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CORPO
& ALMA
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Mudar de vida é uma expressão
que assusta. Mudar é já por si um verbo aterrorizador
quando diz respeito aos nossos hábitos mais profundamente
enraizados. “Temos medo do desconhecido. Muitas vezes
sabemos o que é mal e o que nos faz mal, mas pelo menos
sabemos exactamente o efeito que isto produz em nós.
Já o que resultará de uma mudança é
desconhecido, mesmo que supostamente bom. Por isso, temos medo
de experimentar”, comenta Maria João Fagundes,
psicóloga que integra a equipa do departamento de Endocrinologia
do Hospital de Santa Maria. Em vez de mudar, o ideal seria então
pensar em harmonia.
O equilíbrio da atitude.
Tudo na vida exige algum esforço e perder peso não
é excepção, “mas não é,
nem deve ser, um sacrifício”, observa Maria João
Fagundes. “A culpa que se sente ao comer, quando o que
se quer é perder peso, é péssimo. É
tão grande... E não serve de nada. É uma
energia mal aproveitada: só agrava o problema em vez
de o ajudar a rectificar”, acrescenta.
Quando se pensa em fazer dieta ou ganhar novos e melhores hábitos
de vida, deve assumir-se uma atitude positiva. “Em vez
de pensar que se vai restringir, cortar ou privar, é
importante ver que se vai usufruir de outras coisas –
novas e boas – que serão acrescentadas ao nosso
dia-a-dia”, explica Maria João Fagundes. Para controlar
o apetite, por exemplo, uma pessoa vai ter de comer com mais
frequência (cinco a seis refeições mais
ligeiras do que o habitual). Isso irá proporcionar o
prazer de se sentir saciada ao longo de todo o dia. E, por outro
lado, ao conseguir encaixar uma actividade física no
quotidiano, não só essa pessoa se irá sentir
mais leve e mais forte, como irá gozar a fantástica
sensação de ter cumprido uma coisa a que se propôs.
“Com estas atitudes, vão-se acrescentando novas
tarefas saudáveis, que, por sua vez, vão reforçando
esta nova forma de estar”, comenta a psicóloga.
Assim, suavemente, vão sendo adquiridos novos hábitos
de vida. “E cada pequena alteração é
uma vitória”, sublinha Maria João Fagundes,
parafraseando o astronauta Neil Armstrong: “Um pequeno
passo para os demais, mas um passo gigantesco para as nossas
vidas.” É que as grandes mudanças fazem-se
passo a passo. E consolidam-se lentamente, tornando-se mais
duradouras.
Mas por que é tão difícil mudar a nossa
atitude perante o que comemos? A comida está intimamente
ligada aos nossos instintos mais básicos e é essencial
para a nossa sobrevivência. “Uma pessoa pode abster-se
de tabaco ou álcool, mas de comida não”,
observa Maria João Fagundes.
E a comida atravessa as fases mais importantes da vida de cada
um de nós. É um elemento de socialização,
de ligação com a família. As relações
que construímos com o que comemos começam mesmo
com os primeiros alimentos que ingerimos. Mais tarde, esta relação
é influenciada pela forma como partilhamos estes momentos
em família. Quando chegamos à adolescência,
os amigos passam a ser o mais importante da vida e a comida
lá estará como forma de identidade entre nós
e eles. Quando casamos e deixamos de lado as noitadas, a comida
passa a ser o centro das reuniões entre amigos.
Tendo um papel tão central na nossa vida, muitos mitos
são construídos à volta do que comemos,
quando comemos e como o fazemos. “Muitas vezes, ter um
profissional [nutricionista ou endocrinologista] a acompanhar
uma dieta pode ajudar-nos a perceber que as dificuldades pelas
quais às vezes passamos não são fracassos,
que não é por um excesso cometido num determinado
dia ou momento que se vai deitar tudo a perder. E que não
é por falhar a dieta um dia que se vai pensar ‘eu
não presto para nada’”, comenta a psicóloga.
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Primeiro
nós
Ao dividirem-se entre o trabalho e a família,
muitas mulheres esquecem-se de si próprias
pelo caminho. “Anulam-se, apagam-se, deixam-se
‘vampirizar’, e quando chegam a um ponto
que têm mesmo de cuidar da saúde, já
não têm espaço para o fazer”,
observa a psicóloga Maria João Fagundes.
Se tem de fazer dieta e a família exige comer
sempre o mesmo, e se não consegue tempo para
si, nem que seja para caminhar 30 minutos por dia,
é preciso parar para pensar. Faça
estas perguntas a si própria:
Quem
é que ganha quando se faz três ou mais
variedades de comida por dia para agradar a todos
na família (e provavelmente nenhuma saudável)?
