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Temos uma festa virada para os meninos, só eles é que recebem presentes. E como casa católica que somos, fazemos uma missa, um almoço partilhado, e recebemos a visita do Pai Natal”, comenta Sandra Anastácio sobre o acontecimento natalício que todos os anos se cumpre entre 15 e 20 de Dezembro, na Ajuda de Berço, uma Associação Particular de Solidariedade Social que acolhe crianças dos zero aos três anos, com necessidade de protecção urgente. “Reúne todos os que aqui trabalham, funcionários, voluntários e pequenos residentes, bem como os que passarem por aqui e quiserem juntar-se a nós nesta altura”, esclarece a presidente da direcção da associação e uma das suas fundadoras. De 24 para 25 de Dezembro, “a Ajuda de Berço fecha as suas portas”. De acordo com um princípio estabelecido, “cada funcionária leva uma ou mais crianças para passar estes dias consigo, permitindo-lhe uma vivência familiar”, diz, explicando que a escolhida é sempre aquela a que a “criança está mais afeiçoada, que cuida directamente dela, e tendo em conta a sua capacidade familiar”. Assim mesmo, não deixa de ser um Natal diferente e as crianças mais velhas percebem, afirma Sandra Anastácio. “Sentimos que elas se divertem, mas que sentem que não estiveram com as suas famílias, que foram visita na casa de alguém. Por mais boa vontade que as funcionárias tenham, é isso que acontece. A família é a família e nisto não há volta a dar.”
E é com ela que todos nós esperamos – e merecemos – estar. Num ambiente de amor e afecto, magia e sonho, pinheiros decorados e presépios, e toda a gente à volta da mesa, trocando presentes e conversas que reencenam a nossa história ao longo de gerações. Para os portugueses, crentes ou não, este ainda continua ser o espírito da época, o ritual que celebra a tradição e o nascimento de Jesus. Assim, quando tudo isso falha porque a vida nos “trocou as voltas”, com ou sem a nossa culpa no processo, não podemos deixar de sentir o que nos falta: a ausência dos que nos são queridos.
Foi neles, sobretudo nos filhos, que Margarida, de 39 anos, e Conceição, de 35, mais pensaram nos últimos Natais, quando na hora do recolher obrigatório, a porta das suas celas se fechou. Asseguram que se sofre mais nesse dia do que em todos os outros. A primeira, condenada a uma pena de sete anos e 10 meses por tráfico de droga, já passou quatro Natais na Casa das Mães do Estabelecimento Prisional de Tires, um espaço destinado a reclusas em período de gestação e com filhos até aos três anos. “Não há mãe que não sinta tristeza longe dos filhos, sobretudo neste dia… Eu tenho quatro lá fora. Mas, agora, é inevitável, já não há solução”, lamenta esta cabo- -verdiana, grávida de oito meses, explicando que os primeiros três foram mais fáceis que o último. “Nessa altura tinha uma das minhas filhas comigo, precisava de lhe dar atenção… e, com isso, o tempo também passou mais depressa.”
Quem são os sem-abrigo?
• De acordo com um estudo recente, existem 2717 pessoas a viver em situação de sem-abrigo
• A maioria é portuguesa
• Do sexo masculino
• Solteiros
• Com idades compreendidas entre os 30 e os 59 anos
• Com baixo nível de escolaridade
• Cerca de 25 por cento vive na rua devido a problemas familiares: conflitos vários, divórcios e morte de familiar próximo
• 23 por cento por razões de saúde: toxicodependência, alcoolismo, doença física ou mental
• 22 por cento devido a desemprego
• E 17 por cento por problemas de alojamento
• Os inquiridos mostraram uma carreira profissional instável, com 73 por cento de desempregados há mais de dois anos
Fonte: Levantamento realizado pelo Instituto da Segurança Social, divulgado no primeiro semestre de 2006 |
Quando o Natal chegar, a Margarida terá o seu bebé nos braços – vai chamar-lhe Irina – e isso antecipa a sua felicidade. O nascimento da filha e o sonho de uma precária (uma licença para ir a casa). “Estou com esperança que me deixem ir passar estes dias a casa com a família, pois já cumpri quatro anos e três meses da pena. De qualquer forma, o juiz é que vai decidir. E Deus. Porque ele é que sabe, e a minha vida também depende muito dele.”
