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Atravessando o jardim, a relva envolve as árvores imensas e as plantas bravias arrumam-se em canteiros rasos, o percurso até à Casa das Histórias é plano, bom para o exercício de desejo e expectativa. É Dalila Rodrigues, a directora da Casa, quem avança de braços abertos, já entramos, e daí a pouco é na sua sala de trabalho que Paula está com a filha Carolina.
Ali mesmo ao lado, já a preparar-se para a inauguração do Museu, alinham-se as telas de grandes dimensões, as gravuras, os esboços e desenhos. Neles a pintora exprime em forma e cor a condição da mulher, numa viagem pelos cantos mais tremendos e secretos da natureza humana. “O meu trabalho começou por ser político,” diz. Ela refaz as personagens das histórias universais para desenhar o amor e a morte, o horror e a compaixão, a maldade e a ternura, a solidão.
Ternura e crueldade
Denuncia um mundo marcado pelo poder, em que o ambiente doméstico é opressor, em que a própria família se transforma num espaço político, porque as mulheres violentadas se querem dóceis, mas lutam e resistem para sobreviver: “No espaço da casa acontece a ternura e a crueldade, desde que a gente é criança que vamos aprendendo a safar-nos.”
Para dizer o seu trabalho, Paula Rego não fala de “pintar”, mas de “fazer”. Não usa “obras”, mas “coisas”. O seu trabalho concretiza-se, e a palavra é importante, porque os quadros não são decorativos nem leves de cores e motivos. Exigem esforço, procura, experimentação. A obra é testemunho, compromisso, luta. Nos anos 50 e 60 fez “quadros baseados em coisas políticas, colagens sobre a guerra de África”. Hoje, assume um outro tema como causa para a sua intervenção nas desordens deste mundo: “Sobre a situação da mulher em Portugal, fiz várias coisas, a mais óbvia são os quadros sobre o aborto. Fiz de propósito uma série de quadros e além dos quadros fiz gravuras, como o Bartolomeu [Cid] fazia. Os quadros são capazes de se vender, e ficam as gravuras para fazer propaganda.” Em 1998, Paula Rego manifestou-se indignada com o resultado do referendo, que continuou a considerar o aborto como crime. Os únicos quadros “sem título” na sua obra afirmam-se deste modo como manifesto político, porque o próprio acontecimento não pode ter nome. É impronunciável, assim como o sentimento das pessoas que vêem nas telas de Paula Rego os corpos das mulheres estendidas e entregues ao sofrimento e à solidão, depois do aborto clandestino. O horror provoca a compaixão.
| As regras que a obra da pintora contesta: “São três ordens dadas à mulher em casa: Ser obediente. Respeitar pai e mãe. Respeitar o marido.” |
Determinada, Paula Rego sustenta-se em casos reais: “Sou completamente engagée, sobretudo no que tem a ver com a mulher. É raro apresentar-se o sofrimento das desgraçadas que são sujeitas a sexual mutilation. Ouvi um homem explicar que lhes tiram o clítoris, raspam-nas por dentro, cozem-nas, põem-lhes um tubo para fazer chichi e sair a menstruação. Esperam que aquilo tudo seque e casam-nas.” Evoca recordações de infância: “Eu sei as injustiças, sinto-as. Na Ericeira as pessoas vinham pedir dinheiro para fazer o aborto. As cabras e as vacas, todas mortas, dão à costa. Uma vez, uma menina também deu à costa da Ericeira, toda morta, toda gorda e grávida. O marido tinha-lhe feito um aborto. Hoje já não é assim, mas não se suporta essa mentalidade, como se estivéssemos no século XIX.” No quadro A Sereiazinha, de 2003, a memória da cena persiste. Patética, ao amor segue-se a morte abandonada.
Com sarcasmo, Paula Rego inverte os papéis das mulheres e dos homens, ou troca-lhes os traços de personalidade, para dizer o absurdo dos papéis impostos conforme os sexos e a mentira ou a fraude das convenções. Nas pinturas inspiradas em Charlotte Bronte, representa Rochester entre mulheres virtuosas: “Jane Eyre, sendo ou não, foi má, tinha razão para ser má. Admiro-a muito. Admiro a resistência e a coragem.” Em O Crime do Padre Amaro, as mulheres à roda de Amaro denunciam-lhe a perversidade, sugerem o castigo. Sobre a figura da Mulher-Cão que por amor aparenta docilidade, Paula Rego diz, acompanhando as palavras com um gesto brusco de mão: “Ela está apaixonada, arreganha a boca e dá uma dentada que é de doer.” Recorrente, a figura da mulher capaz de reagir aparece noutros quadros, como em A Filha do Polícia, a rapariga que com um esfregão dá brilho à bota do pai, e com a boca exprime a repulsa. O instinto animal da humanidade aparece no traço e no desenho, a devorar entranhas, em modos de mutilação.

