|

 |
|
 |
|
Não
há como evitá-lo. Quando Marisa Cruz assume
o look de Marilyn Monroe, no filme de António da
Cunha Telles, Kiss Me, é difícil não
ficarmos boquiabertos de espanto pelas semelhanças.
Será esta uma construção da memória
cinéfila do realizador e produtor ou uma revelação
– um nascimento? – de algo que já pertencia
à modelo e, agora também, actriz? A questão
é difícil e provavelmente só será
esclarecida com o visionamento do filme.
Uma coisa é certa: por alguns momentos, a cidade
de Tavira dos anos 50 como que se transforma numa espécie
de Hollywood dos nossos sonhos. E faz reviver algumas
histórias de amor impossível, com homens
marcados pelo passado e mulheres fatais. Marilyn é
o ícone, mas sente-se ainda a presença de
Lana Turner e até de Gene Tierney, através
da subtileza do nome escolhido, que é também
uma quinta-essência do film noir.
E eles? Também lá estão, claro. Mas
mais do que um excelente cast de actores, encabeçado
por Manuel Wiborg, Rui Unas, Nicolau Breyner e Marcantonio
Del Carlo, percebe-se ainda a revelação
de outra (inesperada) actriz, Clara Pinto Correia.
Para Marisa Cruz, este filme poderá ser a rampa
de lançamento para voos mais altos. É verdade
que um filme não faz uma actriz, mas o caminho,
esse, está aberto.
Marisa Cruz, que tem
trabalhado como modelo, considera que o teatro
e o cinema já fazem parte da sua vida,
embora só recentemente tenha dado os primeiros
passos como actriz. |
Parabéns pelo seu filme.
Ficou satisfeita com o resultado?
Quando o realizador fica satisfeito, uma actriz sente
que tornou uma personagem realidade. Gostava de ter a
opinião das pessoas. Durante meses, depois da rodagem,
só pensava nisso.
Vai ficar nervosa
com a estreia?
Claro... Mas estou mais na expectativa de saber a opinião
do público e da crítica do que propriamente
nervosa.
Mais do que antes de saber o veredicto que a consagrou
Miss Portugal?
Pergunte-me no dia da estreia.
Como foi que surgiu esta oportunidade de se estrear
como actriz?
Fui convidada para um casting pelo realizador António
da Cunha Telles e durante quase um Verão, entre
ensaios e testes, aguardei ansiosa, entre outras candidatas,
a oportunidade. Fiquei muito feliz quando o António
me escolheu, mas também nervosa com o peso da responsabilidade.
No entanto, senti que ele tinha muita confiança
em mim e isso acalmou-me.
Considera-se já uma actriz?
Estou a começar… embora tenha, entretanto,
participado numa peça de teatro. Acho que ainda
tenho um longo percurso à minha frente.
Teve alguns estudos de representação?
Trabalhar com o António da Cunha Telles, que me
dizia para ser eu própria, para ser natural e me
deixar ir…
Gostaria de poder seguir também esta carreira?
O teatro e o cinema fazem agora parte da minha vida. Sempre
vivi fascinada pelo cinema. Desde criança. Agora,
estou mais próxima da realidade.
O que acha que procura
Laura? Amor, carinho, compreensão?
Procura tudo isso e também liberdade. Mas, às
vezes, é difícil conciliar tudo. E é
o que se passa com a própria Laura. Perde-se por
entre o desejo, mas nunca pára de lutar por uma
felicidade.
Concorda que a personagem de Laura é intemporal?
Que revela, de certa forma, parte da condição
feminina?
Laura é, para Tavira, um mito, como Marilyn o é
para o mundo. As mulheres são intemporais, enquanto
não caem no esquecimento. Para mim, são-no
enquanto forem amadas.
De que forma o António da Cunha Telles
a ajudou a entrar nesse papel?
Obrigando-me a ser natural. E aconselhou-me a ver todos
os filmes de Marilyn.
Como foi trabalhar com ele?
Óptimo, é uma pessoa muito acessível,
que nos põe à vontade para representar,
que trabalha muito as personagens e exige que contribuamos
com muito de nós mesmos.
Gostava também que falasse um pouco acerca
dos vários homens de Laura. Sem esquecer a forma
como encarou o trabalho individual de cada um dos actores.
Laura é amada por todos. De forma possessiva pelo
Manuel Wiborg, desenvolvendo uma paixão irracional
e quase ilegal. Uma loucura, mas o mais verdadeiro de
todos os amores. O professor, protagonizado pelo Rui Unas,
ama-a de uma forma pura, doce mas autista, pois Laura
é uma mulher animada também por desejos
que ele não vai ser capaz de perdoar. Finalmente,
o Sr. Almeida, interpretado pelo Nicolau Breyner. Compreende-a
ou, se calhar, aceita-a, contempla-a, espera. E é
quase como um anjo da guarda que aparece sempre que Laura
precisa. Mas não posso contar com quem é
que ela fica no fim. Terão de ver o filme...
