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ESTRELA DO MÊS




Com o seu desempenho em À Procura da Terra do Nunca, Johnny Depp arrisca-se a ganhar um Óscar.

À Procura da Terra do Nunca, o novo filme de Johnny Depp, pode valer-lhe uma estatueta dourada. A felicidade no cinema alia-se à da sua vida.O segredo é simples: Vanessa Paradis e os dois filhos.

Por Harold von Kursk

Embora a vida de J.M. Barrie possa não ter sido tão cor-de-rosa como o seu fantasioso clássico infantil, Peter Pan, Johnny Depp está satisfeitíssimo com os rasgados elogios pelo seu retrato do escritor.

À Procura da Terra do Nunca, co-protagonizado pela actriz inglesa Kate Winslet, teve a sua estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza e já levou observadores da indústria cinematográfica a anunciar precocemente Depp como candidato a um Óscar – com todo o mérito para o actor, que não só dominou um sotaque escocês como soube dar à sua interpretação de Barrie a componente de deslumbramento pueril que animou o mundo daquele excêntrico escritor.

No entanto, Depp não se mostra ainda disposto a alinhar na corrida aos Óscares. Aos 41 anos, está a meio de um relançamento de carreira que começou com o seu papel em Piratas das Caraíbas, de 2003, que lhe valeu a nomeação para uma estatueta dourada. Durante anos, viu-se levado a interpretar outsiders e excêntricos, e só recentemente a sua própria auto-imagem sofreu uma transformação drástica, desencadeada pelo seu relacionamento com a cantora e actriz francesa Vanessa Paradis.

 

 
Em À Procura da Terra do Nunca
Junto há seis anos, o casal Depp-Paradis produziu dois rebentos, fez Johnny mudar-se para França e provocou uma reviravolta feliz na sua antiga visão sombria da vida.

Na sua opinião, como era Barrie realmente?
Em muitos aspectos, Barrie era uma criança grande e gostava de fazer parte da família que vivia ao lado. Escrever Peter Pan foi a sua forma de agradecer a essa família por voltar a tornar a sua vida divertida e estimulante. A família pode ter esse efeito nas pessoas. Aquelas crianças abriram-lhe os olhos para a alegria de viver e foi esse estado de espírito que o levou a escrever a peça.

Foi elogiado por muitos críticos britânicos pelo seu sotaque escocês...
Fico satisfeito porque tive dificuldade, no início, quando estava a preparar-me para o filme, em adquirir a cadência e o ritmo certos, mas depois trabalhei com um excelente professor de dialectos que me pôs no caminho certo. Também me ajudou o facto de alguns dos elementos da equipa serem escoceses, e eu pedi-lhes continuamente que me avisassem quando fizesse asneira. Após as primeiras semanas de rodagem, comecei a sentir-me bastante à vontade com o sotaque, que fazia naturalmente, sem pensar muito nisso.

À Procura da Terra do Nunca é sobre a vida do criador de Peter Pan, uma personagem fantasiosa que nunca envelhece. Envelhecer preocupa-o, de alguma forma?
Adoro envelhecer, ficar com algumas rugas no rosto, ver os meus filhos crescer... Penso que temos de aceitar o envelhecimento porque não temos mesmo outro remédio. E se isso nos perturba, podemos sempre recorrer à cirurgia estética, não é? (Sorri) Não, é claro que a ideia de ficar criança para sempre é maravilhosa – e possível, na minha opinião. Conheci muitas pessoas idosas que eram autênticas crianças, tinham a energia das crianças, a sua curiosidade, o seu fascínio...

O seu trabalho apresenta, de vez em quando, um certo maravilhamento ou fascinação pueril – filmes como Don Juan DeMarco ou A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça e, é claro, o capitão Jack de Piratas das Caraíbas...
Sim, são qualidades que gosto de explorar no meu trabalho e agrada-me pensar que ainda mantenho um pouco dessa perspectiva na minha maneira de viver. Acho que agora tenho mais facilidade em mostrar essas facetas de mim próprio do que antes. Adoro brincar e fazer coisas disparatadas com os meus filhos. Adoro estar no seu pequeno mundo.

