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Há poucos anos, era apenas a televisão. A caixa que havia mudado o mundo dos adultos mudava também o das crianças portuguesas que, deslumbradas com a magia do pequeno ecrã, passavam muitas horas em frente a ele. Hoje os meios multiplicaram-se. Há o computador, a Internet, o MP3, o iPod, as aparelhagens e, sim, o mágico telemóvel. E a maioria dos meninos portugueses, ainda antes de completar 12 anos, já os tem quase todos. Pelo menos, é o que asseguram as investigações sobre tão polémico assunto.
O que dizem os estudos?
Um dos mais recentes, levado a cabo pela empresa Zero a Oito, revela que as crianças com idade compreendida entre os três e os 15 anos passam mais de cinco horas por dia na companhia dos meios de comunicação. Aliás, segundo este mesmo estudo, uma em cada quatro crianças de oito anos tem seis meios de comunicação no quarto – 45 por cento tem televisão, 40 por cento computador e 30 por cento aparelhagem ou rádio. No que diz respeito ao telemóvel, o estudo mostra que 97 por cento das crianças com 12 anos e 64 por cento com oito anos tem um. Finalmente, sabe-se que 62 por cento das crianças portuguesas tem livre acesso à Internet, ou seja, sem controlo.
O estudo foi realizado apenas em Portugal Continental, contando com a participação de 936 crianças e 803 pais. Para o efeito, foram feitos inquéritos, entrevistas, e analisadas redacções e desenhos.
O que pensam
os especialistas?
O psicólogo clínico Manuel Coutinho acredita que estes dados estarão muito próximos da realidade actual. Se, no passado, a atenção das crianças esteve excessivamente centrada na televisão, “e esta tem efeitos negativos, mas também tem efeitos muito positivos”, actualmente ela abarca muito mais. Hoje, “a maioria das crianças usa a generalidade dos meios de forma excessiva. Consomem informação e actividade lúdica através da televisão e dos telemóveis, da Internet e dos jogos, nomeadamente os de destreza e estratégia”.
Quanto ao facto de terem telemóvel em idades muito precoces, o especialista lembra que as crianças estão “muito sozinhas, apesar de estarem muito próximas de tudo e de todos”. E, neste sentido, o aparelho vem quebrar o isolamento. Por outro lado, “serve para os pais poderem localizar os filhos, é visto como uma estratégia de segurança”. Contudo, os adultos “devem conter um pouco esta generosidade e preocupação”, aconselha. Até mesmo porque há o perigo da radiação emitida pelo aparelho, com danos ainda não esclarecidos. O perigo também pode vir do consumo excessivo de música através de MP3 ou iPod, o que acontece nos dias que correm. Neste caso, está perfeitamente provado que muitas horas a ouvir música com o som muito alto, com os auscultadores, provoca surdez. O processo é silencioso.
Criar regras de utilização
O uso do computador está no topo dos meios mais utilizados. É sobretudo o acesso à Internet – a passagem por salas de conversação, o hi5 e o Messenger _ que faz subir os números. Também neste campo “é preciso haver regras”. Quem as dita são obviamente os adultos. Manuel Coutinho é peremptório relativamente à ideia de que os pais devem disciplinar os filhos e não lhes permitir que passem muitas horas centrados na Internet. Devem estimular e encorajar os filhos para outro tipo de entretenimento e para o convívio clássico com os amigos, através de brincadeiras e da prática de desportos.
“A televisão e a Internet são ferramentas preciosas para o desenvolvimento, dão um conhecimento extraordinário, assim como alguns jogos que contribuem para a estimulação intelectual – através destes, a criança treina a atenção, por exemplo. No entanto, não devem retirar o lugar a outros jogos e brincadeiras, e ao próprio acesso clássico à informação”, diz o psicólogo. O adulto deve incitar também à leitura de livros, “porque estes ajudam a criança a pensar e a sonhar, a fazer um outro género de viagem”.
Acesso equilibrado aos media
Para o especialista, todos os media “têm lugar no desenvolvimento harmonioso das crianças”. Como apresentam prós e contras, têm de “ser utilizados com conta, peso e medida”. No caso da Internet, o problema é que as crianças sabem mais do que os pais e “navegam por sites de qualidade duvidosa”, comenta. Por outro lado, muitas delas “também têm acesso a canais televisivos que não são recomendados para a sua idade e que lhes passam informação distorcida”. É preciso que os adultos fiquem atentos a esta situação. “As crianças devem ter acesso aos media, mas a informação que deles recolhem deve ser ‘mastigada’ pelos pais. Estes devem funcionar como descodificadores.”
O psicólogo clínico está convencido de que os números apresentados no estudo da empresa Zero a Oito terão tendência a subir num futuro próximo. Concretamente, o uso do telemóvel. E o problema não é o uso do aparelho, mas a forma como este pode ser feito, diz, referindo-se ao fenómeno do cyberbulling – em que a criança filma outras crianças e expõe publicamente esta imagem. É um tipo de violência que já tem algum impacto além-fronteiras. “Tem de haver uma reserva na forma como se usam estes meios de comunicação.” E para isso, é preciso educar os mais novos, para que façam uma boa utilização dos media que têm ao seu dispor. Quando as crianças passam demasiado tempo em frente ao computador, a ver televisão ou a navegar na Internet, correm o risco de não desenvolver competências fundamentais ao seu desenvolvimento, nomeadamente regras sociais.
Conselhos
• Fale com o seu filho sobre as vantagens e desvantagens dos media e oriente-o
de forma a desfrutar das primeiras
• Incentive-o às relações interpessoais presenciais, a fazer amigos e à prática
de desportos ao ar livre
• Nunca proíba o acesso aos meios
de comunicação, pois pode ser contraproducente
• Mas incentive-o à leitura de livros, a visitar museus e a assistir a espectáculos para a sua idade
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