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A avaliar pela sua presença de espírito perante as expectativas, Daniel Craig, o novo 007, não está nervoso. Regozija-se com a grande aposta que nele fizeram para manter e até elevar a fasquia Bond.
Por Harold von Kursk |
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Daniel Craig está a tentar manter--se calmo no meio de todo o frenesim que se prepara para receber a estreia de Casino Royale, o novo filme de James Bond. Após um ano a ser alvo de críticas se ctárias de adoradores do 007, que se uniram a uma vaga de fundamentalismos “bondianos”, Craig manteve-se convicto da sua visão do Bond “clássico”, um regresso a uma versão um pouco mais cruel e fria do ícone criado por Ian Fleming.
Craig, de 38 anos, chega a Bond após ter sido aclamado pelos seus desempenhos em vários filmes marcantes: Sylvia (papel do reprovável Ted Hughes, contracenando com a neurótica Plath, interpretada por Gwyneth Paltrow); Layer Cake (em que representa um negociante de droga acabado); e Munique (na pele do mais sanguinário e convincente membro de um grupo de assassinos israelita).
A personalidade de Craig formou-se em Chester, onde cresceu no bar dos pais, Tim – antigo membro da Marinha Mercante – e Carol, professora de arte. Diz a lenda que o jovem Daniel mostrou pela primeira vez os seus dotes como futuro entertainer a fazer caretas e a atormentar de várias formas os clientes habituais do bar.
Quando os pais se divorciaram, tinha ele apenas quatro anos, mudou-se com a mãe para Liverpool, onde fez a sua primeira estreia aos seis anos, numa produção de Oliver, na escola primária. Mudou-se para Londres com 16 anos, para se dedicar exclusivamente a ser actor.
Que tal é a sensação de vestir o smoking e interpretar 007?
É uma grande honra mas também uma grande aventura. Este tipo de papel não aparece frequentemente, mas estou a tentar não me deixar intimidar por ele. Assim que li o guião do Paul Haggis, percebi que queria ser o Bond. É realmente muito estranho que tudo isto me tenha acontecido. Alguém me disse mais ou menos isto: Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton, Pierce Brosman, Danny Craig? Soa-me estranho. Não me apetece ser o responsável por destruir essa imagem de marca.
Antes de ter aceite o papel, o risco de ser tão fortemente associado à figura de Bond – algo que sempre perturbou o primeiro Bond, Sean Connery – era para si motivo de preocupação?
Claro que há um risco, mas penso que já me afirmei como actor, representando outras personagens fortes, e por isso acho que ainda consigo fazer outros trabalhos além do Bond. E também acho que vou conseguir fazer de Bond uma personagem mais complexa.
O que é que faz de Bond este ícone?
É o seu engenho, a sua independência... Houve uma crise de identidade em Inglaterra, a seguir à Segunda Guerra Mundial, em que o país tentou compreender-se, vendo enfraquecer o poder dado como adquirido. Então surge esta personagem, que é muito britânica e encantadora, mas que ao mesmo tempo diz “vão-se lixar” ao mundo inteiro. Penso que a essência da personagem está algures por aí.
Gostou de praticar a lendária frase: “O meu nome é Bond, James Bond”?
Quando fiquei com o papel, as pessoas estavam sempre a perguntar-me se já tinha dito essa frase. Mas, sinceramente, não a ensaiei em frente ao espelho, todas as manhãs, nem nada do género. Nem sequer queria pensar em dizê-la porque não queria esse peso nos meus ombros.
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| Daniel Craig, um sedutor no papel do novo 007. Ao lado, em duas cenas do filme Casino Royale. À direita, com Eva Green. |
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| Á esquerda , em Munique com Eric Bana. Em baixo, à esquerda, em Caminho para Perdição, com Tom Hanks e Paul Newman. Ao lado, em Lara Croft: Tomb Rider. |
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Sempre foi um grande fã dos filmes? Quem foi o melhor Bond e qual é o seu filme preferido?
Vi-os todos, vezes sem conta. De todos, acho que Sean Connery definiu muito bem o papel e é ele o meu favorito. Gosto particularmente de Da Rússia com Amor. Mas, quando fui ao cinema pela primeira vez, vi o Vive e Deixa Morrer, com o Roger Moore, que achei um filme fantástico.
Sente muita pressão?
Isto não é, para mim, uma questão de vida ou morte. Sei quem sou, o que é a minha vida e vou ser feliz independentemente disso.
Sempre teve tendência para papéis complexos. É essa a sua natureza?
