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Aos 22 anos, Joana
Solnado é uma força da vida. Um talento
a reconhecer. Uma promessa que vem acontecendo.
Por Leonor Xavier | Fotografias de Rui Aguiar |
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Desliza
com leveza, enrosca-se para conversar, a intimidade é
imensa. É determinada nas opiniões, não
hesita nas palavras, não recusa temas. Neta e filha
de actores, um pai músico, um tio pintor. Entre
artes, invenções e re-presentações
nasceu, no meio do teatro foi menina e se tem feito mu-lher,
em amorosa doçura.
É bom, sendo actriz, ter
uma tradição de teatro na família?
À partida, seguindo a mesma profissão de
muitas pessoas da família, tenho vantagens: ter
vivenciado o meio, ter a noção da realidade,
ter alguma bagagem para lidar com a popularidade.
Como é a sua relação
com o seu avô, Raul Solnado?
Tenho a vantagem de não ser filha, de ser neta,
tenho um distanciamento maior, vejo de fora, não
o tenho dentro de casa, não sou uma sucessora directa
dele, os comentários que oiço são
poucos mas bons. O meu avô disse-me que eu representava
com o olhar. Eu nem sabia o que isso era. Agora temos
uma relação de muito carinho e cumplicidade,
que foi aumentando ao longo do tempo. Ele dá-me
opiniões construtivas. Manda-me por e-mail crónicas
que escreve.
Quais são as suas primeiras
lembranças de palco?
Assisti duas vezes à peça Os Bancários
Não Têm Alma, tinha sete anos. Vem-me a imagem
da primeira cena, em que o meu avô aparecia num
comboio a dizer que se irritava quando as pessoas usavam
pastas de dentes e carregavam no meio do tubo. Nessa peça,
tive, pela primeira vez, acesso às maquilhagens,
aos pós, aos bâtons da Manuela Maria e da
Io Apolloni. Lembro-me de sentir muita vergonha, quando
nessa cena o meu avô abotoava as calças.
Contaram-me que quando eu tinha dois meses, a minha mãe
punha-me dentro do armário da roupa para fazer
a cena, e os actores abanavam-me para eu não fazer
barulho. A minha mãe também me contou que
estava a fazer uma peça, Perturbações
e Pequenos Delírios, em S. Paulo, eu tinha dois
anos e estava na primeira fila da plateia quando ela começou
a cantar, e eu também comecei. Da minha avó,
que também é actriz, lembro-me d’O
Patinho Feio em S. Paulo, quando eu era muito pequenina.
Se ela se zangava comigo, eu escondia-me nas vestimentas
dos patinhos. Também desde muito pequenina, sempre
que ia ao teatro ou ao ballet, quando voltava para casa,
obrigava as pessoas a sentarem-se no sofá e fazia
em cima da mesa da sala as coisas que me lembrava de ter
visto. Tinha quatro anos quando ganhei o meu primeiro
par de sapatos de seda, eram umas sabrinas feitas para
mim com os restos da colecção do José
Carlos por um sapateiro que ia ouvir o meu pai tocar piano
no After Eight, na Praça as Flores. Cantei em alemão
uma música que tinha aprendido na escola, no Rainha
Dona Amélia. Na noite seguinte, ele trouxe-me os
sapatinhos que fez. Costumo dizer que aquele foi o meu
primeiro cachet.
Queria
ser actriz? Como começou?
Queria ser bailarina, cirurgiã
cardíaca pediátrica, tinha a ideia de que
podia salvar as pessoas, principalmente as crianças.
Entretanto, desde os 14 anos fiz teatro e estudei ao mesmo
tempo. Estreei-me no King I Have a Dream, uma peça
encenada pelo Thiago Justino, na altura marido da minha
mãe, que também era actor na peça.
No ensaio geral, faltou uma actriz, e como eu sabia os
textos e a música, o Thiago disse-me para ir para
um canto do palco: “Vai ali, para eu ver a estética.”
Fui fazendo o papel daquela actriz e fiquei. Estreei no
dia seguinte. Foi uma estreia atribulada, não fazia
ideia do que ia fazer, só sabia que eles, os actores,
faziam aquela peça, e que eu gostava de os ver.
Foi em Fevereiro de 1998, tinha 14 anos. Depois, lembro-me
de que o espectáculo acabou e a minha avó
Jô estava desfeita em lágrimas. “Então?”,
perguntou-me. Eu disse-lhe que me sentia como se tivesse
voltado a casa depois de muitos anos longe. Como se estivesse
outra vez no útero da mi-nha mãe. Ela chorou
mais. Ela também se tinha estreado aos 14 anos.
Depois, fiz peças no teatro do Estoril, tinha liceu
de dia e teatro de noite.
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O
mundo de Joana
Peça - Romeu e Julieta
Filme - Million Dollar Baby
Realizador - David Linch
Actriz - Jodie Foster, Angelina Jolie
Actor - Morgan Freeman
Livro - A Era da Liberdade
Restaurante - Tia Alice, em Fátima
Estilista - Katty Xiomara
Desporto - Equitação
Cidade - Lisboa |
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E a estreia
em televisão?
