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Por Cristina Azedo | Fotografias
de Pedro Ferreira | Realização de Xana
Guerra e Susana Marques Pinto
“Não dá para
andar com ‘rodriguinhos’. Em nome do interesse
público, há que fazer as perguntas certas
e o mais directas possível. Aquele espírito
de subserviência e do culto do senhor doutor nunca
o tive. Acho que não é compatível
com o jornalismo”, dispara Manuela Moura Guedes,
quando se fala do seu inconfundível estilo no ecrã.
Sentada no seu gabinete de directora-adjunta de informação
da TVI, comendo um iogurte e cumprimentado quem passa
pelo corredor, a pivot do Jornal Nacional é ainda
mais expressiva ao vivo. “Quando se apresenta um
noticiário, não estamos a falar de coisas
abstractas ou de ficção. Estamos a falar
de pessoas, de situações inacreditáveis
que acontecem no mundo de hoje, coisas dramáticas
como gente a passar fome, a vi-ver em circunstâncias
injustas… O que podemos nós fazer? É
uma pergunta poderosa. Podemos chamar a atenção
da sociedade, tentar arranjar respostas, abrir olhos e
levar à acção”, afirma. E exalta-se:
“Que digam que sou agressiva, quero lá saber.
À medida que fui envelhecendo, fui ganhando a tendência
de me estar nas tintas.”
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Alberta
Marques Fernandes cursou Relações
Internacionais porque pensava numa carreira como
repórter de Internacional. |
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Clara
de Sousa sonhava ser professora de inglês
antes de se aventurar no mundo da rádio
e daí passar para a abertura da TVI.
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Conceição
Lino andou numa das primeiras turmas da licenciatura
de Comunicação Social da Universidade
Nova de Lisboa. “Hoje tenho a certeza de
que a Comunicação é a minha
área”, diz a autora de Nós
Por Cá. |
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Fátima
Campos Ferreira foi professora de História
uma série de anos, no Porto, antes de tirar
uma segunda licenciatura e dedicar-se ao jornalismo. |
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Judite
de Sousa, hoje Comendadora da Ordem de Mérito
pela mão do Presidente Jorge Sampaio, graças
ao trabalho de mais de 25 anos, foi parar à
RTP por acaso. Tinha 18 anos e procurava um emprego
em part-time na Cidade Invicta quando respondeu,
sem grande convicção, a um anúncio
que pedia jornalistas estagiários. |
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Manuela
Moura Guedes acabava o curso de Direito, em Lisboa,
e dava aulas como monitora de Teoria Geral do
Direito Civil quando concorreu à RTP. Estreou-se
como locutora de continuidade. |
Embora sem a exuberância de
Manuela Moura Guedes, também Fátima Campos
Ferreira, Judite de Sousa, Alberta Marques Fernandes,
Clara de Sousa e Conceição Lino olham para
o jornalismo sob o prisma da intervenção.
Cada uma à sua maneira, e no seu canal televisivo,
empenha-se em ir além da superfície dos
acontecimentos diários, lançando aos espectadores
o desafio de reflectirem sobre o estado das coisas. E,
sem pensar no barómetro das audiências, assumem-no
sem rodeios, numa conversa onde se fala de quase tudo:
da profissão à família, passando
pelo estado do País.
“Ao
longo dos sete anos que dura a Grande Entrevista,
tenho-me esforçado para rasgar horizontes, procurando
algo de novo e tentando que os convidados se pronunciem
de uma forma verdadeira. Tento desconstruir as frases
feitas, puxar pelas ideias e ser útil aos cidadãos”,
diz Judite de Sousa. Sua companheira no Canal 1 da RTP,
Fátima Campos Ferreira partilha da opinião
de que um jornalista de TV deve ser mais do que um leitor
de teleponto e avança na argumentação:
“Quando me meti no Prós e Contras, há
cerca de três anos, quis fazer um programa de
informação em formato de debate, profundo
e ri-goroso, e com um objectivo fundamental: pôr
as pessoas a pensar. Parece-me que têm estado
adormecidas e que não se dão conta que
o mundo mudou nos últimos anos, lançando
novas questões. O que eu quero é que o
programa reme contra esta maré do alheamento
colectivo.”
Contra a maré segue também Conceição
Lino, mas ela orgulha-se disso. O seu Nós Por
Cá é um momento único na televisão
portuguesa. O momento em que as histórias esquecidas
pelas agendas noticiosas têm tempo de antena em
horário nobre, lembrando-nos de que o chamado
país real é bem mais real do que todos
gostaríamos. “Sou uma espécie de
ponte entre os problemas das pessoas e quem pode ser
capaz de resolvê-los. Gosto disso. Dá-me
imenso prazer perceber que posso dar visibilidade e
poder àqueles cidadãos que, muitas vezes,
nem uma simples resposta recebem desta ou daquela instituição
ou entidade. No entanto, a rubrica que faço actualmente
dirige-se a todos os cidadãos sem excepção.
