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FAMÍLIA







Se antes a dúvida era como conciliar profissão e filhos, agora o problema é outro. Se ser uma mãe presente é fundamental para os miúdos, esse empenho familiar, nestes tempos de competição, não poderá custar-lhe o canto do escritório e até a carreira?

POR CRISTINA AZEDO

As mudanças começaram em Março do ano passado, quando Ana Almeida voltou ao trabalho. Até então, e durante seis anos, fora tratada como todos os colegas de equipa. Era, como se costuma dizer, one of the guys. Sempre disponível para serões no escritório e jeitinhos em dias de jogos de futebol importantes. Se a responsabilidade era muita, também o era o reconhecimento dos pares e, mais importante, da empresa. Só que, aos 34 anos, nasceu-lhe o Vicente. E tudo se alterou. De repente, a comercial deu por si a ficar com os restos desprezados pelos colegas, quando todas as previsões, baseadas em resultados anteriores, diziam que ela passaria a chefiá-los.

“Assim que regressei, trocaram-me as voltas. Deram-me uma zona distante para cobrir, daquelas que ninguém quer porque não dá resultados, como se fosse só para me entreter”, conta, para acrescentar: “Quando lhes tentei dizer que, apesar de ter um filho, ia continuar a fazer o trabalho com a mesma entrega, embora com horários e sem jeitinhos, as coisas azedaram.” Resultado? “Além de não me terem devolvido os antigos clientes, este ano não tive aumento no ordenado, ao contrário dos meus colegas. Parece que eles são mais empe-nhados do que eu. Não pedem horas de amamentação, não faltam para ir com os filhos ao médico, não saem mais cedo para festas na escola… e são homens.”

Daí que à pergunta “Ser boa mãe está a arruinar a sua carreira?”, Ana Almeida responda sem diplomacias: “Não se trata de ser boa ou média, mas simplesmente de ser mãe. Digamos que ter filhos pequenos e progredir na profissão, digam o que disserem, não são coisas facilmente conciliáveis.” Para a comercial, a explicação é simples: “As mulheres ainda não criaram um esquema de trabalho que lhes permita ter o melhor dos dois mundos. Chegam a uma empresa e adaptam-se ao modus operandi dos homens. Se eles já se habituaram a ter mães trabalhadoras nas equipas, ainda não se consciencializaram que nós, além de mães dos filhos deles, também temos o direito ao sucesso profissional. À nossa maneira.”

Sim, o discurso já todos o conhecemos: nunca, como hoje, as mulheres tiveram a oportunidade de chegar tão longe na carreira; nunca, como hoje, elas puderam escolher o seu caminho profissional sem constrangimentos. Mas, como pergunta Ana Almeida, será mesmo assim? Avancem-se alguns dados para perceber porque é que a maioria das mães vive na angústia da escolha e acaba com trabalhos em vez de carreiras de sucesso.

A socióloga Maria das Dores Guerreiro começa pela contextualização. “O nosso país é, no conjunto da União Europeia, aquele que tem mais mães trabalhadoras a tempo inteiro. E também aquele onde estas trabalham mais horas por dia”, diz a investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE, para adiantar que não se trata somente de uma questão económica, mas também de identidade: “Já não temos a mu-lher do senhor fulano de tal, mas sim a enfermeira Paula ou a professora Maria. E esta identidade profissional é importante para determinar uma posição na sociedade.”

Mas o facto de serem muitas não significa que ocupem lugares de chefia ou apostem na tal carreira. “Temos uma das Constituições mais avançadas da Europa, mas na prática vivemos numa certa ambivalência. Por um lado, possuímos um normativo paritário, mas o quotidiano ainda se rege pelos valores tradicionais. Ou seja, demos um salto muito rápido em pouco tempo – a Lei mudou, mas a estrutura social ainda não conseguiu lá chegar”, comenta a docente, dizendo que, por isso, ainda se insiste em perguntar às mulheres, e raramente aos homens, se o trabalho é conciliável com a família. “Continuamos a admitir que seja a mulher a ter uma responsabilidade profissional menor, já que a vida profissional do homem é encarada como mais importante”, opina, sublinhando que isso leva a que elas vivam numa pressão e correria constante, tentando estar, e bem, em todas as esferas da vida.
Acabe com a culpa!
Se vive angustiada com a velha ideia de que o lugar da mãe é em casa, a antropóloga Sarah Hrdy escreveu um livro para abalar esta teoria.
Em Mother Nature: A History of Mothers, Infants, and Natural Selection, a investigadora defende que ser ambiciosa no trabalho é tão natural para a mulher como amamentar
A argumentação da norte-americana é simples: além de não haver nada de novo no facto de existirem mães trabalhadoras, é normal que estas queiram chegar o mais longe possível para melhor garantirem o sustento da descendência
“Vivemos com a ideia de que ambição e maternidade são incompatíveis, como se ambas estivessem em pontas opostas do espectro. Acho que nos estamos a esquecer que, entre os nossos antepassados, ser ambicioso e querer subir na vida estava ligado à capacidade de garantir a sobrevivência da prole”, afirma Sarah Hrdy

Correr com a sensação de que nunca se está tempo suficiente em lugar nenhum é normal para Madalena Borges. Mãe de duas filhas, a gestora de clientes numa agência de comunicação vive em constante malabarismo de papéis. “Quem trabalha em funções de alguma responsabilidade sabe que nunca há tempo para estar com os filhos fora das rotinas dos banhos, jantares e idas para a cama. É uma correria no emprego e depois para chegar a casa a horas decentes. E o pior é que, para sair a essas horas, é preciso levar trabalho para casa”, conta, para confessar, irónica, que nunca se sentiu lesada no emprego por dedicar tempo à família, mas que a família já se sentiu prejudicada por ela dedicar tanto tempo ao trabalho.

