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Nos anúncios de imprensa e nos cartazes de rua, Jane Fonda sorri a olhar-nos nos olhos, sem esconder as rugas e a assumir os seus 68 anos de vida. Está linda. Assim como está Diane Keaton na versão americana da campanha publicitária de um produto da L’Oréal dirigido especificamente às mulheres com mais de 60 anos de idade. Não é a primeira empresa a criar produtos para este mercado (apesar de serem poucas), mas quando a velhice ainda soa como a antítese pura e simples da beleza, do vigor e da competência, este parece ser um marco significativo. É que, quando uma grande marca do sector da cosmética investe em força no lançamento de um produto dirigido a este público, o brinda com um glamour equivalente ao que confere aos demais produtos e faz acordos milionários para contratar personalidades para o representar, é sinal de que a idade já não é o que era.
Os números comprovam esta realidade e a necessidade de um novo olhar em relação à população mais velha e de um novo modelo de organização da sociedade em que vivemos. Em 2000, o mundo já contava com 600 milhões de pessoas com mais de 60 anos e, até 2025, este valor irá duplicar. É o que informa a Organização Mundial de Saúde, revelando também que dois terços destas pessoas com mais de 60 anos vivem nos países desenvolvidos.
FUTURO
Por que continuamos a apostar apenas na juventude? Na corrida contra o tempo, vencem aqueles que fizerem as pazes com a velhice e compreenderem que esta é mais uma etapa produtiva da vida de todos nós. |
Em Portugal, entre os censos de 1960 e de 2001, o número de idosos (pessoas com mais de 65 anos) aumentou em cerca de 139 por cento, mais de o dobro, passando de 709 mil para 1,7 milhões. O seu peso na população duplicou, enquanto o dos jovens (pessoas com menos de 15 anos) baixou para cerca de metade. E, pela primeira vez, em termos nacionais, o grupo de idade avançada ultrapassou, do ponto de vista estatístico, o grupo de idade jovem. “E a tendência é para que, com o tempo, se acentue esta superioridade estatística das idades idosas por comparação às jovens”, observa Maria João Valente Rosa, socióloga, especialista em Demografia, investigadora e professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Esta é uma realidade que veio para ficar, pelo menos até 2030”, explica a especialista, que vê este cenário de forma optimista. “Ainda somos poucos a festejar o envelhecimento, mas eu ficaria extremamente preocupada se isso não estivesse a acontecer a Portugal. Era sinal de que nós estávamos atrasados do ponto de vista social. Olho para este processo com bons olhos, quer pelas causas que o motivam (nomeadamente forte diminuição da mortalidade), que têm a ver com progressos sociais importantes, quer pelos resultados, porque nem tudo é mau no envelhecimento.”
Então, por que razão os indivíduos e a sociedade resistem tanto a assumi-lo como uma fase como outra qualquer nas nossas vidas, uma tendência real da nossa população e até mesmo um mercado em potencial?
Hoje sentimo-nos mais jovens do que a nossa idade real. É um facto. O estudo desenvolvido pela Mc Cann França, no qual a L’Oréal se apoiou para apresentar o seu produto, revelou que as pessoas hoje tendem a sentir-se com menos 10 anos do que realmente têm. É o que sentimos e o que vemos.
Por que envelhecemos?
