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Após a fusão familiar das férias,
voltamos às duras realidades da vida. Para
os mais jovens, o afastamento da protecção
(ou da pressão) parental também tem
vantagens. Rito de passagem, o início do
ano escolar convida ao crescimento e pode dar asas.
Na condição de ser gerido com serenidade.
Por Sophie Carquain
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Se cada
rentrée assinala
a renovação, alguns caminhos são
mais fáceis de percorrer do que outros. Naquele
cortejo de pés acabados de calçar, ninguém
sabe dizer se é a mãe ou o filho quem
tem dificuldade em avançar. Do peluche brandido
como uma bóia de salvação diante
da porta do infantário à última
recomendação sussurrada ao ouvido de um
adolescente que cresceu defi-nitivamente e vai seguir
a sua vida na universidade, as se-parações
são um eterno recomeço. E outras tantas
ocasiões para testar, tanto nos filhos como nos
pais, “a capacidade de estar sozinho”, para
retomar as palavras de Winnicott [pediatra e psicanalista
inglês]. De se revelar diferente, menos protegido,
mais seguro de si.
Em poucas palavras, as primeiras vezes fazem crescer.
A começar por aqueles
milhares de amostras de gente que, daqui a alguns dias, vão trocar as
havaianas por sapati-lhas lavadinhas, a caminho da escola. Sendo a separação
inevitável, como encará-la?
“É importante não atirar as crianças para a selva
de um dia para o outro”, adverte a psicanalista Danielle Rapoport, especialista
em crianças. Na sua opinião, a entrada no infantário assemelha-se,
demasiadas vezes, a um rito cruel, para não dizer uma praxe. O ideal,
segundo a psicanalista, que escreveu um livro para explicar as suas ideias (1), é preparar
a primeira vez evitando cortes, fazendo uma ada-ptação progressiva: “Antes,
os pais devem passar várias vezes frente à escola com o filho e,
no dia D, não devem deixá-lo lá escapulindo-se como ladrões.” Durante
o primeiro semestre, as crianças deveriam ficar na ama a meio-tempo, para,
por volta dos quatro anos, quando começarem realmente a dominar o ambiente
que as rodeia, serem deixadas o dia inteiro no infantário, sem problemas.
Com a escola primária, dá-se uma mudança de agulha. Acaba-se
o escorrega no pátio, o canto das bonecas na sala. A psicanalista aconselha
os pais a não pressionar excessivamente as crianças com as famosas
frases: “Agora vais para a escola a sério. Atenção,
vais ter notas!” É preferível encorajá-las, dizendo: “Que
bom, no Natal já vais poder ler o que está escrito na embalagem
dos cereais.” O primeiro apoio de que a criança necessita é “saber
que a sua vida escolar é valorizada pelos pais”, afirma Thomas Motte,
psicólogo escolar (2), “não apenas as notas e os resultados,
mas o seu dia-a-dia como aluno. Dar importância a essa parte da sua vida é uma
das condições para que a própria criança invista
nela”.
Mas é sobretudo a entrada no ensino secundário, verdadeiro rito
de passagem, que assinala a grande separação entre pais e filhos.
E o início da adolescência. Por um lado, porque os pais são
(salvo excepções) personae non gratae nestes estabelecimentos de
ensino, e, por outro, porque o vosso rebento provavelmente vos olhará de
lado se o forem buscar depois das aulas. “Até este momento”,
explica o professor Daniel Marcelli, pedopsiquiatra e especialista na adolescência
(3), “mesmo que a criança se encontrasse fisicamente se-parada de
nós, estava ainda contida no nosso espaço físico de representação.
Por outras palavras, sabíamos sempre onde estava, podíamos imaginá-la.” Ora
o adolescente, por definição, está sempre a fugir-nos. “À separação
física junta-se então a separação psíquica”,
precisa o pedopsiquiatra. Não é isso ser pai de um adolescente?
É frequentemente nessa altura que lhe damos um telemóvel, esse “cordão
umbilico-fónico” que dá a sensação de o “conter
ainda um pouco no nosso espaço” e de controlar os seus passos. “Mas
não nos iludamos, continua a ser uma criança”, sustenta Danielle
Rapoport. “Temos de o deixar conquistar a sua independência, não
deixando, no entanto, de reconhecer que ainda é emocionalmente muito
frágil”, acrescenta. Em suma, demonstremos-lhe que estamos lá,
vigilantes. Até ao dia em que, de mochila às costas e mala na mão,
o adolescente deverá partir, inscrever-se numa universidade longe de casa.
