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La Côte Basque era, nos anos 60, o restaurante mais famoso e selectivo de Nova Iorque e, por assim dizer, do Novo Mundo. Era tão famoso que deu o nome e o ambiente ao terceiro e último capítulo de Súplicas Atendidas, de Truman Capote, e era tão selectivo que atribuía as mesas aos clientes segundo uma ordem decrescente de grandeza: os ricos e famosos na grande sala de entrada, os aspirantes a qualquer coisa na sala do meio e os insignificantes na sala do fundo para não serem vistos. Não admira que, perante tanta exigência, o maitre d’ tivesse dito muito secamente a Nam Kempner, a socialite cuja magreza só era comparável à de Wallis Simpson, Duquesa de Windsor, e cuja elegância só era ensombrada pela de Lee Radziwill, a irmã mais nova de Jacqueline Kennedy Onassis: “Lamentamos, Minha Senhora, mas não poderá entrar no restaurante vestindo calças.” Tinha razões de lamento. Não só era o porta-voz das normas caducas de um restaurante desfocado da realidade de uma sociedade em convulsão na década de 1960, como foi incapaz de identificar um espantoso fato negro para a noite, o Le Smoking, criado por Yves Saint Laurent, e o primeiro de Ms. Kempner, a qual, com a panache que lhe era característica, se apressou a despir as calças e a irromper pela sala nobre usando apenas o casaco que serviu de vestido muito curto.
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| Dovima entre os elefantes, por Richard Avedon, em 1955, usando o primeiro vestido de noite criado por YSL quando delfim de Dior. |
O escândalo fez furor nos media e chamou a atenção dos norte-americanos para a nova indumentária que revolucionava a silhueta feminina e para o seu mentor que, no outro lado do Atlântico, redimensionava a Moda e atribuía às mulheres uma nova forma de vestir, tal como haviam feito Coco Chanel e Christian Dior. Os EUA, através das influentes revistas de moda, lançavam ou resgatavam criadores de Moda franceses ou sedeados em Paris e Saint Laurent não foi excepção. Soirée de Paris, o primeiro vestido de noite que criou em 1955, no início da carreira na Casa Dior, ficou imortalizado na então exigentíssima Harper’s Bazaar, numa fotografia a preto e branco de Richard Avedon que mostrava Dovima, a modelo do momento, numa pose dramática entre dois elefantes de circo. Seria ainda a América a entronizar os criadores de Moda como fazedores de Arte, ao dedicar a Saint Laurent a primeira grande exposição de homenagem a um Couturier no Instituto do Traje do Museu Metropolitano de Nova Iorque, num rasgo de audácia e de genialidade de Diana Vreeland, a arbiter elegantiarum e curadora daquele Instituto. A exposição teve um tal impacto que foi mostrada em Paris, Pequim, Moscovo, São Petersburgo, Tóquio e Sidney. Estava-se no ano de 1983 e Yves Saint Laurent tinha 47 anos.
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| Inovações de YSL: o smoking, as transparências e os padrões inspirados em pintores (neste caso, Mondrian). |
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Se essa homenagem mostrou ao mundo quem era o maior criador de Moda vivo – ainda hoje apenas se lhe igualam Paul Poiret (1879-1944), Gabrielle Chanel (1883-1971), Cristobal Balenciaga (1895-1972) e Christian Dior (1905-1957) –, e se coincidiu com o cume da carreira de Saint Laurent, também significou o começo do ocaso. Antes, ele introduzira no guarda-roupa feminino as calças, os fatos e os smokings (mulheres como Greta Garbo, Marlene Dietrich ou Katharine Hepburn haviam apenas vestido calças ou fatos de homem adaptados aos seus corpos, enquanto que, com Saint Laurent, essas peças para o dia ou noite foram recriadas numa pura feminilidade), os casacos inspirados nas jaquetas dos marinheiros, o look safari, os estampados de leopardo, os trench-coats, as roupas do folclore, nomeadamente o russo, reinventadas de forma deslumbrantemente rica, as blusas e vestidos transparentes, a mistura ousada de cores numa só peça (verde, rosa, azul e amarelo, como os mestres impressionistas) e o retomar dos grandes chumaços nos ombros. Só que depois de deslumbrar o mundo com tanta inovação, acomodou-se na reinterpretação dos seus clássicos. Ao contrário do que era a norma, ele afirmou numa entrevista, em 1983: “O guarda-roupa de uma mulher não deve mudar a cada seis meses. Deve-se usar as peças que já se possui e acrescentar-se-lhes qualquer coisa, porque elas são como uma espécie de clássicos intemporais.”