É também a esperança de Conceição, condenada a quatro anos e meio de prisão pelo mesmo crime: tráfico de droga. Conceição não tem filhos com ela na prisão, nem nunca teve – os dois estão a viver com uma tia, em Lisboa. Foi transferida do pavilhão para a Casa das Mães porque tinha ali uma irmã – com uma sobrinha – e uma das especificidades desta ala é precisamente possibilitar a existência de “pequenas unidades familiares”.
As 48 horas de liberdade dela já estão certas, por decisão da directora. “Estarei em casa nos dias 24 e 25 de Dezembro, com o meu filho e a minha filha, que estão muito felizes com a ideia de me terem com eles”, comenta, lembrando que os últimos dois Natais ali foram muito tristes. “Nesse dia, pensa-se em tudo. Na família que não está por perto e na vida que podíamos ter tido. Sonha-se com a liberdade… e em endireitar a vida quando sairmos.”
Em Tires, a festa natalícia também ocorre uns dias antes. “Há muita animação, sobretudo para as crianças, e as visitadoras (voluntárias) trazem presentes”, conta Margarida. Na noite de 24 de Dezembro, há ainda um jantar especial que reúne todas as alas, “em ambiente festivo”, e onde são lidas as mensagens do director-geral dos Serviços Prisionais e da directora deste estabelecimento, entre outras entidades. “Às vezes, ficamos emocionadas com as palavras.”
Margarida e Conceição não se cansam de dizer que a Casa das Mães é um “sítio muito especial”, apesar de não deixar de ser uma cadeia. “Aqui, todos querem ajudar”, sublinharam ambas, várias vezes, em entrevistas separadas. “Mas passar um Natal na prisão é sempre uma experiência dolorosa para toda a gente”, admite Conceição, que nesse dia se preparava para sair numa precária de cinco dias. Estava felicíssima. Na residência temporária para grávidas adultas da Ajuda de Mãe – uma Instituição de Solidariedade Social cujo objectivo é “contribuir para a cultura da vida humana, tendo como população-alvo a mulher grávida e puérpera” – não há celas nem grades nem muros. O ambiente da casa é familiar e intimista, e há muita solidariedade entre as residentes.
O que podemos dar?
• Para as instituições que têm crianças a seu cargo: papas, fraldas, toalhitas, champôs, para além de alimentos e brinquedos
• Produtos alimentares e roupa, para todas as outras instituições
• Revistas, mesmo as que não tenham actualidade, e livros, para enviar para os países africanos de expressão portuguesa. Também poderá enviar roupa e brinquedos. Pergunte junto das associações que têm missões nos locais como poderá enviar o seu donativo |
Apesar disso, todos os anos, a associação tenta que estas mulheres tenham um Natal em família. Com a sua, se houver condições, mas também poderá ser com alguém próximo, com quem mantenham algum tipo de laço.
Maxi, de 22 anos, teve convites nesse sentido, mas preferiu passar o último Natal na residência. Pois como ela própria diz, “não queria que ninguém se sentisse incomodado com a minha presença”. Estava grávida de sete meses, “sentia vergonha”. E, por outro lado, “também não queria ver a desaprovação retratada no rosto dos outros”, relativamente à sua gravidez.
Desde que está em Portugal, provavelmente foi o Natal mais tranquilo que passou, “sozinha na casa com uma funcionária”. Mas, mesmo assim, não resistiu a perder-se entre memórias de outros Natais, passados no seu país, Cabo Verde: “A família reunia-se toda em casa dos meus pais ou de uma das minhas tias para a ceia, íamos à Missa do Galo, dançávamos e trocávamos prendas”, recorda, emocionada.
Afecto e amor é tudo o que lhe tem faltado desde que chegou a terras lusitanas para vir estudar. A vida trocou- -lhe as voltas à chegada e depois muitas outras vezes, mas Maxi acabou por sair vitoriosa dessa luta. Concluiu o curso de formação profissional, com correspondência ao 12.º ano de escolaridade, já tem emprego e faz planos para arranjar uma casa para viver com o filho de oito meses.