Tornamo-nos então, quase de um dia para o ou-tro, pais de um jovem adulto. “É o
salto no vazio”, adverte Daniel Marcelli. “A família resolve
o problema accionando pára-quedas, amigos, adultos a quem o jovem possa
recorrer”, acrescenta. Telemóveis, webcams, mensagens de correio
electrónico e outros meios de comunicação permitem manter
a ligação. “Neste capítulo, cabe aos pais exprimir
as suas necessidades, pois o adolescente pode muito bem zarpar a toda a brida,
sem procurar continuar a comunicar. Podemos propor trocar notícias uma
ou duas vezes por semana e fixar dias”, sugere o professor.
Uma coisa é certa: as rupturas mal feitas que sofrem, por exemplo, os
filhos que superprotegemos e depois empurramos, sem mais, para fora de casa podem
ter consequências para a vida inteira. Os jovens mais plenamente desenvolvidos
são aqueles que foram acompanhados, ao longo de toda a infância,
por pais que lhes deram “simultaneamente, raízes e asas”,
conclui a psicanalista Danielle Rapoport.
(1) Autora de La Bien-traitance envers l’Enfant, des Racines et des Ailes
(Éditions Belin) (2) Retirado de Encyclopédie de la Vie de Famille
(Éditions de La Martinière) (3) Co-autor de Ados, Galères,
Complexes et Prises de Tête (Éditions Albin Michel).
Regresso a 12 de Setembro
O calendário para o próximo ano lectivo está definido:
1. Os estabelecimentos públicos de ensino pré-escolar, básico
e secundário devem abrir portas entre 12 e 17 de Setembro, para as encerrarem
somente no Verão de 2008
2. Se os alunos dos últimos anos terminam as aulas a partir de 6 de Junho,
os restantes dizem adeus aos professores a partir de 20 desse mês
3. O pré-escolar, por seu turno, prossegue trabalhos até 11 de
Julho
4. Quanto às tradicionais pausas lectivas, os pais podem já apontar
as datas na agenda:
• de 17 de Dezembro a 2 de Janeiro, férias de Natal
• de 4 a 6 de Fevereiro, Carnaval
• de 17 a 28 de Março, Páscoa
Alunos com novas regras
• Aprovado em Conselho de Ministros, em Abril passado, o novo Estatuto do Aluno
do Ensino Básico e Secundário promete mudar a relação
dos estudantes e seus pais com a escola
• Apresentado pela ministra Maria de Lurdes Rodrigues como um instrumento essencial
para enfrentar os crescentes problemas disciplinares, o diploma reforça
a autoridade dos professores, aumentando a responsabilidade dos encarregados
de educação
• Os professores passam, por exemplo, a poder aplicar medidas cor-rectivas sem
necessidade de recorrer a conselhos de turma, bastando a comunicação
aos pais dos alunos prevaricadores
• Os pais serão chamados a ter um papel mais activo na assiduidade dos
filhos. “A frequência com que os pais vão ser chamados à escola
para serem informados das faltas vai aumentar e muito”, afirmou a ministra
da Educação
Os nervos do 1.º dia
Luisinha ainda não comprou a mochila, mas já sabe que a quer cor--de-rosa. “É a
minha cor preferida”, justifica, com a certeza dos seus seis anos, para
adiantar que é a irmã quem a vai ajudar a escolher os cadernos
e “depois, se for preciso, com os trabalhos de casa”. O entusiasmo
com o primeiro dia de aulas é muito, mas os nervos nem por isso. “Vou
para a escola da mana e já conheço duas meninas do 1.º ano”,
diz Luísa, que, por agora, está mais interessada na praia.
“Se com a Maria João, a minha filha mais velha, agora no 4.º ano,
fui muito ‘stressada’, com a mais nova, estou calma. Não vale
a pena encher--me de ansiedade e questionar-me se ela vai ou não adaptar-se. É deixar
as coisas correrem e mostrar-lhe que a escola traz responsabilidades, sim, mas
também amigos e diversão”, afirma a mãe, Maria da
Luz. “Eles percebem se estamos com medo da mudança e o nosso medo
passa a ser o deles.” Talvez por isso a técnica comercial diga que
o nervoso miudinho só está autorizado em Setembro: “Agora,
queremos é Sol e mergulhos!”
