|


 |
|
 |
|
Só Meryl Streep para desviar para si, no filme The Devil Wears Prada (O Diabo Veste Prada), as atenções que supostamente recairiam na protagonista, Anne Hathaway, mais nova e mais sexy. Baseado no best--seller de Lauren Weisberger com o mesmo nome, um romance em que a autora fala mal de alguém com quem já se relacionou e que conta factos reais como se fossem ficção. Lauren Weisberger trabalhou como assistente de Anna Wintour, a lendária big boss da Vogue, e Devil é um olhar relativamente simpático, mas ocasionalmente mordaz, sobre o mundo da alta moda tal como é visto da prisão em que consiste uma revista que dita as tendências desta indústria multimilionária. Meryl desempenha o papel de Miranda Priestly, a despótica redactora-chefe de uma revista de moda tipo Vogue, que dá à sua assistente (Anne Hathaway, de Brokeback Mountain) uma dura lição sobre o que custa sobreviver naquele ambiente tão intensamente competitivo. Embora Anne Hathaway (The Princess Diaries) seja de facto a estrela do filme, é Meryl Streep que acaba por atrair a nossa atenção emprestando uma mística gelada à forma como dirige a sua publicação de moda. Os críticos começaram já a avançar com o nome de Meryl Streep para uma nomeação nos Óscares pelo seu desempenho e muitas cronistas (nomeadamente Maureen Dowd, do New York Times) referiram que o desempenho de Meryl é uma interessante perspectiva da realidade que as mulheres enfrentam quando ocupam cargos de chefia.
Meryl Streep vive no Connecticut com o marido, Donald Gummer, um conhecido escultor americano, com quem é casada há 27 anos, e a filha, Louisa, de 15 anos. Os outros filhos do casal – Henry, de 26 anos, místico rock, Mary, de 22, uma actriz prometedora, e Grace, de 19 anos – já não moram com eles.
Os seus desempenhos em tantos filmes são tão convincentes que toda a gente presume que encarna o espírito de outros seres humanos!
[Ri] Sim, embora eu não saiba muito bem porque é que isso acontece. Quando fiz o papel de senadora em O Candidato da Verdade, toda a gente disse que eu estava a fazer de Hillary Clinton. Não estava. E aqui, no Prada, também não estou a encarnar ninguém em particular. A verdade é que eu não sigo a moda e, portanto, não tinha uma verdadeira sensibilidade para perceber como seriam aquelas personagens. Se quer saber, se calhar, inventei um bocado. Pensei em todos os executivos das produtoras cinematográficas mais obstinados que conheço, homens, na sua maior parte, e retirei daí alguns traços. Há que tentar aí encontrar a humanidade. Qual é o lado que está escondido? Foi também esse o desafio de representar Miranda no Prada: não a fazer a preto e branco. Ir como que descascando as várias camadas e ver o que está por baixo.
| O livro onde se descrevem os bastidores de uma importante revista de moda é o primeiro romance de Lauren Weisberger e já um enorme sucesso de vendas. |
Em alguns aspectos, Miranda é uma figura triste, que tem de manter uma fachada férrea, muito embora por vezes suspeitemos que ela gostaria de ser mais generosa na forma como trata as outras pessoas.
Sim, é uma personagem triste mas, também está bastante conformada com o seu destino nesta vida. Julgo que existe um nível no percurso profissional que exige uma certa impiedade e dureza que nem toda a gente quer ou consegue ter. As pessoas têm de tomar as suas próprias decisões em relação às suas vidas, ao que pretendem e ao que realmente as deixa felizes e realizadas. Do ponto de vista de Miranda, ela quer ser extremamente boa a todos os níveis, e isso é muito difícil. Mas a escolha foi dela.
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
Que personagem!