A ideia é que sejamos capazes de nos vermos ao
espelho e perceber que cada um de nós pode intervir
em vez de encolher os ombros às situações
tantas vezes absurdas a que nos vamos habituando”,
diz a jornalista. E sorri quando se pergunta se é
uma espécie de justiceira da SIC: “As palavras
são suas, mas se é essa a imagem que passa
ela tem, de facto, a ver comigo, com a minha maneira
de ser. Mas também tem a ver com aquilo que penso
que o jornalismo deve ser. Se não, para que é
que serviria?”
Se
calhar não é por acaso que, hoje, na televisão
portuguesa, um perfil interventivo está
mais ligado às mulheres do que aos homens. Elas
parecem não se contentar com respostas fáceis,
talvez porque a par do seu papel de profissionais não
se abstraem do seu papel de geradoras de vida. E daí
à problematização da sociedade
actual é um pequeno passo.
“Podemos estar a viver um ciclo de tempestade
a que se seguirá uma qualquer bonança,
mas isso não chega para me deixar de sentir apreensiva
quanto ao estado do mundo”, confessa Conceição
Lino. “Preocupa-me por exemplo o que já
destruímos no planeta e que não tem remédio…
Quantas notícias que agora estamos a dar não
são a concretização de previsões
feitas com insistência nas últimas décadas?
O aquecimento global, a camada de ozono, a desflorestação
não são obsessões de uns quantos
cientistas... Por outro lado, como é que podemos
ser optimistas num mundo que vive tranquilamente com
tantas assimetrias sociais? A esmagadora maioria da
população mundial vive abaixo do limiar
da pobreza! Fico a pensar no que estamos a deixar para
as gerações que aí vêm. Como
será o mundo que vão herdar?”
Fátima Campos Ferreira, habituada a lidar todas
as semanas com as grandes questões do País,
leva mais longe a sua reflexão, centrando-a na
sociedade portuguesa. “Apesar do bom feedback
ao meu programa, sinto uma grande frustração
quando vejo que ainda não consegui sensibilizar
realmente as pessoas a dar o seu contributo para a mudança
social. Sei que as coisas não mudam de um momento
para o outro, sei que três anos não chegam,
mas confesso que gostava que estivéssemos mais
evoluídos. É urgente abanar as mentalidades,
os portugueses estão presos ao imobilismo”,
desabafa a jornalista da RTP.
Judite de Sousa, que, quinzenalmente, entrevista figuras
mediáticas da actualidade, a par do seu trabalho
de pivot no Telejornal e de interlocutora de António
Vitorino nas Notas Soltas, não podia estar mais
de acordo. “Estamos a viver um mau momento. Há
uns anos, entrevistei o neurocirurgião João
Lobo Antunes e, quando lhe perguntei ‘Como é
que sente o País?’, deu--me uma resposta
que julgo permanecer actual. ‘Acho que o País
está triste.’ É exactamente isso
que penso. Estamos profundamente desencantados, há
uma espécie de fatalismo e resignação
nacional perante problemas que cavam fundo na nossa
sociedade. Esta inércia colectiva faz-me pensar
muito, como cidadã e como jornalista.”
Com a sinceridade desbragada que a caracteriza, Manuela
Moura Guedes confessa que, após uma vintena de
anos no jornalismo e uma passagem pelo Parlamento, como
deputada independente pelo CDS-PP, não tem grandes
esperanças para o País. “Os portugueses
são óptimas pessoas, mas um bocadinho
alforrecas. Falta-lhes raça. Pense-se no novo
aeroporto da OTA ou no TGV. Porque é que precisamos
de gastar, neste momento, em que se pede aos cidadãos
sacrifícios e sacrifícios, milhões
em dois investimentos gigantescos dos quais não
há uma necessidade primária? Mas o que
é que acontece? O povo português está
caladinho. Temos uma mentalidade estranha que não
leva a que os políticos se sintam obrigados a
reflectir antes de tomarem decisões desta grandeza.
A opinião pública não existe. Somos
um povo amorfo.”
Há, entre as mulheres
da TV, quem não seja tão pessimista
e teime, apesar das circunstâncias, em manter
a esperança. Clara de Sousa e Alberta Marques
Fernandes, as mais novas, com 37 anos, fazem as honras
desta casa onde a luz brilha ao fundo do túnel.
“Não vivo com aquelas angústias
do mundo que vou deixar para a minha filha e por aí
fora. Sei lá como é que o mundo vai estar,
as coisas dão tantas voltas. O que me preocupo
é com o dia-a--dia, com o aprender a ser uma
mãe, e uma pessoa, cada vez melhor”, diz
Alberta Marques Fernandes, a jornalista da RTP, sublinhando
que não deixa o pessimismo entrar na sua vida.