Adeus, preocupações antecipadas
“A primeira regra quando se pensa na entrada de um filho para a escola é gerir
as nossas ansiedades e acreditar que vai correr tudo bem”, ensina a psicóloga
Helena Águeda Marujo aos pais que vão, em estreia, ver os seus
miúdos de mochila às costas rumo às aulas. O desafio lançado
pela autora de Educar para o Optimismo pode não ser fácil, mas
ela deixa algumas dicas:
•“Se os pais estiverem com dúvidas, façam listas: das qualidades
e talentos dos filhos, das mais-valias do estabelecimento escolhido, dos benefícios
da envolvente
• E, muito importante, agarrem-se ao pensamento positivo. Acreditem que as crianças
vão gostar da escola, da professora e que irão fazer novos amigos.
Façam mesmo idealizações dos filhos a rir, integrados, participativos,
a gostar da aventura da aprendizagem
•É também este espírito positivo e confiante que devem
ter no primeiro contacto com os docentes. A curto prazo, os pais verão
os efeitos desta atitude optimista!” |
Não ao stress
Uma pequena lista das inquietações mais frequentemente
expressas pelos alunos e pelos pais. E alguns conselhos para os tranquilizar.
Por
Florence Victor
Os filhos
• “Vou perder todos os meus colegas”
Número um na escala de Dolto: o medo de se separar dos seus me-lhores
amigos. Aconteceu à Isabel, de 13 anos. Demorou “pelo menos duas
semanas” a recompor-se.
O remédio: desdramatizar
“Há que fazer com que as crianças percebam que as pessoas
podem ter de se afastar sem que isso implique perder o contacto”, explica
a psicóloga Béatrice Cooper-Royer*.
• “Vou cair nas garras de um mau professor”
Fruto da imaginação das crianças ou amargas sequelas de
experiências passadas? O medo do professor injusto, mau pedagogo ou pouco
simpático, preocupa o aluno, sobretudo se este for do género cábula.
O remédio: separar trabalho de afecto
“Para os mais crescidos, é preciso recuar”, diz Béatrice
Cooper-Royer. “Pode muito bem não se gostar de um professor e ter
interesse pelo que ele diz. É preciso separar o trabalho da parte afectiva.
Os pais devem defender a ideia do respeito para com os professores.”
• “Nunca vou conseguir”
Nos alunos mais inseguros, o medo de não estar à altura cria uma
real inquietação. Sobretudo se os pais também estiverem
apreensivos.
O remédio: refrear a pressão relativamente às
notas
É certo que os pais devem acompanhar os desempenhos escolares dos filhos,
mas sem os atormentar por cada nota menos boa.
É preciso que os pais
se disponham a ir ter com
os directores de turma para
obter ajuda. |
• Dura, dura, é a disciplina
Não é o que mais aterroriza os colegiais, mas a disciplina está de
volta. Vigilantes e professores redobram a atenção aos insultos
e agressões.
O remédio: respeitar o regulamento comum
“Os colégios e os liceus são locais de vida colectiva onde é necessário
que se submetam às regras da comunidade.”
• “Tenho uma carga horária de ministro”
Trinta horas de aulas no colégio, no liceu é igual, sem contar
com as actividades extracurriculares, mais os trabalhos de casa…
O remédio: dormir bem
As soluções para evitar a acumulação de cansaço
passam por: estar com atenção durante as aulas (ganha-se tempo);
organizar a forma de trabalhar, reler os apontamentos todas as noites; não
deixar atrasar a matéria e não se deitar demasiado tarde.
• “Estou hesitante entre a dança e o judo...”
Basquetebol, esgrima, viola, dança oriental... a oferta de actividades
abunda e os miúdos transbordam de energia e de desejos.
O remédio: faz o que te dá prazer
“Há crianças que têm uma necessidade existencial de
se mexer para se sentir bem. E depois há aquelas que são mais contemplativas
e que gostam de ficar em casa”, explica Béatrice Cooper-Royer.
Os pais
• “Sobra para mim a arrelia dos trabalhos de casa”
Quando se trata de contar O Corvo e a Raposa na primária, é fácil.
