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EM DESTAQUE
por Laura Luzes Torres
15 x 10 = 150. No próximo ano, a Louis Vuitton celebra um século e meio de vida. À frente dos destinos desta Casa de grandes tradições continua a família do seu fundador. Com o trineto, Patrick Louis Vuitton, descobrimos bagagens de outras eras. E viajámos no tempo.

Após 17 anos a desenvolver a arte de embalar as delicadas e complicadas toilettes das grandes senhoras do século XIX que viajam, o mestre layetier-emballeur Louis Vuitton decide fundar a sua própria Casa e inventar um novo tipo de bagagem. Assim nascia, em 1854, a moderna mala de viagem, sob a forma de um resistente baú cujo interior satisfazia todas as necessidades das elegantes.

Desde a primeira loja no número 4 da rue Neuve des Capucines até ao grande edifício da Louis Vuitton nos Champs-Elysées, tem sido verdadeiramente une affaire de famille. O “casamento”, em 1987, com a Moët Hennessy, que deu origem àquele que é hoje o maior grupo de artigos de luxo do mundo – LVMH – não veio alterar o espírito nem o modo de funcionamento de uma empresa com fortes raízes nos saberes tradicionais dos artesãos franceses. Curtir uma pele, descobrir novas formas de a tratar ou novos materiais para satisfazer as necessidades do dia--a-dia dos clientes do século XXI, encontrar as madeiras adequadas a cada mala de viagem ou dar resposta a encomendas especiais de profissionais exigentes continua a ser uma arte assente na experiência e numa imaginação fértil. Hoje, 60 especialistas trabalham na criação de produtos. Inovando com a qualidade de sempre.


Entrar em Asnières, a poucos quilómetros do centro de Paris, na casa de família, no museu e numa das actuais fábricas – sucessora do atelier que o já famoso malletier Louis Vuitton aí instalou em 1859, quando o atelier de Paris se tornara pequeno – é sentir que esse savoir-faire perdura e que Patrick Louis Vuitton, herdeiro de um império, não é um gestor inacessível, mas um homem ligado à terra e ao seu ofício. Quando é preciso, arregaça as mangas para desenhar uma encomenda especial ou para ajudar a resolver um problema técnico na fábrica.

As mãos continuam a ser um grande instrumento para dar forma às mais sofisticadas criações da Louis Vuitton. Quando fazem me-lhor que as máquinas, têm a prioridade.


A casa, o museu e a fábrica em Asnières, que a Máxima visitou
Cinco gerações: Louis Vuitton, Georges, Gaston, Claude, Patrick... todos com o segundo nome Louis, em homenagem ao fundador da Casa, seu trisavô. O seu pai, Claude, também trabalhava na empresa?
Sim, dirigia a fabricação.

E moravam aqui, em Asnières?
Houve uma época em que, nesta casa de Asnières, morava a mulher de Georges Vuitton. A casa que existia no lado oposto do terreno era a de Gaston Louis Vuitton, o meu avô, que ali viveu até 1970. E no sítio onde agora estão os carros, havia mais duas casas: a do meu pai e a minha. Portanto, havia aqui toda uma vida de família. Em Janeiro de 1964, quando morreu a minha bisavó, mulher de Georges Vuitton, o meu avô instalou nesta casa todas as suas colecções. Em baixo, havia a sala de jantar, a sala de reuniões. Tinha os escritórios da parte administrativa no pri-meiro andar, o que lhe permitia trabalhar aqui de manhã, com o pessoal administrativo e também com o sector de fabrico, com o meu pai. À tarde ia de carro até à loja, que na altura ficava na Avenue Marceau [inaugurada em 1954, por ocasião do centenário da Casa], onde lidava com as vendas, as relações com os clientes.

Quatro baús que mostram a evolução das telas Louis Vuitton no século XIX
Quando era criança, ia aos ateliers?
Sim, ia ver o meu pai. Atravessava o jardim e entrava por um pequeno portão, que era ali [aponta para o local]. Quando entramos na fábrica, somos apa-nhados pelo cheiro das peles, da madeira... Quando estávamos a brincar no jardim, ouvíamos o ruído das máquinas, os sons característicos da marcenaria. A nossa vida girava à volta da fábrica.

