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MULHER E CARREIRA  |
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Dar voz ao que muitos consideram
insignificante, mas que faz toda
a diferença no nosso
dia-a-dia, é uma missão que Conceição
Lino
tem cumprido com
brio. No pequeno ecrã,
a jornalista obtém
grandes efeitos. |
Por Leonor Xavier
Fotografias de Luís de Barros
Styling: Susana Marques Pinto Agradecimentos
à Gerard Darel |
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Presença constante
em nossas casas, revelou-se com a estreia da SIC, em 1992.
Um raro tom de consenso em torno do seu nome existe, um
bem-querer, um respeito pela integridade. Dizem dela que
é uma mãe presente, uma mulher atenta à
família, fiel amiga de seus amigos. É-lhe
conhecida a paixão pela música e é
admirado o seu sentido de humor. Logo de início é
fácil conversar com Conceição Lino,
em temas e frases que deslizam fáceis, como fios.
Não cuida de curriculum formalmente escrito, por
ser jornalista poderia ter nítidos os tempos, que
lhe vêm, certos, para situar os fa-ctos. Muito originalmente,
explica que a noção das datas tem a ver com
o nascimento das filhas, Matilde Maria, oito anos, e Maria
Luísa, quatro anos.
Como se tornou apresentadora de televisão?
Tenho um irmão, e pais estupendos e disponíveis
a quem devo muito do que tenho e as minhas melhores qualidades.
Adquiri deles o brio, a exigência, a integridade.
Nunca interferiram no meu percurso escolar e profissional,
em circunstâncias nenhumas. Sempre fui boa aluna e
má estudante. Fazia copy-desk no Expresso, coisa
que não planeei quando acabei a Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas na Universidade Nova.
Fiz Comunicação Social, um curso que era recente,
que me pareceu mais interessante. Quando entrei na SIC,
ia fazer um projecto na área da programação
com a Júlia Pinheiro, a proposta era um diário
de tarde. Como não deu em nada, fiquei na redacção,
até 1994. Comecei a apresentar as notícias
das quatro horas da tarde. A Praça Pública,
que fiz com o Paulo Varanda, começou em Janeiro de
1995 e acabou um ano depois, quando nasceu a Matilde e eu
estava em licença de parto. Em Março, comecei
a apresentar os Casos de Polícia com o Carlos Narciso.
Em Setembro, passei a coordenar e a apresentar o programa,
até Dezembro de 1999, acabou estava eu grávida
da Maria Luísa.
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“Às
vezes, tenho problemas de consciência, acho
que ponho a minha vida profissional à frente
da vida familiar e pessoal.” |
Quando voltei, fui coordenar
o noticiário de fim-de-semana durante um ano e meio,
até começar em 2002 a Hora Extra, um programa
semanal de informação, até ao fim de
2003. Na rentrée, entre Setembro e Novembro, fiz
O País em Directo, com a participação
dos espectadores. Janeiro a Maio, a edição
do jornal do meio-dia da SIC Notícias. Desde Janeiro
tenho uma rubrica no Jornal da Noite de sábado, Nós
por Cá, uma ideia que tinha para concretizar na Hora
Extra, mas que só agora aconteceu. Também
faço a edição da noite do Jornal às
segundas-feiras.
Uma certa intervenção social existe
na sua personalidade, em termos de televisão. De
propósito?
No fundo, tento basicamente que o meu trabalho sirva para
alguma coisa, ou para várias coisas. Utopicamente,
para tentar resolver situações, para chamar
a atenção, para que se resolvam problemas.
Assistimos todos os dias a situações escancaradas,
que nem por isso têm solução. Acredito
que os jornalistas podem ter uma missão, mas muitas
vezes não lhes é permitido irem mais fundo,
tal é a velocidade dos acontecimentos. Há
uma falta de cidadania considerável em Portugal,
todos sofremos disso e por isso. Há falta de civismo
e de brio. Achamos que certas situações são
normais porque acontecem na nossa vida. Em Nós por
Cá, o que me dá particular satisfação
é poder dar visibilidade, em horário nobre
da SIC, a situações que nós muitas
vezes consideramos insignificantes ou pouco interessantes.