O envelhecimento faz parte do processo de desenvolvimento do ser humano. Envelhecemos desde que somos concebidos e este é um processo inevitável
Em termos populacionais, o envelhecimento não é inevitável, mas é uma tendência inelutável
A nível demográfico, as causas do envelhecimento têm a ver com importantes progressos sociais: melhoria das condições de vida, de saúde, aumento do nível de instrução, entre outros
Reduzimos drasticamente a taxa de mortalidade infantil, que actualmente é inferior a quatro mortes por cada mil nascimentos, uma das mais baixas do mundo
E a esperança de vida aumentou significativamente. Se, em 1960, a esperança de vida dos homens à nascença era de 61 anos, em 2004 já alcançava os 74,5 anos. Para as mulheres, estes valores eram de 66,4 anos em 1960, saltando para 81 anos em 2004
Passámos a ter filhos mais tarde e em menor número. Actualmente, o índice sintético de fecundidade é de 1,4 filhos por mulher. Muito baixo, ainda que não tão baixo como em Itália ou na Alemanha
A substituição de gerações já não está assegurada. Deixámos de o garantir em 1982, quando os níveis de fecundidade passaram a ser inferiores a 2,1 filhos por mulher. Desde essa altura, mantemos índices de fecundidade abaixo do necessário para que cada mãe tenha uma filha (deixe uma futura mãe)
Os baby boomers – nascidos no pós-guerra e que representaram um incremento substancial nas populações da Europa –, em 2010, vão começar a entrar nas idades idosas e, em 2030, já lá estão todos. Por isso, também os níveis de envelhecimento vão acentuar-se ainda mais no futuro |
Num recanto qualquer de Lisboa, vamos a uma reunião de mulheres. Uma festa de anos onde todas têm entre os 55 e os 60 anos. Temos dificuldade em perceber que têm esta idade. Não fizeram plásticas nem recorreram ao botox mas, mesmo sendo algumas já avós, em nada se parecem com as suas mães quando estas tinham a mesma idade. “Há 40 anos, as pessoas que se encontram na meia-idade seriam consideradas velhas. Mas hoje são muito competitivas, não se sentem velhas, não parecem velhas e tentam ter um tipo de vida que tinham há 10 ou mais anos”, comenta a psicóloga Maria Eugénia Duarte Silva, professora e investigadora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. Assim, não custa perceber que há uma dificuldade de aos 40, 50 ou mesmo aos 60 anos nos identificarmos com a velhice que se aproxima. Sobretudo se pararmos para pensar quais são as nossas referências no que diz respeito ao envelhecimento.
É que, quando imaginamos a velhice, pensamos nos idosos muito mais velhos, que já estão numa fase de franco declínio e dependência. Aqueles que se encontram no que hoje já poderia ser classificado de “quarta idade”, como alguns especialistas avançam. Há uma identificação da velhice com a doença e com a morte. “A morte é uma certeza, mas é também o tabu dos dias de hoje. A morte dos grandes números, aquela que aparece nas televisões e nos jornais, não assusta. Mas com a morte individual, as pessoas lidam mal. A ideia de velhice pode levar a que se tenha uma perspectiva da própria morte”, comenta a especialista. E a que se pense também em perdas: do cônjuge, dos filhos que se afastam, perda de redes e laços sociais que estavam assentes em relações de tipo profissional, mas também da beleza e, muitas vezes, do sentimento de utilidade social. Sobretudo se pensarmos que, hoje, quem perde o emprego aos 50 tem dificuldade em encontrar outro e quem entra para a reforma (aos 65 anos) passa a representar um peso para a sociedade e nem sempre goza do sonhado descanso, em paz e com condições, como esperava. Ao pensarmos nos idosos que vemos agora, esquecemos que estes viveram num cenário totalmente distinto do que vivemos hoje. “Muito diferencia os futuros idosos (actualmente pessoas com 40/60anos) dos actuais, nomeadamente o seu nível de instrução. Em 2001, a percentagem de indivíduos com 65 e mais anos sem qualquer qualificação académica era de 54 por cento. No grupo anterior – entre os 45 e 64 anos –, a percentagem é bem menor, de 19 por cento. E como o nível de instrução está associado de algum modo ao rendimento e às condições de vida, é um erro pensarmos que o futuro irá ser um decalque do presente”, observa a socióloga Maria João Valente Rosa.
Os jovens são qualquer coisa em que vale a pena investir porque são um capital de futuro, de esperança. Esta é uma ideia que está muito presente ainda hoje”, afirma António Fonseca, psicólogo e investigador da Universidade Católica do Porto, ao recordar que, quando decidiu dirigir o seu trabalho para as questões do envelhecimento, foi surpreendido por reacções como: “Está a estudar os velhos? Para quê? Eles vão morrer!” E acrescenta: “Durante muito tempo, e ainda hoje, olhamos para as pessoas de idade apenas como um capital de memória, de recordações, lembranças, mas sempre de passado, e não como capital de saber, de capacidade, de utilidade.”
“Ficamos arrepiados quando ouvimos que os deficientes são segregados, mas não reagimos da mesma forma quando ouvimos que as pessoas de idade são segregadas”, comenta António Fonseca. E a idade ainda marginaliza. O que parece um contra-senso quando conseguimos viver mais tempo e quando o envelhecimento da sociedade é um facto.