"O principal de um quadro é a história, não a pincelada, mas a tonalidade. Por isso este sítio é a casa das histórias" |
Paula Rego enuncia agora as regras que a sua obra contesta: “São três ordens dadas à mulher em casa: Ser obediente. Respeitar pai e mãe. Respeitar o marido.” Daí, o conflito nos corpos e rostos entre sexos e gerações, a sensualidade e o prazer, o sexo continuado em morte. Nos detalhes concretos dos quadros, ela pode desconstruir as relações entre mães e filhas invertendo-lhes as idades, exibindo o lado adulto das crianças e o lado infantil dos adultos. A solidão das mulheres na plenitude de vida, retratadas pela menina vestida de saia de pregas, que via nos anos em que, já casada com o pintor Victor Willing, viveu na Ericeira.
Paula Rego destabiliza as convenções sociais, com absoluta liberdade. Desassombrada, não lhe interessam as censuras, as opiniões negativas sobre o desconforto que provocam os seus quadros. Sobre a sua atitude, agradou-lhe o texto do crítico de arte Marco Livingstone: “Afável, encantadora e educada, deleita-se a demolir convenções sobre o comportamento aceitável e a deixar jorrar sem censura os seus mais negros e perversos pensamentos. Uma das razões pelas quais a sua obra mantém toda a sua força é o facto de ela há muito ter deixado de se preocupar com o que as pessoas pensam. Paula Rego prepara-se para o pior, não recua diante de nada e relata ao espectador a verdade do que sabe, imagina ou vê.”
Não recusa o elogio, mas corta a facilidade: “Faço coisas muito diferentes. É muito simpático as pessoas gostarem do que eu faço. Ando à procura de uma coisa que não se encontra, de uma coisa misteriosa. Muitas pessoas gostaram, mas não as viram para ver o que se está a pensar. Não há coisas belas, nem paisagens. Paisagens, não sei fazer. A beleza não chega, não é isso de que se anda à procura. Consegui fazer o grotesco belo. Há outro mistério sobre as coisas que têm um lado grotesco e belo, toda a gente tem isso. O grotesco é feio, é repugnante, faz nojo. Mas também é belo, tem a beleza feia, que pode provocar uma ternura. Como uma avó pequenina com um nariz pontiagudo, que andava nos Açores por entre don’t look now.”
Artista ou autora? A questão tem a ver com o instrumento de composição. “A autoria na escrita tem a ver com o uso da palavra, a pintura tem a ver com outra emotividade. Quando há uma tela enorme, há o prazerrrr de fazer um risco, mas depois nós precisamos de uma história que vai encher a tela. Enquanto se está a fazer, é preciso exagerar e arranjar a história. Com a palavra, vai-se procurando a maneira de a contar. A mesma coisa acontece no boneco, põe-se um bigode, uma vírgula é um bigode e pode ser várias coisas, está-se constantemente a mudar. Os bonecos são iguais às pessoas que nós vemos. A prática é muito importante, é preciso praticar. O principal de um quadro é a história, não a pincelada, mas a tonalidade. Por isso este sítio é a Casa das Histórias, há um enredo e uma história. Eu sempre fiz histórias, mesmo em pequena, aos 4-8 anos, desenhava histórias.”
