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No seu espectáculo Mi Soledad, com guarda-roupa renovado de Jean Paul Gaultier, Joaquín Cortés explora os medos, os amores e desamores, a solidão e como é conviver com ela. A 11 de Agosto, em Albufeira.

Por Sandra Nobre

 
Aos 36 anos, o bailarino e coreógrafo diz que não é um homem só. Fala da família, dos amigos, nunca das namoradas. Começa a actuação num quarto, que podia ser o seu, a
olhar para a vida e o que espera dela. Depois, dá-se a explosão da festa cigana, que reflecte as suas raízes. Mas garante que este não é um espectáculo autobiográfico.

Os nomes dos seus espectáculos soam sempre a algo muito íntimo.
Nunca tinha pensado nisso... É verdade, talvez tenha a ver com aquilo que sinto e com o que sou.

É um homem só?
Tenho os meus momentos. Mesmo rodeado de muita gente, às vezes estou só. Mas tenho uma família maravilhosa e os meus amigos que me apoiam, o meu público e todos aqueles que se aproximam por interesse, mas esses sei bem quem são... Estou sempre a viajar com cerca de 40 pessoas por todo o mundo, estou sempre rodeado de muita gente. Nesta história, o que eu pretendi reflectir, e insisto que não é autobiográfica, embora tenha a sua quota de intimidade, é a solidão que todos temos e com a qual é difícil viver, mas que é importante enfrentar. Tudo isto parte de um pequeno guião.

Numa das suas actuações em Portugal, ainda com o espectáculo anterior, esteve no Pavilhão Atlântico. Sente-se confortável a dançar num espaço tão grande?

Estou habituado a dançar em grandes palcos e continuo a lutar para mudar o conceito da dança. Porque é que o bailarino não tem direito a brilhar como uma estrela de rock? Porque é que só pode dançar nos teatros e em pequenas salas? Eu não posso estar um mês num teatro para que 30 mil pessoas me vejam senão estarei 15 anos com o mesmo espectáculo. Então por que não pôr 24 mil pessoas em dois dias no Pavilhão Atlântico? É preciso levar a dança a todo o mundo.

Confissões
Considera-se muito atípico como coreógrafo:
Faz a música e a coreografia em simultâneo
Chama o fotógrafo para as imagens de promoção
Vê o guarda-roupa
Em suma, gosta de tratar de tudo

Mas o flamenco é um tipo de dança muito íntima.
Eu rompo com tudo isso. Foi o mesmo que fez Pavarotti com a ópera: popularizá-la.

Já está a pensar no próximo projecto ou está apenas concentrado neste?
Eu tenho uma tournée preenchida. Depois, vou desenvolver um projecto que passa pelos grandes teatros da velha Europa: dançar em lugares como a Ópera de Paris, La Scala de Milão, a Ópera de Berlim, a Ópera de Viena. Este projecto era algo que eu muito queria fazer antes de me retirar. Inclusive, gostava de aproveitar essa oportunidade para gravar um DVD porque deve ser um momento muito especial.

Retirar-se? É algo em que pensa nesta altura da sua carreira?
Na verdade, não é que eu pense em retirar-me, não tenho uma data... Um dia, quando tinha 26 ou 27 anos, disse que me retiraria aos 33 anos e arrependi-me sempre de o ter dito porque quando chegou a altura eu estava numa fase muito boa da minha carreira e era muito feliz no palco. Danço desde os 12, tenho 36 anos, passei mais de metade da vida a dançar e dou graças a Deus pela vida maravilhosa que tenho. Consegui como bailarino aquilo que praticamente nenhum outro na história conseguiu. Não posso pedir mais, mas são muitos anos sem parar.

Está cansado?
Quando me perguntam quando vou de férias, a resposta é sempre: “Nunca.” E são muitos anos assim. Há sempre um momento em que é preciso parar. Agora não faço previsões, apenas imagino que aos 40 vou pensar se quero continuar.

Talento e eficácia
Joaquín Cortés consegue criar um espectáculo de raiz em apenas 30 dias. À direita, o DVD Live At The Royal Albert Hall, gravado ao vivo em Londres. À venda na Fnac.

Quais são as outras hipóteses?
Coreografar e dirigir, já estou a produzir também, adoro o cinema e a publicidade, posso fazer muitas outras coisas.

Também se encarrega da música. Considera-se um compositor?
Sou um músico frustrado. Gostaria que Deus me tivesse dado uma boa voz, mas apenas canto no ba-nho... Todas as produções, desde o primeiro espectáculo, têm tido sempre a minha colaboração, a dar ideias, a dizer como quero misturar o flamenco com outros estilos, a fazer os arranjos musicais porque sou um apaixonado pela música.

As tradições ciganas continuam muito presentes na sua vida?
Respeito muito os costumes da minha família, mas talvez porque sou um cigano de outra geração que já viajou pelo mundo inteiro, tenho outra visão do mundo e da vida.

Como olha para todo o sucesso que alcançou?
Sempre agradeci a Deus por todo o êxito que tenho. Eu sempre vivi bem porque comia todos os dias, mas não é o mesmo ser um miúdo humilde de classe média e poder ter todos os luxos e dar mais qualidade de vida à minha família. Isso é maravilhoso.

Mas também tem preocupações sociais que o levaram à criação de uma fundação com o seu nome que presta auxílio às crianças desfavorecidas.
Nós, artistas, temos de ter consciência que podemos ajudar. Desenvolvo trabalhos há muitos anos, mas não gosto de falar sobre eles nem gosto que sejam divulgados. Eu tenho essa obrigação porque tenho e posso ajudar aqueles que mais precisam. Só quero ajudar os mais jovens, dar-lhes uma oportunidade.

Dar-lhes também a oportunidade de dançar?
Gostava de ter uma escola de dança para crianças e que daí possam saltar para a companhia e ter uma carreira profissional.

Será em Espanha essa escola?
Tenho solicitações de muitos países para desenvolver o projecto. Se o fizer em Espanha, é pela minha família, mas, sinceramente, sempre tive muito mais apoio a nível mundial do que no meu país.

Fala com alguma mágoa, sente-se maltratado?
Dói mais porque se trata das minhas raízes. Quando se é um embaixador cultural do teu país, quando levas a tua bandeira pelo mundo, isso não devia acontecer. É obrigação das instituições apoiarem-me, da mesma forma que eu tenho a obrigação de ajudar os mais necessitados.

Nesta fase da sua carreira, como consegue evoluir como bailarino?
Com a minha idade, o que mais me faz crescer são as viagens, tudo o que aprendi vendo outros, bebendo todas as influências. As minhas colaborações com a moda, com a publicidade, com o cinema, abriram-me outras portas, que na hora de criar um espectáculo estão presentes na criação. Como bailarino, tive uma etapa de aprendizagem, que durou muitos anos e muitas horas e, hoje, nego-me a ficar num estúdio oito horas por dia. Se estiver a preparar um espectáculo até posso estar 24 horas, fico até estar como eu quero, sou muito perfeccionista, mas quando está feito esse trabalho criativo fico muitos dias sem fazer nada.

Quem respeita como bailarino na actualidade?
Posso respeitar desde os mais importantes bailarinos, como Nureyev, que foi o meu mito, ao rapaz que está num estúdio e que nunca pisou um palco. Respeito aqueles que são profissionais e que amam aquilo que fazem.

O que gosta de fazer para além da dança?
Gosto de estar com a minha família, de viajar e absorver o que está ao meu redor, te-nho muita curiosidade por tudo.















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