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CORPO & ALMA
As cirurgias de redução do estômago,

pouco conhecidas em Portugal, são uma resposta eficaz para a perda de peso, mas apenas para os casos mais extremos.

Por Júlia Serrão

   
   
Depois de um tratamento para a depressão, Ana Pontes engordou 56 quilos, passando a pesar 120. Tinha 18 anos e a vida pela frente. Mas não a viveu. Fez 80 dietas orientadas por especialistas e só conseguiu ganhar ainda mais peso. Durante oito anos isolou-se do mundo… e dela própria. Para trás ficou a juventude, um 12.º ano concluído com média de 19 valores e uma vontade imensa de ir para a faculdade. “Deixei de andar na rua, pois não suportava o olhar e os comentários das pessoas acerca do meu corpo. Para além disso, tinha de me deslocar com a ajuda de muletas. Deixei de me olhar ao espelho, perdi a auto-estima… e tentei quatro vezes o suicídio”, conta.

Em Setembro de 2002, Ana Pontes foi submetida a uma cirurgia bariátrica – a gastroplastia – em que lhe foi introduzida uma banda gástrica no estômago. Tinha então 166 quilos. Actualmente pesa 87, menos 79, mas diz que ainda pretende perder mais 22. “Nasci de novo”, comenta, acrescentando: “Hoje saio para todo o lado, uso sapatos com saltos de sete centímetros, faço tudo o que não fiz e mais alguma coisa… e o mais importante, voltei a gostar de mim”.

Tipos de cirurgia bariátrica
(técnicas cirúrgicas contra o excesso de peso)

Restritivas
Banda gástrica ajustável
Gastroplastia vertical anelada
De má absorção
Derivação bilio-pancreática (operação de Scopinaro)
Derivação bilio-pancreática com duodenal switch
Mistas
Bypass gástrico

Abordagens cirúrgicas:
Por via aberta – intervenção com abertura total do abdómen
Por laparoscopia – cirurgia mini-invasiva, permite intervir sem abrir tanto o abdómen

Alternativas menos agressivas
Balão intragástrico
Pacemaker gástrico

A operação de redução do estômago apresenta-se como uma solução bem sucedida para indivíduos que sofrem de obesidade mórbida. E apenas estes.

São candidatos a este tipo de intervenção pessoas com índice de massa corporal (IMC*) acima dos 40, e dos 35 desde que sofram de doenças complicadas associadas ao problema de excesso de peso e que, com a operação, possam melhorar. A intervenção comporta alguns riscos – cada vez menos, é certo –, mas os pacientes, por si só, também já são de risco devido ao seu peso excessivo.

Os resultados são incontestavelmente compensatórios. Para além de possibilitar a estes indivíduos recuperarem a alegria de viver e a auto-estima – porque conseguem reduzir drasticamente o peso –, a cirurgia traz vários benefícios no caso de se detectarem algumas doenças associadas. Por exemplo: “A cirurgia bariátrica trata a maior parte dos diabéticos. Estes deixam de ter ou passam a controlar melhor a doença. O mesmo acontece com os indivíduos que sofrem de hipertensão, que passam a apresentar valores normais”, explica o cirurgião Rui Ribeiro, um dos especialistas portugueses em cirurgia bariátrica do hospital de S. José.

Mas não é só o índice
da massa corporal que faz um candidato à cirurgia de redução do estômago, como normalmente é conhecida. Esta população é criteriosa e regularmente acompanhada, ao longo de meses, por uma equipa interdisciplinar – especialistas em cirurgia, medicina interna, cirurgia plástica, nutrição, psicologia clínica, entre outras –, que trabalha em perfeita harmonia e a quem cabe decidir se o doente pode ser submetido ou não à operação. Uma das provas de fogo é mostrar capacidade para seguir uma dieta, algo que terão de fazer após a intervenção. “A pessoa tem que nos demonstrar que tem capacidade para mudar os seus hábitos alimentares, que consegue perder peso através de uma dieta e pode aderir aos princípios por nós determinados, porque o que fazemos com a cirurgia é ajudar o indivíduo a modificar os seus hábitos alimentares. O objectivo é que ele passe a comer com mais qualidade e menos quantidade, corte com as gorduras e os doces.” Ficam assim excluídos todos os indivíduos que sofram de adições, nomeadamente ao álcool e às drogas, “o seu comportamento não garante bons resultados no futuro”, diz o especialista.

