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CELEBRIDADES







Pose serena, atitude optimista, entrega total. Marco Delgado possui todos os ingredientes para vencer.
 
O actor veste pólo Etro, lenço e jeans Dsquared2, tudo Fashion Clinic
Determinado, na vida e nos palcos, sem devaneios de fama, Marco Delgado revela-se um homem disposto a perseguir os seus sonhos.

POR LEONOR XAVIER
FOTOGRAFIA DE RICARDO QUARESMA
STYLING: XANA GUERRA
MAQUILHAGEM: INÊS VARANDAS
AGRADECIMENTOS AO ROYAL CAFÉ



psicólogo em Luz na Cidade, no Teatro Aberto, foi uma das suas personagens de sucesso. Entre luzes e sombras, uma vida óbvia e outra velada, não poderia ser obra de iniciante no palco. A verdade é que em 13 anos de carreira sem pausas, e aos 33 anos de idade, o actor que desde muito cedo se decidiu por este caminho, pode falar de uma experiência, pelas mais de três dezenas de papéis que já encarnou. No cinema, na televisão, no teatro. Dramáticos, densos, tingidos de perversidade têm sido estes papéis. Entre eles, os clássicos de Shakespeare, Molière, Dostoievsky, Harold Pinter, pelas mãos dos nossos mais prestigiados encenadores. Sem fantasias de fama, o actor representa a tempo inteiro, certo de que as escolhas são fundamentais no curso deste seu caminho. Seu melhor amigo, cúmplice e confidente é o gémeo verdadeiro, Sérgio. Assim Marco nos falou de si.

Como se tornou actor?
No fim do 12.º ano, fiz o curso de Formação de Actores no Instituto de Formação, Investigação e Criação Teatral. E fiz também o curso de Formação de Actores de Teatro do Instituto Franco-Português, que ainda no princípio dos anos 90 foi dirigido pelo Gutkin, um dos grandes impulsionadores da formação de actores teatrais. Depois, quando fiz o trabalho final, e começava o estágio, tive a sorte e a felicidade de encontrar uma professora polaca, Aldona Skiba, casada com um diplomata francês que estava em Lisboa. Foi ela a pessoa que mais me marcou e com quem mais aprendi, não só técnicas de teatro mas também uma atitude de honestidade comigo próprio. Ela montou um curso de dois anos no Instituto Franco--Português, em que houve vários professores – Luis Miguel Cintra, Jorge Listopad, João Brites, Fernanda Lapa – que tiveram importância na minha formação.

Os pais aceitaram a sua vontade?

 

 

 

 

 

 

Sem fantasias de fama, o actor sabe bem qual deve ser o seu caminho.
Marco Delgado veste camisa em linho branca e pólo às riscas Coast, calças de ganga e chinelos Dsquared2, tudo Fashion Clinic
Quando quis ser actor, já não havia o preconceito de que o teatro era uma vida boémia. A minha mãe era africana, da Beira, em Moçambique. O meu pai viveu muitos anos em África, sempre tiveram o lugar que os pais devem ter, deixar-nos liberdade de escolha, obviamente com as preocupações próprias de pais. O que sinto em relação a África é muito forte. O que mais me intriga é a relação espaço-tempo, que é diferente de toda a parte do mundo. Ali é tudo muito grande, há espaço, há uma presença da Natureza, que me impressiona e que eu questiono muito. Fui lá pela primeira vez com a peça O Avarento, de Molière, que estava a fazer com A Barraca. Depois, já voltei outras vezes, tenho tios e tias a viver na África do Sul. Dessa primeira vez, fiquei emocionado, constrangido, senti uma atracção muito forte, um sentimento de que era preciso redimensionar a nossa existência, afinal não somos importantes, não somos o centro do mundo nem do universo.

Começou a sua carreira no teatro?
O Avarento foi o princípio. Tinha-me estreado no último ano do curso, em 1993-94, no Teatro da Cornucópia, em Diálogos Sobre A Pintura na Cidade de Roma. O protagonista era o Luis Miguel Cintra a fazer Miguel Ângelo e eu fazia Francisco de Holanda. A peça era uma dramatização dos diálogos do próprio Francisco de Holanda, a maioria eram monólogos meus para o público, com a linguagem desse tempo. Era tudo o que eu podia esperar. Depois, fiz Contos de Inverno, de Shakespeare, encenado pelo Luis Miguel, nessa peça estreou a Beatriz Batarda.

Que bons momentos teve?
Em 12, 13 anos, nunca parei. Várias pessoas marcaram-me no teatro, vários trabalhos. Raul Solnado e Maria do Céu, quando fomos a Moçambique. Esse momento foi muito especial. A cultura é tão diferente da nossa, senti reacções espontâneas do público. Também foi muito importante para mim a peça Loucos por Amor, de Sam Shepard, encenada pela Ana Nave, em que fui produtor. Com a Catarina Furtado e o Rui Calapez, foi uma entrega total, era o nosso dinheiro que estava em causa. A peça trata a relação entre dois irmãos, eu fazia o irmão, a Catarina era a irmã, também trabalhavam o Rui Morrisson e o Pedro Laginha. Isto foi há três anos, ao mesmo tempo fazia os dois irmãos gémeos na novela Queridas Feras. Trabalhava como um louco, filmava o dia todo em Évora.