Toda a genialidade de Saint Laurent foi impulsionada, e até forçada, por Pierre Bergé, seu sócio e companheiro de muitos anos. Conheceram-se num jantar de amigos e Bergé passou a ser o braço-direito do criador de Moda quando este fundou a Maison de Couture com o seu nome, em 1962. Até à morte de Yves, no primeiro dia de Junho deste ano, Bergé nunca o abandonou. A dependência de Saint Laurent em relação aos medicamentos para combater a depressão, pela qual foi várias vezes hospitalizado, e a profunda dependência do álcool, nos anos 80, contribuíram para que Pierre Bergé assumisse o papel de santo protector. Ainda que a relação amorosa de ambos tivesse terminado nos começos da década de 1980, Bergé continuou a orientá-lo para a fama e para o sucesso de uma forma que muitos consideraram, até, ter sido cruel. Homem tempestuoso, frio sentimentalmente, ambicioso, calculista e de uma agressividade verbal invulgar (quando a parte do negócio que ambos ainda detinham foi vendida com a outra parte da companhia ao grupo Gucci, em 1999, passando Tom Ford a assinar as colecções de pronto-a-vestir de senhora, ele disse que Yves “nunca tinha visto um vestido Gucci” e que “não gostaria de estar da pele do seu amigo caso ele tivesse de continuar a trabalhar para socialites ricas que estavam completamente ultrapassadas”), foi mostrado pela primeira vez na sua faceta humana na fotografia do funeral de Saint Laurent em que chora copiosamente, amparado por Carla Bruni.
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| YSL foi o primeiro a ter modelos negras. Naomi Campbell numa versão da colecção Anos 40, e duas marcas do Costureiro: o padrão de leopardo e a mistura inusitada de cores. |
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Pierre Bergé desculpava-lhe tudo, até as infidelidades, tanto mais que se sabe que o sexo, as drogas e a Moda eram o leitmotiv da vida do Costureiro. Em 1973, no auge da carreira e da beleza, Saint Laurent apaixonou-se perdidamente por Jacques de Bascher de Beaumarchais, um dandy bonito, muito sedutor e decadente que agitava Paris. Saint Laurent tornou-se tão obsessivo que, dizem, conduzia o carro pela praça onde de Bascher vivia, dando voltas e voltas, apitando sempre a buzina. A paixão durou quatro anos, e houve quem considerasse que tudo se resumiu a um longo arrebatamento platónico. Mais tarde, Bergé diria que Saint Laurent precisava de alguém como de Bascher num momento em que atravessava uma fase tormentosa da vida e para fugir do mundo que construíra em seu redor. Pierre Bergé acusa o amante de Saint Laurent de ter aprofundado o gosto do Costureiro por drogas e álcool. É quase unânime que de Bascher contribuiu para o declínio de Yves Saint Laurent e para a ruptura na relação amorosa entre este e Bergé, o qual admitiria mais tarde, com desdém: “Todos odeiam de Bascher, excepto, é claro, Lagerfeld.” Era mais uma farpa na guerra aberta e no ódio pessoal e profissional entre Bergé e Lagerfeld, já que de Bascher fora o grande amor do Kaiser da Moda, ainda que este, que nunca falou sobre a sua sexualidade, tivesse admitido nunca ter consumado carnalmente a paixão. Chegou a dizer-se que fora Lagerfeld que empurrara de Bascher para os braços de Saint Laurent para que este, entorpecido pelo amor, pelas drogas e pelo álcool, arruinasse o negócio, o que se provou não ser verdade. Lagerfeld escreveu no livro sobre a dieta rigorosíssima a que se subme-teu, que ficou a dever à ansiedade e à tristeza ge-radas pela morte de Jacques de Bascher, em 1989, por complicações relacionadas com a Sida, os desmesurados quilos que lhe deformaram grosseiramente o corpo.
