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FAMÍLIA







O Natal é a época de todos os presentes e de todas as ilusões. Boa altura para falarmos de brinquedos e brincadeiras, de imaginação e fantasia.

Por Mariza Figueiredo

Era Outubro e a Catarina, de cinco anos, já andava atrás da mãe com um pedaço de papel e uma caneta na mão para que a ajudasse a fazer a carta para o Pai Natal com a lista dos presentes que gostaria de receber. E, para a Catarina, presente era definitivamente sinónimo de brinquedo. Mas, apesar da grande expectativa, Catarina, que não via muita televisão, não sabia dizer exa- ctamente que brinquedos pretendia. Deu umas pistas ao ditar a carta ao Pai Natal, mas ia caber à mãe fazer a escolha. E entrar na secção de brinquedos de uma grande superfície ou nas grandes lojas da especialidade pode revelar-se uma verdadeira aventura, tantas são as opções. Ir com a criança pela mão a estes grandes centros pode ser ainda pior. “A criança vê milhares de oportunidades e, ainda que leve algum brinquedo para casa, deixa outros tantos lá e fica com esta sensação”, comenta o psicanalista João Seabra Diniz. O brinquedo que leva acaba de certa forma desvalorizado.

Entre os europeus, os pais portugueses são os que mais tarde tomam a decisão sobre o que vão dar aos seus filhos e os que apresentam a maior percentagem de indecisão na altura da escolha dos presentes de Natal dos mais pequenos. É o que revela o Duracell Toy Survey 2006, estudo realizado pela sexta vez em 11 países da Europa e recentemente divulgado. Refira-se que os italianos e os polacos são os mais decididos nesta matéria. E perante as hipóteses que parecem infinitas a pergunta é sempre a mesma: o que será melhor para o meu filho?

Companhia de brincadeiras

Não é raro as crianças brincarem sozinhas, mas gostam também de solicitar a presença dos pais ou, quando são um pouco maiores, de brincar com amigos. De acordo com o psicanalista João Seabra Diniz...

... na maioria das vezes é preciso pouco para brincar com uma criança

... mesmo assim, os pais devem desistir da preocupação de saber brincar, se isso interfere com a sua espontaneidade. As alturas de estar com filhos devem ser momentos de prazer. Mesmo que não brinque muito, o importante é o contacto e a espontaneidade destes momentos

... os pais não devem querer sempre ser fonte de informação. Devem ouvir a criança. Devem deixá-la falar, dar asas à sua imaginação e aceitar as suas opções

... nas brincadeiras com outros, os pais devem levar a criança a perceber que os outros também têm sentimentos como ela. Mas devem fazer ver isso sem drama

... quando brinca sozinha é livre de fazer tudo o que quer, mas quando está com outra tem também de dar lugar ao que a outra quer e gosta
Descobrir o papel da brincadeira no desenvolvimento da criança pode ser um bom começo para destrinçar a questão. O brincar faz parte da nossa vida desde muito cedo. É a brincar que a criança, desde a mais tenra idade, começa a descobrir-se a si própria e a estabelecer uma relação com o mundo que a rodeia. Explora os seus sentidos, começa a dominar a coordenação motora e a adquirir a linguagem. Mas não só. “Brincar é muito importante para a vida da criança”, explica João Seabra Diniz. E acrescenta: “Ela tem necessidade de construir um espaço que não é bem só realidade nem só fantasia, onde organiza as experiências que vai vivendo e às quais vai dando um sentido. As brincadeiras têm a ver com o que se passa por fora e por dentro da imaginação. Coisas pelas quais a criança passou, que a assustaram, coisas que viveu ou experimentou.”

Ao brincar, os mais pequenos vão representando as relações vividas, sentidas e aprendidas em família, assim como representam os vários modelos sociais que vão descobrindo. E faz tudo isso utilizando a imaginação e a fantasia. Aos dois anos ela entra no mundo da imaginação e até aos quatro a fantasia tem um peso muito grande na sua vida, nas brincadeiras e nas diversas actividades lúdicas que desenvolve. À medida que vai crescendo, a realidade começa a ganhar terreno e a criança vai tirando partido do jogo entre imaginação e realidade. “É todo esse jogo de fantasias, de fantasmas e de jogos, e de jogos físicos, que na verdade constitui o alicerce da pessoa”, afirmou certa vez o médico e psicanalista João dos Santos, como se pode ler em Eu Agora Quero-me Ir Embora (Assírio & Alvim).

“Os brinquedos são os objectos que a criança utiliza para pôr em cena os conteúdos do seu mundo interior. Servem de apoio a esses movimentos internos, representam-nos e concretizam-nos”, explica João Seabra Diniz. “É importante que os brinquedos permitam que a criança utilize a fantasia”, sublinha. E acrescenta: “Quando isto não acontece, a criança procura outras opções.” Às vezes ela encontra nos objectos mais simples o suporte que procura. Nestas alturas, peças do nosso quotidiano podem ganhar vida e transformar-se. Um simples regador passa a servir de casa ou caverna para os bonecos, ou os pinos do bowling de plástico ou madeira convertem-se numa família. “Quando o adulto participa na brincadeira é importante que deixe a criança seguir o seu próprio guião, que lhe permita explorar, sem a condicionar à funcionalidade básica de brinquedos e objectos”, comenta o especialista.