Meryl Streep nega ter-se baseado em Anna Wintour, directora da Vogue EUA, para construir a sua personagem. “Eu estava interessada em construir um ser humano, tão contraditório e confuso como todos nós”, diz Meryl. “Acho que a personagem de Miranda é uma pessoa rigorosa, extremamente disciplinada, exigente e ambiciosa, que não tira tempo para os estimulantes sociais que ajudam a fazer do local de trabalho um espaço agradável. Sei que o livro assenta na visão muito específica de uma assistente de Anna Wintour, mas não me interessava fazer um documentário sobre Anna Wintour. Nada sei a respeito dela. Só a vi no primeiro visionamento e... ela achou piada. Tem muito mais graça construir a big boss a partir do meu próprio universo de experiências. Comparada com as pessoas que conheço que ocupam altos cargos na indústria cinematográfica, Miranda até se porta muito bem. Pode até dizer-se que é quase uma diplomata.” |
 |
| Anne Hathaway é Andrea, uma jovem que se muda para Nova Iorque para tentar uma carreira de jornalista. E consegue um cargo de sonho: ser assistente pessoal da poderosa Miranda. Mas o preço a pagar para estar ao serviço do “diabo” é demasiado elevado. |
Alguma vez teve de tomar esse tipo de decisões?
Não, o mundo do espectáculo tem sido realmente muito bom para mim porque me dá a possibilidade de trabalhar e de me afastar do trabalho durante algum tempo para cuidar de mim e da minha família. Mas na verdade eu percebo Miranda. Há coisas nela que eu admiro e compreendo a situação difícil em que ela se encontra como mulher que ocupa um cargo de chefia e que é líder na indústria em que trabalha.
A actriz que contracena consigo, Anne Hathaway, disse que a Meryl, no local das filmagens, mantinha uma certa distância entre os takes.
Sim, isso é verdade. Toda a gente diz ‘Oh, não foi tão divertido?’ fazer o papel de Miranda, deleitar-se com a sua malvadez. Mas não, não era divertido ser essa pessoa. Eu não continuava na pele da personagem quando eles gritavam ‘Corta!’, mas sentia que não ajudaria a dinâmica das filmagens se eu fosse logo gracejar com a Emily [Blunt, no papel de uma outra assistente], com a Anne e com o Stanley [Tucci, que faz o papel de estilista de moda gay da revista]. Na minha perspectiva, representar o papel de Miranda era uma espécie de maneira solitária de estar que me impus, mas creio que no final deu bons resultados.
Gostou da vertente relacionada com a moda que o filme tem e de usar uma série de indumentárias altamente sofisticadas?
Sim, embora eu não seja uma pessoa com quem seja fácil trabalhar quando se trata das roupas que quero que a minha personagem use, porque acho que as roupas são um aspecto muito importante na forma como uma personagem chega ao público. Para mim, são uma espécie de temperamento; é mais interessante serem-no nesses termos. Sabíamos que queríamos dar a Miranda um tipo de aparência muito definida. Uma mulher de um enorme poder na indústria da moda que não se parecesse com toda a gente de Nova Iorque e que nos eventos de moda fosse fácil localizá-la e olhar para ela – e assim todos olhariam para ver o que pensa Miranda.
 |
Trinta anos de sucesso
Meryl Streep regressa à tela desde O Candidato da Verdade (2003) e do filme anterior, As Horas (2002). Aos 57 anos, a sua imagem quase não mudou desde o seu sucesso no Cinema com o primeiro trabalho em Júlia (1977), tinha 28 anos. Em sete anos transformou-se numa lenda depois do desempenho em filmes icónicos como O Caçador, Manhattan, Kramer Contra Kramer, A Mulher do Tenente Francês, A Escolha de Sofia e África Minha. Manteve-se activa (tem cinco filmes em rodagem), enquanto actrizes suas contemporâneas dos anos 80 – Jessica Lange, Debra Winger, Sissy Spacek ou Sally Field – há muito desapareceram da tela. Meryl foi 13 vezes nomeada para os Óscares e ganhou dois: em Kramer Contra Kramer e em A Escolha de Sofia. |
Costuma usar roupas muito caras?
