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MULHER E CARREIRA  |
É um retrato duro de uma
vida com classe. Ainda hoje o seu passar tem graça,
mas à sofisticação de outrora alia-se
a máxima segurança. Exímias a lidar
com situações negativas, as assistentes
de bordo enfrentam o mundo com um sorriso.
Por Ana Paula Lemos | Fotografias
de Luís de Barros
É
tudo muito contraditório no retrato da vida de uma
assistente de bordo. Devem apresentar-se ao voo fisicamente
cuidadas e psicologicamente bem preparadas. Vemo-las, por
isso, cuidadosamente maquilhadas e penteadas, envergando
fardas de cores sóbrias, mas intensas. Tudo, aliás,
como manda o regulamento da companhia. Nem mais nem menos
do que estipula o código de imagem da transportadora
aérea, cujas normas definem com rigor e minúcia
o modo como as assistentes de bordo devem prender o cabelo,
qual o tipo de corte que melhor lhes assenta, a cor do verniz
a aplicar nas mãos… Enfim, um conjunto mínimo
de regras que, padronizadas, proporcionam uma sólida
coesão estética às centenas de assistentes
de bordo que “servem” a transportadora aérea
portuguesa.
Só que o reverso desta medalha, por nós testemunhado
durante alguns dias nos céus da Europa, acompanhando
a vida de Eugénia, Fausta e Lucília, contraria
a dimensão lúdica do exercício desta
profissão. Antes de mais, pela singularidade da actividade.
As assistentes de bordo trabalham no ar com a missão
específica do salvamento.
Por isso mesmo é que a beleza não é
o único critério de selecção
imposto pelas companhias aéreas internacionais. Mesmo
antes do seu aspecto físico, os serviços competentes
aferem do perfil psicológico das candidatas, das
suas condições biológicas e fisiológicas,
em suma, como se porta aquele ser em condições
adversas. E mesmo que não conste qualquer feito heróico
no cardápio humano das senhoras do ar, o certo é
que só as compressões e descompressões
provocadas por cada descolagem e aterragem agridem a condição
física de quem se submete às regras da aerodinâmica.
Antes
do seu aspecto físico,
os serviços competentes aferem do perfil psicológico
das candidatas.
“Nós adoramos a nossa profissão”,
disseram-nos. “Tem muitas coisas boas”, garantiu-nos
Eugénia, de 26 anos, solteira, assistente de bordo
há seis, aluna da licenciatura de Recursos Humanos
da Universidade Lusíada. Mas quais?
Antes de mais, assegurou-nos Fausta, de 40 anos, a única
das nossas entrevistadas que realiza voos de longo curso,
que assiste aos maiores aviões da frota da TAP, os
Airbus 340, “a possibilidade de conhecer outros lugares
e outras pessoas”. Faz agora 10 anos que Fausta repete
as rotinas da profissão que abraçou. “E
não me canso”, disse-nos.
Mas ser assistente de bordo não tem como contrapartida
a vida encantada dos passaportes turísticos. Nem
sempre o céu está ensolarado, pelo contrário,
às vezes troveja muito. Nem sempre o voo decorre
nos tempos desejados, porque as trovoadas, a neve ou os
relâmpagos têm uma força infinitamente
superior à vontade dos homens.
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Lucília
Silva |
O caso
de Eugénia e Lucília –
a única mulher no seio deste grupo que é mãe
– elucida bem a real natureza do tipo de actividade
por elas exercida. Na grande maioria das escalas que operam,
as “hospedeiras” de médio curso nem saem
dos aeroportos. Um exemplo. Estamos de partida para o Porto,
mas o nosso destino último é Barcelona, onde
dormimos.
Levantamos voo às 14.45h, com chegada ao Porto marcada
para daqui a 45 minutos. Tudo correu bem, demorámos
apenas meia hora a embarcar e desembarcar passageiros, e
em tempo útil fez-se a manutenção do
avião. Voltámos a descolar e estamos de novo
a caminho de Lisboa. Aterramos na capital às 17.30h.
Mais alguns minutos e o comandante pergunta ao chefe de
cabine se a tripulação está pronta
para descolar para Barcelona. Passa das 17.45h. Estamos
finalmente no ar. A chegada a Barcelona está marcada
para as 19.45h.
Lucília, aparentemente, não demonstra qualquer
sinal de fadiga. Este voo Lisboa-Porto-Lisboa-Barcelona
já começou, para Lucília, em sua casa,
às 11.30h. Por volta dessa hora fardou-se e, com
a rapidez que a rotina proporciona, arrumou na pequena mala
de rodas o “equipamento” obrigatório.
Antes de tudo, os collants. Muitos. Nenhuma malha nas meias
é permitida. Depois, a roupa interior, o pijama,
o estojo da higiene pessoal, o avental para acompanhar o
serviço das bandejas, um casaco de malha e as sabrinas
para o serviço de voo.