Erros, deslizes, disparates, que existiam, tornam-se de
repente notícia, fazem pensar. O que pretendo é
que a rubrica seja um espelho nosso.
Há uma grande reacção dos espectadores?
Faço apelo para que me falem das suas histórias.
Mas há muitos anos que vêm ter comigo casos
pessoais. Digo sempre às pessoas que fazer uma reportagem
não significa que o problema delas seja resolvido.
Com a Praça Pública, recebia centenas de cartas
por mês, hoje recebo cento e tal, todas têm
resposta.
A televisão é um trabalho colectivo?
Os jornalistas têm uma dose de trabalho sozinhos,
e vermos nascer esse trabalho em equipa é muito bom,
é uma injecção de energia para os próximos
dissabores. Neste momento, tenho o apoio de uma produtora,
mas trabalho quase sozinha. Em Nós por Cá,
a dimensão do grafismo e da imagem é enorme,
exige-se um trabalho muito intenso dos repórteres
de imagem, que criam situações com música.
A sua geração marcou um novo tempo,
é original e criativa. Concorda?
Somos tantos… A Paula Moura Pinheiro, a Júlia
Pinheiro, o José Alberto Carvalho, o Rodrigo Guedes
de Carvalho, o Pedro Coelho, o José Manuel Mestre,
a Cândida Pinto, o Augusto Madureira, o Ricardo Costa,
a Sofia Pinto Coelho, a Raquel Alexandra. Vivemos uma época
privilegiada e irrepetível, temos essa história
em comum e a mesma aprendizagem, fomos muito marcados pelo
início da televisão privada. Passámos
alguns maus bocados de agitação, o que nos
tem exigido firmeza. O ano de 2002 foi conturbado, houve
saídas de pessoas que eram peças-chave na
SIC, na redacção, mas a maioria dos jornalistas
ficou. Hoje, já temos colegas com menos de 25 anos.
Costumo dizer que há “uns vintinhos e uns vintões”,
usando uma expressão do Miguel Esteves Cardoso numa
crónica do Independente.
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Como concilia a irregularidade
de horários da profissão com a sua família?
O meu marido também trabalha
na televisão, é realizador. Valem-me as ajudas.
Os meus pais. A sorte de ter uma empregada que fica a dormir
em minha casa. Às vezes, tenho problemas de consciência,
acho que ponho a minha vida profissional à frente
da vida familiar e pessoal. Não faço vida
social, primeiro porque sou muito caseira e depois por indisponibilidade.
A maioria dos eventos não me enriquecem nem me divertem,
há sempre uma dose exagerada de futilidade nestas
coisas. Futilidade que é um condimento essencial
para nos alegrar a vida, mas não em excesso. As mulheres
vivem muito a alegria de comprar um par de sapatos, o que
não é entendido pelo sexo oposto. Como temos
uma casa que tem um jardim, estamos muito em casa, a nossa
filha mais velha não gosta de sair e já precisa
de ser acompanhada no estudo. Passamos a maioria dos fins-de-semana
em casa. Este ano tem sido complicado por causa da rubrica,
aos domingos.
O que é para si o sucesso?
Acho que o sucesso corresponde talvez à visibilidade.
As pessoas têm sucesso porque aparecem. Há
tantos anónimos de quem nunca se ouviu falar e que
fazem coisas extraordinárias. A visibilidade tem
de ser doseada porque as pessoas ficam reféns para
o bem e também para o mal.
As mulheres bonitas são prejudicadas?
Todas as que conheço têm de estar sempre a
provar que têm algo a dizer e que são estruturadas.
Há discriminação entre sexos?
