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FAMÍLIA







Enterrados na memória familiar, alguns traumas podem mudar o curso da nossa história. Uma herança, ainda tabu, que o psiquiatra Robert Neuburger, autor de um livro esclarecedor *, nos ajuda a combater.
Por Danièle Laufer
 
O que é a culpa familiar?
Não se trata de uma culpa no verdadeiro sentido, mas de um sentimento invasivo e totalmente irracional. Não cometemos nenhuma falta e, no entanto, sentimo-nos culpados. Se procurarmos bem, talvez descubramos que esse sentimento remonta a um qualquer acontecimento que desencadeou um trauma na nossa família. Poderá ser um divórcio mal resolvido, a revelação de um segredo como, por exemplo, um incesto, uma falência, uma violação, uma deportação. Seja o que for, esse acontecimento atingiu em pleno os nossos pais, os nossos avós, os nossos antepassados e faz balançar as suas certezas, os seus valores, a sua identidade. Eles não tiveram qualquer responsabilidade nesse acontecimento (como é que se pode ser responsável por um incesto ou por uma deportação?), mas sentem-se culpados por serem vítimas desse facto. Assim sendo, este tipo de acontecimento não provoca sistemática nem automaticamente um trauma: tudo depende da estrutura da família e dos valores em torno dos quais ela se encontra organizada e que sustenta, aquilo a que chamamos o “mito familiar”.

Mas como é que um trauma individual se pode transformar num trauma familiar?
Quando uma criança é vítima de um acidente, a família pode juntar-se à sua volta e ficar mais reforçada, mas pode também desmoronar-se. Sentir--se culpada por não ter sabido ou podido protegê-la. Podemos observar isso nos descendentes dos deportados: sentem-se culpados por ter sobrevivido. Qualquer acontecimento grave pode literalmente destruir uma família quando altera e perturba os valores nos quais ela assenta. Recebi no meu consultório uns pais que tinham acabado de descobrir que o filho adolescente se drogava há já algum tempo. Estavam arrasados e incapazes de o ajudar, porque, aos olhos deles, o que mais contava era a confiança. Nunca teriam podido imaginar que o filho pudesse ter problemas e não falasse com eles. Estavam completamente desarmados, como se a família tivesse desabado. Não foi a toxicodependência do filho que provocou o trauma familiar, mas sim o silêncio deste.


Robert Neuburger, psiquiatra,  desmistifica os  sentimentos de culpa familiar e dá conselhos para os vencer.

 
Regras a observar
com os filhos

Nada mais fácil que culpabilizá-los. Todos nós o fazemos, mesmo sem nos darmos conta. Aqui ficam alguns conselhos para evitar que isso aconteça:

Não lhes faça as reprimendas que ouviu durante toda a sua infância (“Acaba o que tens no prato porque há muitos meninos que não têm nada para comer”)
Não enfatize as semelhanças negativas com alguém da sua família (“Fazes-me lembrar o teu avô. Na família, todos diziam que ele era um falhado”)
Evite dizer-lhe que ele é mais mimado do que você alguma vez foi (“Na tua idade eu não tinha mesada”)
Encoraje-o e felicite-o quando sentir orgulho nele
Não lhe esteja sempre a pedir que “se ponha no lugar” daqueles que o chateiam ou que lhe fazem mal
Se ele for tratado com dureza ou mesmo maltratado injustamente, diga-lhe que ele tem o direito de se defender
 
O sentimento de culpa familiar surge quando os valores de uma família desaparecem?
Nem sempre. Há famílias que conseguem recuperar a confiança em si mesmas e reconstroem outros valores. Outras ultrapassam o trauma porque este é reconhecido socialmente e elas são apoiadas e não estigmatizadas. Quando isso não acontece, a família vê-se perante um abismo e pode ruir, mas pode também recuperar-se vivendo essa derrocada como se fosse responsabilidade sua. A família de que acabei de falar sabe que, a partir de agora, o mito familiar se afastou do seu rumo. Já não podem dizer: “Em nossa casa contamos tudo uns aos outros.” Acabam de ter a prova de que o filho não confiou neles o suficiente para lhes contar o que se passava, ao passo que eles punham a confiança acima de tudo. Só lhes resta um grande vazio. Sentem-se culpados por não terem visto nem sentido que o filho estava em perigo. Este sentimento de culpa pode preencher esse vazio, agir como uma espécie de prótese e transmitir-se de geração em geração. Acabará por fazer parte do tecido familiar. O perigo é que esse sentimento agrega de tal forma os membros da família que eles já não conseguem ser autónomos. Mantêm-se apegados uns aos outros. Se se afastam, já nada os mantém unidos. Isso pode provocar grandes angústias de separação. Claro que tudo isto se passa ao nível do inconsciente.

