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É famoso. As fãs gostam muito dele, dizem-lhe que é lindo, querem conhecê-lo. Seguem-lhe os passos, os gostos, as caras, os gestos. Perseguem, assediam, declaram-se. Este é o custo de ser galã em séries e novelas de televisão, de ser actor de cinema, nome de cartaz em teatro. Ser famoso pode ser um gosto pesado, mas representar, lutar pela palavra, incorporar o texto é o seu gosto verdadeiro. Para esta conversa, o encontro foi marcado no Largo do Carmo, e o assento foi numa esplanada, entre sombra, pássaros e turistas. Foram feitas confidências, ditas intenções de vida, e o actor de tanto estardalhaço em imprensa leve expôs a sua vocação, a estrutura interior, o entendimento do mundo. No fim, ultrapassada a hora, fez questão de oferecer águas e cafés. Como um gentleman, a sério. Desfeita a companhia, já no Largo de Camões, um fragmento de conversa com Jorge Silva Melo, um dos veneráveis do teatro em Portugal. “Albano Jerónimo? Do melhor que temos.” Vamos ouvi-lo, em escrita.
É um actor conhecido e reconhecido como tal. Como se chega a este estatuto?
Isso tem a ver com as escolhas. Quando se faz televisão, há visibilidade, aceitação, credibilidade. Ainda há actores que não fazem novelas, acham que o cinema tem melhor estatuto. Fazer teatro ou cinema é menos popular do que fazer novela. Quem recusa um papel em novela ou é pouco lúcido ou tem dinheiro, a novela garante seis meses de vida, é um modo de sobrevivência, neste meio que é tão escasso.
A toda a hora aparecem e desaparecem novos actores...
Banalizou-se ser actor, acha-se que qualquer um de nós pode ser, devido ao boom novelístico. Não tenho nada contra quem tenha uma cara laroca, não é mal nenhum, porque o produto pede isso. Mas as pessoas ficam desinteressantes, artisticamente são pouco produtivas. Não é com desprezo ou arrogância que falo.
Não tem, então, nada contra fazer novela.
Não. A minha última foi a Vila Faia, fiz o João Godunha, penso nele como um sobrevivente.
A invasão da sua privacidade é uma violência?
É uma violência, sim. Até certo ponto podemos controlá-la, mas quem se presta a essa invasão tem o retorno da imprensa cor-de-rosa. Há as ditas festas quase diárias, quem faz novela tem convite para estas festas e para todo o tipo de eventos, expõe-se. O que eu faço mais é ir ao teatro, posso dizer que sou obcecado por teatro.
Não gosta mesmo de falar sobre o seu lado privado?
Nasci em Alhandra, que é uma vila piscatória. Fiz 30 anos, sou o mais novo de três irmãos rapazes. Comecei a fazer teatro aos 15 anos, depois fui para o curso de Fisioterapia, aos 20, 21 anos concorri ao Conservatório e entrei. Os meus pais gostam de me ver feliz, aceitaram a minha escolha. O meu conceito de família é muito saudável, quero passá-lo aos meus filhos. O meu projecto de vida é fazer uma família, ter um dia um reconhecimento pelo que fiz.
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“Se tivesse tatuagens, seria
num sítio não visível,
por ser uma coisa íntima. |
É um plano bonito. E qual é a sua vida real, agora? Pelo capacete que trouxe na mão, tem uma moto…
Em Lisboa ando de moto, tenho a mais fraquinha, é uma Vespa. O melhor para mim é estar com a minha namorada, Cláudia Cheu, que também é actriz de teatro. Já moramos juntos há nove anos, conhecemo-nos no Conservatório. É passar o tempo com as pessoas de quem mais gosto, com a minha família e com os meus amigos, e com o meu cão, que é um Labrador. Faz dois anos, fui buscá-lo ao canil de Sintra. Oiço música independente indy, música clássica, não gosto de trash nem de heavy metal.
O tempo ganhou outro valor, a velocidade de consumir tudo aquilo
que me rodeia é menor, porque me tornei
mais parcial, mais objectivo, o filtro é maior.
O lixo é ao lado.