O problema não está no envelhecimento. O problema existe na incapacidade que a nossa sociedade tem em se adaptar a esta nova realidade. Os factos mudaram, desafiam as nossas estruturas sociais e mentais, mas continuamos a funcionar como se praticamente nada tivesse mudado e vivêssemos numa sociedade jovem. Por isso, é tempo de nos encontrarmos com os factos”, reforça Maria João Valente Rosa. “Estamos como um indivíduo que engorda muito, mas que insiste em vestir a roupa que usava quando era magro. Insistimos em adoptar a mesma estrutura organizacional que funcionava quando as sociedades não estavam envelhecidas, em desperdiçar, mesmo do ponto de vista económico, todo o capital humano que representam os mais velhos. E por isso, a sociedade, porque desfasada dos factos, já está e vai continuar a ter problemas.” É o caso da Segurança Social e do problema da sua sustentabilidade, hoje no centro de inúmeros debates e na raiz de tantas preocupações em relação ao futuro.
Velhice feliz
O Professor Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, ensina alguns princípios básicos:
Controlar o peso
Manter uma alimentação rica em fibras vegetais, em proteínas saudáveis (peixe e carne de aves), gorduras saudáveis (azeite) e hidratos de carbono saudáveis (completos, com fibras vegetais)
Manter uma actividade física regular. Pratique um mínimo de 30 minutos por dia. Caminhe, corra, dance
Dormir horas suficientes (entre 6 a 8 horas). O sono é a melhor coisa para a memória. Durma no escuro, melhora a qualidade do sono
Não fumar. Quando se pára, rejuvenesce-se cerca de 8 a 10 anos
Consumir pouco álcool. Para os homens, o limite são dois copos por dia e, para as mulheres, um copo
Aprender a saber relaxar e respirar
Cuidar das competências psicológicas. A agressividade, por exemplo, faz mal à saúde. Envelhece
Cultivar as amizades. A solidão não faz bem à saúde
Não se expor demasiado ao Sol. Só 20 a 30 minutos por dia. E nunca entre as 11 e as 16 horas
Tomar suplemento de cálcio e vitamina D. Um cuidado importante para as mulheres a partir dos 40 anos |
“O conceito de reforma surgiu com Bismarck, na Alemanha. Mas, há 100 anos, ter 65 não era o que é hoje”, recorda a psicóloga Maria Eugénia Duarte Silva. Naquela altura, poucos chegavam aos 65 e, se aí chegassem, não viviam muito mais. Segundo dados do INE, em 1920, a esperança de vida dos portugueses à nascença era de 35,8 anos para os homens e 40 para as mulheres. Hoje, é de cerca de 74,5 e 81 anos, respectivamente. E se, em 1960, o número de pessoas em idade activa por pessoa em idade de reforma era de aproximadamente 8, actualmente é de 4, e o valor tende a diminuir ainda mais no futuro. “A maior pressão sobre o sistema de Segurança Social, e também sobre o Sistema de Saúde, é, como tal, inevitável”, explica Maria João Valente Rosa.
“O problema da discussão em torno das reformas é ela estar baseada numa noção clássica de ‘estudo, trabalho e reforma’, que é completamente irreal face aos dias de hoje”, observa António Fonseca. “Inevitavelmente, vamos ter de começar a aceitar as pessoas mais velhas e começar a enquadrá-las social e profissionalmente. Porque os jovens escasseiam.” Mas, para isso, “temos de derrubar a ideia da vida por capítulos – um para estudar, um para casar e ter filhos, um para produzir profissionalmente e outro para descansar. E a partir do momento em que começarmos a olhar para o fluxo da vida de uma forma diferente, a idade cronológica começará a ter menos importância. Deixaremos de reger a nossa vida pela idade cronológica, para passar a baseá-la na idade psicológica, em termos da competência. E esta tem muito mais a ver com aspectos que se prendem com a educação, a cultura, a saúde e a rede social em que uma pessoa está inserida”.
o início do século passado, as sociedades eram predominantemente industriais. A produtividade dependia da força física, que era encontrada nas idades mais jovens. Hoje, estamos na era do conhecimento. Nessa óptica, não é a força física que comanda a produtividade. É o conhecimento – e este não tem idade. Se for alimentado ao longo da vida, é algo que pode ir progredindo.
Nesta perspectiva, passa a ser possível aos 60 anos, por exemplo, começar uma vida nova. “Não tenho de passar 50 anos a fazer a mesma coisa. Posso fazer diferentes coisas ao longo da minha vida profissional e continuar a ser útil em diferentes momentos da minha existência, independentemente da idade cronológica que tenho”, comenta António Fonseca.
