convívio com os outros meninos, na escola, e as campanhas televisivas de marketing podem levá-la a desenvolver outros interesses. Hoje, a maioria delas tende a desejar mesmo – e a pedir – muito mais do que pode usufruir. O que fazer?, perguntam-se os pais. Como seleccionar o presente perfeito e com base em quê?

Para o psicólogo clínico Manuel Coutinho, “o presente perfeito é aquele que o pai e a mãe têm para dar ao filho no sentido de dar-se, e não de dar”. Por outro lado, “por definição, o presente tem a ver com o presentear, alguém presenteia alguém porque merece”. Neste sentido, defende, a criança não deve ter tudo aquilo com que sonha de forma gratuita. “Até mesmo porque entre o desejo e a satisfação do desejo deve haver um espaço. Se a criança durante esse intervalo merecer, então poderá vir a recebê-lo.”

 
“Os pais devem dar o que podem. E os miúdos devem ter consciência do que é que os pais podem dar. E perceber, desde cedo, que não podem ter tudo”, esclarece Sara Almeida, psicóloga clínica.

Negociar com a criança, “dentro dos limites”, continua a ser a melhor técnica, segundo a especialista em infância. “Os pais devem seleccionar alguns brinquedos que achem interessantes, mas oferecer também outros a que possam não achar tanta graça e interesse. E explicar às crianças mais pequenas que se lhes está a dar algo porque elas gostam, mas que eles não acham atraente e porquê.” Quando se faz isto, diz, “está-se a controlar, mas também a dizer que respeitamos a individualidade do nosso filho. A palavra é um mediador excepcional na relação e na vida”. Usá-la ajuda a esclarecer.

Se para a criança o presente mais desejado – ou perfeito – “é aquele que todos os meninos da sua idade têm, e o mais anunciado”, comenta Manuel Coutinho, para os pais não deve sê-lo. Será antes o que “pode relacionar aquilo que é bom para a criança, que é bom para os pais. E eventualmente, também terá a ver com o custo”. Assim sendo, os progenitores devem saber fazer “uma leitura” das preferências do filho e “seleccionar aquelas que, na sua opinião, melhor se adequam à sua personalidade e estão mais ajustadas à sua idade e desenvolvimento mental”.

Para Sara Almeida, “não há brinquedos proibidos, há brinquedos perigosos – que devem ser evitados, porque a criança corre risco – e brinquedos da moda”. Por exemplo, os rapazes podem brincar com pistolas e espadas que “não se tornam violentos por isso, desde que tenham consciência para que serve”. É até normal que, a partir de certa altura, elejam este tipo de objectos. Geralmente acontece quando a criança passa a “ter noção de que a pistola é um símbolo de poder – ‘eu tenho uma pistola, sou mais forte porque mato e o outro morre’ – a brincar”. Tudo se passa ao nível do simbólico. Depois, “esta também é uma forma de ela se aproximar do poder”.
As crianças não se tornam agressivas por brincar com uma pistola de brincar, a não ser que o seu mundo seja de violência, sublinha a especialista. Ou brincar apenas com este tipo de brinquedos.

“Quando estamos a dar, temos de perceber se estamos a proteger ou não.”

“Nestes casos, a pistola adquire outras proporções e já é preocupante.” O normal é a criança ter alguma diversidade de brinquedos e brincar com todos, diz, lembrando que as preferências dos mais pequenos estão sempre associadas “ao boneco da moda e aos bonecos dos poderes”. Neste momento, “nas meninas, estão relacionados com o conceito de beleza e hipermaturidade, são as bonecas muito maquilhadas e elegantes. Nos rapazes, são as bolas de poderes que se atiram e destroem. No fundo, são os conceitos da feminilidade e da masculinidade que estão um
pouco sublimados, mas que é poder e identificação”.

Os pais devem escolher os brinquedos dos filhos e a utilização que fazem deles, diz a especialista. Sobretudo se estes passam muito tempo sozinhos.

E quando eles incluem na lista de Natal brinquedos do sexo oposto? O que fazer? “Os brinquedos têm uma função importante que é a de ajudar a criança a treinar o seu papel. É a brincar que ela vai exercitando esse papel. Logo, os rapazes terem brinquedos de rapaz e as raparigas de raparigas é organizador”, observa, sublinhando que isto não significa que um rapaz pequenino não possa ter um bebé chorão, por exemplo.

 
O mais indicado em cada fase
A psicóloga infantil Sara Almeida dá algumas pistas:
Para bebés: objectos com sons e cores. Ter cuidado com a selecção dos primeiros, visto algumas crianças terem dificuldade de regulação, pelo que os sons mais fortes podem assustá-las.
É importante conhecer o temperamento do bebé
Se o bebé acaba de nascer ou tem pouco tempo de vida, oferecer o objecto de referência (transitivo): o ursinho ou a fada, a fraldinha
Até aos 5 anos: casinhas de madeira, carrinhos
e bonecas simples, por exemplo de trapos – quem sabe feitas pela mãe ou por outro familiar. E aproveitar a época para, através destas bonecas, por exemplo, introduzir a história da família
Até aos 7 anos: puzzles e encaixes – continuar
a dar bonecos e livros –, jogos de regras e uma bicicleta para que possam brincar ao ar livre, na rua, perto de casa ou no jardim, sempre acompanhadas de um adulto
A partir dos 7, 8 anos: CDs, livros, jogos do tipo Monopólio e Damas, que possam ser jogados em família, e jogos de computador, previamente monitorizados
Polémicas à parte – uma vez que há quem julgue restritivo não dar brinquedos de raparigas a rapazes –, “a verdade é que, quando estamos a dar um brinquedo aos nossos filhos, estamos a induzir, quer queiramos quer não”, explica. E exemplifica: “Se damos uma caixa de maquilhagem a um rapaz, estamos a introduzir um papel que é oposto ao que ele treina no dia-a-dia na escola. Porque, na escola, quem brinca com este tipo de objectos são as meninas.”

