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MULHER & CARREIRA

Alberta, Clara, Conceição, Fátima, Judite e Manuela. Todos conhecemos os seus rostos da Televisão. Chegou a altura de as ouvir sobre o jornalismo, a família e o estado do País.

Clara de Sousa: tailleur de calças Gucci, na Stivali; top e sapatos, ambos Hermés. Colar Baiser du Dragon, Cartier. Conceição Lino: vestido Roberto Cavalli, na Stivali; sapatos Missoni, na Soul; colar e anel, Cartier. Judite de Sousa: vestido Alves/Gonçalves; sapatos DSquared2, na Fashion Clinic; brincos e relógio, ambos Hermés.

Por Cristina Azedo | Fotografias de Pedro Ferreira | Realização de Xana Guerra e Susana Marques Pinto

“Não dá para andar com ‘rodriguinhos’. Em nome do interesse público, há que fazer as perguntas certas e o mais directas possível. Aquele espírito de subserviência e do culto do senhor doutor nunca o tive. Acho que não é compatível com o jornalismo”, dispara Manuela Moura Guedes, quando se fala do seu inconfundível estilo no ecrã. Sentada no seu gabinete de directora-adjunta de informação da TVI, comendo um iogurte e cumprimentado quem passa pelo corredor, a pivot do Jornal Nacional é ainda mais expressiva ao vivo. “Quando se apresenta um noticiário, não estamos a falar de coisas abstractas ou de ficção. Estamos a falar de pessoas, de situações inacreditáveis que acontecem no mundo de hoje, coisas dramáticas como gente a passar fome, a vi-ver em circunstâncias injustas… O que podemos nós fazer? É uma pergunta poderosa. Podemos chamar a atenção da sociedade, tentar arranjar respostas, abrir olhos e levar à acção”, afirma. E exalta-se: “Que digam que sou agressiva, quero lá saber. À medida que fui envelhecendo, fui ganhando a tendência de me estar nas tintas.”

Alberta Marques Fernandes cursou Relações Internacionais porque pensava numa carreira como repórter de Internacional.
Clara de Sousa sonhava ser professora de inglês antes de se aventurar no mundo da rádio
e daí passar para a abertura da TVI.
Conceição Lino andou numa das primeiras turmas da licenciatura de Comunicação Social da Universidade Nova de Lisboa. “Hoje tenho a certeza de que a Comunicação é a minha área”, diz a autora de Nós Por Cá.
Fátima Campos Ferreira foi professora de História uma série de anos, no Porto, antes de tirar uma segunda licenciatura e dedicar-se ao jornalismo.
Judite de Sousa, hoje Comendadora da Ordem de Mérito pela mão do Presidente Jorge Sampaio, graças ao trabalho de mais de 25 anos, foi parar à RTP por acaso. Tinha 18 anos e procurava um emprego em part-time na Cidade Invicta quando respondeu, sem grande convicção, a um anúncio que pedia jornalistas estagiários.
Manuela Moura Guedes acabava o curso de Direito, em Lisboa, e dava aulas como monitora de Teoria Geral do Direito Civil quando concorreu à RTP. Estreou-se como locutora de continuidade.
Embora sem a exuberância de Manuela Moura Guedes, também Fátima Campos Ferreira, Judite de Sousa, Alberta Marques Fernandes, Clara de Sousa e Conceição Lino olham para o jornalismo sob o prisma da intervenção. Cada uma à sua maneira, e no seu canal televisivo, empenha-se em ir além da superfície dos acontecimentos diários, lançando aos espectadores o desafio de reflectirem sobre o estado das coisas. E, sem pensar no barómetro das audiências, assumem-no sem rodeios, numa conversa onde se fala de quase tudo: da profissão à família, passando pelo estado do País.

“Ao longo dos sete anos que dura a Grande Entrevista, tenho-me esforçado para rasgar horizontes, procurando algo de novo e tentando que os convidados se pronunciem de uma forma verdadeira. Tento desconstruir as frases feitas, puxar pelas ideias e ser útil aos cidadãos”, diz Judite de Sousa. Sua companheira no Canal 1 da RTP, Fátima Campos Ferreira partilha da opinião de que um jornalista de TV deve ser mais do que um leitor de teleponto e avança na argumentação: “Quando me meti no Prós e Contras, há cerca de três anos, quis fazer um programa de informação em formato de debate, profundo e ri-goroso, e com um objectivo fundamental: pôr as pessoas a pensar. Parece-me que têm estado adormecidas e que não se dão conta que o mundo mudou nos últimos anos, lançando novas questões. O que eu quero é que o programa reme contra esta maré do alheamento colectivo.”