Mas depois de um dia cheio de trabalho, dedicar-se à revisão do
controlo da recíproca do Teorema de Tales, passa-se da categoria de Mãe
Coragem à de santa.
O remédio: ensiná-lo a trabalhar sozinho
“Há crianças que, no início do ano escolar, são
incapazes de se organizar sozinhas. Essas precisam de ajuda e é preciso
definir-lhes objectivos”, explica Béatrice Cooper-Royer. “Mas
isso não implica ficar sentado ao lado delas.”
• “Não conheço ninguém na escola
do meu filho”
O ambiente entre pais e professores é por vezes de desconfiança
e mesmo de incompreensão.
O remédio: ir à escola
É preciso que os pais se disponham a ir ter com os directores de turma
para obter ajuda na solução dos problemas. É muito importante
mostrar aos professores que se acompanha de perto os estudos dos filhos.
• “Receio a falta de segurança nas escolas”
Muitos têm a sensação de viver num clima de forte insegurança. “Na
realidade, o perigo está mais fora dos portões das escolas”,
diz José, um pai de família.
O remédio: informar e advertir as crianças
Seja qual for o local onde moram, é necessário advertir as crianças
dos perigos que as espreitam: a droga, os assaltos, tudo isso fará parte
do seu quotidiano.
• “Nem sempre consegui encontrar uma baby-sitter”
Até aos 12 ou 13 anos, ter os filhos ao cuidado de alguém é como
andar na corda bamba.
O remédio: simplificar as coisas
É evidente que é difícil ter alguém que tome conta
dos filhos quando se trabalha fora. Mas, hoje em dia, os sistemas de ajuda ao
domicílio permitem conciliar a vida profissional com a vida familiar.
Para os mais crescidos, é útil estar alguém em casa quando
voltam da escola.
Béatrice Cooper-Royer, psicóloga clínica, é autora
de Comment Survivre à ses Peurs? e de Non, tu n’est pas encore Ado
(ambos das Éditions Albin Michel)
A Rentrée
segundo Isabel Leal
1. A ideia da rentrée é deliciosa. Esta coisa de voltar, regressar,
iniciar um novo ciclo, retornar a um dado lugar – dito em francês – tem
conotações encantadoras e melífluas, que não se conseguem
noutra língua.Porque se diz rentrée, fica-se na expectativa de
imensos acontecimentos, cheios de novidades, de interesse, de estilo, animadíssimos
ou entusiasmantes, que nos prendam a atenção e nos mobilizem, de
corpo e alma, para qualquer coisa que há-de vir, e ser, um oportuno objecto
de desejo.
2. A rentrée implica compras, visitas a lojas,
folhear revistas, saídas
com os miúdos que precisam mesmo de livros novos, pastas novas, botas
novas e, de caminho, dar uma olhada às tendências de moda da nova
estação: roupas, sapatos, acessórios, sofás, papéis
de parede, perfumes, quinquilharias e inutilidades e tudo o que enche as lojas
e as faz parecer atraentes, movimentadas, mesmo brilhantes. Implica um exercício
de antecipação do próximo calendário de eventos em
que queremos participar na roupagem apetitosa do “agora é que vai
ser”.
3. Porque acabámos o período de férias,
as aulas estão
a recomeçar, o Verão se começa a despedir, o trânsito
a complicar-se, precisamos de olhar em frente, não com a chatice do regresso à rotina
mas com o enlevo optimista de que, porque é a rentrée, estarão
por aí imensas coisas novas e envolventes à nossa espera, para
nos encher a vida, distrair o espírito e ocupar os dias, tudo isso numa
aura de requintada inauguração.
4. Ser capaz de dar o jeito que permite transformar
o período do ano em que
os dias encurtam; as praias e as esplanadas ficam vazias e os escritórios
e os transportes cheios; as férias, as viagens e as visitas se esbatem
e se distanciam, e os assuntos sérios, importantes e consequentes regressam
ao dia-a-dia, e fazer tudo isto com gozo, é, têm de reconhecer,
um inegável mérito e uma habilidade invejável.
Assim sendo, espero que sejam muitos os que aproveitem a ilusão encantatória
das palavras e tenham o engenho e a arte para celebrar e fruir a rentrée.
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