Dizem os números

 • De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a obesidade é uma ameaça à saúde do Planeta apenas equiparável à fome. É considerada a epidemia do séc. XXI.
 • A obesidade mórbida é das doenças mais prevalecentes na actualidade e a que tem maior taxa de crescimento.
 • Nalguns países – nomeadamente nos Estados Unidos da América, Canadá e Brasil –, a cirurgia bariátrica é a operação não urgente mais praticada. Ultrapassa mesmo o número de operações para tratamento de doenças frequentes como as hérnias ou a litíase da vesícula biliar.
 • Em todo o mundo, cerca de 3000 cirurgiões especialistas em obesidade mórbida operaram 146 300 obesos. Destas operações, dois terços foram bypasses gástricos e um quarto bandas gástricas. Os números indicam que 62,85 por cento foram efectuadas por laparoscopia e apenas 37,15 por cento por via
clássica aberta.
 • Nos últimos cinco anos, foram submetidos a cirurgias de redução do estômago 1500 portugueses. Estima-se que, existindo cerca de 100 mil obesos mórbidos em Portugal, pelo menos 20 mil venham a desejar realizar este tipo de intervenção.

A colocação da banda gástrica não é a única opção em cirurgia bariátrica, mas é seguramente a mais conhecida em Portugal. Dentro do mesmo tipo de operação ou técnica, dita restritiva, ou seja “aquela em que se faz uma restrição à quantidade de alimentos que podem entrar no estômago”, explica Rui Ribeiro, podemos encontrar ainda a gastroplastia vertical anelada.

A diferença entre as duas é muito simples: “enquanto na gastroplastia vertical a parte superior do estômago é ‘agrafada’ e apertada com uma espécie de anel, para que apenas um pequeno fragmento de estômago fique a trabalhar, a introdução da banda gástrica visa a divisão deste mesmo órgão, para o mesmo efeito, mas sem agrafamentos ou cortes. O “dispositivo” é colocado na parte superior do estômago e pode reduzir até um décimo a sua capacidade. O resultado é uma sensação precoce de se estar saciado”.

A banda é feita de silicone e é insuflável, pelo que pode ser manipulada de acordo com as necessidades, ou seja é possível enchê-la e esvaziá-la ao longo do tempo, permitindo que o paciente coma mais ou menos e, consequentemente, emagreça mais ou menos.

Esta operação, que até há poucos anos era feita por via aberta, actualmente é realizada através da laparoscopia. É uma técnica totalmente revolucionária que permite intervir, sem abrir tanto o abdómen, pelo que se chama cirurgia mini-invasiva ou “cirurgia do conforto”. Para o efeito, basta fazer uns pequenos furinhos no corpo do paciente. “Para além das vantagens imunológicas e estéticas, este método cirúrgico reduz também a dor pós-operatória e as taxas de morbilidade e mortalidade, ou seja o risco do doente ter complicações na cirurgia”, assegura o médico. As técnicas de má absorção – as menos conhecidas e usadas em Portugal –, onde se incluem a derivação bilio-pancreática, operação de Scopinaro, e a derivação bilio-pancreática com duodenal switch, são intervenções que visam reduzir o intestino delgado, que absorve nutrientes. O primeiro método reduz o intestino para que fique com a extensão de apenas meio metro, enquanto o segundo método faz com que passe a ter apenas um metro. Rui Ribeiro diz que estas técnicas são as mais agressivas de todas. “Provocam má absorção e estão indicadas para casos mais graves, ou seja para doentes que precisem de perder muito peso.” As técnicas mistas, como o nome sugere, são uma mistura das duas primeiras: da restritiva e da de má absorção. É precisamente neste grupo que se insere a cirurgia bariátrica mais praticada no mundo inteiro: o bypass gástrico. O especialista explica do que se trata: “Faz-se um corte numa pequena porção do estômago, a mais alta, onde se cria uma bolsa de 20 centímetros, que depois é ligada directamente ao intestino delgado. Na prática, faz-se uma passagem directa dos alimentos para o meio do intestino, deixando a sua primeira porção (entre 75 cm a 1,5 m) a não absorver”. Assegura: “Resulta muito melhor em termos de perda de peso do que qualquer das restritivas, porque a alteração da anatomia que é feita condiciona modificações em hormonas cujo, conhecimento e compreensão é muito recente e incompleto”.

