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Progressivamente informadas e consciencializadas dos malefícios do cigarro, há cada vez mais pessoas decididas a deixar de fumar. Saiba porque é importante largar este vício. E onde encontrar ajuda nesse sentido.

Por Júlia Serrão

À medida que o tempo vai passando vão-se encontrando mais patologias causadas pelo tabaco. Isto porque há uma diferença temporal entre o consumo de tabaco e o aparecimento de doença relacionada com esse consumo, que pode ser de 20 a 40 anos. É o que garante o médico
Acompanhado pelo médico ou sozinho, a motivação pessoal para deixar de fumar é insubstituível.

pneumologista Salvador Saldanha Coelho, coordenador da Consulta de Cessação Tabágica do Hospital de Santa Marta, em Lisboa.

Fumar aumenta o risco de doença cardiovascular, de cancro – nomeadamente do pulmão – e de doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC). “Tudo depende do tipo de organismo de cada fumador. Ou seja, do órgão ou sistema menos resistente”, explicando que “há fumadores que nunca desenvolvem doença pulmonar mas, depois, vêm a desenvolver doença vascular, por exemplo, que também pode ser de uma seriedade extrema”. A verdade é que o cigarro é composto por cerca de quatro mil substâncias e muitas delas são francamente nocivas, assegura, pelo que fumar é sempre um risco. “O alcatrão, por exemplo, é responsável pelo aparecimento dos cancros do pulmão, enquanto o monóxido de carbono está muito relacionado com a doença cardiovascular”, acrescentando que, de qualquer forma, “é quase impossível relacionar cada uma destas substâncias com o tipo de lesão que provocam a nível orgânico”.

De acordo com algumas fontes científicas, as mulheres são mais susceptíveis aos efeitos do fumo. O impacto do cigarro no surgimento do cancro de pulmão no sexo feminino é maior e elas também morrem mais por enfarte do miocárdio. Recentemente, um estudo levado a cabo pelo Instituto de Saúde Pública da Noruega e da Universidade de Oslo vem revelar que fumar antecipa a entrada das mulheres na menopausa. O risco do climatério ocorrer em mulheres fumadoras com menos de 45 anos é 60 por cento maior. Ora, como se sabe, com o final do ciclo reprodutivo o organismo deixa de produzir estrogénios, hormonas que protegem o coração, as artérias e os ossos. A falta destas substâncias deixa as mulheres mais susceptíveis a doenças como os enfartes e a osteoporose.

A dependência e o tratamento
Quando se fala em dependência do tabaco, podemos dizer que “quanto maior o número de cigarros consumidos maior é a possibilidade de desenvolver os receptores nicotínicos a nível cerebral” responsáveis pela adição, e, consequentemente, “mais difícil será deixar de fumar”. Mas isso só não basta para explicar este fenómeno. “Existe também, e desde o desenvolvimento fetal, uma maior tendência a formar estes receptores a nível do sistema nervoso central”, esclarece o pneumologista.

Onde encontrar ajuda

A nível nacional, existem neste momento mais de 100 centros onde as pessoas se podem dirigir para frequentar Consultas de Cessação Tabágica
Saiba se o Centro de Saúde da sua zona de residência ou Hospital está incluído nesta lista
Se preferir, pode optar por uma Clínica privada. Uma boa parte delas já inclui nos seus serviços Consultas de Cessação Tabágica
Apesar das promessas nesse sentido, o Estado ainda não comparticipa o tratamento farmacológico de cessação tabágica
A boa notícia é que, apesar de tudo, é sempre possível deixar de fumar. Há pessoas que conseguem fazer este caminho com relativa facilidade. Fazem-no por livre iniciativa, na maior parte das vezes não precisando sequer de acompanhamento médico. Com outras é extremamente difícil.

