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FAMÍLIA


Nos nossos dias atarefados, é muito difícil arranjar tempo para conversar com as crianças. Portanto, nem pensar em renunciar à refeição da noite todos juntos! É um momento privilegiado para comunicar. Nada substitui as verdadeiras conversas.


Por Laurence de Calan

Comunicar em família é essencial e, neste ponto, psicólogos e psiquiatras são unânimes. Com a mãe, de uma forma tranquilizadora, sensorial. Com o pai, para se abrir ao mundo. Com os irmãos, os tios e os primos, para o humor. “Isso tece a trama do cérebro e deixa uma marca”, informa a pediatra Edwige Antier*, que prega uma constante comunicação, desde o ventre materno até à saída de casa dos pais: canções e palavras ternas sussurradas ao feto, brincadeiras com o bebé, histórias à noitinha, de que toda a criança precisa, pelo menos até aos 10 anos. Se uma criança em cada cin- co tem dificuldade em compreender um texto quando entra para a escola, isso deve-se, segundo ela, à falta de comunicação.

FAMÍLIAS MONOPARENTAIS
DISCURSO VERDADEIRO

Verónica, de 16 anos, Tomás, de 13, mãe estilista. “Mantive a empregada que ele conhece desde os quatro anos. Ele fala muito com ela. Os meus filhos sabem que podem ir almoçar a casa. Quando chego a casa à noite, está tudo pronto. Juntamo-nos para jantar na cozinha, com os telemóveis desligados.” Com o rapaz, é um pouco mais difícil dialogar. “Ele tem lá o seu mundo de jogos vídeo. O humor neutraliza as disputas. Não somos obrigados a falar de coisas sérias.” Outro ritual: uma viagem por ano, e os almoços de domingo com a tia e com a avó. “Organizo a minha vida para estar em casa à noite. Quando não é possível, está a minha mãe ou a minha irmã. Está sempre alguém.”
FAMÍLIA NUMEROSA
DISCURSO TRANQUILIZADOR

Seis filhos dos 32 aos 13 anos. Pai engenheiro, mãe empregada em tempo parcial. Os três mais velhos já não vivem com os pais. O grupo mantém-se unido em torno da mãe. Os filhos não tratam os pais por tu e há regras estritas de educação. São proibidos os palavrões. Local de encontro: a cozinha. O pai recebe no escritório. Manteve-se fidelidade ao ritual do lanche. “Como na minha família”, suspira a mãe, nostálgica. “Às vezes, já nem saímos da cozinha até ao jantar!” Que tem lugar às sete e meia em ponto. Sem telemóvel nem televisão. Temas de discussão: amigos e férias para as raparigas (a quem André, de 18 anos, chama “tagarelas”); política, história e futebol para os rapazes. “Podemos falar de tudo. Temos os nossos códigos.” Confessam não convidar muitos amigos, bastarem-se a si próprios. “Não gosto de conviver com famílias diferentes”, admite André. A irmã acrescenta: “Continuamos adolescentes. Nenhum de nós casou ainda. Uma família unida dá força, mas não impele a sair de casa dos pais e torna-nos exigentes.”
FAMÍLIA COM FILHO ÚNICO
DISCURSO OMNIPRESENTE

Paulo, 17 anos. Pai arquitecto, mãe tradutora. “Não acho que ser filho único seja um defeito”, diz a mãe. “Quando se tem uma vida profissional, social e de convívio com amigos rica. Converso imenso com o Paulo, partilhamos as nossas experiências, temos sempre qualquer coisa para contar.” Na cozinha, à noite, sem televisão, embora o Paulo não consiga evitar ter o telemóvel por perto. “É só para saber se alguém ligou! A minha mãe conversa muito comigo, o meu pai usa mais o humor. Falar com amigos ou falar com a família é diferente, mas eu gosto das duas. E também gosto de falar sobre os meus estudos com a minha avó.” Nas férias, o Paulo passa cada vez mais tempo com os amigos. E com os pais? “Em pequenas doses.”
FAMÍLIA DA PROVÍNCIA
DISCURSO EQUILIBRADO

Três filhos de 21, 20 e 18 anos. Pai director de uma empresa. Mãe responsável de comunicação, instalados numa grande cidade de província há 10 anos. “Sem comunicação, tudo se agrava”, diz logo a mãe, especialista na matéria. Julia, estudante de Psicologia, concorda. “Não se pode recalcar tudo. O melhor é exteriorizar, tanto o bom como o mau. O importante é ser-se genuíno.” Vantagem da província: vai-se almoçar a casa. “Reforçámos a nossa educação, estamos mais disponíveis e vigilantes. Na capital, era mais laxista. Desfrutamos melhor dos nossos amigos, das avós que vêm passar uns dias.” Ao jantar, nem televisão (excepto se houver uma emissão que suscite debate) nem telefone. Uma regra do pai, e que se aplica também à mãe! “Eles exigem que estejamos todos às refeições. Não há assuntos tabu. Tentamos equilibrar os tempos de conversa e os de estar com eles individualmente. Se se comunicar ainda bem novo, isso fica para o resto da vida.” O mais velho esteve um ano viciado em jogos vídeo. “Era horrível”, recorda a mãe. “Quando ele parou, foi como se tivesse retomado a própria vida...” Outras situações de conversa: o desporto e as viagens. “Andamos muito à beira-mar. O passeio pela docas é óptimo para se falar!”
FAMÍLIA RECONSTRUÍDA
DISCURSO INVENTIVO