 |
Cenas de Kiss Me, um
filme de António da Cunha Telles que aborda
a complexidade do ser feminino no Portugal dos
anos 50. Através de Marisa Cruz, a figura
de Marilyn Monroe é constantemente evocada.
|
E como foi trabalhar com o Nicolau Breyner?
A primeira vez estava muito nervosa, pois na primeira
cena do filme tive logo de contracenar com ele. Mas a
sua segurança e simpatia contagiaram-me.
E com a Clara Pinto Correia?
Adorei. Uma mulher fabulosa, cheia de glamour.
Para a Clara, foi também
uma estreia. Sentiu que, por isso mesmo, houve alguma
empatia entre as duas?
Acho que a nossa relação foi para além
disso.
A presença, ainda que indirecta, de Marilyn,
serviu para aumentar o seu interesse e empenho em obter
o papel de Laura?
Na realidade, não. Sei que as pessoas me comparam
com ela e que isso pode ter influenciado a escolha que
o António fez. Talvez… Somos as duas sensíveis,
mas a vida que a Marilyn teve nada tem a ver com a minha.
A não ser ambas acharmos que os diamantes são
os melhores amigos das mulheres... (risos)
Houve algum filme de Marilyn de que tivesse gostado
em particular?
Some Like it Hot [Quanto Mais Quente Melhor] foi aquele
de que mais gostei. É o mais divertido. Mas, para
a personagem de Laura, o Misfits [Inadaptados] é
o mais importante. Nesse filme, ela está mais actriz,
mais dura, e representa um pouco a Laura do final do filme.
Está preparada para as naturais (e óbvias)
comparações que a imprensa irá fazer?
Não há comparação possível.
Há muito que a imprensa me compara com a Marilyn.
Ela foi, ou é ainda hoje, um ícone do cinema
americano que sempre admirei. Mas que nunca tentei copiar
ou imitar.
Como reage à imagem de sex symbol que lhe tem sido
associada?
As opiniões são como os umbigos: cada um
tem a sua. Há muito que me rotulam de sex symbol.
Até agora, não me tem incomodado nem me
preocupa muito.
No filme, teve de experimentar algumas cenas mais
difíceis. Falo concretamente das cenas de nudez,
mas também de alguma violência. Como actriz,
sentiu alguma dificuldade em interpretar essas cenas?
Uma actriz é isso mesmo. Senti-me sempre muito
apoiada. Tentei dar o meu melhor no desenrolar de todas
as cenas. E a única que realmente me custou foi
chorar quando a Laura descobre a morte da Marilyn. E incomodou-me
também pensar que existem mulheres que, na sua
vida, passam por situações idênticas
à da Laura.
Que idade tinha quando se estreou como modelo?
Dezasseis anos.
Creio que foi com o incentivo da sua mãe,
não foi?
A minha mãe estava--me sempre a dizer que eu tinha
de me inscrever no concurso de Miss Portugal, mas nunca
pensei que passasse da pré-selecção.
Curiosamente, li algures que até não se
achava muito bonita.
A fase da adolescência é sempre complicada
para todas as mulheres…
Nessa altura, tinha já uma ideia do que gostaria
de ser quando fosse grande?
Em criança, queria ser médica ou veterinária,
aliás, como todas as crianças depois da
fase em que todas queremos ser princesas… (risos)
A sua imagem sexy e
o papel desempenhado em Kiss Me podem ser a rampa
de lançamento para uma inesperada carreira
cinematográfica |
De que forma mudou a sua vida
desde que conheceu a Fátima Lopes?
A Fátima é provavelmente a minha melhor
amiga. Tem-me dado força para avançar, sei
que posso contar com ela. Quando mudei para a Face Models,
em 1998, senti que podia confiar e estou muito orgulhosa
por ser sempre uma das escolhidas para apresentar as suas
criações.
Que outras pessoas marcaram o seu percurso de
vida e carreira?
A minha mãe. E o José Carlos. O condão
que tinha em fazer uma mulher sentir- se especial e no
seu melhor…
Como gosta de ocupar o seu tempo livre?
Tempo livre é um “bem” que quase não
tenho. Mas gosto de passear, ler, namorar ou simplesmente
não fazer nada. Agora, estou a ler O Código
Da Vinci.
Gosta de praticar desporto?
Sim, gosto muito de praticar ioga.
Isso ajuda-a a encontrar o seu equilíbrio?
Muito. Já não sou capaz de estar fechada
num ginásio, preciso de estar ao ar livre.
Como encara o futuro? Tem novos projectos para
concretizar?
Já são uma realidade. Em breve, vão
poder ver-me no pequeno ecrã… Mas, para já,
não queria adiantar muito mais sobre isso.
Tanto quanto sei, é um programa de televisão
sobre beleza. Já existe alguma ideia concreta?
Já…
Para finalizar, não lhe passa pela cabeça
ter uma criança, como a Laura? A maternidade faz
parte dos seus planos para o futuro?
Como acontece com todas as mulheres. |

|

|
|
 |