Jogos de encaixe, puzzles, cubos de construções e brinquedos similares são, na opinião de João Seabra Diniz, interessantes e úteis, mas nem sempre são fáceis de utilizar para relacionar a sua fantasia interior com a realidade que a rodeia.

Os brinquedos muito estruturados, por sua vez, com muitas luzes, cores e elementos, podem revelar-se decepcionantes. “De início são muito atraentes. Têm uma apresentação que impressiona, mas é só aquilo. Para a criança podem ter piada à primeira e à segunda vez que utilizam. Depois, ela já sabe de cor o que o brinquedo está programado para fazer e este perde o interesse”, comenta o especialista.

As melhores opções, segundo este especialista, são aqueles “que não têm um programa pré-determinado para brincar, que não sejam só estruturados e mecânicos. Um conjunto com animais, que a criança possa, por exemplo, dividir entre bons e maus, um homem, uma mulher, um filho, que permitem construir cenas conforme o que dá jeito à criança, podem ser interessantes e servir para muitas brincadeiras”.

As crianças muitas vezes pedem brinquedos que parecem de pouco interesse ou mesmo maus, mas é preciso levar em conta a razão pela qual o fazem. E isso muitas vezes acontece porque os amigos têm o brinquedo em questão e este ganha também uma dimensão social. Nestas alturas convém reflectir antes de decidir pela compra, mas sempre tendo em conta que “não se pode isolar a criança do seu mundo”, explica o psicanalista.

Os pais europeus e o Natal

Quanto aos hábitos de compra de presentes no Natal, o estudo da Duracell revelou ainda que:

l Em 2005, na Europa, os pais gastaram uma média, por criança, de 136 euros com brinquedos (mais 27 por cento do que no ano anterior)
l A Hungria foi o país que apresentou o gasto médio mais baixo: 58 euros por criança
l O Reino Unido apresentou o gasto mais elevado: 242 euros
l A média portuguesa foi de 129 euros
l As crianças do Reino Unido foram as que receberam mais brinquedos: uma média de 16,9
l As da Polónia e da Alemanha foram as que menos receberam: uma média de 6,5 em cada um dos países
l Em Portugal, a média foi de 9,5 brinquedos
l A televisão é a principal fonte de informação sobre os brinquedos para o Natal, seguida das lojas
l As crianças preferem ir às lojas só de brinquedos, enquanto os pais preferem os hipermercados e os supermercados, pela variedade de escolha, mas também pelo preço
Ao escolher os brinquedos, os pais devem fazê-lo a pensar nas crianças e não no seu gosto pessoal, nas suas preferências ou por estarem simplesmente na moda. Algumas perguntas básicas podem ajudar neste momento. Será divertido e vai de encontro às preferências do meu filho? Continuará sendo divertido e dando margem a novas ideias e brincadeiras? É seguro e resistente? Estará adaptado à idade da criança, à sua maturidade física e mental? Requer a ajuda de um adulto e, se assim for, terei disponibilidade para o ajudar? Requer companheiros/as de brincadeiras e, neste caso, será que a criança tem amigos capazes de jogá-lo com ela? Estas são algu- mas das questões sugeridas pelo Instituto Tecnológico del Juguete (www.aiju.info), de Espanha, para a hora da compra. Esta é uma organização sem fins lucrativos cujo objectivo principal é potenciar a investigação, a segurança e a qualidade do sector dos brinquedos.

A segurança é também um aspecto-chave no que diz respeito à escolha dos brinquedos. A indicação CE na embalagem pode ser uma garantia, uma vez que indica que o brinquedo foi aprovado segundo as exigentes normas de segurança comunitárias. No entanto, já foram de- tectados alguns brinquedos menos seguros que apresentavam esta marca, o que leva a que, para assegurar a qualidade plena dos produtos, se deva dar prioridade aos produtos fabricados dentro da Europa e por marcas de reputação conhecida e comprovada. As indicações etárias das embalagens também podem ser de grande valia no que diz respeito à segurança.

E se a sua filha pede uma pista de corridas ou o seu filho diz que quer uma boneca? “As necessidades de aprendizagem de um menino não diferem das necessidades de uma menina. É saudável que ambos os sexos se sintam atraídos por brinquedos que tenham um valor interessante, independentemente de serem considerados masculinos ou femininos. Em todo o caso, é errado pensar que um menino perderá os seus valores masculinos se brincar jogos de meninas e vice-versa”, indicam os responsáveis pelo projecto Brinquedo Seguro no site www.brinquedoseguro.coop.

A criança deve ter à sua disposição brinquedos variados, mas não em excesso. “O exagero destrói toda e qualquer possibilidade de construir a fantasia. A criança quer sempre passar para o próximo e nunca aprofunda a brincadeira”, sublinha Seabra Diniz. O excesso conduz ao tédio e ao aborrecimento.

E quando chega o período de Natal é importante tentar evitar este excesso. “Talvez fosse interessante combinar previamente com os familiares e amigos para que não haja presentes em demasia. A certa altura, para a criança, é só abrir, abrir, e o presente em si perde o interesse e o significado. Isto acaba por lhe dar uma sensação de inutilidade de tudo”, comenta o psicanalista. Porque não deixar para dar um ou outro mais tarde? Quem não gosta de uma surpresa fora da época prevista?














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