Um emprego para toda vida? Isso está em vias de extinção, como já podemos ver nas novas gerações. O ciclo de vida, no futuro, deverá ser muito mais flexível e alternar períodos de formação, trabalho e descanso. Será muito normal investir numa segunda e até terceira carreira ao longo de toda a vida, também porque vivemos em média muito mais tempo. E quem hoje tem 40 anos já deve começar a pensar em enquadrar-se nesta filosofia. “Nesta nova era da informação e do conhecimento, mais do que empregos, o que marcará o futuro é o trabalho. E a adaptação aos novos tempos significa ter consciência de que a formação deve estar presente ao longo de toda a vida da pessoa. Não termina quando se é jovem, mesmo que se tenha feito uma formação muito forte na juventude”, explica Maria João Valente Rosa. Estudar, explorar interesses paralelos e descobrir novas aptidões fazem parte deste processo.
Anti-aging
De acordo com o Professor Manuel Carrageta, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, que dará uma conferência sobre o tema no XXVII Congresso Português de Geriatria, nos próximos dias 11, 12 e 13 de Outubro, são quatro as descobertas mais significativas neste campo:
Restrição calórica. Reduzir em 60 por cento o nível de ingestão calórica aumenta em 40 por cento a esperança de vida, revelaram experiências realizadas em animais
Manipulação genética. Nalgumas espécies animais, aumenta 2 a 4 vezes a esperança de vida. Não evita a morte, mas aumenta a resistência das células a lesões que surgem com o tempo
Mutação genética. Ratos que sofreram mutações espontâneas que os fizeram mais pequenos viveram 50 por cento mais que os normais. Tudo indica que se deva a alterações na produção da hormona do crescimento
O papel da insulina e substâncias semelhantes no aumento da longevidade. Nos cães, a longevidade é inversamente proporcional ao seu tamanho e peso. Um cão pequeno, com níveis de insulina mais baixos, vive mais do que um grande |
António Fonseca concorda com este cenário e acredita que, para quem tem 60 anos agora e descobre que terá de trabalhar mais, pode ser uma realidade injusta. Mas para quem tem 20, 30 e até 40 anos, o ciclo de vida terá de ser realmente repensado e reformulado. Na sua opinião, em lugar de contestar o prolongamento da idade activa até aos 67 ou mesmo 70 anos, os sindicatos deveriam negociar pausas nesta vida activa para formação, estudo ou simplesmente para descansar, sem que isso seja penalizado. “O trabalho na idade avançada não faz mal. Pelo contrário: ajuda a que as pessoas se mantenham interessadas, activas e a funcionarem com as suas capacidades cognitivas”, observa a psicóloga Maria Eugénia Duarte Silva. “A velhice de cada um depende muito daquilo que cada um puder fazer por si.”
Fala-se hoje do envelhecimento com sucesso. Isto é, o que se pode fazer para chegar à idade avançada nas melhores condições possíveis, para poder gozá-la e não sofrê-la. Para isso, é preciso ter atenção a três aspectos essenciais da nossa vida. O biológico, que diz respeito à nossa saúde física; o psíquico, que abrange o nosso funcionamento mental e cognitivo, os nossos interesses; e o social, ou seja, o envolvimento que desenvolvemos com os outros, dentro e fora da família, as redes e os laços sociais que criamos. “E estas são coisas que se preparam desde cedo”, sublinha o psicólogo António Fonseca. Se ao longo da vida não houver investimento ou qualquer preocupação nestas áreas, será difícil as coisas resultarem de forma satisfatória. Mas não se trata aqui de travar a todo o custo o envelhecimento. A adaptação à nossa realidade em cada etapa da vida é fundamental. A vida poderá ser mais ou menos satisfatória conforme conseguirmos adaptarmo-nos ou não, aceitarmos a velhice ou não.
Talvez o primeiro ponto a ser levado em conta deva ser a saúde. “Nunca é demasiado cedo, mas também nunca é demasiado tarde para cuidar da saúde. É sempre boa altura para colher resultados benéficos destes cuidados”, explica o Professor Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia. Aumentar os cuidados a partir dos 30 seria o ideal. “Aos 40 anos, o sinal amarelo acende-se”, sentencia o especialista. O melhor é começar a estar atento ao organismo (ver caixa). E quanto melhor for a saúde, melhor envelheceremos em termos físicos, mas também psicológicos e cognitivos.
Assim como as relações de amizade devem ser alimentadas ao longo de toda a vida, desenvolver interesses paralelos à actividade profissional que se desempenha é tarefa que deve acompanhar todo o nosso desenvolvimento adulto. E a partir dos 40/50 anos, tornar-se-á mesmo indispensável fazê-lo. “No futuro, que começa já hoje, o valor do indivíduo dependerá cada vez mais do seu mérito, e por isso é essencial que a formação ao longo da vida não seja esquecida”, afirma Maria João Valente Rosa. |
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