O que mais importa fazer: lavar a louça depois
do jantar ou caminhar 30 minutos?
Qual a vantagem de não impor limites e acabar
por se sentir frustrada e constantemente irritada?
Será que não é possível
dividir tarefas entre todos na família?
Todos nós merecemos espaço para cuidar
de nós próprias e as nossas famílias
também merecem uma mãe e uma mulher
bem disposta e feliz consigo mesma. “A frustração
não é boa companhia”, remata
Maria João Fagundes. |
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O equilíbrio das emoções.
“Comer é comer. É nutrir-se, alimentar-se,
usufruir o prazer da comida. Emoções são
outra coisa. Não devemos pôr o corpo a pensar e
a comer por nós”, observa Maria João Fagundes.
A comida é muitas vezes usada para preencher vazios,
como apaziguamento ou mesmo como punição –
“Há quem coma com raiva, como se quisesse fazer
mal a si próprio.” É usada como um meio
para manifestar um mal interno.
Zanga, tristeza, ansiedade são alguns dos estados emocionais
que facilmente conduzem à comida. Um consolo, talvez
uma memória longínqua do prazer intenso do estômago
cheio quando se era bebé.
Quando o impulso de comer parece fora do normal, “sugiro
que a pessoa pense antes de comer e porque é que o vai
fazer. Isso muitas vezes resulta. E se sentir que não
controla, aconselho que saia de casa e vá caminhar um
pouco. Isto não só lhe dará espaço
para pensar, como fará bem física e emocionalmente.
Andar a pé reduz o stress, acalma”. É
verdade que pensar no que comemos muitas vezes gera ainda mais
angústia. “Mas é importante encontrar a
verdadeira solução para o problema, encontrar
a sua raiz”, observa a psicóloga. Nas consultas
de excesso de peso, os médicos sugerem com frequência
que se faça um diário no qual se aponta tudo o
que se come ao longo do dia, para se perceber os erros alimentares
cometidos. “Em geral, sugiro ainda que se faça
um diário alimentar emocional, no qual se identifica
que emoções estiveram associadas a cada ingestão
de alimento. As pessoas costumam achar graça, e acabam
por fazer. Resulta na maioria das vezes”, comenta.
Seja qual for a emoção que está na base
do impulso de comer, é importante não facilitar.
Não convém ter em casa as coisas que não
deve comer: chocolates para as visitas, guloseimas para os filhos.
Não há desculpas: o que não é bom
para nós também não o é para os
nossos filhos ou amigos. “Se mesmo assim acaba por sair
de casa especialmente para comprar estes produtos, é
altura de procurar um especialista. E se isso se repetir, estamos
perante um caso de compulsão”, afirma Maria João
Fagundes.
Equilibrar o
corpo. Muitas de nós vivemos uma relação
de distância com o nosso corpo. Como se não fosse
realmente nosso ou, mais grave, como se fosse o nosso pior inimigo.
“Devemos reaprender a ver e ouvir o nosso corpo e não
lutar contra ele”, sugere Maria João Fagundes.
Devemos cultivar uma boa relação com a nossa imagem
corporal. Ao fazermos isso, estamos a investir na nossa auto-estima.
A forma como nos relacionamos com o corpo varia segundo a etapa
da vida em que nos encontramos. “Quando se é adolescente,
vive-se intensamente a transformação do corpo,
mas também este é o instrumento central para a
descoberta da sexualidade. Quando estamos um pouco mais velhas,
a preocupação é a de que funcione bem.
Com o passar dos anos, a preocupação é
com a saúde e a doença do nosso corpo”,
comenta a especialista.
Todos nós somos sensíveis às pressões
culturais relativamente à nossa imagem e ao nosso corpo.
“Mas as mulheres são mais sensíveis”,
observa. E as pressões são maiores. Basta lembrar
que antigamente mulher feia não casava. A sensibilidade
à pressão em relação ao corpo e
à imagem está relacionada também com a
orientação sexual. “A mulher homossexual
tem menos preocupação com a imagem, de estar a
seguir modelos pré-estabelecidos.”
O corpo não é só a peça-chave da
nossa auto-imagem, é parte de um todo. “Não
podemos ter o ‘Eu’ de um lado e o corpo do outro.
Na realidade, juntos formam um todo. E este é o verdadeiro
equilíbrio”, comenta a psicóloga. “No
grupo de obesos com o qual trabalho, uma das tarefas que lhes
proponho é a de cuidarem dos seus corpos, de o tocarem,
o massajarem com cremes, o mimarem. Sugiro também que
não tenham medo de se olhar ao espelho. Muitas dizem
que o fazem sem complexos, mas, quando vamos ver, é um
espelho que vai apenas até aos ombros ou no máximo
até à cintura.”
