

|
EM DESTAQUE
|
|
Viciadas
no trabalho
por
Isabel Nery Ilustrações de Júlio Vanzeler
|
Em vez de mais tempo livre, a tecnologia
trouxe trabalho acrescido. As mulheres não escaparam às teias
desta trabalhocracia. Aceitam estar sempre disponíveis. E
até abdicam da licença de maternidade. A carreira profissional
tornou-se um vício?
Nos
últimos anos, a vida de Carolina Fonseca, de 38 anos, tem sido
ditada pelas exigências do Todo Poderoso Tra- balho. Começou
a sua carreira como secretária e hoje, 15 anos mais tarde, é
administradora da grande empresa de construção onde deu os primeiros
passos profissionais.
Uma carreira conquistada a pulso, tanto mais que nem a sua humilde
origem nem as suas parcas habilitações deixavam antever tamanho
sucesso. A ambição de chegar onde mais ninguém na família chegara
era a sua grande motivação. O gostinho especial de liderar os
doutores e engenheiros que a olhavam do alto dos seus diplomas,
deu uma ajuda.
Em
troca, entregou o corpo e a alma, numa dedicação exclusiva que
nem os quatro filhos conseguiram abalar. De manhã à noite, os
telemóveis (vários) têm de estar sempre ligados, as férias são
interrompidas a qualquer momento. Descanso, nem vê-lo. Tempo
para a família, só em sonhos. O último jantar com os amigos,
se é que ainda o são, foi há tanto tempo que já ninguém se lembra.
É o retrato típico dos viciados na carreira que chegam
ao consultório de um psiquiatra de Coimbra, Adriano Vaz Serra:
"O trabalho como aspecto principal da vida cria exigências sobre
exigências. As pessoas esquecem-se que vivemos em três ambientes
diferentes - o da família, o social e o do trabalho. Temos de
cuidar de todos, para que haja equilíbrio."
Ao
sucesso profissional de Carolina foi também correspondendo o
crescimento da empresa. Mais clientes, mais responsabilidades,
mais disponibilidade, mais remuneração. Os gastos foram-se avolumando.
Pela necessidade de se vestir impecavelmente para cada reunião,
pela casa faustosa que o marido insistiu em comprar, pela exigência
interior de mostrar ao mundo as suas conquistas.
Essencial na formação da identidade de cada um, a realização
profissional também se pode tornar doentia. "A satisfação exclusiva
no trabalho rouba tempo para os outros ambientes. O que é saudável
é ter um pouco dos três. É como um menu. Se comemos sempre o
mesmo, fartamo-nos", defende o psiquiatra, autor do livro O
Stress na Vida de Todos os Dias.
O corpo é o primeiro a fartar-se. "O nosso organismo é sábio.
Avisa-nos quando estamos a ultrapassar os limites. A perda de
sono, o medo, a ansiedade e o pânico são sintomas de que alguma
coisa está a ser a mais. Depois vem a depressão e, com ela,
uma enorme fragilidade do sistema imunitário." (ver caixa).
Tudo estaria bem se a mais trabalho correspondesse mais felicidade
e satisfação profissional. Mas Carolina passou a acordar e a
adormecer à força de comprimidos. Até que se tornou impossível
deitar a cabeça na almofada. Insónias, faltas de ar sem motivo
aparente, ataques de nervos. O seu bem mais escasso, o tempo,
teve de chegar para desabafar com o psiquiatra. No consultório,
deixa a voz do seu cansaço, dos sentimentos de culpa por não
ter tempo para os filhos, e do medo de falhar.
O nascimento da quarta criança podia ter sido um sinal de que
chegara a hora de abrandar. Mas não. Um mês depois de vir ao
mundo, o mais jovem rebento de Carolina já tinha sido trocado
pelas reuniões da mãe. Decisões e problemas inadiáveis chamavam-na
à empresa.
Os homens também são dominados pelo trabalho,
mas o ónus da disponibilidade para a família continua a ser
menor. Para atingir cargos de chefia, as mulheres são muitas
vezes aconselhadas a "trabalhar como um homem". Mas quando chegam
a casa, continuam a ter de ser mulheres (portuguesas), o que
implica uma obrigação de dedicação à família superior à masculina.
Por muitas empregadas que se possam contratar, esta ainda é
a constante da mentalidade nacional.
Os colegas olham para elas como máquinas, cuja única fonte de
energia é a ambição. Mas, muitas vezes, são movidas apenas pela
insatisfação permanente ou pelo medo de, como os computadores,
se tornarem obsoletas na vida da empresa.
Num mundo em que a produtividade é o principal indicador de
sucesso, os viciados no trabalho são cada vez mais frequentes.
