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"Dê-lhe
vida", gritou a médica. Tomás, o homem da esperança, cortou
o cordão umbilical de Inês, saboreou a magia do seu primeiro
olhar e percebeu que, afinal, a filha reconhecia-lhe a voz.
"Nunca fui tão feliz", confessou-nos.
A
mãe de Inês, cansada mas amorosamente disponí-vel, no instante
daquele primeiro encontro lembrou--se de Maria, a sua primeira
filha, nascida de um profundo desencontro com a vida. Como tinham
sido diferentes aqueles dois momentos. Inês nasceu do gesto
do pai. Maria brotou da solidão profunda da mãe, que se separara
do marido antes do nascimento da filha. Ambas as crianças desejadas,
amadas, queridas e anunciadas. É no gesto de Tomás que radica
a diferença sentida pela mãe de Inês e de Maria em cada uma
das maternidades. A Psicologia e a Sociologia conceptualizam
este gesto como um momento decisivo da vida das crianças e das
mães.
Nesta estória estão condensados todos os reais e verdadeiros
problemas das famílias modernas. A sociedade portuguesa não
foge à discussão sobre as grandes questões da família: o aumento
dos divórcios, a falta de equipamentos sociais e as consequências
da inserção da mulher no mundo do trabalho, entre outros.
O que se passa em Portugal, e que difere da prática social típica
do resto do mundo civilizado, é que constituir família, para
além de heróico, torna-se em muitos casos trágico. Heróico porque,
como se sabe, o nosso edifício jurídico não prevê normas, nem
políticas, nem filosofias que defendam a família como a mais
importante forma de organização social. E trágico, porque crescem
cada vez mais os testemunhos de mulheres que são despedidas
por terem optado pela maternidade, ou histórias de mulheres
a quem a vida moderna quase proíbe de gozar a sua legítima licença
de parto, sob pena de serem penalizadas na progressão da sua
carreira profissional.
Eis um testemunho. Cruel, mas real. Margarida Pinto, uma arquitecta
de 28 anos, esteve em Timor como cooperante, a erguer uma obra
de engenharia pública. De regresso a Portugal, encontrou emprego
numa empresa de construção civil que nunca emitiu o menor sinal
de rescisão do seu contrato a termo certo. Porém, dois meses
depois de Margarida ter comunicado à entidade empregadora que
estava grávida, o senhor engenheiro deixou de precisar dos serviços
da arquitecta. Que estranho...
Através
de dois estudos recentemente publicados, ficámos ainda a
saber que as mulheres portuguesas são aquelas que dedicam menos
tempo aos seus filhos e a quem a actividade profissional, cada
vez mais intensa, não deixa tempo para o lazer.
Segundo o Eurostat, departamento de estatística europeu, "as
mulheres portuguesas dispõem de 35 horas semanais para cuidar
das crianças", ou seja, 10 horas menos do que a média comunitária,
que é de 45 horas. Mas, mesmo assim, muito mais do que os homens
portugueses, que reservam apenas 20 horas por semana para as
crianças.
Por outro lado, Elsa Fontaínha, investigadora do Instituto Superior
de Economia e Gestão, assegura-nos que a actividade profissional
e as tarefas domésticas fazem com que as portuguesas "tenham
pouca disponibilidade para o ócio e, mesmo assim, uma fraca
produtividade". O que está em causa, explica-nos esta investigadora,
são os sinais preocupantes que caracterizam a sociedade portuguesa,
expressos no crescimento da taxa de divórcio, no aumento das
famílias monoparentais e no envelhecimento da população.
Mais de 14 por cento da população empregada trabalha 45 horas
semanais, enquanto a maioria, 54 por cento, gasta entre 36 a
40 horas na actividade profissional. O problema que se coloca
relativamente a esta realidade, explica Elsa Fontaínha no seu
estudo, é que a esta carga horária temos de acrescentar o período
de tempo consu- mido entre as actividades domésticas e a prestação
de cuidados à família, sendo as mulheres naturalmente as primeiras
vítimas desta situação, já que é sobre elas que recai a carga
horária mais penalizadora.
No inquérito realizado pelo Instituto Nacional de Estatística
(INE) à Ocupação do Tempo em 1999 - o primeiro instrumento estatístico
oficial a permitir uma abordagem analítica na perspectiva dos
usos do tem-po - verificamos que os homens investem preferencial-
mente na actividade profissional, enquanto as mulheres têm de
se desdobrar entre a profissão e o trabalho não remunerado.
Apesar
de todas as vicissitudes, o espírito de família, aquele
laço que nenhuma disciplina científica consegue descrever com
um critério universal, mantém-se incólume aos seus inúmeros
agentes agressores.
Anália Torres, socióloga, professora universitária e presidente
da Sociedade de Sociologia Portuguesa, ficou perplexa quando
lhe perguntámos se o espírito de família ainda existia nas sociedades
modernas. "Quando fala em espírito de família, a que realidade
social se refere?", perguntou-nos a investigadora. Dei-lhe um
exemplo. Mesmo que não vivamos próximos da família - e a proximidade
aqui pode ser física ou emocional - sabemos que, na noite de
24 de Dezembro, nos vamos encontrar à mesa com os nossos familiares
para celebrarmos o Natal. No sentir da maior parte das famílias
portuguesas, está implícito este encontro. O que nos leva então,
nesse dia, a procurar os nossos familiares? O espírito de família.
Segundo Anália Torres, o espírito de família sempre existiu
e continuará a existir. E acrescenta: "Tal como a família, o
seu espírito também muda." Será que mudou mesmo?
Nouvel Esprit de Famille (Edições Odile Jacob), uma obra notá-vel
da francesa Martine Segalen, uma das maiores estudiosas da sociedade
contemporânea, avisa-nos que é precisamente na cumplicidade
entre gerações, nas manifestações de entreajuda, no papel que
os avós desempenham junto dos netos, que se mostra o espírito
de família.
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