Contra a maré segue também Conceição Lino, mas ela orgulha-se disso. O seu Nós Por Cá é um momento único na televisão portuguesa. O momento em que as histórias esquecidas pelas agendas noticiosas têm tempo de antena em horário nobre, lembrando-nos de que o chamado país real é bem mais real do que todos gostaríamos. “Sou uma espécie de ponte entre os problemas das pessoas e quem pode ser capaz de resolvê-los. Gosto disso. Dá-me imenso prazer perceber que posso dar visibilidade e poder àqueles cidadãos que, muitas vezes, nem uma simples resposta recebem desta ou daquela instituição ou entidade. No entanto, a rubrica que faço actualmente dirige-se a todos os cidadãos sem excepção. A ideia é que sejamos capazes de nos vermos ao espelho e perceber que cada um de nós pode intervir em vez de encolher os ombros às situações tantas vezes absurdas a que nos vamos habituando”, diz a jornalista. E sorri quando se pergunta se é uma espécie de justiceira da SIC: “As palavras são suas, mas se é essa a imagem que passa ela tem, de facto, a ver comigo, com a minha maneira de ser. Mas também tem a ver com aquilo que penso que o jornalismo deve ser. Se não, para que é que serviria?”

Se calhar não é por acaso que, hoje, na televisão portuguesa, um perfil interventivo está mais ligado às mulheres do que aos homens. Elas parecem não se contentar com respostas fáceis, talvez porque a par do seu papel de profissionais não se abstraem do seu papel de geradoras de vida. E daí à problematização da sociedade actual é um pequeno passo.

“Podemos estar a viver um ciclo de tempestade a que se seguirá uma qualquer bonança, mas isso não chega para me deixar de sentir apreensiva quanto ao estado do mundo”, confessa Conceição Lino. “Preocupa-me por exemplo o que já destruímos no planeta e que não tem remédio… Quantas notícias que agora estamos a dar não são a concretização de previsões feitas com insistência nas últimas décadas? O aquecimento global, a camada de ozono, a desflorestação não são obsessões de uns quantos cientistas... Por outro lado, como é que podemos ser optimistas num mundo que vive tranquilamente com tantas assimetrias sociais? A esmagadora maioria da população mundial vive abaixo do limiar da pobreza! Fico a pensar no que estamos a deixar para as gerações que aí vêm. Como será o mundo que vão herdar?”

Fátima Campos Ferreira, habituada a lidar todas as semanas com as grandes questões do País, leva mais longe a sua reflexão, centrando-a na sociedade portuguesa. “Apesar do bom feedback ao meu programa, sinto uma grande frustração quando vejo que ainda não consegui sensibilizar realmente as pessoas a dar o seu contributo para a mudança social. Sei que as coisas não mudam de um momento para o outro, sei que três anos não chegam, mas confesso que gostava que estivéssemos mais evoluídos. É urgente abanar as mentalidades, os portugueses estão presos ao imobilismo”, desabafa a jornalista da RTP.

Judite de Sousa, que, quinzenalmente, entrevista figuras mediáticas da actualidade, a par do seu trabalho de pivot no Telejornal e de interlocutora de António Vitorino nas Notas Soltas, não podia estar mais de acordo. “Estamos a viver um mau momento. Há uns anos, entrevistei o neurocirurgião João Lobo Antunes e, quando lhe perguntei ‘Como é que sente o País?’, deu--me uma resposta que julgo permanecer actual. ‘Acho que o País está triste.’ É exactamente isso que penso. Estamos profundamente desencantados, há uma espécie de fatalismo e resignação nacional perante problemas que cavam fundo na nossa sociedade. Esta inércia colectiva faz-me pensar muito, como cidadã e como jornalista.”

Com a sinceridade desbragada que a caracteriza, Manuela Moura Guedes confessa que, após uma vintena de anos no jornalismo e uma passagem pelo Parlamento, como deputada independente pelo CDS-PP, não tem grandes esperanças para o País. “Os portugueses são óptimas pessoas, mas um bocadinho alforrecas. Falta-lhes raça. Pense-se no novo aeroporto da OTA ou no TGV. Porque é que precisamos de gastar, neste momento, em que se pede aos cidadãos sacrifícios e sacrifícios, milhões em dois investimentos gigantescos dos quais não há uma necessidade primária? Mas o que é que acontece? O povo português está caladinho. Temos uma mentalidade estranha que não leva a que os políticos se sintam obrigados a reflectir antes de tomarem decisões desta grandeza. A opinião pública não existe. Somos um povo amorfo.”


Há, entre as mulheres da TV, quem não seja tão pessimista e teime, apesar das circunstâncias, em manter a esperança. Clara de Sousa e Alberta Marques Fernandes, as mais novas, com 37 anos, fazem as honras desta casa onde a luz brilha ao fundo do túnel. “Não vivo com aquelas angústias do mundo que vou deixar para a minha filha e por aí fora. Sei lá como é que o mundo vai estar, as coisas dão tantas voltas. O que me preocupo é com o dia-a--dia, com o aprender a ser uma mãe, e uma pessoa, cada vez melhor”, diz Alberta Marques Fernandes, a jornalista da RTP, sublinhando que não deixa o pessimismo entrar na sua vida. “Claro que tenho os momentos de tristeza, mas depois passa-me e sigo em frente. Digo isto depois de ter perdido o meu pai com um ataque cardíaco aos 54 anos, ti-nha eu 22, de ter perdido a minha mãe com um cancro que se prolongou por cinco anos, de ter tido um casamento falhado, uma gravidez complicada e ter visto a minha filha nascer prematura com 1,200 quilogramas. Tenho tido a minha dose, mas tento sempre tirar o que de positivo existe em cada situação. Só assim podemos seguir em frente”, comenta a pivot do Jornal 2. “Temos de nos entregar à vida, sem medo de sofrer. Eu entrego-me de corpo e alma.”