Sendo uma coisa inconsciente, como é que uma pessoa pode saber se se integra num quadro de culpa familiar?
Quando a alguém custa viver, ser feliz ou simplesmente sentir-se satisfeito, pode procurar-se por esse lado. Muitas vezes são pessoas que facilmente constituem uma família, mas que têm muita dificuldade em compreender o que é o amor. Todo o sentimento “egoísta” é culpabilizador. A pessoa não se dá o direito de viver para si própria ou, se o faz, isso desencadeia muitas vezes sentimentos de culpa extremamente importantes que podem dar origem a depressões.

Quando se herdou esse sentimento de culpa familiar não se terá uma maior tendência a culpabilizar o companheiro ou os filhos?
Não se trata de culpabilizar os filhos, mas de lhes transmitir esse sentimento de culpa. Tudo se passa como se cada geração fosse culpada dos sofrimentos do passado. A maior parte das pessoas tem filhos para assegurar o seu próprio futuro. Naquelas famílias, os filhos têm uma função reparadora. Deverão ser sempre bem sucedidos para apagar o trauma do passado. São precisas, pelo menos, três gerações para cicatrizar os traumas familiares. A primeira geração viveu o acontecimento traumatizante. A segunda é a geração do silêncio: está paralisada numa espécie de terror sagrado que a impede não apenas de fazer perguntas como também de se auto-interrogar. A culpa começa a desvanecer-se na terceira geração, mas por vezes um filho pode apresentar comportamentos patológicos que a reavivam.

Refere que o sentimento de culpa é precioso porque exerce a função de cimentar. Isso significa que não é necessário livrarmo-nos dele?
Claro que é preciso livrarmo-nos dele! É precioso e útil, mas como bengala, uma canga que mantém as pessoas unidas. Assegura a sobrevivência do grupo, mas não a vida. É um pouco como se só houvesse cola para transmitir. Não há alegria de viver nem direito à felicidade individual, só uma espécie de solidariedade imposta. Isso não substitui o que é o núcleo da família, ou seja, qualquer coisa que está virada para o futuro. A culpa está no retrovisor. Nessas famílias verificam-se, aliás, com frequência, comportamentos de desconfiança em relação ao mundo exterior.

Como livrarmo-nos desse sentimento?
A psicanálise só pode ajudar quando se conseguiu já descodificar o funcionamento familiar. Fazer uma análise é um acto de egoísmo. É feito em proveito próprio. Ora, quando se herdou uma culpa familiar, não nos damos o direito de fazer coisas em proveito próprio. Além disso, nem sem- pre temos as informações e os elementos necessários para compreender. Muitas vezes o parceiro sabe muito mais sobre o assunto do que o interessado. Por vezes sabem-se coisas num funeral, em torno de um túmulo. É frequente que um encontro com um companheiro ou com a família dele permita perceber que não somos obrigados a viver sempre com esse rótulo de culpa e que o podemos retirar sem que o céu nos caia em cima. Podemos voltar a pôr tudo nos devidos lugares quando percebemos que não é só o passado que é importante. Existe também o futuro e o direito de existir. Isso não corresponde a um esquecimento do trauma, mas sim a uma cicatrização. A terapia familiar prova que todas as famílias são capazes de o fazer. Quando os vejo renascer, acho uma coisa muito bonita.

*Les Familles qui ont la tête à l’énvers. Revivre après un traumatisme familial (As famílias que têm a cabeça virada do avesso. Renascer após um trauma familiar), Edições Odile Jacob.













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