“Ser uma mãe presente, nestes dias de stress e competição, é mesmo difícil. Primeiro, é preciso tempo a sério, não essa treta do tempo de qualidade. Segundo, e não menos importante, é preciso ter energia e disponibilidade mental”, afirma Madalena, para revelar que a sua entrega à carreira valeu-lhe uma chamada de atenção lá em casa. “Houve uma altura em que precisei mesmo de ajuda profissional para restabelecer as prioridades”, conta, recordando: “O problema é que estava a viver de uma forma, enquanto o meu coração sentia de outra. Andava em conflito e angustiada. Depois de ficar claro na mi-nha cabeça que a família era uma prioridade, foi só uma questão de estabelecer limites e até passei a ser mais produtiva no emprego.”

Não é que, aos 33 anos, se arrependa de ter filhos ou de ter optado por investir numa profissão de que realmente gosta. É por tentar conjugar ambos os mundos – o de ser boa mãe e o de ter sucesso profissional – que a gestora de clientes se assume como realista. “Hoje te-nho uma visão machista desta questão. Até acho que as mulheres têm cada vez mais oportunidades de carreira, mas não acredito que, por exemplo, uma administradora consiga conciliar verdadeiramente a vida familiar com a profissional. As responsabilidades profissionais são de tal maneira absorventes que não vejo como alguém assim possa ter disponibilidade para estar com os filhos”, argumenta, para questionar: “Será que vale a pena subir, subir e subir para se ter uma vida familiar medíocre?”

A angústia gerada pela tentativa de conciliar os filhos com uma carreira de destaque não é, porém, um exclusivo português. Nem das mulheres. Parece que também os homens começaram a cair na sua própria armadilha. “Hoje, grande parte das organizações, em todo o mundo, ignora a vida dos colaboradores. Há a postura de as pessoas terem de dar tudo à empresa, como se não tivessem direito a ter vida privada, família e filhos”, opina Maria das Dores Guerreiro, avisando: “Isto tem custos e não são baixos.”

Daí que a socióloga não se admire com os dados britânicos que dizem que, se cerca de 30 por cento das mulheres licenciadas nascidas na década de 60 chegaram aos 40 anos sem filhos, essa percentagem subirá para os 40 por cento para aquelas que nasceram no início da década de 70. “Os estudos internacionais vão todos no mesmo sentido: cada vez se tem filhos mais tarde ou não se tem de todo. Os valores estão em transformação e a ideia tradicional de família em declínio”, informa, dizendo que o êxito profissional está a substituir a descendência como a máxima de concretização pessoal.

Paulo Pereira é gestor, mas a sua reflexão vai ao encontro das palavras da investigadora do ISCTE. “O dia-a-dia parece estar cada vez mais fácil, mas a verdade é que temos cada vez menos tempo para nós próprios e para a família. O trabalho absorve-nos. Não só tempo como energia. É uma sociedade de paradoxo e que nos arrasta nesta fúria produtiva, se não tivermos cuidado”, comenta, confessando que também para ele não é fácil conjugar três filhos e um cargo de responsabilidade no sector informático. Por isso, à pergunta “Ser bom pai está a arruinar a sua carreira?”, responde sem papas na língua: “Sei que se dedicasse mais tempo à empresa já poderia ter progredido mais. Contudo, optei por nesta fase dedicar esse tempo aos meus filhos, o que não quer dizer que descure as minhas tarefas. Faço, sim, uma ginástica diária.”

Aos 43 anos, é Paulo quem leva as filhas mais velhas ao colégio, deixando o filho mais novo com a mulher, que entra mais tarde: “Também sou eu quem as vai buscar. Tento sair às seis, mesmo que traga trabalho para acabar à noite. Quando chego a casa, meto-os todos na banheira, dou-lhes o jantar e é normalmente a essa hora que chega a mãe. Gosto de os ter despachados por volta das oito, para ainda termos tempo para a brincadeira, antes de os mandar para a cama.” Uma rotina com birras, risos e episódios do Noddy, que, por enquanto, não troca por qualquer outra. “O que vale ter mais 40 ou 50 contos no salário se não vou ter tempo para os meus filhos? Se não vou vê-los crescer?”

Uma posição de força que afirma ainda não ter provocado olhares de lado dos colegas, embora reconheça que, na sociedade portuguesa, o peso da família ainda seja associado às mulheres. “Estamos em pleno processo de mudança. Não digo que isto é um viver cheio de facilidades, mas sinto-me pacificado com as minhas prioridades.”

A velha questão das prioridades parece ser fundamental. Afinal, ser uma mãe ou pai presente, e bem presente na vida dos filhos pequenos, ainda não é completamente compatível com uma carreira repleta de responsabilidades, reuniões e inexistência de horários. “Creio que, apesar da correria profissional, temos mesmo de ter tempo para os filhos. E cada um tem de resolver a sua vida por si. Não há cá decretos que funcionem, embora os devamos tornar efectivos”, aconselha Paulo Pereira, para Madalena Borges concluir: “O ambiente das empresas e da sociedade não ajuda, mas acredito que o processo de mudança começa por nós.”













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