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“Uma mulher bem calçada estará sempre bonita.”
Coco Chanel
A valsa a dois tempos entre o bege e o negro constitui a assinatura cromática da estética visionária de Gabrielle Chanel. É esta visão minimalista e rigorosa que trans- porta para a Moda, a “sua” moda. Uma moda feita à medida do seu temperamento tão austero quan- to ousado, tão egocêntrico quanto genial.
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O modelo clássico bicolor, em pele bege e com a ponta negra (em cetim). O modelo em
bege e preto é tido pelo
mais famoso do mundo
e um símbolo de
elegância. Ao lado,
uma das versões
actuais do sapato
bicolor. |
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É ela quem redefine o conceito de feminilidade no período de ruptura que se instala após a Primeira Grande Guerra. É ela quem ousa deixar-se fotografar, em 1917, sem chapéu, em pleno dia, exibindo cabelos cortados e vestindo calças de corte masculino. O vestuário masculino sempre a inspirou. E nunca se coibiu de “roubar” os elementos deste vestuário que lhe podiam facilitar a vida. Nos anos 20-30, os sapatos masculinos informais eram bicolor e apresentavam a biqueira mais escura, frequentemente negra, de forma a disfarçar a sujidade devida ao an- dar sobre os relvados onde se pra- ticavam desportos como o ténis e o golfe. Este detalhe não passou despercebido a Coco, que mais tar- de o iria adaptar, tendo em vista uma finalidade mais chique e mais urbana.
No final da década de 30, Chanel está no apogeu da sua glória, mas a ocupação de Paris pelos nazis leva-a a fechar as portas da sua maison de couture e a deixar a cidade. O seu regresso será também o seu renascimento.
Em 1954, com 71 anos, volta a instalar-se no número 31 da Rue Cambon. Reabre os seus ateliers, repõe os seus códigos de elegância e recupera o culto da simplicidade. Em 1957, imagina um sapato bege, com a biqueira negra, e uma presilha elástica muito confortável: “Uma mulher bem calçada estará sempre bonita”, afirma.
“A biqueira negra, ligeiramente quadrada, fazia o pé parecer mais pequeno, enquanto que o bege alongava a perna”, explica Monsieur Massaro, sapateiro da Casa e, na época, responsável pelo fabrico destes sapatos. “Tinham um design muito puro, acentuado pelas tiras finas, atrás. Em vez de usarmos fivelas, optámos por incrustar um pequeno elástico. A presilha elástica resultou muito bem, pois permitia adaptar o sapato à anatomia do pé em movimento, no andar.”
A coerência com-pensa. Estes sapatos foram um sucesso imediato e integram a “lista” das criações míticas da Casa Chanel. Multiplicaram-se em variações infinitas: sabrinas, botas, sapa-tilhas, em pele, em jersey, em verniz, em plástico transparente… Cabe hoje a Karl Lagerfeld demonstrar a versatilidade genial desta assinatura bicolor. Com a mestria de sempre.
A par e passo
A fábrica que produz, desde 1956, os sapatos para a Casa Chanel situa-se na Lombardia, um marco histórico do calçado de luxo. Esta unidade de produção orgulha-se da formação que dá aos seus empregados, de forma a poder manter os seus níveis excepcionais de exigência, savoir-faire, tradição, autenticidade e modernidade. O fabrico de um sapato implica 50 a 100 etapas. A diferença entre dois tamanhos é de 6.6 mm, e entre cada tamanho intermédio, de 3.3.mm. Aqui, o elemento humano é sinónimo de uma qualidade artesanal invulgar. |
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7- A cobertura do corpo do sapato
O corpo do sapato foi pespontado, montado, rematado, colado. O gorgorão foi aplicado directamente na estrutura e é dobrado de forma a acolher o laço em pele. |
1 - A forma.