Claro que há. Além do que vemos no dia-a-dia,
os postos hierárquicos mais importantes são
de homens, ainda se acha que um homem ocupa melhor esses
cargos. Ainda há pouco tempo houve aquele incidente
a propósito das mulheres seguirem os cursos de Medicina.
Aquilo que pode impedir as mulheres de trabalhar pontualmente
é para o bem comum.
Parece uma mulher doce, afectuosa.
Sou muito latina em matéria de afectos. Há
uma leve afirmação de status, de estatuto
no tratamento dos filhos por “você”. Às
vezes, parece que esse modo corresponde a uma frieza no
relacionamento. É aflitiva a falta de tempo dos pais
para os filhos, oito horas para as crianças é
muito mais tempo do que para nós, custa mais a passar.
Quais são os problemas da nossa sociedade,
afinal?
Sou uma pessimista. Há uma solidão atroz,
e muita miséria que não tem só a ver
com a ausência de dinheiro, mas de valores. A falta
de estruturação das famílias onde não
há afectos faz-me imensa confusão. Depois,
nós cedemos cada vez mais, pensamos no hoje e não
planeamos a vida para o dia seguinte. Preocupa-me a velocidade
com que nós destruímos o planeta. Eu podia
nadar ao pé do rio Tejo quando era miúda –
hoje aquele lugar é poluído e está
a ficar ainda mais poluído. Há sinais de consciência
do bem comum, os mais novos podem fazer a diferença.
Falo à minha filha mais velha sobre a água,
bem precioso. E ela já não gosta de ver a
água a correr enquanto está a lavar os dentes
– diz “A culpa é minha se faltar a água.”
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“Agora,
mais do que nunca, tento ter a noção
da importância que as pequenas coisas e os pequenos
momentos têm na vida.” |
E como alterar esta situação?
Acho que este país podia ser diferente se nos organizássemos.
As Juntas de Freguesia podem não ter autonomia, mas
quantas pessoas recorrem à sua Junta de Freguesia?
Quantas à Direcção-Geral de Viação?
Aos Ministérios? Deu-me prazer dar visibilidade a
uma senhora que pôs dois euros na máquina da
Emel, que lhe ficou com o dinheiro. Ela reclamou, andou
meses à espera de resposta, não desistiu.
A lei determina que as instituições públicas
respondam no máximo de 10 dias a qualquer questão.
Mas essa lei é letra morta na esmagadora maioria
dos casos.
O protesto exige empenhamento, nós baixamos muito
os braços. Há uma distância muito grande
entre o poder e os cidadãos que não sabem
a quem recorrer. Isso é o espelho do país.
O programa Ponto de Encontro, que o Henrique Mendes fez,
é o retrato do país que temos. Aquelas pessoas
conformavam-se com o destino que as separava, em vez de
fazerem dois ou três telefonemas. Isso espelha a ignorância
de uma grande parte da população. O problema
maior é viver para o mediato. Abriram-se perspectivas
de melhoria de vida e os portugueses querem tudo de uma
vez.
Sente diferenças em si, com a experiência
ganha?
Agora, mais do que nunca, tento ter a noção
da importância que as pequenas coisas e os pequenos
momentos têm na vida. Isso faz a diferença.
Finalmente, obriguei-me a organizar os álbuns de
fotografias que estavam em monte. Quando começo a
ver a velocidade a que os anos correm, o que retiro do ano
X ou Y são as coisas que correm bem ou foram boas,
e o que mais me desgastou nestes anos foram as coisas piores.
Penso que a maturidade tem de nos obrigar a aprendermos
a saber viver melhor, a tirar melhor partido daquilo que
é bom e obrigar-nos à tolerância e à
compreensão. É para isso que cá andamos.
E a importância da música?
A música é o meu universo, penso que a humanidade
não consegue sobreviver sem música, a música
é a arte que revela o que o ser humano tem de melhor.
Sabat Mater do Pergolesi é o que mais gosto. Também
de Gershwin e Cole Porter. Adoro cantar, tenho uma aula
de canto uma vez por semana há mais de 15 anos.
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