Na adolescência, já se interessava pelo negócio da família?
Nem por isso. A grande esperança do meu avô, Gaston, era que eu viesse trabalhar para a Louis Vuitton, mas eu queria ser veterinário, ir viver para o campo e tratar dos cães, dos cavalos, das vacas, dos porcos... Cheguei a começar a fazer o curso. Mas quando o meu avô morreu, em 1970, a minha avó, com os seus argumentos e com o seu charme, conseguiu convencer-me a trabalhar com ela. Só tenho pena que o meu avô tivesse morrido sem saber que, um dia, eu trabalharia aqui.

O nécessaire de toilette desenhado para a famosa cantora Marthe Chenal nos anos 30
Em que ano começou a trabalhar na Louis Vuitton?
Em 1973, depois de ter feito o serviço mi-litar. Trabalhei com o meu pai na área da fabricação até 1980, ele morreu em 1982. Quando um membro da família Vuitton começa a trabalhar na Casa, tem de aprender todo o processo de fabrico, tem de ser capaz de fazer, por si próprio, todas as bagagens. Portanto, entrei na marcenaria como aprendiz e depois fiz malas – da primeira à última etapa de fabrico. Trabalhei sob a orientação do meu pai e, mais tarde, passei a dirigir a fábrica. Após uma reestruturação, esse posto foi praticamente extinto e fiquei na direcção técnica.

O fundador, Louis Vuitton
Agora, está ao leme. Olhando para trás, como vê a evolução do negócio?
Em 150 anos de história, como acontece em toda a parte, há altos e baixos. Atravessámos uma guerra europeia, duas guerras mundiais, várias crises económicas. Conseguimos sobreviver a tudo isso, e bem, visto que estamos em plena expansão e está tudo a correr muito, muito bem. Isso significa que há um espírito dinâmico, que mantivemos princípios que sempre existiram, ou seja, aconteça o que acontecer, fazer sempre uma bagagem de qualidade, ouvir sempre o que dizem os nossos clientes para adaptar o mais depressa possível todas as bagagens ao gosto actual, mas também às normas dos novos meios de transporte.

Da bagagem rígida de grande formato, utilizada pelos ricos e famosos de todo o mundo, às pequenas peças de marroquinaria, práticas e acessíveis, foi também uma longa viagem a nível técnico.

Antes de 1960, as telas monogramadas impermeáveis que cobriam as bagagens eram ideais para forrar malas, mas relativamente rígidas. Portanto, não serviam para fazer sacos nem pastas. Para os sacos de viagem, utilizávamos uma tela de algodão cru, castanho, mas sem monograma. Nos anos 60, lançámos um revestimento em pvc que o meu pai tinha estudado nos anos 50, que era maleável, impermeável e mantinha todas as características de solidez da tela antiga, até aperfeiçoadas. Isso permitiu-nos desenvolver todas as linhas de marroquinaria e pequena marroquinaria com a tela monogramada, que começou a ser conhecida. Depois, tudo cresceu. França, Europa, Estados Unidos, Japão e toda a Ásia.




Estamos no início dos anos 70. Criaram fábricas pelo mundo fora?
Não, não, de forma alguma! Até essa altura, havia a fábrica de Asnières e uma outra unidade nos Estados Unidos que produzia exclusivamente para o mercado americano, sob licença, com matéria-prima enviada daqui – agora, já é uma sociedade Louis Vuitton a 100 por cento. A partir de 1977, quando precisámos de aumentar a produção, procurei um local e instalámo-nos no Vale do Rhône, na região de Romans, a grande capital francesa do calçado que estava a atravessar uma grave crise. E as outras fábricas também são em França. Preferimos fazer duas unidades de produção com 150 pessoas cada do que uma grande com 500. A forma como trabalhamos só resulta com fábricas pequenas.