Clara de Sousa também valoriza o seu optimismo interior. “Mesmo nos momentos maus, na perda de pessoas que amamos, na falta de saúde em algumas delas, nas desilusões e desencantos, tenho sorrido para a vida. É uma força interior que me acompanha desde sempre e que não trocava por nada deste mundo”, revela a jornalista da SIC, adiantando que não olha para o momento actual como um tempo destituído de esperança. “Espero por um novo ciclo de crescimento e sei que virá, apesar do sofrimento por que passam muitas famílias. Não podemos, porém, apenas responsabilizar os que estão a governar, por muitas trapalhadas que tenham feito nos últimos 30 anos, mas temos de nos responsabilizar enquanto cidadãos. Há aquela frase: ‘Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas o que podes tu fazer pelo teu país.’ É isso mesmo. Temos de pensar: ‘Eu faço a diferença’”, defende Clara. Daí que a pivot aposte em passar uma mensagem positiva aos seus filhos. “Digo-lhes: ‘Tu consegues’, ‘Não desistas.’ Deixo-os fazer as suas descobertas.”

Os filhos são presença constante no discurso de todas estas mulheres. É notório que não lhes chega a profissão e o reconhecimento do público. A família é elemento de equilíbrio. Se algumas, como Judite de Sousa e Fátima Campos Ferreira, têm os filhos já com um pé na idade adulta, a terminar a formação superior, outras preocupam-se com o acompanhamento de crianças pequenas.

Clara de Sousa, mãe de um rapaz e de uma rapariga entre os 10 e os seis anos, conta que tem tudo organizado graças ao apoio dos avós paternos. “Não sou diferente de milhões de mulheres nas tarefas básicas do dia-a-dia. Faço-as todas. Sou uma mulher comum, dona de casa também, mas não desesperada”, diz, entre risos. No lar de Manuela Moura Guedes, as coisas são um pouco diferentes. “Além de um enteado com 28 anos, tenho um filho com 22, e outros dois com 13 e 10. São gerações diferentes, com necessidades distintas mas tenho uma estrutura de apoio muito boa lá em casa. O pouco tempo que me sobra é para eles. Aos fins-de-semana vamos para a nossa propriedade no Alentejo e divertimo-nos em família. Trabalhar em TV é sempre complicado, porque nos ocupa em horas que os filhos já regressaram da escola, estão em casa e precisam de nós.”

Conceição Lino, mãe de duas raparigas de nove e cinco anos, não se poupa a críticas. “Claro que as minhas filhas têm sido penalizadas pela voracidade da minha actividade profissional. Não é nada de que eu me orgulhe particularmente… Tenho dúvidas sobre a teoria de que o importante é a qualidade do tempo que se passa com os filhos mais do que a quantidade”, questiona a jornalista. E vai mais longe: “Lamento que, hoje, muitos jornalistas, e também profissionais de outras áreas, mulheres mas também homens, sejam penalizados por dedicarem tempo à família. Como se passar por cima da vida familiar ou pessoal estivesse no campo das virtudes de um bom profissional.”

Para evitar confusões neste campo, Alberta Marques Fernandes usa a sinceridade. “A minha prioridade está bem definida: a família vem primeiro, não o trabalho. Adoro a minha profissão, mas sei que se algum dia me obrigarem a escolher entre uma e outra coisa, escolho a família”, garante a jornalista da 2:, justificando-se: “Valoriza-se demasiado o trabalho. É certo que ele pode preencher-nos, mas não nos dá a felicidade de uma família ou de um filho. Quem acha isso, mais cedo ou mais tarde, apanha uma grande desilusão e arrepende-se do rumo que deu à sua vida.”

Manuela Moura Guedes: vestido Boss Woman, no El Corte Inglés; sapatos Sérgio Rossi, na Stivali; relógio e anéis, Cartier. Fátima Campos Ferreira: vestida em exclusivo por Fátima Lopes, e calçada por Scarpin. Alberta Marques Fernandes: smoking Yves Saint Laurent, na Stivali; top Sintesis; sapatos Louis Vuitton; jóias de Manuel dos Santos Jóias.

 

Cabelo por João Chaves. Maquilhagem de Inês Varandas, assistida por Eduardo Costa. Agradecemos a colaboração das marcas envolvidas nesta produção e do Palacete S. Pedro de Alcântara, em Lisboa.














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