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Admito que vivi cada regresso à escola com prazer. Além do facto de reencontrar os amigos, adorava todo o ritual a ele associado: comprar os livros e os cadernos, as sacolas para os transportar e as caixas onde guardava os lápis de papel e de cor. E as borrachas? Adorava o cheiro das borrachas! É verdade que também sentia borboletas no estômago, mas elas eram muitas mais quando passava de um ciclo para outro, e sobretudo quando passei da escola para o colégio.
O início do ano lectivo representa sempre uma mudança na vida das crianças. Elas passam de um tempo que é de descontracção, as férias, para outro em que as regras são menos flexíveis, há tarefas a cumprir em tempo. A novidade é estimulante, mas é impossível não sentir medo. Contudo, as entradas na creche como no infantário, na escola como no colégio, pela primeira vez, são as mais complexas, pois são momentos de ruptura com algo que se conhece. Iniciar um novo ciclo pressupõe adaptação, aprendizagem, e, por fim, faz crescer. Esta etapa é uma fonte de inquietação para as crianças, que experimentam um sentimento de angústia do desconhecido. Mas também para o pai e para a mãe, por variadíssimas razões. Uma delas tem precisamente a ver com o facto dos pais terem dificuldade em aceitar que os filhos crescem. Especialistas ajudam a aperceber este tempo.
A entrada no jardim infantil
Segundo a pedopsiquiatra Teresa Amaral, “desde o nascimento, a relação da criança com os pais é um somatório de separações”. A ida para o infantário é umas das primeiras e provoca sentimentos contraditórios nos adultos. “Há um processo de separação/individuação”, onde a “criança perde a protecção dos pais, ao separar-se, mas ganha em autonomia. Ganha o seu ‘eu’, a sua individuali-dade.” Isto faz-se à custa de alguma angústia de ambos, mas sobretudo dos adultos.
A entrada no infantário marca um tempo que passa a ser de “regras de comportamento e de solidariedade, é um ritual de iniciação para o crescimento, é a primeira socialização da criança”. A idade ideal para isto acontecer situa-se nos três anos de idade, antes disso “seria bom ficarem em casa ou ficarem com o substituto da casa”. Seja como for, ao passar das férias – que é um tempo de lazer e aprendizagem pela prática e contacto com outras realidades, mas também de ver os pais noutra perspectiva que é a de não estarem a trabalhar – para a instituição, a criança vai viver a angústia da separação, garante Teresa Amaral. Os choros à porta do infantário resultam disso mesmo: é uma reacção natural. “Aliás, muitas vezes choram todos, mãe e filhos.” De qualquer forma, prossegue, é importante que os pais insistam em levar a criança todos os dias para o infantário – “ao fim de 15 dias esta deixa de chorar” – e apostem numa relação de qualidade com os filhos. “Todos os dias ao fim do dia, devem reservar uma hora para estar com eles, com muita disponibilidade e paciência.”
A ida para a escola pela primeira vez
Geralmente, a resistência das crianças vem dos pais, assegura Teresa Amaral. “Estes têm medo que o filho não se dê bem, e passa-o para a criança de uma forma inconsciente. Porque quando os pais falam muito bem da escola, os meninos querem ir”, explica, esclarecendo que é “contraproducente” a visita assídua das mães e avós ao pátio do estabelecimento na hora do recreio.
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4 perguntas à psicóloga clínica Maria João Cosme
1. O que é que os professores e o pessoal escolar podem fazer para facilitar a adaptação da criança na instituição?
As pessoas que trabalham com e para as crianças devem ter em consideração a sua idade e a fase de desenvolvimento no momento em que elas entram na instituição. Devem estar alerta, vigiando os seus comportamentos, respeitando os seus direitos e fazendo cumprir as normas vigentes dessa mesma instituição.
Por outro lado, devem conhecer os alunos, tratá-los como cidadãos com direitos, mas também com deveres. Deverá também existir uma parceria enriquecedora, baseada na colaboração entre pais e professores.
2. Quando é que os pais devem inquietar-se?
Quando os seus filhos estão inquietos, ou seja, quando há uma alteração no seu comportamento habitual, de forma inexplicada. Então os pais devem conversar com ele e saber o que, de facto, se passa. A comunicação e o diálogo na família são essenciais, pelo que devem ser cultivados. Havendo um relacionamento aberto entre pais e filhos, facilmente se ultrapassam os problemas, num “trabalho em equipa”.