A Louis Vuitton lançou a sua primeira colecção de prêt-à-porter há quatro anos. Aqui, o desfile de Outono/Inverno 2003-2004 e o criador norte-americano Marc Jacobs, que revolucionou a imagem da Louis Vuitton.

E as lojas?
As 300 lojas da Louis Vuitton estão totalmente integradas no Grupo. Há cinco zonas e, em cada uma, há um director. A relação é directa, não há intermediários. A reacção do cliente é imediata. Quando lançamos um novo produto, sabemos logo em Paris qual foi a reacção dos clientes em todo o mundo. É muito rápido.

Um casaco em que é reproduzida a tela monogramada que Georges Vuitton criou em 1896.
Com as profundas alterações do mercado, os clientes da Louis Vuitton mudaram. O comum dos mortais veio juntar-se às cabeças coroadas – rei de Espanha, quediva do Egipto, marajá da Índia ou futuro czar da Rússia – e aos grandes exploradores de África que compravam as suas malas de viagem chez Louis Vuitton. Agora, há muitos tipos de clientes.

Não é culpa nossa... foi a democratização da sociedade. E o espírito da Casa é adaptar-se sempre às novas condições dos meios de transporte e também encontrar novos clientes, como acontece em qualquer actividade. Considero isso muito bom porque, como se trata de produtos de luxo, o aumento do número de clientes significa que há cada vez mais pessoas a poder comprá-los. Estamos no bom caminho.


As mulheres tornaram-se mais exigentes?
Só tenho 40 anos de experiência com as mulheres. Mas de acordo com os relatos do meu pai e do meu avô, creio que as mulheres foram sempre exigentes.

Mas agora não querem novos produtos a cada nova estação?
Chez Vuitton, não é assim. Vuitton é intemporal. Há momentos em que fazemos pequenas colecções, sé-ries limitadas. Claro que as mulheres gos-tam muito de mudar. Mas eu também gosto de me manter fiel a um bom modelo, a uma carteira de que elas gostem. Uma carteira da Vuitton tem uma vida longa e há clientes que vêm à nossa loja para consertá-la. Sugerimos-lhes que comprem um novo modelo porque o restauro fica mais caro. Mas há sempre um lado afectivo – “Foi o meu marido que me deu”, por exemplo – e, por vezes, a cliente prefere mandar arranjar a carteira antiga e conservá-la ao longo de 20 ou 30 anos. É isso que é extraordinário.

É responsável pelas encomendas especiais. Que encomendas recebe hoje em dia?
As mesmas que o meu avô e o meu bisavô. A Louis Vuitton deu sempre resposta às encomendas especiais dos seus clientes. O princípio é pegar em um ou vários objectos que pertençam ao cliente e estudar para fazer a bagagem apropriada, à medida, partindo sempre das características de cada objecto. Valorizamos assim o ofício do malletier. Por exemplo, uma das primeiras encomendas especiais que eu próprio realizei nos anos 70, quando ainda não havia o CD, foi uma bagagem para o Hi-Fi, a fim de um maestro japonês poder ouvir música em boas condições enquanto viajava. Estava eu todo contente a pensar que isto era uma estreia da Louis Vuitton quando descobri, nos arquivos, que o meu avô já tinha feito um baú semelhante para a telefonia sem fios...

O âmbito da actividade da Louis Vuitton alargou-se e agora há uma grande diversidade de produtos...
Temos marroquinaria e artigos de viagem, acessórios de viagem – lenços, écharpes, todos os têxteis, que sempre existiram na Casa –, artigos relacionados com a memória da viagem – a escrita – e os que estão ligados ao tempo – relógios – porque não se deve perder um avião, um barco, um comboio.


E qual é o sector mais importante?
As bagagens. E um dia decidimos começar a encher todas as malas vazias que fizé-ramos ao longo de 145 anos e lançámos o prêt-à-porter, que mantém o mesmo estado de espírito – prático e resistente.