Porque é que faz quase sempre papéis de excêntrico?
É sempre gratificante ver que as pessoas respondem ao trabalho que tentamos fazer, especialmente no meu caso, porque interpreto frequentemente personagens muito peculiares. Talvez não seja fácil para o público apreciar alguns dos papéis que fiz, pois procurei evitar representar personagens simpáticas, cómodas. Só fiz papéis principais uma ou duas vezes na minha carreira. Quase todos os ou-tros foram estudos de personagens. Sei o que é ser um outsider, ter uma visão da vida dife-rente da grande maioria das pessoas, e é por isso que gosto de interpretar personagens com qualquer coisa de bizarro.

Sempre se considerou excêntrico?
(Ri) Muito raramente tive uma visão tão positiva de mim próprio... Os meus 20 e os meus 30 anos foram dominados por sentimentos de medo e autodesprezo, até que finalmente compreendi que não fazia qualquer sentido continuar a envenenar-me e a sentir-me infeliz. Só lhe posso dizer que, quando se escapa a esse tipo de mentalidade, não se tem a mínima vontade de regressar. Não é que acorde de manhã a gritar “Meu Deus, como a vida é bela!”, mas sinto-me muito bem só por estar com a mi-nha companheira e os meus filhos.

É mesmo excêntrico na vida real?
Tenho algumas peculiaridades, como o meu interesse por insectos, cheiros esquisitos e coisas assim. E mais não digo! (Sorri)

 
 
Em Piratas das Caraíbas
Tem tido muitas confrontações com paparazzi ao longo dos anos. Continua a detestá-los?
Não mudei muito de opinião em relação a eles. Mesmo em França, continuam a seguir-me e a vigiar a nossa casa no campo. Não vejo porque é que um tipo há-de ganhar a vida a tirar fotografias minhas e da Vanessa a levar os nossos filhos ao parque infantil, mas ultimamente tento não me deixar enfurecer. Isso só lhes dá mais dinheiro a ganhar. Eles sabem-no, e alguns deles tentam provocar-nos, por isso deixei de fa-zer o jogo deles. Procuro ser um pai de família absolutamente vulgar e enfadonho, para que deixe de valer a pena tirar-me fotografias.

Tem-se referido bastante à forma como alguns dos momentos mais tristes da sua infância o afectaram e o tornaram mais sensível às pessoas que se sentem perdidas ou confundidas pela vida. Procura sempre pe-netrar na constituição psicológica das personagens que interpreta?
Procuro as fragilidades e as vulnerabilidades para compreender as razões dos comportamentos das pessoas. Durante o nosso crescimento, todos nós vivemos coisas que de algum modo deformaram a nossa personalidade e impediram que fôssemos tão abertos ou tão livres como poderíamos ser. Eu cresci num ambiente familiar muito diferente do comum, embora só me tenha apercebido de que levava uma vida estranha quando comecei a ir a casa de ou-tros miúdos e a ver como eles viviam. Sentia-me também muito hostilizado e isolado na escola; alguns colegas e um certo professor adoravam embirrar comigo. Isso fez-me colocar na defensiva, tornou-me revoltado, nalguns aspectos, e uma pessoa faz qualquer coisa para fugir a estas agressões diárias.

Como é que procurou fugir-lhes na adolescência?
A música era tudo para mim. Adorava tocar guitarra, fazer parte de uma banda e andar por aí com outros miúdos que também gostavam de música e tinham mais ou menos os mesmos sentimentos que eu em relação à escola e à vida. Embora tenha compreendido, a dada altura, que nunca seria um grande guitarrista, agradava-me a liberdade que tocar numa banda me proporcionava. A minha tinha qualidade suficiente para fazer a primeira parte do Iggy Pop; foi um período fantástico para nós. Foi a música que me tirou da bomba de gasolina onde trabalhava e, indirectamente, me levou a ser actor.