O Último Beijo foi a minha primeira novela, era
a filha do protagonista, que era o Pedro Lima. Acordava
às cinco de manhã, apanhava o comboio às
seis, às sete horas tinha de estar no Cais do Sodré
para apanhar a carri-nha para Vialonga. Não foi
fácil. Mas adorei fazer a novela e estar ao pé
de actores muito mais velhos, com quem podia aprender.
Tinha muita vergonha de ter de gritar com eles na cena.
No teatro, tinha 19 anos quando fiz As Confissões
de Uma Adolescente. Andava no 2.º ano de Cinema na
Lusófona (sou assídua faltante), um dia
estava na praia e ligou-me a Margarida Vila-Nova, que
tinha sido minha colega de escola aos 12 anos, para eu
entrar na peça. Foi lindo. Estivemos quase um ano
e meio em cena, era saboroso, era bom, viajámos
pelo país todo. Depois, Morangos com Açúcar
foi o trabalho em que as pessoas me reconheceram, às
vezes vou na rua e ainda me chamam Catarina. Das três
edições que a novela teve – esta é
a terceira – aumentou a qualidade, mas também
aumentou o nível de promiscuidade. Tenho medo de
deixar o meu irmão de nove anos ver. Depois de
fazermos a versão dos Morangos em teatro pelo país,
enche-mos o Coliseu de Lisboa.
Como se deu no Brasil? O que
guarda dessa experiência de mudança?
Fiz um casting na Globo. Fiquei. Passei cinco meses no
Rio de Janeiro a fazer a novela Como Uma Onda. Foi fácil,
difícil, duro e gratificante, tudo ao mesmo tempo.
Fui menina e voltei mulher. Na cidade impressionaram-me
os contrastes, o descontrolo. A pessoa tem de se obrigar
a viver um dia de cada vez. No trabalho, fui como uma
esponja, absorvia tudo e todos. Estava bêbeda de
informação. No plano pessoal, foi um crescimento,
um grande pulo psicológico, emocional. Fiz muitos
amigos. Lá, há tudo para incentivar, não
para castrar.
É possível conciliar
a carreira e a família?
Tento manter o equilíbrio, a minha família
é a primeira a entender e a ajudar-me neste balanço.
O amor, o sonho de criar uma
família?
Tudo na minha vida é movido pelo amor. Sonho ser
muito feliz e ter muitos filhos, tantos quanto possa.
Adoro crianças e acho que renovam qualquer pessoa.
Fazem-nos mudar e entender os mistérios da vida.
O casamento, como será?
Mais nova, sonhava com um casamento de véu e grinalda
a entrar na igreja pela mão do meu pai. Hoje, não
me identifico com a Igreja católica e não
tenho vontade de casar. Acho que vou fazer uma grande
festa para comemorar a minha felicidade, com as pessoas
de quem gosto.
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Joana Solnado, apesar do apelido famoso,
tem sabido criar um nome próprio. |
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E a sua ideia
de liberdade?
Conquisto a minha liberdade todos os dias. Quanto mais
me conheço, quanto mais descubro sobre mim, mais
livre me sinto.
É a favor da despenalização
do aborto?
Sou a favor. A mulher deve saber o que é melhor
para si. Os abortos e-xistem e continuam a ser feitos.
Muitas vezes em más condições, põem
em risco a vida da mulher. Uma das grandes vantagens da
despenalização é a mulher poder tomar
a sua decisão com segurança, sem ser culpabilizada
pela sociedade.
O
trabalho, os tempos livres, como são?
Estudo de noite, o silêncio ajuda-me a concentrar
e a produzir mais, às vezes de manhã cedo.
Além do trabalho, gosto de fazer muitas coisas.
Estar com amigos, jantar fora, ir ao cinema e ao teatro.
Tenho o meu lado calmo, leio durante horas, posso pegar
no carro e ir ao Algarve almoçar com o meu pai,
que vive em Alte e que eu vejo menos do que gostaria.
Que planos de futuro tem?
Gosto muito da frase “Não faças planos
para a vida, que podes estragar os planos que a vida tem
para ti”, parece-me que é do Agostinho da
Silva. Tenho sonhos, convicções e vontades,
vou experimentá-los sem ansiedade. Neste momento,
estou num intervalo de reciclagem, vou para Barcelona
fazer um workshop de teatro e a Londres. Quero recomeçar
a faculdade e acabá-la o mais depressa possível.
E, além do teatro, tem
traços de família?
A minha avó Dorinhas, mãe do meu pai, tinha
uma coisa que eu tenho muito. Tinha cuidado com ela, com
o glamour, uma palavra que dizia muito, e tinha paixão
por jóias. O meu pai ofereceu-me jóias de
família que eram da minha avó. Eu identifico-me
com essa minha avó. As pessoas tinham coisas que
não eram descartáveis. Sou fascinada por
carteiras, chapéus e sapatos, sou um bocadinho
retro. |

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