Não. Mas fiquei espantada com os géneros de roupas que a designer do guarda-roupa, Pat Field, conseguiu apresentar porque ela teve de trabalhar com um orçamento muito reduzido, embora este fosse um filme sobre a indústria da moda. É uma loucura o preço das malas de senhora de última moda. Portanto, para tornar este filme credível, a Pat teve de contar com as suas muito boas relações com designers e convencê-los a emprestarem-nos material e teve de optar por coisas de arquivo. As pessoas foram muito generosas no negócio da moda. Tínhamos apenas três semanas para arranjar o guarda-roupa para mim e para a Anne. Eu tinha uns 60 fatos e cada um deles tinha de ser conjugado com os sapatos, o cinto, os brincos e o casaco e tudo a assentar na perfeição. Uma das linhas-chave do filme é “Tamanho 6 é o novo 14”, que pretende conseguir que Anne Hathaway fique tão magra quanto possível.
Preocupa-a o facto de a indústria da moda exercer tanta pressão sobre as jovens para que fiquem anormalmente magras?
Penso nesse assunto todos os dias. Tenho três filhas e foi uma coisa que me afectou quando eu era adolescente e por isso tinha cá as minhas ideias a esse respeito. Acho altamente destrutivo e desnecessário.
Alguma vez foi tão dura como Miranda quando se tratava de disciplinar os seus filhos quando viviam ainda todos convosco?
Não tanto como gostaria de ter sido! Na verdade, usaram a minha reputação de actriz contra mim. Diziam coisas como “Oh, mãe, não sejas tão dramática”, quando eu tentava discipliná-los. E tínhamos também discussões verdadeiramente acaloradas sobre o tom de voz que eu utilizo quando tento ralhar com eles. Diziam que eu estava a representar um papel para eles para fazer valer a minha vontade. Os meus filhos aprenderam todos a ser excelentes advogados de defesa! Também aprenderam a adoptar todas as espécies de poses e atitudes manipuladoras que iam buscar ao repertório de actriz da mãe. Conhecem todos os meus truques! [Ri]
A sua carreira voltou a descolar nestes últimos anos depois de ter escolhido estar parada durante algum tempo. Como é que o seu marido reagiu?
Sente como se já tivesse passado por tudo isto antes. Cada vez que começo um filme, passo sempre pelas mesmas fases de dúvida e aversão. Cada vez que estou a considerar um projecto ou prestes a começar as filmagens, digo sempre a mesma coisa: “Nunca me senti tão aflita e preocupada...” E ele diz-me sempre a mesma coisa: “Fazes sempre isto... Fazes sempre, sempre, isto. Descabelas-te antes de começares. É isso que tu fazes. É a tua maneira de fazer as coisas.” Eu sinto mesmo tudo isso. Tenho dúvidas e medos verdadeiros. Ele tenta não ligar muito porque sabe que não pode fazer nada a esse respeito.
Quando faz uma retrospectiva da sua carreira e pensa sobre a sua imagem e sobre tudo o que conseguiu, como é que se sente?
Isso é uma pergunta muito complicada. Acho que sou feliz sobretudo por ter tido a sorte de desempenhar tantas grandes personagens e ter participado em tantos filmes tão bons. Mas gostava de ter tido mais sucesso representando géneros mais leves de personagens e não ficar presa a este tipo de mulher muito séria e muito distante, que eu não sou. Acho que foi o meu destino o ser atraída e serem-me dados esses tipos de papéis, e obviamente que isso deve ter uma razão de ser, muito embora eu nunca me veja dessa forma. Na vida real rio-me imenso mas, pela maior parte do meu trabalho, ninguém diria. [Ri] Tenho sempre de mostrar às pessoas que não me conhecem que não tenho assim tanto sangue-frio! [Ri] |
|

|
|
 |