Uma amizade amorosa
Paula Rego vive e trabalha em Londres, no atelier imenso acumula os elementos a que chama “formas”, indispensáveis ao desenho de pormenores concretos com que ilustra os seus “bonecos”. Para um recurso imediato, um acessório urgente, tem a quem recorrer: “Ao fim da rua tinha uma loja, que alugava roupa para o teatro. Eu levo as coisas de cá, até os chapéus da minha mãe. Tudo o que eu faço, faço em Londres. Cá tenho a liberdade mas não o hábito, junto lá tudo e faço as histórias portuguesas que me acontecem.” O atelier é o centro da sua vida, o lugar onde experimenta e esboça e desenha, horas sem fim. Nele, os modelos a que chama “seus”, que lhe são fiéis em absoluta dedicação. Em especial, Lila Nunes, “essa rapariga de Leiria que tratava do Vic”, o seu marido pintor falecido em 1988 depois de uma longa e dolorosa doença degenerativa. E também Anthony Rudolf, reconhecido no Reino Unido como autor de peças infantis e guiões para cinema e televisão: “O Anthony fez tudo o que eu lhe pedi e gosta de posar. Fez o Anjo, fez o Padre Amaro. E o Kafka. Quando o rapaz se transforma, ficou todo pendurado no atelier, atado com cordas para não lhe caírem os braços.” É rigorosa no trabalho, mas flexível para o bem-estar: “Todos os meus modelos podem levar as músicas que querem, levam os discos que querem ouvir, levam uns e acabam por ouvir outros. Só não podem mudar de posição, têm de ficar quietos. De 3/4 em 3/4 de hora, faço uma pausa, Lila é a única que aguenta ficar mais tempo.” E Anthony, uma amizade amorosa? “Um amigo!” – o que não exclui um tom amoroso na amizade. E o que é a amizade amorosa, para Paula Rego? “A gente pede uma coisa e depois eles fazem. São prestáveis, levam-nos ao cinema, guiam o carro…”
A modelo vestida de Presidente
Falamos de sentimentos e de emoções, o seu olhar é determinado e firme, mas não recusa a doçura e a tal compaixão que exprime a propósito das tristezas que nos são dadas por espectáculo. Sente, sim, essa dor. Mas, explica: “Não choro desde a morte do meu avô, tinha oito anos. Vieram-me dizer, eu chorei muito e depois não chorei por mais ninguém. Nunca mais tive a pena que senti, a surpresa e a pena profunda.”
Vem depois o caso do retrato oficial do Presidente Jorge Sampaio, que o encomendou para o Palácio de Belém: tinha a melhor boa vontade, mas não era capaz de ser um modelo sempre imóvel. A pintora crescia em angústia. Muito a sério, conta: “Em Londres, vesti a Lila de Presidente da República, pus-lhe uma carapinha e ficou bem. O Jorge Sampaio sabe que foi assim.” E vem a história de outros quadros: “A Nossa Senhora, que é a história da Virgem, foi ele, o Jorge Sampaio, que me pediu para pôr em Belém. A minha mãe tinha acabado de morrer, fiz o quadro com a minha neta, com uma amiga dela, com muitos amigos. Foi um pouco de transcendente com pessoas que conheço, gostei muito de fazer aquele quadro. Também gosto do painel da National [Gallery, em Londres], para fazer as santas inspirei-me num livro, La Légende Dorée, de Jacques de Voragine, onde os pintores antigos iam tirar as histórias de santas e também os milagres. Gosto de milagres, de mistérios que são resolvidos, acontecem sem a gente esperar. Não sou religiosa, não gosto deste Papa, é hipócrita e mau, mas há o aspecto dos milagres e das santas, que aprecio muito.” Tem estado a fazer mais um trabalho: “Há um sítio em Inglaterra, a Coram House, que tinha uma roda, para onde em 1740 mandavam as crianças abandonadas. Algumas, alguém levava, outras eram deitadas pela janela. Como a roda era sustentada por artistas, estou a fazer para lá um armário, que é uma espécie de oratório, com umas portas que se abrem. Por fora tem desenhos de crianças, e por dentro tem as figuras construídas, uma mulher a dar a maminha e um menino só. Para o consolar, há uma velha incontinente.”
Cansada pela agitação destes dias, sente-se feliz pelo Museu: “Está muito bonito. Com imaginação, sim, vai ficando cada vez melhor.” O amor? “Já amei muito, agora acabou. Felizmente. O amor é sofrimento.” O trabalho? “Muito trabalho. Cada vez trabalho mais. É uma sorte. É o melhor que há.”
Duas filhas casadas e cinco netas dos sete aos 22 anos que não falam português e vivem em Londres passam com Paula Rego estas férias de Verão na casa do Estoril. Victor Willing, o seu grande amor, não era crítico de arte, mas escreveu as mais bonitas frases sobre a sua obra. Daí a pouco, na produção para a fotografia, envolta numa capa, rematou, a rir: “Como o Capuchinho Vermelho, eu vim assim e assim vou, sem o Lobo.” Divertida e inesperada, Paula Rego também é assim. |
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