Existem 2717 pessoas a viver em situação de sem--abrigo em Portugal, de acordo com um levantamento realizado pelo Instituto da Segurança Social (ISS). São pessoas com problemas familiares e de saúde, ligados ao alcoolismo e à toxicodependência, desempregados e pensionistas com reformas baixas. A maioria delas soma Natais atípicos, nas praças e avenidas das cidades. Ou na ceia especial de Natal, com a oferta de presentes, realizada pela Legião da Boa Vontade, uma organização não- -governamental (ONG) implantada em Portugal desde 1989.
Reformado com uma pensão baixíssima, José, de 67 anos, vive nas ruas de Lisboa “há quatro ou cinco anos”. Já não sabe ao certo. “O Natal é passado como outro dia qualquer, mas é muito mais difícil viver esta situação nesta época, pois sente-se algo diferente dentro de nós”, comenta. Por isso, entretém-se a imaginar os Natais alheios nos rostos anónimos de quem passa. E o que gostaria para si: “Ter um abrigo, um quarto, um lar, que é algo que não vislumbro. Não sei se isso se chama sonho.”
Gestos de solidariedade
Tome nota do contacto de algumas instituições, caso queira fazer um donativo em dinheiro ou bens ou dar algumas horas do seu tempo:
• Legião da Boa Vontade
Tel. 21 715 48 90 l Ajuda de Mãe Tel. 21 382 78 50
• Ajuda de Berço
Tel. 21 362 82 74/6/7
• Casa de Protecção e Amparo de Santo António
Tel. 21 395 52 41
• Instituto de Apoio à Criança (IAC)
Tel. 21 361 78 80
• Associação Sol
Tel. 21 362 57 71/2
• Fundação Assistência Médica Internacional (AMI)
Tel. 21 836 21 00
• Leigos para o Desenvolvimento
Tel. 21 757 43 57
• Banco Alimentar Contra a Fome Tel. 21 364 96 55 |
Mais novo sete anos, António ficou no desemprego há cinco, quando a firma onde trabalhava faliu, e está nas ruas da capital há dois anos. Vive e sente o Natal como outro dia qualquer, assegura. “Para mim, todos os dias são igualmente difíceis.” E não se atreve a sonhar. “Como gostaria que fosse o meu Natal? Já nem sequer penso nisso!”, observa com distanciamento.
Associada aos valores da partilha e do amor, esta é uma época que nos convida a atender os outros. Se calhar vale a pena reflectir este Natal sobre o que podemos fazer por todos aqueles que estão numa posição fragilizada.
Por cada gesto de amor que recebemos, é possível dar em dobro a quem nada tem. Podemos fazer-nos sócios de uma instituição de solidariedade social ou de uma fundação, fazer uma recolha em dinheiro ou em bens materiais no nosso local de trabalho e enviar para uma delas ou, se calhar, dar algumas horas do nosso tempo em trabalho inteiramente gratuito.
Se a opção for um donativo, em dinheiro ou em bens, um rápido telefonema para a associação que escolhermos presentear este Natal – e ao longo de todo o ano, se pudermos e assim desejarmos – poderá simplificar a nossa escolha em termos do que dar. Ficamos a saber quais as necessidades mais prementes. Ou então, e independentemente de dar alguma coisa ou não a uma instituição, seguir o conselho de Sandra Anastácio: “Parar para reflectir, e pensar no que pode fazer por elas ao longo do ano.”
A solidariedade tem vindo a revelar-se uma das melhores formas de actuação neste campo de ajuda ao outro, nomeadamente através do trabalho dos voluntários. E ganhou terreno à caridade, cuja acção, embora meritória, era sobretudo pontual.
Na verdade, “o espírito humanitário esteve sempre presente ao longo dos tempos. Apenas se transformou com a evolução das sociedades”, defende a psicóloga clínica Conceição Almeida, a propósito desta dicotomia entre solidariedade e caridade. “Se há alguns anos fazia sentido falar em caridade, hoje faz muito mais sentido falar em solidariedade e cidadania.” Isto acontece porque, “apesar vivermos uma situação de crise económica, não há tantas situações de miséria” como havia há 30 anos, por exemplo. No fundo, somos o que a sociedade nos vai permitindo ser e, simultaneamente, os grandes protagonistas dessas transformações. No contexto social em que vivemos actualmente faz, por isso, mais sentido que “se construam equipamentos para dar respostas a situações de carência, as quais vão funcionando numa forma mais continuada e até preventiva e de reinserção”. Simplificando: “Não há intervenção na crise, há uma prevenção de situações de crise e, depois, a reinserção.”