Gosto de representar personagens atormentadas ou de alguma forma retorcidas. Quero sentir a intensidade que tem esse tipo de pessoas. Detesto personagens certinhas que jogam pelo seguro. Adoro explorar as complexidades subtis de um papel desses porque, em última análise, é por isso que nos sentimos atraídos por pessoas assim.
A linha entre o espião e o actor é uma linha ténue. O que acha que os mantém separados?
Os actores não têm de sujar as mãos. Não temos o dilema ético do espião. Para nós, é tudo muito mais fácil.
Os James Bonds não são eternos
Daniel Craig é a sexta reincarnação do mais famoso e mulherengo espião do mundo. Lembra-se das outras cinco?
Sean Connery – É o James Bond por excelência e o mais sexy. Fez seis filmes, entre 1962 e 1967, e em 1971
George Lazenby – Ninguém se lembra dele. Fez um filme, em que casou e ficou viúvo: 007 Ao Serviço de Sua Majestade (1969)
Roger Moore – Com um sinal na cara e um penteado indestrutível, cheio de laca, rodou sete películas entre 1973 e 1985
Timothy Dalton – Habituado ao teatro sério, não se deu bem na pele do agente secreto. Rodou duas películas, em 1983 e 1985
Pierce Brosnan – Não chega aos calcanhares de Connery, mas foi o segundo melhor Bond, de 1994 a 2002
Daniel Craig – Dizem que mais parece um alourado operário de Leste do que um morenaço sedutor espião britânico. Mas ele vai ter a última palavra... |
Todavia, os actores que estão nas luzes da ribalta são muitas vezes objecto de uma grande exposição das suas vidas pessoais. Já teve o seu quinhão de exposição por causa da sua amizade com Kate Moss e Sienna Miller?
Sei que está a fazer o seu trabalho, mas, nos últimos anos, aprendi da forma mais dura que não me faz bem nenhum falar sobre essas coisas. Kate e Sienna são mulheres extraordinárias e estão muito bem, tendo em conta toda a porcaria de que são vítimas com as suas vidas transformadas em alimento para os tablóides.
Como é que surgiu o seu envolvimento com a arte de representar?
Foi algo que sempre adorei fazer desde pequeno. Sempre pretendi ser actor. Tive a ousadia de acreditar que não podia ser outra coisa. Vivíamos em Liverpool. A minha mãe tinha amigos no teatro e a minha irmã e eu passávamos lá muito tempo. Apanhei o “bichinho”. Ou via as peças ou estava na cabina de iluminação, nos bastidores, e sabia que era aquilo que queria fazer.
O que acha que é particularmente tentador na personagem de Bond?
Há uma bravata cruel no Bond, que adoro. Essa faceta da personagem é ter muita força, e é convincente, embora muitas pessoas possam ainda gostar do aspecto fantasioso e das artimanhas. Quisemos devolver Bond àquele nível básico de força bruta e intensidade. O público tem de acreditar que aquele homem é capaz de matar, de forma a que o elemento fantasia não distorça as coisas ao ponto de o acto de matar não parecer real ou convincente. Em Casino Royale retoma-se o aspecto mais rude de Bond.
Como se preparou fisicamente para o papel?
Passei cinco meses com um personal trainer. Três meses antes de começar a filmar, quis ganhar massa muscular muito rapidamente e foi o que aconteceu. Quando chegou a altura de irmos para as Bahamas, estava no auge e isso nota-se na cena em que saio da água e noutras do género. A partir daí começamos a procurar um equilíbrio.
Porque quis parecer assim tão entroncado?
Queria que parecesse que ele era capaz de matar. Sou um actor, por isso não me preocupo com o lado psicológico de parecer ameaçador, mas queria parecer fisicamente grande.
Gerou muita controvérsia o facto de Pierce Brosnan ter sido despedido. Esteve com ele desde que se tornou Bond?
Conheci Pierce há cerca de um ano. Foi muito simpático, estava muito satisfeito por mim. Aconselhou-me a aproveitar, a tornar meu o papel e a não ligar ao que os outros dizem. Precisei de falar com o Pierce, até porque não conseguiria olhá-lo de frente se não tivéssemos aquela conversa e ele foi extremamente elegante.
Ainda existe um lado fantástico em Casino Royale que faça parte de toda a mitologia Bond?
Claro. Ainda é uma fantasia. Criámos um mundo fantástico e o Bond é uma personagem solitária a tentar descobrir a verdade. Como sempre, na primeira imagem, o mundo precisa de ser salvo. E na última, o mundo é salvo. É uma fórmula que conhecemos. Estamos a dar esperança ao mundo. O mundo ainda precisa de ser salvo no final deste filme – e isso para mim é a verdade, mais do que matar o mau da fita. |
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