Nos brinquedos das raparigas, há muitos “que os rapazes podem reter”. Brincar juntos facilita esta experiência. “Enquanto os meninos põem gasolina nos carros, as meninas fazem o jantar. Mas eles podem e vêm mexer a comida no tachinho.” E é bom que façam esse ensaio.
 
Um destes dias, de manhã, de partida para o infantário, Joãozinho quis trocar o seu amigo ursinho, que sempre o acompanha, por um bebé chorão. A mãe não viu qualquer razão para negar o desejo ao filho de dois anos e meio. Esse mesmo dia foi marcado pela reacção dos colegas. “Assim que entrámos na sala, os outros dois meninos, de quatro anos, começaram a gritar: ‘Olha, o Joaozinho já é gay’”, conta a mãe, absolutamente descontraída.

Entre crianças pequenas, episódios desta natureza não têm repercussões maiores. Mas entre mais velhas, o sonho de ter um brinquedo diferente e a conquista do mesmo pode tornar-se o pior dos pesadelos, quando exibido entre pares.

“Quando estamos a dar, temos de perceber se estamos a proteger ou não”, alerta Sara Almeida, acrescentando que, quando entramos no campo da identidade de género, estamos a entrar num outro campo importante que não devemos ignorar e que é a sociedade. “Os brinquedos valem o que valem, mas a atribuição que se lhes dá vale muito.”

Por outro lado, hoje vive-se “demasiado centrado nos brinquedos pedagógicos”, para desenvolver o coeficiente intelectual, esquecendo muitas vezes que, antes disso, é importante treinar outras capacidades, as quais se aprendem a brincar ao faz-de-conta, “e ter uma intencionalidade no brincar”, de acordo com a psicóloga clínica. “Antes dos puzzles e dos encaixes, é muito importante que as crianças mais pequenas, até aos seis anos, brinquem com tachos e panelas, carros e casas de madeira, com bonecos para montar e bonecas de trapos. São os brinquedos ditos mais arcaicos, menos elaborados, que lhes permitem fazer de conta, fantasiar”, observa, sublinhando que é fundamental deixar as crianças brincarem com o que lhes dá prazer, “sem estarem sempre a ser treinadas para serem mentes brilhantes”.

 
Educar para a solidariedade
O psicólogo clínico Manuel Coutinho recomenda:
Convide a criança a escolher entre os brinquedos em bom estado um para oferecer a outros meninos cujos pais não tenham condições económicas para lhes comprar um presente, ou a meninos que estejam em instituições
Ensine as crianças mais velhas a serem solidárias com as outras pessoas e a perceber que o Natal não é uma época de bens materiais, mas de dádiva, de enerosidade, de troca de emoções, valores, respeito, e que serve para nos fazer pensar numa sociedade melhor, em que podemos olhar o outro com mais respeito
Quanto aos jogos de computador, que fazem as maravilhas dos meninos a partir dos sete ou oito anos, a especialista aconselha cuidado na sua selecção. “Se em relação à pistola estamos a operar no universo do simbólico, em relação a este jogos estamos a um nível completamente diferente. Estamos a falar de meninos mais crescidos que passam muito tempo à frente do computador e, portanto, tem um significado diferente.”

Oferecer este tipo de presente é possível, mas não sem antes conhecer bem o seu conteúdo e desde que os meninos exercitem outro tipo de brincadeiras.
 
Mas porque a época é de dádiva, de dar e receber, que presente melhor podemos dar às nossas crianças do que reforçar nelas valores como a solidariedade e a generosidade? É muito importante sensibilizar e convidá-las a agir nesse sentido. “Devemos começar por lhes ensinar que, tal como elas, há outros meninos que gostariam de receber presentes, mas que isso não vai acontecer porque os pais dessas crianças ou as famílias onde vivem não têm possibilidades de o fazer”, recorda Manuel Coutinho. E, logo depois, desafiá-las a fazer alguma coisa no sentido de poder suavizar esta situação. De que forma? Convocando-as a dividir “os seus brinquedos em bom estado, de que eventualmente gostem, com esses meninos”.

De acordo com o psicólogo clínico, este gesto de solidariedade é muito gratificante para as crianças. E a longo prazo, torna-as “generosas no sentido de partilhar com os outros coisas de que elas gostam”. Por outro lado, “é importante porque fazemos também a cultura dos afectos. É a passagem do brinquedo que não fica em casa a degradar-se, mas que continua a ter vida útil para além da vida que teria se ficasse naquele quarto encantado”. As crianças, assegura, ficam muito felizes por saber que os seus brinquedos podem fazer outras crianças felizes”, explica o psicólogo, sublinhando a importância de “educar para ser”.













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