“Claro que tenho os momentos de tristeza, mas
depois passa-me e sigo em frente. Digo isto depois de
ter perdido o meu pai com um ataque cardíaco
aos 54 anos, ti-nha eu 22, de ter perdido a minha mãe
com um cancro que se prolongou por cinco anos, de ter
tido um casamento falhado, uma gravidez complicada e
ter visto a minha filha nascer prematura com 1,200 quilogramas.
Tenho tido a minha dose, mas tento sempre tirar o que
de positivo existe em cada situação. Só
assim podemos seguir em frente”, comenta a pivot
do Jornal 2. “Temos de nos entregar à vida,
sem medo de sofrer. Eu entrego-me de corpo e alma.”
Clara de Sousa também valoriza o seu optimismo
interior. “Mesmo nos momentos maus, na perda de
pessoas que amamos, na falta de saúde em algumas
delas, nas desilusões e desencantos, tenho sorrido
para a vida. É uma força interior que
me acompanha desde sempre e que não trocava por
nada deste mundo”, revela a jornalista da SIC,
adiantando que não olha para o momento actual
como um tempo destituído de esperança.
“Espero por um novo ciclo de crescimento e sei
que virá, apesar do sofrimento por que passam
muitas famílias. Não podemos, porém,
apenas responsabilizar os que estão a governar,
por muitas trapalhadas que tenham feito nos últimos
30 anos, mas temos de nos responsabilizar enquanto cidadãos.
Há aquela frase: ‘Não perguntes
o que o teu país pode fazer por ti, mas o que
podes tu fazer pelo teu país.’ É
isso mesmo. Temos de pensar: ‘Eu faço a
diferença’”, defende Clara. Daí
que a pivot aposte em passar uma mensagem positiva aos
seus filhos. “Digo-lhes: ‘Tu consegues’,
‘Não desistas.’ Deixo-os fazer as
suas descobertas.”
Os
filhos são presença constante no discurso
de todas estas mulheres. É notório
que não lhes chega a profissão e o reconhecimento
do público. A família é elemento
de equilíbrio. Se algumas, como Judite de Sousa
e Fátima Campos Ferreira, têm os filhos
já com um pé na idade adulta, a terminar
a formação superior, outras preocupam-se
com o acompanhamento de crianças pequenas.
Clara de Sousa, mãe de um rapaz e de uma rapariga
entre os 10 e os seis anos, conta que tem tudo organizado
graças ao apoio dos avós paternos. “Não
sou diferente de milhões de mulheres nas tarefas
básicas do dia-a-dia. Faço-as todas. Sou
uma mulher comum, dona de casa também, mas não
desesperada”, diz, entre risos. No lar de Manuela
Moura Guedes, as coisas são um pouco diferentes.
“Além de um enteado com 28 anos, tenho
um filho com 22, e outros dois com 13 e 10. São
gerações diferentes, com necessidades
distintas mas tenho uma estrutura de apoio muito boa
lá em casa. O pouco tempo que me sobra é
para eles. Aos fins-de-semana vamos para a nossa propriedade
no Alentejo e divertimo-nos em família. Trabalhar
em TV é sempre complicado, porque nos ocupa em
horas que os filhos já regressaram da escola,
estão em casa e precisam de nós.”
Conceição Lino, mãe de duas raparigas
de nove e cinco anos, não se poupa a críticas.
“Claro que as minhas filhas têm sido penalizadas
pela voracidade da minha actividade profissional. Não
é nada de que eu me orgulhe particularmente…
Tenho dúvidas sobre a teoria de que o importante
é a qualidade do tempo que se passa com os filhos
mais do que a quantidade”, questiona a jornalista.
E vai mais longe: “Lamento que, hoje, muitos jornalistas,
e também profissionais de outras áreas,
mulheres mas também homens, sejam penalizados
por dedicarem tempo à família. Como se
passar por cima da vida familiar ou pessoal estivesse
no campo das virtudes de um bom profissional.”
Para evitar confusões neste campo, Alberta Marques
Fernandes usa a sinceridade. “A minha prioridade
está bem definida: a família vem primeiro,
não o trabalho. Adoro a minha profissão,
mas sei que se algum dia me obrigarem a escolher entre
uma e outra coisa, escolho a família”,
garante a jornalista da 2:, justificando-se: “Valoriza-se
demasiado o trabalho. É certo que ele pode preencher-nos,
mas não nos dá a felicidade de uma família
ou de um filho. Quem acha isso, mais cedo ou mais tarde,
apanha uma grande desilusão e arrepende-se do
rumo que deu à sua vida.”
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