Sem nos darmos conta,
muitas pessoas conhecem a nossa vida. Da correspondência
não solicitada às situações mais
complicadas, saiba comoevitar a devassa.
As cartas chegavam com uma frequência quase vertiginosa.
Vinham de empresas que Teresa nunca na vida havia contactado.
Em comum, tinham um erro de grafia no seu apelido, o que a fazia
suspeitar que o seu nome estava numa base de dados a que tinham
acesso várias empresas, nem sequer do mesmo grupo.
A recepção de correspondência não
solicitada não era bem o que incomodava Teresa –
até dava jeito quando promoviam produtos do seu interesse.
Mas a ideia de que os seus dados andavam de mão em mão
e, pior ainda, de que os limites da sua privacidade podiam ser
ultrapassados de outra maneira, preocupava-a. A
nossa privacidade é-nos essencial.“Precisa-mos
do contacto e do afastamento em relação aos
outros. Esta é a forma saudável de nos relacionarmos
com o outro e com o mundo”, observa a psicóloga
Macarena Diuana. E os nossos limites mudam – ou, pelo
menos, deveriam mudar – ao longo das várias fases
da nossa vida.
“Precisamos de afastar-nos do outro para saber quem
somos. Saber quais são os nossos limites e reconhecer
o nosso eu”, explica. É o que acontece, por exemplo,
nos primeiros anos de vida de uma criança, quando passa
de um mero prolongamento da mãe a um ser individual,
com todos os conflitos que esta passagem gera por natureza.
“Todo o ser humano tem o seu espaço”, observa
a psicóloga. Fisicamente, podemos dizer que é
limitado pelas extremidades do corpo. Mas há também
aspectos que ultrapassam o físico e que dizem respeito
ao espaço psicológico e emocional das pessoas.
São importantes, pois são aspectos que definem
a nossa identidade.
No caso dos animais, a invasão deste espaço,
do território, é um dos factores que podem gerar
agressividade. No nosso caso, a reacção não
é necessariamente agressiva, mas pode dar origem a
desconfianças, inseguranças e sentimentos de
vulnerabilidade. Quem é que gosta de ver o seu espaço
invadido? Quem é que fica descansado quando sente que
está a ser observado ou controlado de perto por desconhecidos
não autorizados? Não parece aterradora a ideia
de, numa entrevista de selecção para um posto
de trabalho, descobrir que a companhia em questão sabe
muito mais sobre nós do que a informação
que lhe facultámos?
Anjos
protectores
Ajudam-nos
quando vemos a nossa privacidade invadida, seja ao nível
de dados pessoais seja ao nível da Internet.
Comissão Nacional
de Protecção de Dados
www.cnpd.pt
Tel. 21 392 84 00
e-mail: geral@cnpd.pt
DECO (Associação
Portuguesa para
a Defesa do Consumidor)
www.deco.proteste.pt
Tel. 21 371 02 00
e-mail: decolx@deco.pt
Instituto do Consumidor
www.ic.pt
Tel. 21 356 46 00
e-mail: ic@ic.pt
|
Na maior parte das vezes, aprendemos com a
experiência como nos devemos comportar para deixar claro
quais são os nossos limites, para que estes não
sejam ultrapassados. No entanto, há formas muito refinadas
de penetrar na nossa intimidade e que passam despercebidas
aos mais desatentos.
Organizações privadas, políticas e até
mesmo governamentais em todo o mundo estão mortas por
saber o que move as pessoas, os consumidores, e como chegar
a elas da maneira mais eficaz. O avanço da informática,
que facilita e agiliza o processamento e o cruzamento destes
dados, torna a recolha de informação sobre as
pessoas ainda mais apetecível. E tudo serve para obter
material para as compreender, ou mesmo para conseguir a sua
morada: inquéritos de consumo, cartões de compras,
concursos e promoções, e-mails e navegação
na Internet, entre outros.
Lúcia
e Eduardo utilizavam a Internet com frequência,
em casa. A determinada altura, tiveram uma problema com o
computador e foi preciso um técnico para o arranjar.
Enquanto fazia a reparação, este descobriu que,
sem o conhecimento e a autorização do casal,
fora instalado no seu computador um programa do género
cavalo de Tróia – com espírito de espia,
mandava informação para um determinado site
e este, depois, distribuía-a por outros. Com a ajuda
do técnico, o casal conseguiu bloquear o envio de informação,
mas foi impossível desinstalar o programa.
A Internet é, de facto, um terreno fértil para
a invasão da privacidade e um âmbito em que o
controlo é muito mais complicado, uma vez que ultrapassa
as fronteiras dos países.
Já estão disponíveis tecnologias de segurança
que podem dificultar este tipo de invasão. “São
tecnologias muito poderosas e podem, se bem usadas, contribuir
para a garantia da privacidade e para a segurança nas
transacções electrónicas”, observa
Pedro Veiga, professor do Departa-mento de Informática
da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Mas nem sempre esta tecnologia é usada, seja por desconhecimento
do utilizador vulgar ou porque não é configurada
de forma correcta, sendo necessário recorrer a técnicos
especialistas.