“A maior parte, como está muito dependente, e para quem muitas vezes o cigarro serve para mitigar alguns problemas psicológicos de ansiedade e depressão, deve consultar um médico que as possa ajudar a fazer o caminho de cessação”, aconselha Salvador Saldanha Coelho, pois também acredita que o trabalho que se faz sozinho está sempre mais susceptível de desmotivação. “O seguimento de uma consulta de cessação tabágica é importante porque as pessoas têm possibilidade de ser orientadas no tratamento que vão fazer, decidindo-se sempre qual o mais eficaz no seu caso concreto.”

Os substitutos de nicotina em forma de adesivo são uma das opções farmacológicas para deixar de fumar, e provavelmente a mais conhecida, mas há mais. O mercado inclui ainda “uma molécula com propriedades antidepressivas” em forma de comprimido que promete actuar no mesmo sentido, e muito recentemente chegou mais uma, “que é uma antagonista dos receptores nicotínicos cerebrais – uma substância bastante poderosa também em forma de comprimido”. Escolher entre uma destas possibilidades é da responsabilidade médica, depois de se actualizar sobre a história do paciente.

O objectivo da consulta é sempre ajudar a deixar o vício, as estratégias para lá chegar é que mudam. Podem ser mais ou menos radicais. “Nós desejamos naturalmente que as pessoas deixem de fumar, mas também não queremos que elas prejudiquem a sua vida a ponto desta se tornar um inferno”, explica o especialista, esclarecendo que, às vezes, “há que criar excepções” e tentar progressivamente “ir diminuindo o número de cigarros até a pessoa estar preparada para deixar os cigarros residuais”. “Nas consultas pratica-se uma verdadeira reflexão de ajudas”, sublinha. “As pessoas são ajudadas, não julgadas.”

Salvador Saldanha Coelho esclarece que, às vezes, os resultados pretendidos não se conseguem logo à primeira. É importante que as pessoas não desistam. “Ao desistir estão a afastar possibilidade de ajuda por outras vias”, diz. Quanto às recaídas, esclarece: “As quedas neste percurso são frequentes, mas enquanto a pessoa caminhar vai-se dirigindo sempre para a meta final.”

Sucessos e benefícios
O êxito terapêutico neste campo é real. Salvador Saldanha Coelho diz que a taxa de sucesso destes tratamentos, “em conjunto, e excluindo as pessoas que não o fizeram por acharem que era demasiado oneroso e não tinham disponibilidade económica para o adquirir, anda à volta dos 45 por cento”. O estudo, conduzido pela equipa da Consulta de Cessação Tabágica do Hospital de Santa Marta, foi feito através de entrevistas telefónicas e o objectivo era saber se as pessoas estavam a fumar ou não passados 18 meses de terem deixado o programa de desabituação na consulta. Levando em consideração a veracidade das respostas no inquérito, “as recaídas não foram muitas: andaram na ordem dos 10 por cento”, esclarece o especialista, acrescentando que, “a nível mais geral, conta-se que a taxa de recaída se situe entre os 30 e os 50 por cento”.

Quanto aos benefícios de deixar de fumar, eles são inúmeros. “Os mais imediatos são a redução da tensão arterial, redução da frequência cardíaca e redução do monóxido de carbono no ar expirado. É uma questão de horas”, observa o especialista, referindo que “a diminuição do cansaço com os esforços” é também uma das vantagens percebidas muito cedo. “Isto é um bom indicador”, diz, peremptório. “Mas, naturalmente, a diminuição do risco de doença respiratória ou de doença cardíaca é mais morosa. Depende obviamente dos anos de vício que estão atrás de cada paciente.”

De acordo com alguma documentação científica, após cinco anos sem consumir tabaco o risco de cancro do esófago, por exemplo, é reduzido para metade. Ao final de 10, o do pulmão é metade do verificado em fumadores. Quanto ao risco de doença cardíaca, após 15 anos de abstinência, ele é precisamente igual ao de um não fumador com a mesma idade e do mesmo sexo.













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