Que transformação sofreu a Louis Vuitton aquando da fusão com a Moët Hennessy?
Não houve transformação. O nosso grande salto, como disse, ocorrera nos anos 60, muito antes da data do casamento com a Moët Hennessy. A ideia foi reunir dois grupos importantes que trabalhavam em áreas distintas para criar o Grupo LVMH mais forte, mais sólido, para enfrentar qualquer eventualidade a nível do mercado financeiro. Foi um grande sucesso, qualquer coisa de extraordinário. Depois houve uma batalha jurídico-financeira de dois anos para controlar o Grupo e agora Bernard Arnault é o presidente. Acho muito bem, não tenho qualquer razão de queixa. Nós mantivemos a nossa autonomia no seio do Grupo. E eu também não vou dizer à Moët Hennessy como é que deve fazer o seu champanhe. A cada um o seu ofício. Somos uma espécie de federação de métiers do luxo, com um savoir-faire que é um capital importante.

Qual a sua definição pessoal de luxo?
Primeiro, é uma exi-gência de qualidade, a qualidade das ma-térias, e é um forte contraste entre situações extremas. Pode-mos ter um luxo muito grande num determina-do momento... mas não é forçosamente uma grande quantidade de dinheiro. Podemos ter uma bagagem muito bonita em pele de vaca natural, apenas com quatro costuras pequenas, algo de uma extrema sobriedade, e chegar ao luxo. Há o savoir-faire da matéria, a beleza do obje-cto. Para mim, uma caixa em ébano, por exemplo, é magnífico. Se tivermos isso, uma mala que nos permite transportar charutos, é um luxo poder fumar um no meio do deserto. Ou num barco. Tenho uma paixão, a caça. Quando passo seis horas a cavalo sob a chuva, em pleno Inverno, e depois de um bom dia de caça desmonto, abro a caixa que tenho na minha camioneta e bebo um bom whisky, é um luxo. Há um contraste, porque estamos no meio da lama...

Através das bagagens, o trabalho na Louis Vuitton está ligado ao mundo das viagens. Costuma viajar nos seus tempos livres ou só faz viagens de negócios?
Só comecei a viajar há 12 anos. Nos anos 70, fazia vela, entrava em regatas. Mas deixei de andar de barco por falta de tempo. Quando dirigia a fábrica, viajei sobretudo pela Europa para encontrar matérias-primas para a Vuitton. E depois, em 1990, Bernard Arnault pediu-me para ser o embaixador itinerante da Casa. Portanto, desde então, viajo constantemente pelo mundo inteiro. E quando não estou a trabalhar, quero estar em casa – é um grande luxo. [Patrick Louis Vuitton vive com a família numa propriedade nos arredores de Paris, rodeado de animais]

Na Louis Vuitton, a tradição anda sempre de mãos dadas com a inovação. Assim, a equipa responsável pelo design das peças tem contado com a colaboração de artistas, designers e criadores de moda famosos. Um exemplo é o saco-ânfora que Romeo Gigli desenhou para a Vuitton. O sector mais importante da Casa continua a ser o das bagagens.
A geração seguinte vai continuar na Louis Vuitton?
Tenho dois filhos e ambos tencionam ficar a trabalhar na Casa. Um deles, com 27 anos, vai agora para os Estados Unidos depois de ter estado no Japão. O outro, mais ligado à parte técnica, está a estudar Informática e depois entrará para a Vuitton.

Quais são os seus projectos para a Casa?
Se continuarmos a inovar, a respeitar a tradição e a ter projectos de bagagens de qualidade, ainda teremos mais 150 anos de vendas, na minha opinião.

Para terminar, como explica o enorme sucesso da Louis Vuitton?
Reside numa palavra: qualidade. Este ano, ao presidir à Assembleia Geral do Grupo LVMH, Bernard Arnault fez um discurso sobre a qualidade e disse a todos: “Sigam o exemplo da Louis Vuitton. O seu sucesso deve-se à qualidade – das matérias-primas, do fabrico, da distribuição.” Senti-me muito lisonjeado. Depois temos a tradição, uma história que é uma base em betão sobre a qual construímos todos os andares. E a inovação. É preciso estabelecer um equilíbrio entre tradição e inovação. Quando temos a dose certa, ça marche.
 



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