A adição e dependência de Yves Saint Laurent pelas drogas começara cedo. Era um fumador inveterado (fumava 150 cigarros por dia da marca Peter Stuyvesant, a sua preferida) e começou por consumir haxixe, e, mais tarde, cocaína, como confessou o próprio ao The New York Times. Evitou sempre o LSD. A mistura de sexo, desamores, álcool e drogas, resultou explosiva em termos criativos, levando-o a executar obras-primas nesse estado de inebriamento. Ninguém entendia como ele o conseguia, mas quem o conhecia, como Pierre Bergé, resumia tudo em duas palavras: ambição desmedida. Foi nesse estado que ele concebeu, em 1971, a que inicialmente foi a sua colecção mais desastrosa, a dedicada aos anos 40 (mas que se revelaria um êxito, mais tarde, pela consagração de um novo estilo onde se impôs o regresso dos ombros chumaçados e de uma nova silhueta), e a loucura triunfal da colecção de pronto-a-vestir inspirada em Carmen, de George Bizet, em Outubro de 1976, na qual fez desfilar mais de 300 criações durante três horas.
Um mestre quase sem paralelo na Alta-Costura (são inesquecíveis os seus vestidos ricamente adornados ou com bordados inspirados nas obras de Miró, Matisse ou Picasso), Saint Laurent apagou a chama criativa na década de 1990 por acreditar mais na evolução do que na revolução. Quando abandonou a carreira, em 2002, era um homem que reciclava os sucessos do passado e que estava desfigurado por anos de excessos. Ainda assim, o homem de porte aristocrático que abriu as passerelles às modelos negras, que mudou o modo de vestir da mu-lher moderna e que lhe atribuiu poder através da roupa, nunca será esquecido. Fica o criador e perde-se o homem, tão reservado que raramente tinha uma palavra de atenção para com os outros, e que viveu nos últimos anos enclausurado no seu apar-tamento da Rue de Babylone. O londrino The Independent escreveu sobre ele quando se afastou da Moda, em 2002: “Mais do que qualquer outro criador depois de Chanel, YSL representou Paris como o seu estilista líder. Ao vestir a mulher com um smoking ele mudou a Moda para sempre através de um estilo nunca datado.” Mas as pala-vras mais avassaladoras são as de Saint Laurent: “A mais bela roupa que pode vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Mas, para as mu-lheres que não tiveram a sorte de encontrar essa felicidade, eu estou aqui...”
Marcos de uma vida
1936 Yves Henri Donat Mathieu-Saint- -Laurent nasce a 1 de Agosto em Oran, na Argélia, filho de Charles e de Lucienne Andrée Mathieu-Saint-Laurent. O pai, advogado e presidente de uma companhia de seguros, é um homem que não deixa influências no filho. A mãe, que Yves adora, bela e coquette, é o seu símbolo do chic, mas causa-lhe desgostos devido a relações extramatrimoniais. A mãe, de 95 anos, e as duas irmãs, Michelle e Brigitte, vivem actualmente em Paris.
1953 Parte de Oran, onde termina o liceu, e instala-se em Paris, com 17 anos de idade, para tentar a sorte como designer na moda e no teatro, tentando escapar ao serviço militar e ao clima de guerra na Argélia.
1954 Corresponde-se com Michel de Brunhoff, director da Vogue Paris. Ganha o terceiro prémio de um concurso do Secretariado da Lã ao desenhar um vestido. O primeiro prémio, ganho com um casaco, vai para Karl Lagerfeld. Burnhoff vê o desenho do vestido e recomenda Saint Laurent a Christian Dior.
1955 Entra para a Casa Dior como assistente modelista e o seu primeiro vestido de noite fica imortalizado numa fotografia de Avedon retratando a modelo Dovima entre dois elefantes. Torna-se o delfim de Christian Dior.
1957 A morte súbita de Dior eleva-o à direcção da Maison Dior. Com apenas 21 anos vê-se à frente de um império que gera 20 milhões de dólares anuais e a responsabilidade de suceder a uma lenda que mudou radicalmente a imagem das mulheres. Obtém um sucesso estrondoso com a sua primeira colecção, Trapèze, lançando o vestido-trapézio (corte évasé), que lhe vale o prémio Neiman Marcus, nos EUA.