Doenças ligadas à obesidade

1.Os especialistas são peremptórios: a obesidade em si não é grave, o problema são as doenças que lhe estão associadas, nomeadamente a hipertensão, a diabetes, a hipercolesterolemia, as artroses, as varizes, as insuficiências respiratórias e as cardiopatias, só para citar algumas

2.Rui Ribeiro lembra que os problemas psicológicos nestes doentes são igualmente devastadores.
“As depressões exigem tratamentos psiquiátricos muito longos e muitos dias de absentismo laboral”

3.Finalmente, a limitação da vida social, em parte por automarginalização, é um sofrimento acrescentado e silencioso igualmente recorrente nas pessoas com excesso de peso. As sucessivas tentativas de suicídio são igualmente frequentes no limite desta situação

4.O cirurgião do hospital de S. José alerta: “Não é gordo quem quer. Hoje, sabe-se que existe uma componente genética que determina a doença.
E por isso, resolver o problema por via cirúrgica deve ser uma solução ao alcance de todos os que precisam e podem a ela se submeter”

O bypass gástrico é uma intervenção mais complexa do que a da banda gástrica e mais dificil de executar “Enquanto que a da banda gástrica dura em média cerca de 40 minutos, o bypass gástrico leva aproximadamente duas horas a realizar, mas é uma cirurgia que seguramente se vai impor a curto prazo.” Para além destas intervenções, há também que contar com as alternativas menos agressivas, nomeadamente o balão intragástrico. É fabricado em silicone, com capacidade de 400 a 700 ml de solução salina, e introduzido no estômago via endoscopia. O seu papel é o de preencher a cavidade do estômago, para que o indivíduo se sinta antecipadamente saciado e, dessa forma, diminua drasticamente a ingestão de alimentos. “O balão intragástrico pode ser colocado com o objectivo de reduzir o peso no período pré-operatório ou em indivíduos que apresentam contraindicações à cirurgia bariátrica. É o caso daqueles que devido a uma doença cardíaca grave não podem ser submetidos, em segurança, a uma anestesia para cirurgia bariátrica ou outra.”

O tempo de permanência máxima deste dispositivo no organismo é de seis meses, mas o doente pode fazer várias substituições ao fim de cada meio ano. Segundo o médico, os resultados deste método não são constantes. “Alguns doentes perdem peso, outros não”, esclarece, adiantando: “O método apresenta tantas complicações como qualquer um dos outros e é quase tão caro quanto a banda gástrica”.

O pacemaker gástrico é outra das opções para quem sofre de obesidade mórbida. Trata-se de um pequeno aparelho, a pilhas, que descarrega impulsos eléctricos com alta frequência na parede gástrica. O objectivo é inibir a fome. É colocado também por laparoscopia. Segundo o cirurgião, os resultados são também muito inconstantes. Além disso, defende que nestas duas últimas técnicas – o pacemaker e o balão intragástrico –, os pacientes perdem muito menos peso do que em qualquer uma das outras.
Da mesma forma que o doente deve ser atempadamente preparado para a cirurgia bariátrica, qualquer que ela seja, deve ser acompanhado pelo nutricionista e pelo psicólogo clínico depois de ela ter lugar. Quanto ao médico que operou, esse deve acompanhá-lo para a vida.

*Índice de Massa Corporal = Peso em quilos/Altura2



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