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NO
FEMININO
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por
Ana Paula Lemos
A Máxima viajou no cockpit
de um Airbus 319 da TAP, pilotado por uma mulher de 26 anos:
Joana Oliveira, engenheira do território. Acompanhámos
passo a passo o voar da mais jovem piloto portuguesa.
Joana está aos comandos do avião, absolutamente
concentrada na descolagem. Os músculos da cara estão
tensos, tem os cabelos presos num rabo-de-cavalo e percebe-se
que todas as suas energias estão canalizadas para este
momento precioso e decisivo do voo.
O céu está estrelado. O ambiente no cockpit é
sereno e silencioso. Ainda estamos no primeiro minuto de voo.
O avião continua a combater as leis físicas da
gravidade, na potência máxima dos motores. Nada
pode correr mal nos três minutos subsequentes, em que
o avião procura a altitude certa para voar a cruzeiro.
A máquina está no esforço máximo
da sua capacidade. Não há tempo para parar, nem
para abortar qualquer operação de voo. Joana mantém-se
calada enquanto o comandante controla as comunicações.
Atingidos os cinco minutos de voo, o ambiente no cockpit solta-se.
O comandante olha para a piloto, dá uma gargalhada. Joana,
de braço esticado, com o polegar levantado, confirma
estar tudo ok e, nesse instante, um e outro desapertam o cinto
que lhes amarra o peito. O da cintura mantém-se apertado.
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| Ser piloto implica ter uma vida que assenta na
disciplina e no rigor. A sua condição
física e mental tem de estar pronta a responder,
rapidamente, a qualquer situação de
emergência. |
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Voamos numa carreira normal
da Tap Air Portugal com destino ao Funchal, pilotados por uma
mulher, a Joana Oliveira, de apenas 26 anos, engenheira do território,
licenciada pelo Instituto Superior Técnico, a mais nova
das nove mulheres piloto da TAP. Uma mulher feliz que, finalmente,
faz o que gosta.
Joana foi “largada” há 10 meses, altura em
que começou a pilotar um avião sem a presença
do comandante e instrutor. Na gíria da aeronáutica,
“largada” significa estar apto a pilotar, com autonomia,
um avião.
O seu percurso como piloto foi conquistado à custa de
uma prolongada prova de vontade e, mesmo assim, só depois
de ter concluído a sua formação académica
é que o pai, brigadeiro da Força Aérea,
acedeu a oferecer-lhe o objecto maior do seu desejo, o curso
de Piloto Particular de Aviões.
Depois de Joana ter come-çado a viajar sozinha nas “miniaturas”,
passeando-se nos céus de Portugal, já ninguém
duvidava da obstinada determinação em abraçar
definitivamente a aviação como um modo natural
de vida. Seguiu-se então o curso de Piloto Comercial
de Aviões e, dali a um ano, o seu ingresso na Transportadora
Aérea Portuguesa.
A primeira vez que vimos a “nossa piloto”,
estávamos dentro da carrinha da Tap e, tal como os outros
passageiros, dirigíamo-nos para o avião. Nessa
altura, por motivos de segurança, ainda não sabíamos
se era ou não possível viajar no cockpit com a
mulher piloto.
Curiosa, mal nos aproximámos do avião, tentei
ver quem era a nossa entrevistada. Lembro-me de ter pensado:
é gira e parece ser muito nova.
A inquietação cresceu. E se não conseguirmos
acompanhar o voo no cockpit? Quando nos preparávamos
para iniciar a viagem, ainda eu não tinha apertado o
cinto de segurança e já o chefe de cabine, em
nome do comandante, me estava a chamar. Nesse instante, percebi
que a nossa missão ia ser cumprida: acompanhar, passo
a passo, o modo como uma mulher “voa um avião”.
A sensação começa por ser inquietante:
uma jovem rapariga, aparentemente frágil, magra, de cabelos
e olhos claros, feminina, mesmo nos gestos, reservada, discreta,
fardada com calças e gravata, sentada numa cadeira baixa
que obriga a uma postura cómoda, mas hirta. A voar um
monstro, com mais de 100 pessoas a bordo, 61 mil quilos, síntese
de uma sofisticada tecnologia, só comparável à
NASA... Cria-nos a ideia de estarmos a viver um momento singular,
ímpar.
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Nada do que se vive no cockpit
se experimenta noutro lugar do avião. O chamado escritório
dos pilotos é um espaço escuro e pequeno, mas
muito confortável, iluminado apenas por dois painéis
electrónicos – um lugar silencioso onde não
se ouvem barulhos, a não ser as vozes que animam as conversas
permanentes entre o controlador aéreo e o piloto. O cockpit
é um lugar onde tudo está rigorosamente previsto,
como o provam os dois computadores destinados ao piloto e co-piloto,
seguramente os instrumentos mais importantes de um avião.
A viagem Lisboa-Funchal faz-se em uma hora e 30 minutos. Joana
levantou o avião às 22.40h, altura em que sentimos
o nosso coração suspenso no ar.
Se tudo correr bem, chegaremos ao Funchal à meia-noite.
