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INTIMIDADE

Depois de um divórcio ou até de uma viuvez, recomeçar um relacionamento sexual é uma experiência muitas vezes melindrosa e cheia de contradições. Entre o desejo e os receios, as experiências de quem se sente voltar ao princípio.

Por Beatriz Borges


“Não seria a primeira vez, mas era assim que me sentia. O meu divórcio foi um processo penoso, que mexeu profundamente comigo e com a minha forma de encarar os homens. Mas isso, só vim a compreender mais tarde, quando me deparei com a possibilidade de um novo relacionamento”, conta Sílvia (não quer revelar o apelido). Com 32 anos, grávida, descobriu que o marido tinha uma amante. Ainda antes de o filho nascer já estava divorciada. “Senti muita raiva. Não foi apenas a traição física e afectiva, foi a destruição do sonho de sermos pais juntos, de sermos uma família. De tê-lo comigo, inteiro, no dia em que víssemos o nosso filho pela primeira vez. Senti-me acima de tudo roubada.” Quando Sílvia perguntou ao marido “Porquê?”, este respondeu-lhe sem rodeios que ela o não satisfazia sexualmente. Durante os três anos seguintes, Sílvia viveu para o filho. Os homens tinham sido excluídos do seu projecto de vida. “Havia uma insegurança latente. O medo de ser rejeitada, de ser julgada novamente como um fracasso sexual. Mas nada disto era evidente para mim. Estava demasiado focada no meu filho, em dar-lhe, dar-nos estabilidade”, explica.

 
 
 
Mas um dia reparou que alguém reparara nela. De repente, o sexo masculino tinha ressurgido no seu universo. “Era um amigo recente. Tremi. Tremi sobretudo porque gostei da sensação de ser alvo do interesse de um homem… Mas até onde poderia deixar-me ir? E quando chegasse a hora H?” Sílvia resolveu abrir o jogo, revelar que a sua relação com o sexo era agora marcada por uma profunda insegurança, que a ideia de voltar a envolver-se estava ensombrada pela ideia de que poderia ser traída de novo, por ser “pouco”, por ser sinónimo de insatisfação.

“Sentia-me virgem de certa forma. Sentia-me inexperiente, convicta da falta de competência que ficou decalcada com o divórcio. E de certa forma era verdade. Para mim, o sexo era até aí um acessório, não era essencial. O prazer não era essencial”, reconhece Sílvia.

Ao contrário do que temeu, o seu novo pretendente não fugiu a sete pés. “Acho que os homens têm uma enorme preocupação com o desempenho. O que aconteceu foi que ele sentiu que poderia ‘iniciar-me’… que poderia ser uma outra versão do primeiro homem da minha vida. E foi.” Hoje, embora a relação não tenha durado, Sílvia encara o sexo não como uma prova de habilidade, na qual poderia chumbar, mas um domínio onde só verdadeiramente nua, de corpo e alma, é possível reinventar o prazer. “Ninguém poderá ser-nos fiel, se não formos fiéis a nós próprias”, remata.


Despertar o corpo
Nem a infidelidade nem o menosprezo pelo prazer faziam parte da vida de Paula (não revela o apelido). Casada durante mais de uma década, perdeu o marido num acidente de viação. Hoje, com 41 anos, lembra que sentiu o mundo rasgar-se sob os seus pés. “Namorámos desde o liceu. Casámos muito novos.” Paula conta que eram sexualmente apaixonadíssimos.

Quando não eram amantes, eram amigos e, como todos os amigos, tinham discussões. “Mas éramos íntimos. A intimidade é um processo, é uma construção que só se consegue com muita amizade. E isso reflectia-se também na nossa vida sexual”, afirma.

  Esclarecer intenções
Se está sozinha há algum tempo, sem qualquer tipo de relacionamento, mas está prestes a aventurar-se:

Seja honesta consigo própria

- Defina se procura um relacionamento sexual ou um envolvimento mais sério e mantenha-se fiel aos seus objectivos

- Seja clara com ele, não espere que ele adivinhe o que pensa, sente ou deseja

- Ajuste as expectativas à realidade – quem espera a perfeição, normalmente decepciona-se

- Cuide de si, do seu corpo, do seu coração – a única relação que tem como certa para toda a vida é consigo própria. Antes de mais é consigo que tem de se entender… Recomece de bem consigo e de bem com a vida
   
Nos quatro anos seguintes ao acidente, Paula convenceu-se que ninguém poderia substituir o marido. “Quando perdemos alguém assim, sentimos saudades do passado e do futuro de que fomos privados.” Por outro lado, lembra Paula, sempre que alguém se aproximava, dava por si a falar do Luís interminavelmente. “Ninguém consegue competir com uma memória. Isto afasta qualquer homem”, afirma. Apesar da indisponibilidade para “deixar partir o Luís”, o corpo acusava a carência, mas, como diz, “parece que caímos numa letargia e só acordamos quando alguém nos desperta”. E foi o que aconteceu. Certo dia, um dos colegas de trabalho, ao aproximar-se de Paula, tocou-lhe nas costas. “De repente, senti que tinha corpo, que estava viva.”

Seguiram-se todas as peripécias de quem atabalhoadamente procura recomeçar. “A minha primeira relação foi um desastre: esperei que o pobre adivinhasse as minhas necessidades, as minhas expectativas. Que fosse arrebatador e ao mesmo tempo ultradelicado, atento à minha história.”

Entretanto, à custa de tanta decepção, Paula decidiu ser objectiva. “Quando se recomeça é preciso sermos bastante honestas connosco próprias: ou procuramos uma relação sexual ou procuramos um relacionamento afectivo. Sei que ambos são possíveis em simultâneo, mas há que começar por algum lado. Eu escolhi recomeçar pelo prazer. Se o meu amante se tornar o meu melhor amigo… então lucky me!”













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