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Quem
está em risco? Como prevenir um Acidente
Vascular Cerebral? E se acontecer, como agir?
Por Natacha Gonzaga
Borges |
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Todos
nos espantámos
ao saber que a escritora Margarida Rebelo Pinto, de 41
anos, tinha tido um Acidente Vascular Cerebral (AVC).
Inesperado, mas sem sequelas maiores, graças à rápida
assistência hospitalar. E voltámos surpreender-nos
com a notícia de que a agente da banda Xutos & Pontapés,
Marta Ferreira, de 44 anos, falecera no Aeroporto de
Lisboa após uma paragem cardíaca, quando
o grupo se preparava para se deslocar a Toronto, no Canadá.
Estarão as mulheres na faixa dos 40 anos mais vulneráveis às
doenças cardiovasculares do que pensamos?
A possibilidade de ocorrência de tumor maligno na mama ou no colo do útero
já preocupa, e bem, uma boa percentagem de mulheres que se mantêm
cada vez mais atentas quer aos sintomas quer à necessidade de realizar
exames periódicos de vigilância, como a mamografia e a citologia
(exame Papanicolau). Mas o mito de que as doenças cardíacas e vasculares
afectam sobretudo os homens ainda persiste, apesar de estas patologias serem
as que mais portugueses matam todos os anos: homens e mulheres.
Em Portugal, o AVC afecta três pessoas por hora, 54 por dia e 20 mil por
ano; 13 em cada 100 homens e 8 em cada 100 mulheres com 54 e mais anos irão
ter um AVC nos próximos 10 anos. São estes os resultados de um
estudo apresentado pela Fundação Portuguesa de Cardiologia, no
ano passado, que envolveu mais de 70 centros de saúde e cerca de nove
mil pessoas.
Nas mulheres, as doenças circulatórias desenvolvem-se mais tardiamente,
mas em idades em que são mais fatais. Os homens estão mais sujeitos
a ataques cardíacos (enfarte do miocárdio), que ocorrem, em média,
10 anos antes das mulheres. Mas as mulheres estão mais sujeitas a AVC, à medida
que se aproximam da idade da menopausa. Em parte, devido às alterações
hormonais, nomeadamente à perda do efeito protector do estrogénio.
“As diferenças entre os sexos estão a esbater-se”,
admite, no entanto, o cardiologista Armando Pereirinha. “Se, até recentemente,
se falava pouco deste tipo de ocorrências em mulheres, sobretudo em jovens,
a alteração dos ‘estilos de vida’ tem aproximado homens
e mulheres no risco destas patologias.” Um risco que, “em certos
locais de prestação de cuidados de saúde, é tido
como menor” e que inspira “alguma preocupação” ao
professor do Instituto de Medicina Preventiva, da Faculdade de Medicina de Lisboa.
“O principal problema das doenças cardiovasculares e cerebrovasculares é exactamente
esse: o facto de poderem ir progredindo sem sinais detectáveis, podendo,
inclusive, atingir estádios bastante avançados e permanecer com-
pletamente assintomáticas”, explica o médico.
Factores de risco
Um AVC acontece quando as células cerebrais morrem ou deixam de funcionar,
normalmente por falta de oxigénio e nutrientes, quer devido ao bloqueio
do fluxo de sangue quer por serem inundadas de sangue quando uma artéria
se rompe.
No primeiro caso, o mais comum, a interrupção do fluxo sanguíneo
provoca um AVC isquémico. Ou causado por uma “trombose”, quando
um coágulo se forma numa artéria principal do cérebro e
a obstrui, ou por uma “embolia”, quando um coágulo se forma
no coração ou noutro local e se solta na circulação,
obstruindo uma artéria cerebral.
No segundo caso, a ruptura da artéria dá origem a um AVC hemorrágico,
ou seja, a um “derrame” no cérebro.
O risco de AVC aumenta com a idade. E está igualmente relacionado com
a história familiar. Em Portugal, cerca de 30 por cento de doentes a quem
foi diagnosticado um AVC tem pelo menos um familiar afectado pelo problema, de
acordo com a Sociedade Portuguesa de Acidente Vascular Cerebral (SPAVC).
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O que fazer?
Reconheça os sintomas de AVC pedindo à pessoa
para:
• Sorrir (note se a boca entorta)
• Levantar os braços (observe se não tem força e se levanta
apenas um)
• Dizer uma frase simples (aperceba-se da dificuldade em articular palavras e
pensamentos)
Chame o 112, sem demora!