Pouco tempo antes de começarem os procedimentos para
a aterragem, Joana terá de passar o avião para
as mãos do comandante. Segundo as normas de segurança
que vigoram no aeroporto da Madeira, só os comandantes
aí podem aterrar. Portanto, neste voo, a cargo de Joana
esteve a descolagem.
A ideia de que o piloto automático substitui a tripulação
quando o avião atinge a velocidade cruzeiro é,
obviamente, falsa. Na aviação, segundo nos explicou
a piloto, existe uma regra que consiste nesta coisa muito simples:
“Nós, os pilotos, estamos sempre a pensar na tarefa
seguinte àquela que estamos a realizar. Por isso, é
impensável estarmos num avião sem fazer nada.
Se isso acontecer, alguma coisa está mal.”
O processo de colocar um avião no ar é minucioso,
pormenorizado, astuto. Uma vasta equipa de pessoas compromete-se
a obedecer a um plano de manutenção previamente
definido pelo fabricante. Do combustível aos motores,
passando pela segurança e pelo catering, tudo é
visto à lupa. Nesta operação não
se fazem concessões, explicou-nos um mecânico com
36 anos de serviço na TAP. Não é por acaso,
continuou, “que a nossa companhia é das mais seguras
do mundo. Asseguro-lhe que, de 100 em 100 horas, os aviões
da nossa frota recolhem ao hangar para serem totalmente inspeccionados”.
Os aviões são máquinas quase perfeitas,
disse-nos este especialista em reactores. “A percen-tagem
da máquina falhar é mínima. O avião
é o meio de transporte mais seguro do mundo.”
A mãe de Joana detesta aviões. Existe um pacto
entre ambas que a piloto procura cumprir à risca. Sempre
que aterra, telefona para casa. A mãe volta a tranquilizar-se.
Até ao dia seguinte...
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| Jovem, de aparência frágil, Joana
Oliveira transmite a confiança necessária
para sabermos que, com ela, o cockpit está
em boas mãos. |
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A vida de Joana, como
a de qualquer outro piloto, assenta na disciplina e no rigor
exigidos pelas funções que desempenha. “Temos
de estar bem connosco em todos os aspectos”, afirmou.
“Temos de ter cuidado com a alimentação,
não podemos fazer noitadas, temos de estar repousados,
devemos dormir bem. A nossa profissão tem picos e, no
momento em que aparecer uma situação complexa
ou mais complicada, temos de estar preparados para responder
a 100 por cento.”
Nem todas as pessoas podem ser pilotos. A formação
é selectiva. Não chega ser-se inteligente. Também
não basta ser capaz de fazer muitas coisas ao mesmo tempo.
Os candidatos a piloto têm de dispor de capacidades inatas
que atestem uma excepcional condição física,
emocional e mental.
Os pilotos, homens ou mulheres, têm um perfil comum: disposição
para o risco, estados de consciência elevados, racionalização
do mundo, controlo de emoções e afectos.
O curso é muito exigente. Para além da componente
teórica, em que se aprendem matérias relacionadas
com a aerodinâmica e a legislação de voo,
existem os conhecimentos práticos, “a área
envolvente da aviação”, como designou a
piloto, adquirida num simulador (neste caso, da TAP), onde tudo
funciona exactamente como se estivessem num avião. “É
incrível”, disse-nos Joana, “é tudo
exactamente igual.”
Mas a profissão de piloto não esgota a sua formação
aquando da aquisição de conhecimentos ministrados
durante o curso. “De seis em seis meses, voltamos ao simulador,
treinamos as emergências, a companhia verifica se estamos
ou não aptos a continuar a voar”, contou-nos.
Joana não teme pelas dificuldades que
terá se, um dia, constituir família ou até
se tiver filhos. Com o ar de quem toma decisões com espírito
pragmático, habituada a afastar os medos e a racionalizar
a vida, responde: “Não sou a primeira mulher piloto
nem vou ser a última. Se as outras conseguem, também
vou conseguir.”
Tem namorado... Soubemo-lo apenas quando nos encontrámos
para a produção fotográfica e, ao fim da
terceira hora, o telefone tocou desesperado, ansioso, com falta
de tempo. “Agora vou namorar...” Joana é
muito discreta. Detesta falar de si e dos seus familiares. Tem
um irmão, mas, de raspão, afirmou que “ele
não tem a ver com o mundo dos aviões”. Mesmo
a falar da aviação, quando os olhos mostram que
também riem, Joana é rápida e concisa.
Há qualquer coisa de misterioso na pose dos pilotos.
Na Madeira, conheci alguns. Parece que vivem no ar, mas com
os pés bem assentes na terra. O olhar é distante,
sempre ao encontro das estrelas, do céu, quase da fantasia.
O que é que a fascina verdadeiramente nesta vida? “A
sensação de estar lá em cima, de voar no
avião, a adrenalina de nos deslocarmos com aquela máquina
enorme, potente, extraordinária. Tudo isto me faz vibrar.
Depois é a aterragem. Uma sensação muito
difícil de descrever. É o sentir que levamos uma
coisa enorme... A sensação de chegar, de termos
tentado fazer as coisas o melhor possível. É fantástico.
Sinto-me completamente realizada.” |
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