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PERSONALIDADES
A hora da libertação
por Harold von Kursk
fotografia de Marion Stalens/H&K

Costuma desempenhar o papel de heroína de rosto fechado e triste. Mas é tudo menos infeliz. Alegre e cheia de vida, está encantada por ter tido a oportunidade de enrar na comédia Jet Lag.


A parisiense Juliette Binoche, de 38 anos, é mais conhecida por papéis intensamente dramáticos, em trabalhos como Damage, de Louis Malle, o drama de Kieslowski, Azul, com o qual ganhou o César, o papel secundário em O Paciente Inglês, que lhe granjeou um Óscar, e, mais recentemente, A Viúva de St. Pierre.

O filme Jet Lag, da realizadora/escritora, galardoada com um Óscar, Danielle Thompson (La Crise), mostra-nos Juliette no papel de Rose, esteticista num salão de cabeleireiro situado no espaço comercial do aeroporto Charles de Gaulle de Paris, onde conhece Felix (Jean Reno), um passageiro bastante irritado que se encontra encalhado no aeroporto devido a uma greve.

Nascida em Paris, Juliette Binoche cresceu a respirar uma atmosfera de teatro. É extremamente independente. Tinha apenas dois anos e meio quando os pais, Jean-Marie Binoche, um director de teatro, activista do Partido Comunista Francês, e Monique Stalens, actriz, se divorciaram. Juliette foi enviada para um colégio interno, onde esteve dos três aos sete anos. “A minha mãe não estava por perto para tomar conta de mim”, diz. “Por isso, tive eu de tomar conta de mim própria.”

Durante esses tempos em que a sobrevivência emocional de Juliette dependia da sua capacidade de construir uma vida de fantasia, apaixonou-se pela arte de representar. Depois de voltar para casa, a mãe levou-a para a Marx Bros. Films. E quando, aos 15 anos, abandonou o liceu para ir a Londres e à Polónia, entrou para o conceituado Conservatório de Paris, onde estudou representação e arte. Aos 16 anos, estreou-se na tela com um papel de uma linha, em Liberty Belle, de Pascal Kané (1982), seguindo-se dois filmes para televisão e, no ano seguinte, um pequeno papel no filme de Jean-Luc Godard, Je Vous Salue Marie, e depois o papel de protagonista em Rendez--vous, de André Téchiné.

Juliette vive numa casa de campo nos arredores de Paris com o seu companheiro de há muitos anos, o actor Benoît Magimel, e as suas crianças, Raphaël, de nove anos (filho de André Hallé, escafandrista profissional), e Hannah, de três anos (filha de Magimel). Entretanto, teve um caso com o actor franco-espanhol Olivier Martinez (Infiel), que conheceu nas filmagens de The Horseman on the Roof.


Juliette Binoche em Damage


Em Jet Lag, o público assiste a diferentes facetas suas como actriz. Como é que foi assumir este papel?


O que adorei na minha personagem foi o facto de ela estar numa altura da vida em que sentia que não tinha nada a perder em exprimir-se. Por isso, ri e entrega-se a este pequeno e estranho mundo que descobre com Felix (Jean Reno).

Também acho muito agradável vê-la rir na tela.

Também já me ri em filmes anteriores, mas apenas por breves instantes. Na vida real, há certos momentos em que tenho uns ataques de riso que parecem vir do fundo da alma. É quase como se fosse o corpo a falar em vez da cabeça. É assim que eu vejo a gargalhada. É uma reacção emocional que foge totalmente ao controlo.

Sabe porque é que Daniele Thompson a escolheu para este papel?

Há uns anos, o marido dela estava sentado atrás de mim na cerimónia da entrega dos Césars e ouviu-me rir que nem uma louca. Achou que eu era boa para aquele papel e sugeriu à Danielle. Tenho a certeza de que, se não fosse isso, ela nunca se teria lembrado de mim, pois a maior parte dos realizadores franceses imaginam-me uma actriz triste.

É limitador para si ter sido identificada, ao longo dos anos, com representações excepcionais em filmes como Les Amants du Pont-Neuf ou Azul ou O Paciente Inglês, que são essencialmente tristes?

 
Uma cena de Chocolate
Num certo sentido não me posso queixar, porque adorei esses filmes e as personagens que representei, e é óbvio que tive muito sucesso na minha carreira devido a eles. Mas, após 20 anos como actriz, sinto que tenho de me expressar de uma maneira diferente. Durante anos, senti-me presa deste estilo tão restrito de personagem, que corresponde apenas a uma pequeníssima faceta da mi-nha personalidade e que não reflecte, de modo algum, a minha maneira de ser e o meu carácter. Existe este outro ser completamente diferente – como actriz e como mulher – à espera de explodir num próximo filme. Neste momento, contudo, sinto que o Jet Lag é o tipo de filme que mostra às pessoas que sou capaz de desempenhar papéis mais leves tão bem como papéis mais trágicos.

Que tipo de emoções experimentou durante a representação deste tipo de personagem?