• Solicite a Via Verde do AVC para que o doente seja conduzido a um hospital
que possua uma Unidade de AVC
• Lembre-se: algumas terapêuticas actuais destinadas a reduzir as consequências
de um AVC só podem ser aplicadas até cerca de três horas
após o início dos sinais
• Falsos mitos: tentar que o doente se levante, ande, agite os braços,
massaje o peito ou tussa |
Certos grupos étnicos correm também um maior risco de ter um AVC.
As pessoas oriundas da África Ocidental e das Caraíbas vêem
esse risco duplicado relativamente aos de origem caucasiana.
Ser hipertenso (ter uma pressão arterial elevada persistente, superior
a 140/90 mm Hg) envolve um risco quatro a seis vezes superior ao de alguém
com uma pressão arterial normal (de ±120/80 mm Hg). E ter diabetes
aumenta o risco em cerca de três vezes. Algumas doenças cardíacas,
em especial as que produzem certas arritmias, constituem factores de risco de
AVC. Batimentos cardíacos alterados provocam uma corrente sanguínea
irregular, originando a formação de coágulos sanguíneos,
que podem viajar até ao cérebro.
Ter um colesterol elevado, não praticar actividade física e ser
obeso exponencia o risco de diabetes, hipertensão arterial e arteriosclerose,
e assim o risco de AVC. Tal como fumar, já que o fumo promove a arteriosclerose
e aumenta os níveis de coagulação do sangue. Um risco que é acrescido
no caso das mulheres que tomam a “pílula”.
O álcool, quando consumido em excesso, aumenta a pressão sanguínea
(apesar do consumo diário de pequenas doses ter um efeito positivo na
diminuição da coagulação).
E o uso de certas drogas também acentua o risco de AVC. É o caso
da cocaína, que provoca arritmias e a aceleração do ritmo
cardíaco, que podem levar à formação de coágulos.
E também da Cannabis, que é tida como “droga leve”,
mas diminui a pressão arterial e, juntamente com outros factores de risco,
contribui para níveis de pressão sanguínea flutuantes, que
potenciam a ocorrência de AVC.
Prevenção: mitos e verdades
A aspirina constitui um importante agente de prevenção mas, note-se,
apenas do AVC isquémico. “Se o risco for de um AVC hemorrágico,
então até estará contra-indicado. Além disso, a
aspirina pode potenciar a ocorrência de hemorragias gastrointestinais,
pelo que só um médico está habilitado a decidir em que casos
a prescrição é ou não indicada”, esclarece
Armando Pereirinha.
O cardiologista garante ainda que não existe qualquer comprovação
científica de que vitaminas ou outras abordagens antioxidantes têm
uma importância preventiva. E no caso da terapêutica hormonal de
substituição (THS), em mulheres na pré-menopausa, garante
que “até se verificou um efeito nocivo, não existindo qualquer
indicação para a sua toma por risco cardiovascular”.
As medidas de prevenção passam pelo controlo geral da saúde
cardiovascular: alimenta- ção equilibrada – pobre em sal,
açúcares e gorduras saturadas –, consumo ligeiro de álcool,
exercício físico e ausência de tabaco. Mas também
pela vigilância regular dos níveis de ten- são arterial,
colesterol, triglicéridos e açúcar no sangue.
Um exame clínico “de saúde” anual deve incluir a realização
de um electrocardiograma, para avaliar o ritmo cardíaco. Se o médico
quiser aprofundar o diagnóstico ao coração, poderá solicitar
a realização de uma ecocardiografia (ecografia cardíaca),
um Doppler cardíaco e uma Prova de Esforço. A ecocardiografia constitui
o método mais frequente e importante, pois permite estudar a anatomia
e o funcionamento do coração e a detecção de defeitos
congénitos, tumores e doenças do miocárdio, entre outras.
Sintomas e sequelas
Os sintomas do AVC vão ser determinados pela zona do cérebro atingida
pelo défice de circulação. Se afectar zonas vitais, que
controlam a respiração ou o coração, poderá ser
causa de morte súbita. Se for uma zona relacionada com a fala, poderá envolver “apenas” uma
ligeira afasia (alteração da fala).
Os sintomas habituais que representam lesões mais significativas são:
desvio labial (“boca ao lado”), incapacidade de mexer o braço
e/ou a perna de um dos lados.
No entanto, sintomas de curta duração, como perda súbita
de visão que depois regride, desorientação, perda de força
ou sensação de “adormecimento” (na face, com pequenos
desvios labiais, ou num membro), dor de cabeça súbita, intensa
e fora do habitual; tonturas ou perda súbita do equilíbrio, especialmente
se acompanhada de alguns dos sinais anteriores, devem levar a pessoa a procurar
o seu médico para investigar se ocorreu ou não um AVC. E pelo risco
de um próximo AVC poder ter consequências mais intensas. |
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