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DOSSIER







Isabel I de Inglaterra terá sido a primeira mulher a usar um relógio de pulso e um dos mais famosos foi feito para a rainha Maria Antonieta. Não é de agora que as mulheres sentem um fascínio especial por estes acessórios.

por Fernando Correia de Oliveira*

A “privatização” do tempo e a sua verdadeira “portabilidade” só ocor-rem quando, no início do século XVI, um relojoeiro alemão, da Floresta Negra, Peter Henlein, introduz uma forma revolucionária de força motriz no mecanismo – a corda enrolada em espiral. Até então, os relógios eram todos de grande tamanho, metidos em gaiolas de ferro, e extraíam a força para trabalhar através de pesos suspensos por cordas – quanto mais comprida a corda, maior a autonomia. Tratava-se de relógios suspensos em torres de igrejas, mosteiros, castelos, que “batiam” as horas, pois estavam geralmente ligados a sinos.

Com a miniaturização das máquinas do tempo permitida pela inovação de Henlein, uma classe burguesa europeia ascendente passa a orgulhar-se dos seus relógios “portáteis”, fossem eles de mesa, os chamados Ovos de Nuremberga, dada a sua forma e a origem de fabrico, ou de carruagem. Mas, tal como os de torre, apenas possuíam o ponteiro das horas, tal era a imprecisão dos mecanismos. O acto de “dar à corda” passava a ser agora executado através de uma chave, que permitia o enrolar de novo da mola.

De qualquer modo, os relógios assumem-se a partir de então como objectos que conferiam estatuto a quem os possuía. Os relógios de bolso, a partir de dada altura munidos de coroa (invenção simultânea da Bovet e da Patek Philippe, em 1839), em substituição da chave de corda, são primeiro encomendas de reis e imperadores, passam a ser objectos de culto de industriais e comerciantes, são chão profícuo para uma aliança que, desde logo, se firma entre duas artes – a Relojoaria e a Joalharia.


A PULSO

O passo decisivo na massificação do uso do relógio de pulso e no crepúsculo do relógio de bolso é dado com o desembarque das tropas norte-americanas em teatro europeu, durante a I Guerra Mundial (1914-1918). Desta vez, já não eram apenas os oficiais, também os soldados vinham equipados com relógios de pulso, às centenas de milhares, oferecidos pelo Estado, aquando da mobilização, tornados mais baratos por métodos de produção em série que um certo Sr. Ford (antigo relojoeiro) tinha aplicado aos automóveis… (um russo exilado, um tal Roskopf, tinha antes proletarizado o relógio de bolso, revolucionando os movimentos, ao poupar em metade das peças. Injustamente, em Portugal, “marca Roskopf” é, ainda hoje, sinónimo de má qualidade)
Um dos mais famosos relógios de bolso de sempre foi feito para uma mulher, a rainha de França, Maria Antonieta. Um seu cortesão encomendou-o em 1783 ao mais famoso relojoeiro de sempre, Abraham--Louis Breguet. Aliava o máximo da complicação mecânica – calendário perpétuo, cronógrafo, indicação de reserva de corda, etc. – a uma esplendorosa riqueza em ouro, esmalte e pedras preciosas na caixa. O relógio só ficou pronto em 1802, 10 anos após a morte da rainha. Depois de várias atribulações desapareceu, num assalto a um museu de Jerusalém, onde se encontrava, em 1983, para nunca mais ser visto, o que ajudou para lhe aumentar a fama. A Breguet, actualmente detida pelo maior grupo relojoeiro do mundo, o Swatch Group, fez recentemente uma réplica do famoso Marie--Antoinette, objecto que é mesmo a personagem principal de um romance, A Grande Complicação, de Allen Kurzweil, publicado em 2003, em Londres.

Quando surgiu o primeiro relógio de pulso? Quem foi o seu “inventor”? E quem o utilizou pela primeira vez? Um homem ou uma mulher? São perguntas que não têm uma resposta fácil, e as mais variadas versões correm sobre tão fascinante assunto.

Há quem diga que foi um homem, o matemático e filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662), quem iniciou o conceito, ao usar uma fita para atar ao pulso o seu relógio de bolso. Isto para poder, durante as experiências que fazia, medir mais facilmente os tempos. Mas há registos de que, em 1517, a rainha Isabel I, de Inglaterra, recebeu de presente “um relógio para usar no pulso, e que batia horas”.

Ao certo, sabe-se que, em 1810, a rainha de Nápoles, Caroline Murat, irmã do imperador Napoleão I, recebe aquele que é comprovadamente o primeiro relógio de pulso, um Breguet, embora ainda se veja que é uma adaptação de um relógio de bolso, ou mais propriamente, de uma pendulette, o relógio que as senhoras colocavam ao peito. Mais uma vez, a Swatch foi aos arquivos e produziu a réplica do Rainha de Nápoles, um relógio que surpreende pelas suas linhas sóbrias e modernas, sem deixar de ser, como qualquer relógio feminino até então, acima de tudo, uma jóia, um adereço.

A Patek Philippe reivindica a primazia quanto ao primeiro relógio de pulso feito com uma forma de raiz e não adaptado dos de bolso. Tratava-se de um modelo masculino, que apareceu em 1868.