Exigência, rigor, precisão E no princípio é a forma, esculpida em três dimensões e em plástico, um material que não sofre quaisquer alterações. A forma controla o volume do sapato, da biqueira e do calcanhar. Indissociável de todo o calçado Chanel: feminilidade e uma exigência obsessiva de conforto. Precisão e minúcia falam a linguagem secreta de um savoir-faire luxuoso. |
8 - Volume
O corpo do sapato é colocado na forma, com a mais perfeita adesão. Esta etapa é importante, pois há que o posicionar de modo absolutamente correcto, para que o seu lançamento seja harmonioso e de uma precisão milimétrica. Aqui, o olhar do homem experiente revela toda a sua mestria e toda a sua sensibilidade. |
2 - Desenho em três dimensões
A forma é coberta por um papel que adere na perfeição, sem bolhas nem vincos. É sobre esta superfície que se executa o desenho técnico à mão, com uma precisão milimétrica. Uma verdadeira proeza. Esta operação também pode ser feita por computador. É a primeira visão do modelo em três dimensões. Em seguida, o papel é descolado e aplanado para duas dimensões. A partir daqui, extraem-se todos os moldes dos elementos que irão compor o modelo final: o corpo do sapato, o forro, os reforços… |
9 - O salto e a precisão
O salto entra em cena. Posicionado na perfeição, é aplicado, pregado, colado mediante uma forte pressão, sempre de uma forma harmoniosa. A precisão é, uma vez mais, obsessiva e radical. O salto está pronto para receber a sola. |
3 - O recorte
O recorte da pele escolhida (ou de outro material, como o cetim, a ganga ou o tweed) faz-se de acordo com o molde, no sentido em que a pele apresentar maior flexibilidade. O conforto está inscrito nos genes da marca. Como referência, um metro quadrado de pele permite fabricar cinco pares de sabrinas. Esta operação é feita à mão nas peles preciosas (crocodilo, avestruz…) ou com a ajuda de uma máquina electrónica. |
10 - Acabamento minucioso
Com um instrumento bem afiado, recorta-se cuidadosamente a sola previamente colada. Terminada esta etapa, um toque de requinte extremo: o acabamento com cera de todo o rebordo da sola. |
4 - O essencial invisível
O trabalho de reforço, entre o forro e determinadas zonas específicas como o salto, a biqueira e o relevo interior da sola. É uma operação invisível e exigente que marca a diferença no calçado de luxo e que lhe determina o uso, a resistência e a durabilidade. |
11 - Momento mágico
Só falta rematar o forro, colocar a palmilha interior griffée e atar a laçada. Objectos de desejo, estas sabrinas míticas vão ser cuidadosamente retocadas por mãos sábias: pingos de cola retirados, fios soltos eliminados, pele lustrada… e colocadas delicadamente num papel de seda precioso, nas caixas pretas griffées que povoam todos os sonhos. Amanhã, após terem passado por centenas de mãos e dedos delicados, ganharão vida nos pés de belas embaixatrizes da marca e de mulheres decididas. |
5 - O logo CC, objecto de desejo
Recortado, o emblemático signo CC, código forte de sedução, é colado à mão sobre a pele, rematado e pespontado. É uma máquina que fixa o seu relevo lendário, antes do pespontar, e que lhe confere vida. Este logo tem evoluído ao longo dos anos, tecnicamente e visualmente. Hoje em dia, prefere o pesponto largo, o ton sur ton. Coroa a biqueira do sapato, torna-o desejável… |
12 - O laço mítico
Pormenor final de feminilidade, o laço em gorgorão de seda é fixado com um pingo de cola e, em seguida, cosido. O bege e o negro, incessantemente renovados, afirmam uma vez mais a sua contemporaneidade. |
6 - Pespontagem da biqueira
A biqueira foi decorada (a pele foi tornada o mais fina possível para um mínimo de espessura), rematada e colada. Um martelo alisa toda a superfície para um acabamento imaculado. O pesponto da biqueira é feito à máquina. |
13 - Alta tecnologia
O posicionamento do espigão e dos pregos no salto é imperativamente controlado num scanner. Uma etapa vital, já que estes elementos asseguram a estabilidade e a resistência do salto. Aqui, tudo o que não se vê foi verificado. A marca Chanel assina um produto de luxo. A fábrica mandou conceber este scanner especializado em saltos. É a única fábrica de calçado a possuir tal aparelho e a única a assegurar este controlo de qualidade optimizado. |
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