3. Uma das passagens de ciclo coincide com a entrada na puberdade/adolescência. Isto pode, em alguns casos, tornar a adaptação mais difícil?
Não considero que o facto de ser adolescente dificulte a adaptação, mas é verdade que a adaptação do jovem pode variar consoante a fase de desenvolvimento em que se encontre e a sua maturidade. O facto de ser adolescente pode apenas empolar a necessidade que os jovens têm de chamar a atenção sobre si próprios, o que não significa que isso seja negativo, pois podem tentar sobressair pela positiva. Os jovens têm necessidade de testar os seus limites e é natural que o façam.
4. Nas dificuldades e problemas que a criança possa vir a ter, qual deve ser a posição dos pais?
Não vigiar mas estar activamente atentos parece-me o mais correcto. Os pais não devem ter o papel de controladores ou invasores da autonomia e do espaço dos seus filhos, mas devem estar atentos às suas necessidades, aos seus problemas, aos seus comportamentos. E, sobretudo, devem estar disponíveis para os acompanhar, apoiar e estar por perto nos momentos mais decisivos das suas vidas, tais como as passagens de ciclos. Os pais devem negociar as regras, estabelecer os limites, no entanto, ter sempre a última palavra. |
A escola primária “é a escola a sério porque já conta, já reprovam”. É uma fase de desenvolvimento importante porque a criança “é uma esponja em relação ao conhecimento, absorve tudo. A nível cognitivo está desenvolvidíssima, a nível de apetências quer e tem prazer de apreender”. Gostar da professora e da escola é fundamental, pois neste caso a criança aprende, “e, portanto, passa por os pais fazerem com que isto aconteça”. Como? Dando tranquilidade, “valorizando tudo o que o menino aprende, reforçando positivamente, e gratificando-o do que já aprendeu e do que já sabe”. O estímulo para a leitura também é essencial. Com livros mas não só. “Tudo serve para ler, os cartazes que estão na rua, os anúncios, os jornais”, diz. Por outro lado, há que saber “ligar a leitura e depois a matemática à vida”, aprender relacionando. Quando isto acontece, “a criança começa a sentir alegria e a gostar de ir para a escola. Quanto mais vai mais gosta, mais aprende, e corre tudo bem. Temos meninos felizes, professores felizes e pais felizes”.
Por esta altura é importante que o quarto da criança deixe de ser um espaço apenas de brinquedos, reservando-lhe uma zona de estudo, com secretária.
À noite, para estreitar ainda mais os laços, pais e filhos devem falar sobre como foi o dia – pode ser enquanto fazem o lanche para a criança levar no outro dia.
O liceu: enfim, ‘crescidos’
A passagem do primeiro para o segundo ciclo é, “de todos os saltos, provavelmente o maior”, explica a especialista. As crianças passam de um espaço protegido que é a escola primária, “que tem um modelo semelhante ao da família na medida em que há só um professor que é o prolongamento da mãe ou do pai, para uma estrutura completamente diferente”. A partir daqui têm mais disciplinas, têm de circular entre várias salas de aulas, estão expostos a maiores perigos e são ainda pequenos.
De acordo com Teresa Amaral, é a fase em que se aconselha os pais a estarem mais vigilantes “em relação a tudo”. Explica que as crianças levam algum tempo a adaptar-se, mas que os professores e os directores de turma estão preparados para isso, tanto assim que “alguns optam por não dar notas no primeiro período, para não haver este tipo de carga”.
As escolas primárias por si são também um espaço muito maior, com mais salas e muito maiores, com muitos miúdos de idades mais avançadas. Finalmente, “é um mundo de adolescentes, com comportamentos, vivências, interesses completamente diferentes”. Durante este período querem-se pais mais atentos. “Devem contactar as escolas, as quais têm estruturas muito bem montadas, ir à reuniões”, diz. E acrescenta: “Agora os pais, do ponto de vista interior, tem de se mentalizar que os filhos cresceram.” Sendo importante que continuem a saber onde os filhos vão, com quem estão e o que fazem, devem ter sempre esta realidade presente. |
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