Nos nossos dias, os actos de generosidade, do dever e do bem deixaram de ser “obrigatórios” face à punição religiosa e legal. Como dizem Francesco Alberoni e Salvatore Veca, no livro O Altruísmo e a Moral (Bertrand Editores), “a moral não desapareceu realmente do mundo. Apenas se libertou da coerção e voltou para todos à sua fonte de origem: o coração e a inteligência”.
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solidariedades
segundo Isabel Leal |
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A solidariedade como ideia e como valor já deve ter tido melhores dias. Deve ter sido qualquer coisa importante, antes de ser nome de Ministério, antes de ser o que se evoca para significar um adquirido institucionalizado que se administra, burocraticamente, e se dilui em políticas sociais sempre discutíveis. Porque se esboroou no tempo, porque se gastou no cumprimento dos deveres que temos, recuperamos o que sabemos, o que podemos, de uma qualquer visão romântica ou libertária do que a solidariedade poderia ser, em gestos voluntários a propósito de causas, umas esquecidas, outras de moda. |
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Porque somos pessoas, tecidas na relação de proximidade com outras, não nos basta saber que vivemos em países que nos obrigam a ser solidários, queiramos ou não. Precisamos de estar em frente-a-frente com realidades outras, com pessoas outras capazes de devolverem olhares, deixarem-se tocar transmitindo afectos, pronunciarem palavras que confirmam intenções. Precisamos de “meter as mãos na massa”, de experimentar o que somos capazes da solidariedade de outros tempos no desempenho de tarefas, que dão corpo a causas que tomamos como boas, nos mobilizam e nos movem. Precisamos de sentir que, para lá do que nos é pedido, marcamos a nossa presença no mundo fazendo obra. |
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CDepois, há momentos na vida ou simplesmente períodos do ano em que estas coisas se tornam mais urgentes ou mais presentes. Sendo o Natal todas as coisas que nós sabemos que o Natal é, consoante o lugar que se ocupa e a fase da vida em que se está – uma festa da família, um tempo feliz, uma comemoração religiosa, um tempo amargo e solitário, uma época de afirmação de diferentes tipos de poderes domésticos, uma orgia de consumo, uma fase de grandes trabalhos e preocupações, uma história encantada para deleite das crianças –, o Natal também é ou, pelo menos, também pode ser o símbolo vivido de uma certa capacidade, ainda que curtinha e residual, da solidariedade de que somos capazes. |
Hoje a moral já não tem “fundamento numa representação divina ou no medo do Inferno”, como aconteceu ao longo dos séculos, segundo Alberoni e Veca. “Mas surge continuamente, em cada ser humano, do próprio facto de que ele é capaz de amar, apesar de todas as falhas da sua personalidade – de ser agressivo e egoísta (…). São capazes de amar qualquer coisa mais do que a si próprios.”
Apesar da crescente motivação para a solidariedade, com consciência religiosa ou não – O Banco Alimentar Contra a Fome recolhe cada vez mais donativos em alimentos, por exemplo –, o número de voluntários ainda fica muito aquém das necessidades. “Este Verão não conseguimos ter nenhum voluntário”, comenta a presidente da direcção da Ajuda de Berço.
De qualquer forma, na segunda quinzena de Outubro, a Ajuda de Mãe contava com 50 pessoas em regime de voluntariado, distribuídas pelas áreas do apoio alimentar, formação na Escola de Mães, Espaço Mãe e Residências, explicações, sala de bebés e linha telefónica, entre outras. Maxi defende, a propósito: “O trabalho dos voluntários e os donativos mudam muitos destinos. Por isso, seria bom que cada pessoa pudesse dar um pouco mais de si todos os dias.”