E tanta coisa ainda lhe vai acontecer.
Com A Menina Júlia, tive a felicidade de a Dona Eunice [Muñoz] ir ao camarim e dizer--me: “Tens uma vida pela frente, cuida-te. E da tua saúde.” Eu sou um miúdo, espero ter saúde para gozar os anos que vêm por aí.
Além da esperança, sente medos?
Assusta-me a falta de referências da geração mais nova, a falta de interesses mais simples, como uma leitura. Há o sistema de informação que nos bombardeia com “n” informações por segundo. Tornamo-nos agressivos, ficamos mais individualistas no mau sentido. Eu gosto da minha profissão e não do meio, que é egoísta e virtuoso. Somos uma classe infelizmente cheia de vaidade. Mas tenho a felicidade de fazer coisas maravilhosas com pessoas que sabem mais do que eu. Na minha geração, se estivermos mais atentos, temos a ganhar se nos apoiarmos uns aos outros, se houver comunicação entre nós.
Que pessoas são as suas referências?
Referências que me marcaram: o Ricardo Pais, que é um sábio. Na relação discípulo/mestre, sinto-me um amador no sentido daquele que ama, só tenho de o saber ouvir. O João Mota, que é um pedagogo. Chego com uma vontade de aprender e ele percebeu isso. A minha mãe, que está cravada em mim até à medula, que tenho tatuada no meu coração.
E no corpo, tem tatuagens?
Não. Se tivesse tatuagens, seria num sítio não visível, por ser uma coisa íntima.
Voltando à sua geração…
… A minha geração tem pessoas que me estimulam muito. O Marco Martins, o Tiago Guedes.
O João Salaviza, premiado no Festival de Cannes? É um feito. Fantástico. Nas minhas tertúlias com amigos, rapazes e raparigas, dizemos que a nossa geração pode ser a geração de ouro do cinema português, o João Salaviza fez-nos acreditar que isso vai ser possível. A nossa capacidade de trabalho e o poder de observação podem mudar a falta de trabalho de fundo, a catalogação da nossa história e da nossa cultura.
A melancolia permanece na cultura portuguesa?
Faz parte de nós, não devemos abdicar dela, do fado. Devemos aproveitá-la, a minha geração tem vontade de fazer e faz.
Quer falar de sentimentos? O amor?
Amar as pessoas, sim. Gosto de pensar que eu olho mais, vejo mais devido ao tipo de trabalho que já fiz. Afasto-me de sentimentos mais directos, quando há conflitos não gosto de bater de frente. Nós, actores, gostamos de tocar e de ser tocados, e a maior parte das pessoas querem mais tocar do que ser tocadas. Eu espero que as coisas me toquem, o amor, a amizade, que é nobre sentimento.
Gosta de viajar?
Viajar é uma das coisas mais maravilhosas. Viajar aqui. Temos um país lindo.
Poesia? Diz versos?
Leio poesia. Gosto muito. Tenho vontade de dizer.
E o próximo trabalho?
É a peça Longa Jornada para a Noite, de Eugene O’Neill, no Teatro de São João, no Porto.
Tem algum lema, alguma frase ou verso?
Um livro. N’As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, há uma aldeia chamada Choraquelogobebes, os que são de lá chamam-se choraquelogobebenses. À entrada da aldeia há uma frase: “É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir.” É uma frase bonita. Poética. Leva-nos a viajar.
Albano veste camisa Ralph Lauren, colete e calças H do Homem. Sapatos Sebago e botões de punho Boss, tudo na Loja das Meias. Kateryna e Ana Lúcia vestem fatos de banho La Perla e collants Calzedonia. Sapatos Walter Steiger, na Stivali. Golas e punhos, da produção.
Albano veste fato Givenchy, camisa D&G, ambos na Loja das Meias l Assistente de produção: Magda Preto l Assistente de fotografia: Ricardo Lamego l Cabelos: Paulo Vieira l Maquilhagem: Naná Benjamim, assistida por Rita Janeiro, com produtos Guerlain l Modelos: Kateryna e Ana Lúcia (L’Agence) l Agradecimentos: Paulo Vieira Cabeleireiros
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