Estava-se à beira do século XX, mas mantinha-se a ordem iniciada com a introdução do relógio pessoal no quotidiano. Essa ordem social, vinda desde o século XVI, estava “ancorada na racionalidade e na divisão do tempo da produção (do homem) e o da reprodução (da mulher)”, como explicam as académicas brasileiras Deis Siqueira e Lourdes Bandeira num ensaio publicado em 2003 – A Construção Feminina do Tempo. Com este novo sentido de tempo, que substituiu o da ruralidade, “configuram-se novos espaços: o da produção, construído como domínio do homem, e o da reprodução, marcado como domínio das mulheres”, explicam as especialistas. “Aos homens cabia a auto-afirmação da razão científica aliada à dominação, que revela a ‘civilização’. Às mulheres, os desejos e as paixões, as fragilidades, o domínio da irracionalidade. O tempo da racionalidade é identificado com os homens, e o tempo menor, dos afazeres, dos afectos, dos cuidados, como tempo das mulheres. A representação social hegemónica do tempo é exterior – o da fábrica, da rua, o tempo masculino, enquanto o tempo feminino interioriza o tempo da casa, dos filhos, dos cuidados, dos afectos”, defendem.


Isabel II de Inglaterra.
Nesse sentido, uma das explicações dadas para o aparecimento mais generalizado dos primeiros relógios de pulso, no século XIX, tenha sido entre as mulheres e, principalmente, entre as mães que amamentariam. “Como solução para a curiosidade dos bebés que tinham ao colo, e que queriam mexer constantemente nas suas pendulettes, elas passaram a usar o relógio preso por uma fita, no pulso”, diz Caroline Childers, na sua obra Designers of Time, de 1999. De qualquer modo, as enfermeiras, por motivos de higiene, nunca deixariam de usar pendulettes na sua actividade profissional.

O relógio de pulso era uma coisa decididamente feminina, na transição dos séculos XIX para o XX, vista mais como uma peça decorativa do que como um instrumento para ver as horas. Alguns homens mais “atrevidos” ousavam experimentar o novo adereço, que a Rolex, fundada em 1905, queria impor na versão masculina. Mas, até aos anos 30 do século passado, ainda havia muitos homens que Afirmavam a sua masculinidade ostentando um pesado relógio de bolso, proclamando que “vestiria antes uma saia do que passaria a usar essa modernice atada ao pulso”.

A Cartier produzia em 1888 o seu primeiro modelo de relógio de pulso feminino, com diamantes e bracelete em ouro, mas a maior parte das pessoas está ainda hoje convencida de que o primeiro relógio de pulso do famoso joalheiro parisiense foi feito por encomenda do brasileiro Alberto Santos-Dumont, em 1904.


Isabel I de Inglaterra
Amigo de Louis Cartier, cosmopolita e dandy, Santos-Dumont falou-lhe da dificuldade em ler o tempo no relógio de bolso, quando pilotava o seu avião. Daqui surgiu, primeiramente, um modelo único, desenhado por Cartier expressamente para o amigo e, depois, a linha Santos, que ainda hoje permanece como um dos valores seguros da casa da Place Vendôme.

Um relógio de bolso continuava a ser sinal de estatuto social, ao alcance de poucos, pois o seu preço representava anos de salário de um operário. Sabe-se que, esporadicamente, os oficiais, em combate, atavam os seus relógios de bolso ao pulso, com cordas e atacadores, para pode- rem estar a consultar em permanência as horas, indicação crucial para a sincronia de operações distantes entre si. Mas era ainda o tempo dos “oficiais e cavalheiros”, que usavam os seus próprios relógios em teatro de guerra.

Sabe-se que a Girard-Perregaux equipou por volta de 1880 a Marinha Imperial Alemã com relógios de bolso adaptáveis ao pulso, quando em combate. Uma coisa é certa – foi mesmo a guerra, bem masculina, que provocou o uso maciço de relógios de pulso. No conflito anglo-boer (1899-1902), os oficiais britânicos destacados para a defesa da colónia da África do Sul tinham uma superioridade técnica em relação ao adversário – relógios mais fiáveis e exactos, que usavam no pulso, a forma mais prática de coordenar e sincronizar acções sem ter de tirar repetidamente do bolso uma “cebola” que, como o nome indica, tinha que ser aberta nas suas várias camadas antes de mostrar a que horas se estava…


Maria Antonieta.
A partir da entrada da mulher no mercado de trabalho – também por essa altura, e também inicialmente nos Estados Unidos, substituindo nas linhas de produção os homens que tinham partido para a frente de combate – altera-se também a sociologia do tempo. Deis Siqueira e Lourdes Bandeira defendem no estudo citado que, “ga-nhando” o tempo até agora masculino, da fábrica, da rua, a mulher não se libertou do seu tempo original, privado, do lar, da família. Vivendo até hoje uma angustiante falta de tempo. “A identidade feminina passou a incorporar o referencial da profissão e as mulheres passaram a actuar, a serem identificadas socialmente e a auto-identificarem-se como profissionais, além de continuarem a ser mães e esposas”, dizem.

Funções que vinham dos relógios de bolso, como o alarme, o cronógrafo, a indicação de segundo fuso horário, o movimento automático, foram passando para os relógios de pulso, mas é em 1966 que se dá uma revolução semelhante à ocorrida quando Peter Henlein inventou a corda helicoidal – a Girard-Perregaux desenvolve o relógio a pilhas, com cristal de quartzo, depois de algumas experiências de outras marcas com relógios eléctricos.

Os movimentos de quartzo, além de permitirem o abaixamento espectacular dos preços, também davam mais liberdade nas formas, libertando espaço para a criatividade dos designers. É a época dos relógios ultrafinos, dos recordes de miniaturização, dos mostradores e caixas inteiramente em pedras preciosas.

A liberdade de criação e o abaixamento do preço trazidos pelo quar-tzo ajudaram principalmente o relógio feminino a tornar-se ainda mais num acessório de moda. Hoje, grandes grupos da indústria do luxo afinam as suas práticas à escala global com estratégias essencialmente escoradas num nome, numa marca de prestígio. Se essa marca tem raízes joalheiras, passa também a fazer acessórios, marroquinaria, relógios.


*Jornalista, investigador do Tempo, da Relojoaria e das Mentalidades













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