Margarida fala das “visitadoras” com afecto e reconhecimento. Com a família a viver a muitos quilómetros de distância de Tires, é com elas que desabafa e recolhe conforto. São um apoio fundamental ao nível psicológico e prático. “Fazem-nos as compras quando precisamos de alguma coisa, ajudam-nos com as crianças e com palavras de alento, o que é muito importante para nós. Sobretudo nos momentos mais difíceis.”
Grande parte dos projectos de solidariedade social da Legião da Boa Vontade é desenvolvida pela acção dos voluntários. Apoiam os que vivem na rua, integrando equipas de atendimento aos sem-abrigo da Ronda da Caridade, fazem o apoio de emergência a famílias carenciadas, campanhas de valorização da vida e trabalho de escritório.
Todas as últimas sextas-feiras de cada mês, Joana Viana, de 18 anos, vai para as ruas de Lisboa distribuir comida e roupa na Ronda dos Sem-Abrigo da Legião da Boa Vontade. Nunca racionalizou as motivações que a fizeram voluntária, muito embora tenha tido um modelo de grande generosidade por perto e, na paixão pela História, tivesse descoberto a realidade dos países subdesenvolvidos, sentindo, logo aí, uma grande vontade de agir. “Não penso muito nisso. Faço por instinto, é inato, se quiser uma vocação, mas faço-o pelas pessoas. É por elas que estou neste trabalho e vou para a rua, mesmo nos dias em que estou mais cansada”, observa esta estudante de Comunicação que, agora que as aulas começaram, anda sempre numa roda-viva. “Basta-me ver a primeira pessoa sorrir e dizer--me boa-noite – e algumas só as vemos uma vez –, para me esquecer do cansaço. E fico até às seis ou sete da manhã, cheia de energia.”
O contacto com a rua não foi fácil. “No primeiro dia chorei e, às vezes, ainda choro.” Mas a coragem foi e é maior. “Uma das vezes que isso aconteceu fui consolada pelas palavras e abraços de uma mulher sem-abrigo. Foi um gesto lindíssimo, que me marcou profundamente”, diz.
Não é voluntário quem quer mas quem pode, poderíamos resumir. Sobretudo em certos meios de acção, esta realidade faz ainda mais sentido.
“Não é qualquer pessoa que tem capacidade para estar próximo das pessoas que sofrem”, refere a psicóloga Conceição Almeida, esclarecendo que é por isso que hoje se insiste na “detecção” do perfil e de uma vocação – “há conhecimentos, competências que são específicas para ajudar alguém” – e sobretudo na sua formação contínua – “o contacto com realidades dolorosas não é inócuo e, portanto, há que dar apoio a estas pessoas. Não podemos lançá-las simplesmente para uma esfera de dar sem receber. Quem dá, recebe.” De acordo com esta especialista, o voluntário tem de ser alguém que “genuinamente tem algo para dar. Mas como cada um de nós só pode dar aquilo que tem, é fundamental proceder à identificação dessas mesmas competências”. Muitas vezes, “a escolha da área do voluntariado tem a ver com questões de identificação”, com o trajecto pessoal de cada um. “Afinal, o que é que nos comove nos outros? Aquilo que nos comove a nós próprios, embora isto não seja sempre consciente.”
Tornar conscientes as escolhas das pessoas é, por isso, indispensável. “Para que estas, conhecendo melhor os seus recursos e as suas próprias falhas do que está em causa em si própria e no outro, possam ajudar de forma mais clara.
Só damos o que temos e é importante que tenhamos para dar”, assegura a psicóloga, alertando para o que nunca se deve fazer quando decidimos ajudar: “Partir numa perspectiva de receber o que não se teve.” Mas “disponibilizar uma parte de nós para que o outro possa aproveitá-la como souber e puder, e ser mais com aquilo que lhe damos, é algo fantástico. Se calhar, é das motivações mais nobres da natureza humana. E a nossa vida só ganha sentido quando de facto nos abrimos ao outro e fazemos alguma coisa por ele”, resume Conceição Almeida, sublinhando que esta é também a forma de ultrapassarmos a nossa angústia de morte: “Deixar obra feita, que tanto pode ser um filho como algo que fizemos de bom por alguém.” |
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