Aceitar o corpo é também aceitar-se por completo.
No caso das mulheres, é assumir certas apetências
que muitas de nós sentimos a determinada altura dos mês.
“Por altura do período men-strual, muitas comem
mais doces ou chocolates. E devem assumir isso, essas modificações
e alterações hormonais que sofrem. Isto é
estar bem consigo própria. Não é um chocolate
por mês que vai deitar uma dieta por água abaixo.”
Nos casos em que a luta contra o excesso de peso vem de longa
data, não é raro acontecer uma perda da percepção
clara das sensações de fome e saciedade. E, assim,
embora se afirme que se tem muita fome, pode não ser
exactamente fome. É preciso reaprender a ouvir o corpo.
Equilibrar a alimentação.
Podemos estar em sintonia com o nosso corpo e estar com as emoções
nos devidos lugares, mas isso de nada serve se não comermos
correctamente.
Devemos fazer pequenas refeições a cada três
horas. Parece que estamos a ingerir mais calorias, mas não
é verdade. O que acontece é que nos sentimos sempre
saciadas. “Restringir-se durante todo o dia é o
pior que se pode fazer. Desta forma, o fim do dia transforma-se
na hora do lobo em que se come sem controlo tudo o que se encontrar
pela frente. Ao viver um sentimento de restrição
todo o dia, passa-se todo o tempo a pensar em comida”,
explica Maria João Fagundes.
Devemos ter sempre à mão snacks saudáveis
para comermos na altura certa, evitando saltar refeições.
Não devemos saltar nem os lanches, mesmo que não
tenhamos muita fome. “A nossa filosofia de vida
deve ser encontrar prazer no dia-a-
-dia, em outras coisas para além da comida. Ir para a
aventura, para a novidade. Abrir a boca e a alma”, argumenta
a especialista em Medicina Interna e Nutrição
Minnie Freudenthal. E acrescenta: “A comida tem um poder
sensorial enorme, despertando as nossas emoções
e o nosso raciocínio. E se pretendemos mudar para hábitos
alimentares mais saudáveis, devemos usar todas as partes
do nosso ser.”
E mudar porquê? “Uma pessoa que come mal –
gorduras e açúcar em excesso –, mesmo que
não sinta nada durante muito tempo, está a ‘comprar
uma doença’ para um futuro não muito distante.
Uma diabetes, por exemplo”, explica Minnie Freudenthal.
E para vivermos plenamente, com saúde e bem-estar, é
importante equilibrar o que comemos. Não é preciso
fazer uma dieta espartana, em que só o ultra-saudável
é permitido. Mas devemos ser mais comedidos no que não
é tão saudável, e mais generosos com os
alimentos que são bons para a saúde.
Os primeiros passos a dar neste sentido são simples:
“Aposte numa dieta variada e cheia de cor. Tenha sempre
pelo menos três cores distintas no seu prato. Isso irá
garantir-lhe uma maior variedade de nutrientes”, comenta
Minnie Freudenthal. A especialista sugere ainda que se reduza
a quantidade de carnes – vaca e porco – ingeridas,
dando preferência aos peixes, frango, cereais e leguminosas.
Minnie Freudenthal aconselha que o consumo de leite e de gorduras
seja igualmente reduzido. “A gordura dá gosto à
comida, mas é uma maneira pouco sofisticada de dar sabor
aos alimentos. É aí que entram as ervas aromáticas,
das quais se deve usar e abusar”, explica. Para as frutas,
legumes e verduras, o sinal é verde para usar e abusar,
se isto não lhe afectar o organismo.
Mas comer deve ser também uma actividade lúdica.
“Dedique-se a preparar pratos bonitos. Dedique-se a si,
à família e a pessoas de que gosta”, remata
a especialista.
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Adolescentes
e dietas
A adolescência é uma fase delicada.
São tantas as transformações
físicas e comportamentais, que é importante
ter cuidado quando o tema é perder peso.
“Nestas
idades, qualquer regime ou dieta deve ser feito
com o acompanhamento de um especialista”,
comenta a psicóloga Maria João Fagundes
Parece
excessivo? “Não, de todo. Esta é
uma altura em que são cada vez mais frequentes
as necessidades nutritivas específicas, mas
é também uma idade especial
Há
mais propensão para o aparecimento de doenças
do comportamento alimentar, como a anorexia –
nas idade mais tenras – ou a bulimia –
um pouco mais tarde.” |
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