“Isto é sobretudo verdade para o correio electrónico,
cuja parametrização não é simples.
Por isso, este não deve ser um meio usado para troca
de informação confidencial, excepto se a referida
preparação for bem feita”, acrescenta
Pedro Veiga.
O professor
de informática, no entanto, chama a
atenção para o facto de que “enviar o
número de cartão de crédito pela Internet
pode ser mais seguro do que entregar um cartão de crédito
numa loja, para fazer um pagamento”. Mesmo assim, a
navegação na Internet requer alguma cautela.
Salvaguarde
a sua privacidade
De acordo com
a Comissão Nacional de Protecção
de Dados e a DECO, estes são os principais direitos
dos consumidores em relação aos seus dados
pessoais: •
Ser informado, no momento em que os seus dados são
recolhidos:
. da finalidade do tratamento
. da identidade do responsável
. do(s) destinatário(s) dos dados
. do carácter obrigatório ou facultativo
de fornecer os seus dados
. da existência das condições do
direito de acesso e rectificação
• Exigir que os seus dados sejam recolhidos
de forma lícita e leal
• Exigir que os dados sejam exactos e actuais,
podendo solicitar a sua correcção
• Exigir que o seu nome e endereço
sejam eliminados dos ficheiros de endereços utilizados
pela mala directa (marketing/mailing)
• Impedir que os dados pessoais sejam utilizados
para finalidade incompatível com aquela que determinou
a recolha
• Ser informado sobre a existência
de tratamento de dados a seu respeito, bem como sobre
a identidade e o endereço do responsável
• Ter conhecimento e acesso às informações
sobre si registadas. Em caso de tratamento de dados
relativos à segurança do Estado, à
prevenção e investigação
criminal, ou para fins exclusivamente jornalísticos
ou de expressão artística e literária,
o acesso
é feito pela CNPD, a requerimento do titular.
A informação relativa a dados de saúde
é comunicada à pessoa, por intermédio
do médico por ela designado
|
O especialista alerta: “Se o seu
computador está ligado à Internet em casa, também
é aconselhável instalar software de firewall,
que permite evitar que acedam ao seu computador a partir da
Internet e tenham acesso aos seus ficheiros ou lhe instalem
cavalos de Tróia – programas que ficam a correr
no seu computador e enviam informação para o exterior,
que pode ser de carácter privado. Se não o fizer,
é possível que, pelo seu acesso à Internet,
alguém ande ‘a passear’ na informação
do seu computador. O firewall garante uma filtragem de acessos
não autorizados ao seu computador, permitindo um grande
aumento no nível de protecção.” E
Pedro Veiga conclui: “Infelizmente, a instalação
e parametrização de um firewall também
não é acessível a todos e convém
recorrer a um técnico.” Mas vale a pena.
Tudo corre bem quando a recolha
de dados é clara e os objectivos são comunicados
a quem é consultado. Os estudos de mercado permitem condicionar
os produtos consoante os clientes de uma determinada marca ou
estabelecimento.
“Isto é bom, por um lado, pois o consumidor sabe
que provavelmente encontrará, na loja que frequenta,
produtos dentro das suas preferências. Mas pode também
ser perverso, sobretudo para aqueles que fazem parte de uma
minoria com gostos distintos dos da maioria”, comenta
Luís Pisco, jurista da Associação Portuguesa
para a Defesa do Consumidor (Deco).
Mas “os dados pessoais devem ser obtidos com o consentimento
das pessoas e deixando-se claro para que fins serão usados”,
explica Luís Pisco. “Quando se dá autorização,
deve-se fazê-lo sempre para um determinado objectivo (estudo,
sondagem...), mas a ideia é que os dados sejam destruídos
depois de usados.” Só que nem sempre isso acontece.
De acordo com a lei, a violação deste princípio,
ou seja, o mau uso dos dados, pode dar origem a multas ou mesmo
à prisão dos responsáveis. “Mas,
em Portugal, uma boa parte das empresas que faz recolha de dados
não tem a noção das consequências
do seu mau uso. Vêem-nos apenas como mercadoria a tratar
e vender”, observa Luís Pisco. Os próprios
consumidores só agora começam a preocupar-se com
a informação sobre si que circula sem controlo.