Três rapazes, dos 33 aos 18 anos, de casamentos anteriores. Pai galerista, mãe publicitária. O mais novo vive ainda num loft nos arredores, com o padrasto. “Conheci-o quando era ainda muito pequeno. Apoiámo-nos um ao outro”, diz. “Ele sempre respondeu às minhas perguntas e isso ajudou-me a crescer.” António reconhece que, com o pai, a casa de quem vai ao fim-de-semana, a comunicação não é tão fácil. O jantar é o momento do encontro diário. Excepto para o António, que a seguir vai ter com os amigos. “O meu padrasto e eu gostamos de retórica. Falamos de política, de economia, refazemos o mundo!” A mãe esclarece: “Discutem lá entre eles e eu eclipso-me.” Com a mãe, António comunica por alguns instantes roubados na cozinha, enquanto põe a mesa, aquando de um almoço comido à pressa. Outro local onde se conversa: o carro. Assunto pouco abordado: a profissão dos pais. “Isso daria pano para mangas”, diz António. Sob o olho atento da mãe – “Eu é que vou falar com os professores” – e sob o olho mais distanciado do padrasto – “Gosto tanto dele como um pai, mas não como pai.”
Numa altura em que está a desaparecer o modelo familiar herdado do século XIX, em que 40 por cento dos nascimentos em França, por exemplo, ocorre fora do casamento, em que os rituais se perdem e as gerações se confundem, em que as famílias monoparentais estão em expansão, em que os divorciados nem sempre conseguem preservar o par parental de que a criança necessita, como encontrar ainda as palavras?

“O diálogo em família é agora mais precioso do que nunca”, repetem os psicólogos e psiquiatras. “É o contrapeso da avalanche anárquica de estímulos do exterior. Uma criança precisa de referências, de hábitos, de rituais.”

Será que na família proteiforme de hoje (numerosa, só com um filho, clássica, reconstituída, monoparental, com filhos adoptivos, que trabalha em casa ou longe de casa), ainda se pode comunicar? “Fala-se uns com os outros muito mais do que dantes”, diz Edwige Antier. “Há mesmo uma explosão de comunicação. Na realidade, passou-se do silêncio à agitação!”

A abertura de espírito toma o lugar do “à mesa não se fala” dos nossos avós. O diálogo afectivo é mais precioso do que nunca. Aquele diálogo que se passa em nossa casa, com a nossa família. “Sem ele, os nossos filhos tornam-se tão frios como robôs.”

Mas, nas nossas vidas individualistas, nos nossos ritmos frenéticos, onde encontrar tempo? Ao jantar, ao fim-de-semana, nas férias. Porque é reconfortante, gostamos sempre de nos reencontrar. Apesar da televisão que, por vezes, até dá origem a debates interessantes. Se o pequeno-almoço tomado em conjunto quase desapareceu, se o lanche é um luxo só acessível a quem trabalha em casa ou em tempo parcial, se no resto do dia, na melhor das hipóteses, nos cruzamos uns com os outros, o jantar, esse, nunca foi tão valorizado. Em qualquer idade, admitamo-lo ou não, fazemos questão nesse encontro. Sim, mesmo os adolescentes. Não acreditem se eles disserem o contrário. Apesar da televisão e do computador no quarto, do maldito telemóvel que não cessa de nos cortar a palavra e desses sms que não substituem, de forma alguma, uma boa conversa.

“Muitos pais estão em conflito com os filhos adolescentes, mas eles deveriam ter confiança em si mesmos, naquilo que são, nos seus valores”, diz a psiquiatra Patrice Huerre**, que dirige a clínica universitária Georges-Heuyer, em Paris. “Os pais fazem perguntas aos adolescentes mas não falam de si próprios, dos seus sentimentos, das suas emoções. Tudo aquilo que o jovem tem dificuldade em exprimir.” Podemos falar sobre o nosso trabalho, excepto se for para nos estarmos sempre a queixar. Não é porque os nossos filhos nos dão cabo da cabeça e nos criticam que vamos deixar de dialogar. Antes pelo contrário!

“Os pais, a família, continuam a ser para eles o valor mais importante”, explica Patrice Huerre. “Mesmo se isso os exaspera. Facilmente nos dizem ‘Dás-me cabo da cabeça’, mas se não falamos com eles, sentem-se abandonados. Têm esse paradoxo de como se desligarem sem romper. Os conflitos de comunicação nessas idades não são um mau sinal. Permite-lhes gerir os seus conflitos internos.”

Compete-nos a nós sermos pacientes, encaixar, perseverar. Criar situações de diálogo. Por exemplo, fazer compras juntos sem se irritarem... Ajustar, em função da nossa herança da nossa própria adolescência. Chegar a uma solução de compromisso, exigindo a presença deles não a todas as refeições, mas às que combinaram em conjunto. “Estes encontros são salutares. O adolescente quer conhecer as suas raízes. Gosta da convivência.” Daí a importância das refeições alargadas e dos avós. “Eles falam-lhes sobre a adolescência dos pais. Numa época em que tudo se acelera, é ainda maior a necessidade de transmissão.” Não existe um modelo para a paz familiar, conclui Patrice Huerre. “Nunca é perda de tempo falarmos com os nossos filhos”, acrescenta Edwige Antier. Está tudo dito.


* Publicou Vive l’Éducation! (edições Robert Laffont) e participa no programa Enfance, da France Inter ** Autora de Ni Anges ni Sauvages, Les Jeunes et la Violence (edições Anne Carrière). Publicou, com a jornalista Laurence Delpierre, Arrête de me Parler sur ce Ton! (edições Albin Michel)













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