Gosta mais de cinema, teatro ou televisão?
Pessoal e transmissível

- Actriz Manuela de Freitas
- Actor João Perry
- Livro A Seda, de Alessandro Baricco
- Música Bandas sonoras de filmes
- Museu Museu do Prado, em Madrid
- Realizador Mike Leigh
- Estilista de Moda Miguel Vieira, do Porto
- Restaurante Japonês
- Pintor Antoni Tàpies
- Desporto Futebol
- Bailarino Benvindo Fonseca
- Coreógrafa Clara Andermatt

A técnica é diferente, mas a verdade está nas três. Tenho uma formação diferente. A nova geração está iludida, muito deslumbrada com a questão da fama, do reconhecimento. Eu não me deixo motivar por isso, tem a ver com o respeito pela minha profissão. As pessoas escolhem esta profissão achando que é um veículo de facilidade e não é. Não se faz isto para reconhecimento ou popularidade. Quando fiz esta escolha, era a minha decisão de vida, era uma coisa mais séria.

A sua profissão é difícil, exige muito?
A dedicação e a entrega é tanta que queremos fazer mais e mais. Em A Noiva, um filme da SIC, do Miguel Galvão Teles, que era passado na Guiné, eu fazia um sargento que ia para a tropa. As filmagens passavam-se no estuário do Tejo, ao pé de Alcochete. Era Dezembro, estavam 5 graus, eu ficava horas dentro de água com botas de tropa e T-shirt e calças de tropa, aos tiros. Eram oito horas a gravar e a repetir, quando quiseram fazer o making of, perdi o raciocínio lógico, não tinha capacidade para pensar. As pessoas da produção viam-nos deitados na lama horas e horas, como pássaros mortos. O que mais me impressionou foi a falta de sensibilidade dessas pessoas da produção, quando não havia o menor conforto. Às vezes, este trabalho é muito cruel e pouco gratificante. Várias vezes questionamo-nos porque o fizemos ao longo do nosso percurso.

Como se ganha respeito, como actor?
Na televisão, felizmente, as pessoas respeitam-me. Fiz opções, este trabalho parte muito das opções das pessoas. Nós temos dificuldades financeiras, mas muito do juízo que as pessoas fazem sobre nós parte das nossas opções. Em teatro, escolho trabalhar com Luis Miguel Cintra, com João Lourenço, João Perry, Jorge Silva Melo, Virgílio Castelo. O texto, os autores, a ideia são um risco. Pegar nos clássicos é um risco. Já se fizeram maravilhas. Ou há uma grande ideia, uma grande concepção ou não vale a pena. O teatro é sempre um risco, mas um doce risco.

Há uma crise no teatro?
Há uma desorganização cultural tão grande, temos o exemplo do Teatro Nacional. Não se percebe uma ideia, uma política. As pessoas saem da direcção do Teatro Nacional como quem muda de camisa, as companhias ditas independentes cada vez estão mais sozinhas. Mas existe uma movimentação de pessoas conhecidas da televisão que paralelamente fazem teatro, há a revista, há os musicais do Filipe La Féria. Há espaço para a diversidade. Não acho que haja crise. Faz-se muito teatro, há peças para todos os gostos. Se calhar muitas são de pouca qualidade. Um bom actor de televisão pode ser de teatro. Pode, mas tem de ser inteligente, tem de saber lidar com artes e meios de comunicação diferentes. É muito difícil fazer bem teatro e televisão. Não querendo dizer que a televisão é uma arte menor, penso que é mais controlável.

Quais são as suas personagens?

 

 

 

 

 

 

Para o actor é muito entusiasmante vestir a pele do lobo. Sempre mais interessante que as personagens boazinhas.
O actor veste Blusão e T-shirt Prada e calças Etro, na Fashion Clinic
De algum tempo para cá, faço os maus ou as personagens toxicodependentes, vagabundos, os excluídos, alcoolizados. Se funcionamos bem em termos de audiência com um papel, há tendência para manter-se o mesmo tipo de personagem. Fazer bem na televisão é como no futebol, não se deve mexer na equipa. Os dois últimos que fiz eram um dos irmãos nas Queridas Feras e o Carlos no Mundo Meu. Pessoas cínicas, manipuladoras, maquiavélicas. Vai tão de encontro à minha natureza. Gosto de explorar esses lados que também tenho na minha vida pessoal. Os próprios guionistas exploram mais os maus porque é difícil fazer uma personagem boa que seja interessante, que tenha substância, que tenha conflitos. As pessoas não são todas boas ou más, para o actor é muito interessante, motivador, entusiasmante, trabalhar esses papéis.

Assediam-no muito?
Recebemos todo o tipo de aproximação, é simpático até certo ponto. Mas pode ser incómodo.

Como é a relação com o seu irmão gémeo?
Com o meu irmão, tenho de falar todos os dias. Temos uma relação especial, muito forte. A ideia de os gémeos sentirem a mesma coisa ao mesmo tempo é bastante mitificada, não é bem assim. Nós os dois temos a mesma forma de pensar, somos complementares, contamos tudo um ao outro. As pessoas confundem-nos a toda a hora, mas a minha sobrinha, com um ano, não nos confunde! Estudámos juntos até ao ano em que chumbámos os dois. Eu escolhi Letras, o meu irmão, Economia. A partir daí, a arte dele foi mais tardia. Abandonou a Economia, dedica-se só à música no teatro.

Como ocupa os seus tempos?
Vou ao ginásio, vou ao cinema e tenho ido pouco ao teatro. Viajo sempre que posso. Escrevo muito, não tenho estrutura nem lógica, vou escrevendo o que vou pensando. E pinto sem pretensão. A pintura é tão abrangente, deixa-me tão tranquilo e satisfeito.

Que esperanças tem?
É tudo tão mediatizado, tudo tem uma força tão grande que nos deixa assustados, desesperançados. Só temos é que acreditar que é possível as coisas melhorarem, e perseguir as nossas vontades.
















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