Proteger-se
na Internet
Para um uso seguro da Internet,
Pedro Veiga, professor do Departamento de Informática
da Faculdade de Ciências
da Universidade de Lisboa, dá as seguintes sugestões:
1. Nunca instale no computador programas cuja origem
é desconhecida, pois podem conter vírus
ou “cavalos de Tróia”
2. Nunca abra uma mensagem de
correio electrónico
de um emissor que não conhece, pela razão
anterior
3. Instale um programa anti-vírus
no seu computador
4. Nunca responda a mensagens
que prometem negócios,
pois pode estar a transmitir informação
pessoal. Seja extremamente cautelosa, pois estas mensagens,
regra geral,
são “contos do vigário”
5. Só faça compras
em sites de comércio electrónico se tiver
a certeza de que se trata de um site seguro, o que muitas
vezes pode ser verificado através do certificado
acessível na página
de início do site
6. Só envie o seu número
de cartão de crédito se o site tiver acesso
seguro, o que pode ser visto se aparecer um pequeno
cadeado na parte inferior direita do seu navegador da
Internet (Netscape ou Internet Explorer, por exemplo)
7. Se quer que o seu correio seja
mesmo confidencial, deve enviá-lo cifrado
8. Instale um firewall no seu
computador de casa. Na sua empresa, assegure-se de que
o administrador da rede tem
a rede protegida
9. Nunca divulgue os seus códigos
de acesso a ninguém, mesmo que se apresentem
com um discurso convincente,
como o de querer dar-lhe uma ajuda
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Tudo o que diz respeito à obtenção
de dados pessoais deve ser submetido à aprovação
das entidades competentes, no caso, à Comissão
Nacional de Protecção de Dados (CNPD), que faz
o controlo “em rigoroso respeito pelos direitos do homem
e pelas liberdades e garantias consagradas na Constituição
e na lei”. O seu trabalho inclui desde os processos de
recolha de dados pessoais (inquéritos) à recolha
de imagens em videovigilância.
E para incluir nos inquéritos perguntas relacionadas
com questões sensíveis, como convicções
políticas, filosóficas e religiosas, sexualidade,
raça e saúde, é preciso autorização
especial da Comissão, dada apenas a casos pontuais e
de carácter especial.
Uma conhecida cadeia de venda de produtos alimentares criou
um cartão através do qual prometia descontos e
prémios aos consumidores. O que não avisou é
que, com o mesmo cartão, controlava as compras dos clientes
para definir o seu perfil. Isto não incomodava, nem incomoda,
a grande maioria das pessoas quando se trata de usar esta informação
para prover a loja com produtos que mais se encaixam no gosto
do cliente. “Mesmo assim, deveriam ter comunicado aos
clientes o que estavam a fazer”, observa Luís Silveira,
presidente da CNPD.
O pior é
quando, para além de monitorar as compras
dos clientes, os dados são lidos pelas empresas de
forma a, por um lado, enchê-los de publicidade para
a compra de produtos – quando as suas compras indicam
que estão em boa fase financeira – ou, por outro
(e ainda pior), para negar crédito e facilidades, quando
as compras indicam uma redução do consumo e
uma contenção de gastos.
Determinar o perfil de risco dos consumidores é uma
das facetas perversas da reco-lha e cruzamento de dados pessoais.
A solicitação de dados clínicos aos hospitais
por companhias seguradoras, com o objectivo de determinar
o grau de risco dos clientes, enquadra-se neste grupo. Baralhados,
muitos hospitais apresentaram à CNPD as suas dúvidas
em relação à facultação
ou não destes dados às seguradoras. De acordo
com Luís Silveira, “os hospitais foram aconselha-dos
a não os facultar. Estes são elementos que pertencem
à privacidade dos clientes”.
Privacidade
de menores
Alvo cobiçado por muitas
empresas, os jovens que navegam na Internet devem estar
alerta para evitar exposição desnecessária
da sua privacidade. Costumam ser presas fáceis.
E quanto mais pequenos, pior. Para orientar melhor os
seus filhos, fique a saber que:
• Não
são raros os sites que solicitam, antes de permitir
a entrada nas suas páginas, o preenchimento de
inquéritos em que perguntam mais do que o nome
e a idade da criança
• Outros oferecem prendas ou a possibilidade
de participar em sorteios, em troca de informações
pessoais e também sobre os pais, a família
e até os amigos
• A maioria destes sites faz cruzamento
da informação dada pela criança
com os seus movimentos na rede, estabelecendo estratégias
de marketing personalizado, em que se dirigem directamente
à criança, estabelecendo uma relação
estreita que pode interessar mais à empresa do
que à criança (potencial consumidora).
Esta relação é frequentemente feita
através de personagens divertidas, que interagem
e se relacionam com a criança
• A criança ou o jovem tem dificuldade
em separar os conteúdos informativos dos de pura
publicidade
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Há
situações em que o cruzamento
ou a divulgação de dados pode ter uma função
positiva. É o caso dos cheques sem provisão, que
evitam injustiças e dores de cabeça aos comerciantes
e prestadores
de serviços. Nestes casos, os bancos são obrigados
a fornecer ao Banco de Portugal os dados dos clientes que
passam cheques sem provisão, para que sejam incluídos
na Listagem de Utilizadores de Cheques que Oferecem Risco.
Assim que a situação estiver regularizada, os
dados são obrigatoriamente eliminados por completo
da lista. Mas a demora a apagar estes dados dá origem
a grande parte das reclamações relativas a dados
pessoais, apresentadas tanto na DECO como na CNPD.
As queixas não giram apenas em torno deste tema. A
grande maioria ainda diz respeito à publicidade não
solicitada. E o número total de reclamações
tem vindo a aumentar. No caso da CNPD, passou de 743 queixas,
em 2000, a 1844, em 2002, e a 979 nos primeiros quatro meses
de 2003. Isto significa, por um lado, que há cada vez
mais uso do cruzamento de dados, e por outro, que também
se verifica um aumento da preocupação das pessoas
em relação à sua privacidade. |