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INTIMIDADE

Um estudo americano vem afirmar que há umas décadas o sexo era mais gratificantee praticado com maior frequência.
Fomos saber se é verdade.


MARIA JOÃO VIEIRA
 

Em 1953, o Kinsey Institute publicou o primeiro estudo sobre o comportamento sexual das mulheres. Agora, o seu actual director, John Bancroft, veio dizer que nessa altura os casais tinham mais e melhor sexo: “Hoje, estão sobrecarregados com as carreiras de ambos e com os filhos, e isto tem consequências na sua capacidade de apreciar o sexo.” Como se muito trabalho fora de casa não fosse suficiente, chama ainda a atenção para outras actividades que lhe disputam o lugar: “Depois de terem estado no centro comercial ou a ver televisão durante o tempo que lhes apeteceu, é evidente que não resta muita disposição para terem relações com o parceiro.”

Ou seja, o que Bancroft diz é que qualquer dona de casa norte-americana que na década de 50 passava os dias a fazer tartes de maçã e a ir buscar os filhos à escola tinha bastante mais actividade no quarto do que a sua filha que hoje, no início do século XXI, trabalha fora de casa.

“Isso pode ser verdade na América, mas não acho que se aplique a Portugal”, diz Beatriz Rebelo, uma professora de liceu já reformada que tem hoje 67 anos: “Na década de 50 tínhamos tantos condicionalismos sociais, morais e religiosos que não creio que haja muitas mu-lheres que lhe digam que nessa altura o sexo era bom e frequente. Vivíamos na época do ‘parece mal’. Mesmo o que se passava dentro do quarto do casal era submetido a este conceito. E, além disso, também era pecado! Por isso, para as mulheres da minha geração, o sexo não era nem muito nem bom. Enquanto éramos solteiras, era um mistério. Depois de casadas, passava a ser uma obrigação que cumpríamos como muitas outras. A única vantagem desta é que nos dava filhos…”

Maria Isabel Alves, 72 anos, dona de casa, concorda: “Se não tivesse ficado viúva aos 29 anos ainda hoje não sabia o que era um orgasmo!” Só depois de casar pela segunda vez Maria Isabel descobriu que o sexo podia ser um prazer. “Com o meu primeiro marido era a obrigação que se cumpria uma vez por semana e não tinha graça nenhuma. E só decidi casar outra vez porque tinha dois filhos muito pequenos, um com três anos e o outro com cinc
o, e pensei que eles precisavam de um pai. Foi uma das me-lhores decisões que tomei em toda a mi-nha vida porque o meu segundo marido era um homem invulgar para a nossa geração e para o país em que vivíamos. Com ele, o sexo foi sempre excelente, divertido e sem dia nem hora marcados. Era sempre que nos apetecia. E nunca era pecado!”

Maria Isabel admite que o seu caso é um exemplo raro na sua geração: “Pelas conversas que tive, ao longo da vida, com as minhas amigas mais íntimas, percebi que o modelo do meu primeiro casamento é que era a regra.”

Joana Sousa, bióloga, 32 anos, admite: “Não faço ideia se a minha mãe tinha mais e melhor sexo do que eu ou não. Mas sei que já tive melhor, quando era mais nova e namorava. Depois de ter começado a trabalhar, as coisas complicaram-se. E o nascimento dos filhos também não facilita as coisas. Às vezes, lembro-me dos anos em que ainda andava na Faculdade, namorava o meu marido e fazíamos amor todos os dias, estávamos sempre prontos, apetecia--nos sempre. E parece-me impossível, acho que foi noutra vida qualquer, ou que aconteceu com outras pessoas. Até cheguei a pensar: ‘Se calhar já não gosto de sexo!’ Mas não! Ainda gosto imenso e o meu marido também porque há uns meses resolvemos deixar os miúdos com os meus sogros e ir passar um fim-de-semana sozinhos e foi fantástico. Como costumava ser há muitos anos.”

Há quem atribua a culpa a coisas bem mais caricatas do que o cansaço ou a falta de tempo. “A casa!”, exclama Leonor Gouveia, secretária, 40 anos. “Quando o meu filho mais novo nasceu, trocámos de casa e na primeira noite em que dormimos na nova ouvimos tudo o que estava a acontecer no quarto dos vizinhos de cima. Não bastava ter cuidado para os meus filhos não me ouvirem, também tinha de fazer os possíveis para que o prédio inteiro não ficasse a saber. Nos últimos anos, a qualidade da construção em Portugal tornou as nossas vidas muito promíscuas. Os meus vizinhos sabem sempre quando é que eu puxo o autoclismo, eu sei quando é que a vizinha de cima faz amor com o marido, quando é que a do lado toma duche, quando a de baixo muda de canal… isso é muito inibidor!”

Luísa Almeida, 38 anos, tradutora, garante que o sexo melhorou depois de ela ter resolvido deixar o emprego: “Há dois anos resolvi começar a trabalhar em casa, como free-lancer. Queria ter mais tempo para mim e para a minha família. Na altura não pensei em sexo, mas essa foi a primeira me-lhoria na minha vida. Na primeira semana, eu e o meu marido fizemos amor três vezes. Lembro-me de termos conversado sobre isso! E nestes últimos anos, a minha vida melhorou em imensos aspectos e o sexo foi, sem dúvida, um deles. Hoje, é mais frequente e com muito mais qualidade.”

José Pacheco, psicólogo clínico e responsável pela Consulta de Sexologia e Aconselhamento Conjugal do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, tem algumas dúvidas se este testemunho dará razão ou não a John Bancroft. “Conheço muito bem John Bancroft que é, sem dúvida, uma autoridade mundial em matéria de sexologia. Tal como conheço muito bem o Kensey Institute. Mas não conheço os dados que o levaram a fazer essas declarações. A observação dele é potencialmente justa porque o facto de as mulheres estarem em casa lhes dava mais tempo. Mas seria mesmo assim? É bom não nos esquecermos de que, na década de 50, o trabalho doméstico era bastante mais difícil do que é hoje porque havia muito menos electrodomésticos e os que existiam não eram tão eficientes como os que existem hoje. E se os homens tinham direito ao prazer, isso não era evidente no caso das mulheres. É claro que hoje a falta de tempo está a ter efeitos devastadores na vida dos casais, sobretudo nos mais jovens, que estão a começar as suas carreiras e que trabalham 70, 80, 100 horas por semana e que quando chegam a casa querem dormir, não querem sexo. Mas isso não é suficiente para que se possa dizer que dantes é que era bom. Pode ser que sim e pode ser que não!”














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