 
 
Em Era Uma Vez no México
Alguma vez utilizou a representação como um escape?
Acho que sim. Mesmo quando me sentia infeliz, normalmente adorava estar a rodar um filme. Encantava-me a atmosfera de trabalhar em conjunto com o realizador e os outros actores na criação de alguma coisa. Fazer filmes sempre foi, para mim, uma espécie de refúgio porque me concentrava totalmente no trabalho e não pensava nos meus problemas ou no que eu considerava serem os meus problemas. Agora trata-se mais de uma libertação criativa. Dantes, quando terminava um filme, nunca me sentia como se tivesse algo de interessante a que regressar, em termos da minha vida pessoal. Agora anseio por estar com a minha família.

Tudo mudou quando conheceu Vanessa...
Basicamente, foi isso. Pode dizer-se que me apaixonei por ela no momento em que a vi pela primeira vez. Como pessoa, eu era um caso perdido nessa altura da minha vida. Ela inverteu completamente essa situação com a sua imensa ternura e compreensão. Compreendi muito rapidamente que não podia viver sem ela. Ela fez-me sentir como um ser humano e não algo que Hollywood fabricara. Isto pode soar antiquado e a falso, mas foi exactamente o que me aconteceu e o que ela tem significado para mim.

Foi o destino que vos uniu?
O que foi, não sei, mas ainda bem que Roman Polanski me escolheu para aquele filme (A Nona Porta). Estava num restaurante em Paris quando vi Vanessa.

Alguma vez pensou porque é que conheceu a mulher certa nessa altura e não antes?
Temos de estar dispostos a encontrar alguém, a sair do um quadro mental que nos bloqueia. Não há dúvida de que eu estava pronto para abrir o meu coração a alguém quando conheci Vanessa, mas foi muito mais do que isso. Toda ela respirava uma tal autoconfiança e naturalidade que o simples facto de estar ao pé dela me fazia sentir maravilhosamente bem. Isto não é uma coisa que se possa expli-car, mas sente-se.

 
 
Durante a adolescência o actor viveu para a música, chegando a fazer parte de uma banda
O que pensa da sua vida antes de Vanessa?
Pergunto-me que diabo andava a fazer. Só lhe posso dizer que não gostava de quem era nem do que estava a fazer com a minha vida. Gostava de representar e de fazer filmes, mas, ao mesmo tempo, detestava a celebridade inerente, apesar de saber que faz parte das regras do jogo, que é preciso sermos conhecidos para que as pessoas venham ver os filmes que fazemos.

Porém, não conseguia levar-me a pensar que podia desfrutar simplesmente da atenção e lidar com ela a esse nível em vez de me sentir perseguido e paranóico. Agora encaro isso com muito mais serenidade. Agrada-me que os meus filhos pensem que eu sou um pirata e possam dizer aos outros miúdos que o pai é um pirata fixe.

Pensa em casar?
Às vezes, mas a verdade é que eu e Vanessa nos consideramos marido e mulher desde o dia em que fomos viver juntos. Não é uma questão importante para nós porque sabemos o que sentimos um pelo outro e que é essa ligação que nos vai manter juntos muito tempo. O casamento seria uma mera formalidade.

Atingiu a sintonia perfeita entre o sucesso na vida pessoal e profissional?
Ter uma família tornou-me uma pessoa muito mais feliz e saudável e, consequentemente, um actor melhor. Não teria gostado de participar num filme como Piratas das Caraíbas, por exemplo, se não tivesse eu próprio uma família e não pudesse ver como um capitão Jack diverte as crianças. Estar com os meus próprios filhos fez desaparecer muita da confusão e da insegurança que me arrastaram para baixo durante quase toda a minha vida. Nunca soube o que era a felicidade até encontrar Vanessa e termos o nosso primeiro filho. O meu mundo já não tem nada de sombrio. Vejo o nosso filho e a nossa filha a brincar pela casa ou a aprender coisas novas e pergunto-me se poderá haver algo mais belo. Não me preocupo com coisas da minha vida que dantes me perturbavam e gosto mais de representar do que nunca. Agora, tudo se encaixa.













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