Experimentei de tudo. Foi principalmente uma sensação de puro gozo e de libertação ter finalmente tido a oportunidade de me entregar completamente a este diferente tipo de universo de representação. Há muito que desejava exprimir-me através deste tipo de personagem. Diverti-me imenso a fazer este filme.

Antes de começar a trabalhar regularmente como actriz, teve vários empregos algo invulgares, como o de vender hortaliças numa mercearia ou o de caixa numa loja. Tem boas recordações desses tempos?

Não, nenhumas. Foram tempos muito difíceis para mim. Durante três anos, fui sempre rejeitada em todas as audições. Ou porque o nariz não servia, ou porque não tinha a aparência adequada...

O seu primeiro grande papel foi em Rendez-vous, do realizador André Téchiné. Ganhou o Prix Romy Schneider como a jovem actriz mais talentosa de França.

Não tenho boas recordações desse filme. As filmagens foram um pesadelo. Nesse Inverno, fez um frio horrível em Paris e lembro-me de uma vez ter os maxilares tão gelados que não consegui articular pala-vra... Senti também que não tinha representado tão bem como devia, que fui demasiado demonstrativa e teatral. Mas amadureci bastante nesse filme, porque aprendi que tinha de trabalhar as questões do sentir mais no interior e não passar tanto para fora... No entanto, continuo furiosa por só me terem pago 18 mil francos por dois meses inteiros de filmagens, que era menos do que ganhava a maquilhadora!

Uma ironia interessante em Jet Lag é que os pais da personagem que representa são ambos comunistas, que era também o caso dos seus pais, não era?

(Ri) O meu pai, que já não é comunista, fartou-se de rir quando viu a cena do filme em que a minha personagem, a Rose, começa a chorar quando vê cenas do Front Populaire [o partido francês nacionalista de direita] a comemorar. É uma das cenas mais engraçadas do filme.


A rir, em Jet Lag


Nunca resistiu a aceitar papéis difíceis. É uma mulher que se impõe desafios?

Sim. Tenho esta necessidade quase obsessiva de testar os meus medos mais profundos. Quando escolho um papel num filme, é porque é essa muitas vezes a minha forma de libertar qualquer coisa dentro de mim. É difícil explicar, mas uma das razões por que escolhi trabalhar como actriz foi por ser uma forma de expressar e de desafiar todas as emoções complexas e sentimentos extremos que sentia existirem e com os quais não conseguia entrar em contacto na minha vida pessoal. Por isso, representar foi sempre uma experiência incrivelmente terapêutica. É algo que faz muito parte de mim. Preciso mesmo.

Foi difícil equilibrar as necessidades dos seus filhos e o seu papel de mãe com o seu trabalho de actriz?

Às vezes é muito difícil porque, como actriz, tem de se viajar muito e de ficar noutra cidade ou noutro país durante vários meses seguidos. Por isso, há muito stress e é preciso ser-se muito organizado e ter alguém que olhe pelas crianças quando se está em filmagens. Mas há anos em que trabalho apenas três ou quatro meses e, nessa altura, consigo passar muito mais tempo com os meus filhos.

O seu filho mais velho, o Raphaël, importa-se que não esteja em casa, quando está nas filmagens?

Desde os quatro ou cinco anos que lhe pergunto sempre se ele quer ficar em casa ou se prefere ir comigo para as filmagens, quando tenho de viajar. Acho que não é de admirar, mas de cada vez que lhe pergunto, ele prefere sempre ir comigo! (Ri) Por isso imagino que a Hannah, quando for um pouquinho mais velha, também vá querer ir connosco, para estarmos todos juntos.

Ter dois filhos complicou de alguma forma as diferentes relações amorosas que teve nestes últimos nove anos?

As relações são, por vezes, só por si, uma coisa muito emotiva, extraordinária e difícil. Mas a minha vida com o Benoît [Magimel] é muito normal e feliz. No ano passado, andámos imenso tempo à procura de uma casa em Paris que tivesse um grande jardim e fosse num sítio calmo e sossegado, mas foi impossível encontrar uma à venda. Nós gostamos de dividir o tempo entre o campo e a cidade.

Em família, quais são as suas actividades preferidas?

Adoro ir com os meus filhos às compras, aos mercados no campo ou em Paris. Gosto daquelas coisas normais que as mães fazem com os fi-lhos. Levar o Raphaël à escola, ajudá-lo a fazer os trabalhos de casa, cozinhar. Acho que, sobretudo, gosto de cozinhar para a minha família. É muito relaxante. Faz-me sentir uma pessoa muito normal – o que, como sabe, é uma coisa muito difícil para os artistas que pensam sempre que o mundo gira em volta deles! (Ri)

Ultimamente, também resolveu ter lições de canto...

Sim, é verdade. Estava curiosa para ver o que conseguiria fazer com a minha voz e como me expressaria através do canto. Tenho cantado muitas canções do estilo das da Edith Piaf porque, para mim, ela era maravilhosamente expressiva e mágica como cantora. Para uma actriz, a voz é tudo, faz parte do mais profundo da nossa interpretação.





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