Mas, como em todas as obsessões, há personalidades com maior
propensão do que outras. "Quem aposta tudo no trabalho, foi
moldado nesse sentido. Quase sempre são pessoas extremamente
competitivas e desconfiadas. Quando levam a carreira demasiado
a sério, tornam-se hostis para se imporem e afastarem possíveis
concorrentes. Querem ser protagonistas, apreciadas e notadas."
Os patrões foram atribuindo mais e mais competências a Carolina,
sem nunca se questionarem sobre a racionalidade das suas exigências.
Bem sucedida, a administradora sente-se louvada pela confiança
que depositam nela. Mas até quando? "Dão-lhes cada vez mais
coisas para fazer, mas estão a pregar-lhes uma partida. Mais
exigência equivale a mais gratificação. Estar na moda torna-se
uma forma de estatuto. A certa altura, é um ciclo vicioso",
afirma o psiquiatra.
Matar-se
a trabalhar
O
trabalho passou de mero garante de sobrevivência a
factor imprescindível de satisfação. Para consegui-la
há que ser reconhecido, o que depende geralmente de uma
enorme dedicação. O problema é que são cada vez mais as
pessoas que fazem desse esforço uma fatalidade. A expressão
"matar-se a trabalhar" está a tornar-se literal. Vários
estudos indicam que há uma forte ligação entre as relações
de hostilidade, o tempo a mais no escritório e a deficiência
cardíaca.
Quando os ataques cardíacos se verificam em
pessoas jovens, o trabalho, ou a forma como se lida
com ele, é o principal culpado. De acordo com o livro
O Stress na Vida de Todos os Dias, de Adriano Vaz Serra,
verificou-se que "indivíduos com menos de 45 anos de
idade a trabalhar mais de 48 horas por semana tinham
um risco duas vezes superior ao normal de sofrerem de
doença cardíaca coronária, quando comparados com outros
indivíduos da mesma idade a trabalhar 40 ou menos horas
por semana".
Além dos ataques cardíacos, as pessoas dominadas
pelo trabalho sofrem com frequência de tensão alta e
depressão. A família é a primeira vítima: "O trabalho
tem uma influência muito maior sobre a família do que
o inverso. Apenas as condições de vida extrema, tais
como o divórcio ou o falecimento do cônjuge, parecem
afectar o trabalho. A satisfação e o stress encontrados
no trabalho ditam muitas vezes o tipo de relação familiar
que se tem", lê-se no mesmo livro.
|
O preço da fama é quase sempre demasiado elevado. "Estas
pessoas não percebem que, para a empresa, são apenas um número.
Quando aparece outro melhor e são substituídas, é uma frustração
medonha, que se agrava porque não houve investimento nos outros
ambientes. Não têm onde se apoiar. Mais tarde ou mais cedo,
quem vive só para o trabalho acaba por pagar o preço do isolamento,
problemas do coração e tensão arterial", alerta Adriano Vaz
Serra.
No mundo laboral, já não há problemas exclusivos do sexo masculino.
"Há questões que antes só afectavam os homens e agora também
afectam as mulheres, como os conflitos de trabalho e a adaptação
a tecnologias. Elas têm mais tendência para a depressão. Por
isso, pode ser especialmente complicado."
É um facto que a personalidade influencia a forma como se
vive - ou se mata - a trabalhar, mas não é menos verdade que
a sociedade molda as pessoas no sentido de classificarem a
profissão como prioridade número um. As mulheres sentem-se
cada vez mais vítimas dessa tirania laboral. Tentam vingar
num mercado de trabalho de lógica masculina, que as obriga
a esquecerem-se de ser mulheres.
Nos últimos meses, vários jornais anglo-saxónicos deram conta
do conflito interior de muitas mulheres de carreira. Se as
primeiras feministas andavam revoltadas, as de hoje sentem-se
tristes. Deram tudo por tudo para mostrar que eram tão competentes
como os homens. E conseguiram. Mas à custa de um direito fundamental
- o da maternidade. Actualmente, 42 por cento das norte-americanas
em cargos executivos não tem filhos e a maioria está arrependida
dessa decisão.
Em Portugal, não querer descendência é uma excepção. Mesmo
assim, é um sonho que se concretiza cada vez mais tarde, o
que contribui para o aumento dos casos de infertilidade.
Lúcia Pires, de 43 anos, directora de uma multinacional, foi
adiando, adiando. Até que se tornou tarde de mais. Não foi
exactamente uma escolha, mas também não se queixa do seu destino.
Apaixonada pela profissão, sente-se realizada e está segura
de que não teria subido tanto se tivesse sempre alguém à espera
para jantar.
página
seguinte >>>
|
|
| |
|
|
|