1960 Mobilizado para o serviço militar, experiência que o destroçará para sempre, é dispensado e ao regressar à Dior vê-se substituído por Marc Bohan. A última colecção que fez para a Dior, baseada no look “chic beatnik”, primando pelas camisolas de gola alta e pelos blusões de cabedal preto, foi mal recebida mas transformou-se na “farda” dos vanguardistas.
1961 Funda a sua Maison de Couture, na Rue La Boétie, em Paris, em associação com Pierre Bergé, seu companheiro amoroso e sócio de toda uma vida, e três colaboradores da Dior: Claude Licar, Gabrielle Buchaert e a modelo Victoire. Um homem de negócios de Atlanta, J. Mack Robinson, financia o projecto. A mítica sigla YSL é desenhada por Cassandre. Começa a ascensão e a sede da empresa muda-se para o número 30 bis da Rue Spontini. Inicia a sua colaboração para guarda-roupas de Teatro e de Cinema. Destaca-se, em 1966, o de Catherine Deneuve para o filme de Buñuel, Belle de Jour.
1965 A colecção Mondrian é outro triunfo pelo corte depuradíssimo e pelo jogo de cores simples.
1966 Saint Laurent ousa criar o primeiro smoking feminino. Concebe a colecção Pop Art e inaugura a primeira boutique Saint Laurent Rive Gauche.
1967 Colecção Africaine. É o primeiro a contratar modelos negras para os desfiles de moda, o que manterá para sempre.
1968 Look safari. Lança também o look andrógino que não estabelece fronteiras rígidas entre as roupas de homem e de senhora (graças às calças, ao smoking e ao tailleur de calças). 1969 Surge a primeira boutique para homem, Rive Gauche Homme.
1971 Cria a colecção 40, inspirada na década de 1940, após ter visto Paloma Picasso usar um turbante. A colecção provoca desagrado na Imprensa, mas será das mais importantes por impor um look, nomeadamente através dos ombros muito chumaçados. Causa furor ao posar nu para a objectiva de Jeanloup Sieff para a publicidade do seu primeiro perfume para homem, YSL Pour Homme, que é um sucesso. Lança a fragrância feminina Rive Gauche. Sucedem-se-lhes o perfume mais marcante, Opium, cujo nome causa celeuma (1977); Kouros, para homem (1981); Paris (1989); Jazz, para homem (1989); e Champagne (1993), cujo nome é boicotado pelos produtores dessa bebida.
1974 A Maison instala-se num hôtel particulier no número 5 da Avenue Morceau.
1976 Mostra, uma vez mais, ser um gigante da Alta-Costura ao criar a colecção Opéra-Ballet Russes, uma obra-prima sumptuosa que Saint Laurente considerou ser a sua maior criação. O The New York Times elogia-a, escrevendo: “Uma colecção revolucionária que mudará o curso da Moda no mundo.”
1980 Início de uma série de colecções inspiradas em pintores e em correntes artísticas que vão de Velásquez ao Cubismo. 1982 É-lhe atribuído o Prémio Internacional de Moda instituído pelo Conselho de Designers de Moda da América.
1983 É o primeiro criador de Moda a ter uma exposição que lhe é dedicada pelo Museu Metropolitano de Nova Iorque, Yves Saint Laurent, 25 anos de Criação. Somando as digressões pelo mundo, a exposição teve um milhão de visitantes.
1985 É agraciado pelo presidente Mitterrand com as insígnias de Cavaleiro da Legião de Honra.
2000 O grupo Gucci compra a YSL, ficando os seus fundadores com a parte de Alta-Costura. Para desagrado de Saint Laurent, a Gucci entrega as colecções de Pronto-a-Vestir a Tom Ford.
2002 Anuncia a retirada do mundo da Moda. Apresentou no Centro Georges Pompidou a sua última colecção em retrospectiva. A sua frase de despedida foi: “Je vous quitte, mais je vous aime.”
2008 Sucumbe a um tumor no cérebro, aos 71 anos de idade, deixando um legado quase insubstituível. |
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