Mesmo que as escalas não prevejam uma dormida fora
de casa, a mala das rodinhas, vulgarmente conhecida por
bobby, é um acessório obrigatório na
classe dos tripulantes da aviação civil.
As filhas de Lucília estavam na escola à hora
a que saiu de casa, rumo ao aeroporto. O Pedro, o marido,
ia chegar entretanto de um outro voo. Quando a Clara e a
Leonor, respectivamente de 10 e 12 anos, chegassem ao fim
do dia, em casa já estava o Pedro, pronto para as
receber.
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Fausta Costa |
“Deixei a logística montada.
Ao fim de algum tempo nesta profissão, já
criámos as rotinas suficientes para que tudo funcione
bem. As minhas filhas estão habituadas...”
E quem mostrou a eternidade dos afectos foi justamente Lucília:
mal chegou ao hotel em Barcelona, à hora de deitar
lá em casa, pegou no telefone e mandou o beijinho
da boa noite às suas “amadas” crianças.
“Amanhã, já nos vemos”, desabafa.
Lucília serve de modelo às centenas de mães
assistentes de bordo que a transportadora aérea nacional
foi admitindo nos últimos anos, pioneira em todo
o mundo na salvaguarda do direito à maternidade das
suas trabalhadoras.
Basta pensar, por exemplo, que Lucília fez os testes
da primeira fase para o então concurso das hospedeiras
quando ainda estava a amamentar Leonor, a filha mais velha.
O perfil
destas mulheres alterou-se profundamente
nas últimas décadas. A partir de uma elite
– então obrigatoriamente solteiras, jovens
e belas, designadas por hospedeiras, que serviam grupos
de passageiros masculinos –, a revolução
social e cultural, a massificação do transporte
aéreo e a ameaça do terrorismo internacional
criaram a figura da assistente de bordo, termo mais condizente
com a realidade actual e com as funções que
desempenham.
Eugénia é talvez o melhor exemplo para retratar
o que enunciámos. A par desta profissão de
risco, tal como é designada no compêndio dos
profissionais da Organização Mundial de Trabalho,
ainda se atreve a frequentar, numa universidade privada,
o curso de Gestão de Recursos Humanos. “Senti
uma íntima necessidade de crescer intelectual e mentalmente.
A companhia apoiou-me e os meus colegas da faculdade ajudaram-me
a tornar possível este projecto de vida.”
“Ao fim de algum tempo nesta
profissão,
já criámos as rotinas suficientes para que
tudo funcione bem.”
É sobretudo nos tempos mortos de voo, como, por exemplo,
nas noites que passa sozinha nas cidades onde escala, nos
dias de folga, naquelas semanas em que não pode namorar
porque também ele por lá anda a pilotar aviões,
que aproveita para estudar.
A sala que acolhe a tripulação no aeroporto
de Lisboa é um espaço a tresandar a fumo,
sem qualquer conforto. Por questões de segurança,
até as janelas têm de estar fechadas.
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Eugénia
Correia |
Antes de entrarem para os aviões
que os levarão às mais longínquas terras
do mundo, cada membro da tripulação (comandantes,
pilotos, assistentes de bordo, comissários) dirige-se
a esta sala para receber as chamadas ordens de voo. Aos
comandantes e pilotos é entregue um bloco de folhas
onde lêem todas as informações relativas
ao voo que irão realizar. Número de horas,
escalas, passageiros, combustível e trajecto. Enquanto
isto, a restante tripulação, assistentes de
bordo e comissários, reú-ne numa sala, também
ela claustrofóbica, onde lhes são comunicados
os dados relativos àquele voo.
Depois, agarram nas suas malas, metem-nas na passadeira
de segurança, onde são submetidas ao mesmo
controlo de qualquer outro passageiro da TAP, e dirigem-se
aos seus aviões.
Quando embarcamos num voo às seis da manhã,
como este que vamos realizar para Ponta Delgada, nos Açores,
dificilmente nos ocorre pensar que aquela tripulação,
bem disposta e cuidadosamente apresentada, pode ter-se levantado
às três da manhã. E ainda que muitas
destas mulheres e homens são casados, têm filhos
e, tal como todos nós, foram obrigados a definir
a logística da família antes de pisarem o
avião.
Por outro lado, a dinâmica psicológica dos
passageiros alterou- se de tal modo nas últimas décadas
que as assistentes de bordo “perdem cada vez mais
tempo” com o cuidado que dispensam individualmente
a cada passageiro.
Nós, passageiros, vamos para bordo cada vez mais
nervosos e ansiosos.
E as assistentes sentem cada vez mais a velocidade a que
esta realidade traiçoeira se transforma em violência.
“A harmonia a bordo tem de ser absoluta”, explicam-nos.
“É preciso ter muito sangue frio. Mas é
para isso mesmo que lá estamos. “
Do passar cheio de graça fica a memória de
uma vida com classe. Já sem tanta sofisticação,
é verdade. Mas como dizia Eça de Queiroz,
uma vida cheia de mundo.
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