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FAMÍLIA

A ordem, a desordem e a autorização ou a falta dela para entrarmos nos seus quartos representam bem mais do que isso... A psicóloga Maryse Vaillant desvenda-nos alguns segredos acerca do tema e ajuda-nos a perceber o que se passa para lá desta fronteira.

Por Sophie Carquain*

A reivindicação por parte de uma criança de um espaço próprio
, como por exemplo ter um quarto só para ela onde só entre quem ela quiser e totalmente interdito a adultos, é natural, asseguram os especialistas. E também um dos primeiros sinais de que a criança cresceu e está agora a adaptar-se ao mundo exterior, sendo esta apenas uma das formas de o fazer.

Depois de uma fase, entre os três e os cinco anos, em que é especialmente encantadora e afectuosa, e gosta de imitar o comportamento dos pais, a criança começa a sofrer várias mudanças e a mostrar desejos de independência, por vezes associados até a um certo mau comportamento e contestação. Depois dos seis anos, “começa a emancipar--se da tutela dos pais e a ocupar o seu lugar no mundo exterior, como indivíduo responsável”, como escreve Benjamin Spock no livro Meu Filho Meu Tesouro (Publicações Europa-América). Apesar de continuar a amar os progenitores, “mostra-se menos afectuosa”, chegando mesmo a “ficar incomodada quando estes a beijam, pelo menos quando o fazem em público”. A família é remetida para segundo plano enquanto os amigos ganham um lugar central. É também a idade em que “as crianças adoram juntar-se em grupos e criar associações”, algumas “secretas”, pelo que inventam “sinais que servirão de contra-senhas”, estabelecendo as suas próprias “leis e regulamentos”. De acordo com Benjamin Spock, é possível que elas próprias não saibam de que segredo se trata. “Esta ideia, possivelmente, materializa a necessidade que elas têm de dar provas das suas capacidades para se dirigirem a si mesmo, sem serem vigiadas pelas pessoas crescidas e serem incomodadas por outras crianças menos independentes.”

Uma psicóloga francesa responde a algumas destas questões e explica a melhor forma de respeitar estas fronteiras, ficando activamente atento. A criança pode ser mesmo grosseira durante este período, mostrar desejos de independência que se traduzem em quartos com dísticos na porta – “Não entrar” –, uma desarrumação de pôr os cabelos em pé e, muitas vezes, de uma  higiene duvidosa.

Devemos aceitar o “pequeno caos” dos nossos filhos?
Em certa medida, sim, porque o quarto é a metáfora do espaço psíquico. É a encruzilhada entre o “eu”, o espaço maternal (representado pela cama) e a instituição familiar (a casa). É por isso que eles reivindicam, a partir dos seis, sete anos, um espaço só para si. Uma mãe maníaca da ordem é uma violência para a criança.

Mas devemos ensiná-los a serem arrumados?
Sem sombra de dúvida. E desde tenra idade; se começarmos demasiado tarde, nunca serão capazes de arrumar sozinhos. Aos dois anos, pedimos-lhes que arrumem o ursinho ou as duas peças do jogo de construções espalhadas. A partir dos três, quatro anos, mesmo que demorem uma eternidade afazê-lo, incentivamo-los a arrumar sozinhos – evitando a ordem “Arruma o teu quarto!”, que implica um trabalho de titã que não são capazes de fazer. Mais vale formular conselhos precisos: arrumar os livros por tamanho, atribuir uma determinada caixa a uma função, pôr no lixo os produtos perecíveis(lanches esquecidos, latas, etc.). E deve evitar-se exigir um cumprimento imediato, o que será entendido como uma atitude militarista. Diga-se antes: “Vou deixar o saco à porta do teu quarto. Tens até amanhã de manhã.”

E quanto aos adolescentes?
Devemos fazê-los entender que são “locatários” daquele espaço e não proprietários. Portanto, estão sujeitos às regras colectivas da família. Não consentimos que pintem as paredes (que não lhes pertencem) de preto, mas toleramos os cartazes góticos – mesmo os mais agressivos – e, eventualmente, as cortinas pretas. No que diz respeito ao volume do som, devemos ser inflexíveis: é uma questão de saúde. No entanto, mais vale forrar-lhes as paredes do quarto com cortiça do que aceitar que ouçam Daft Punk no máximo: é surdez pela certa! O seu filho exige uma fechadura na porta? Não somos obrigados a ceder. A fechadura é só para a casa de banho. Mas é bom habituá-los, desde os cinco, seis anos, a bater à porta antes de entrar.

E quanto à higiene?
A partir dos 12, 13 anos, o adolescente procura fugir aos códigos de boa conduta: é a trash attitude, um sinal de rebelião contra a sociedade. Nem pense em ir à procura da sua roupa suja: trata-se da sua intimidade. Em contrapartida, se as pilhas de roupa se multiplicarem, cabe-lhe depositar o cesto da roupa suja à porta do quarto dele, dando-lhe algumas horas para o encher. E não é proibido instituir alguns ritos: aspirar de 15 em 15 dias, arrumar a secretária todas as semanas..

E quando o quarto se transforma numa lixeira?
Quando o caos se instala e o adolescente estuda na cozinha e dorme na sala para fugir ao seu próprio quarto, é sinal que o seu mal-estar se tornou insuportável. Cabe-nos encetar o diálogo (“O teu quarto está num estado… Queres que te ajude a gerir o teu espaço? Vais ver que te sentes melhor”). E porque não uma saída conjunta para comprar móveis ou prateleiras novas? É uma boa maneira de lhe dar um novo ponto de partida, considerando-o como um igual e não como um bebé. Uma coisa é certa: a incursão intempestiva no seu espaço pessoal ou a intervenção da mulher-a-dias, sobretudo na sua ausência, são interditos absolutos: o adolescente entendê-las-á como uma tentativa de penetrar nos seus segredos.

De pequenino…

A tarefa de educar para a organização é fundamental e deve ser iniciada desde cedo, praticamente logo que a criança começa a ter percepção do mundo. Saiba como.

• Explique-lhe que todas as coisas têm um lugar no universo: a mãe, o pai e os manos vivem nas casas, os animaizinhos nas tocas…
• Dando exemplos que possa entender, faça-a compreender que no mundo tudo tem uma ordem e que as coisas funcionam melhor quando este ritmo é respeitado
• Nunca arrume os brinquedos pela criança. Mas pode sempre ajudá-la a organizar-se, facultando-lhe caixas de plástico para acondicionar as coisas por grupos, por exemplo
• Incentive-a a ter o quarto arrumado, explicando que dessa forma terá mais espaço para brincar com os amigos
• Elogie-a sempre que se justificar. Por exemplo, sempre que partir dela a iniciativa de guardar determinada caixa de brinquedos antes de pegar noutra
• O material da escola deve ocupar um espaço específico do quarto e depois da hora de estudo deve ser devidamente arrumado, reservando a mochila para o dia seguinte
• Colocar a roupa suja no lugar apropriado é fundamental, pelo que o cesto para o efeito deve estar ao alcance da criança
• Colabore. Se o seu filho solicitar que mude a disposição de um móvel no quarto, considere carinhosamente o pedido
• Ensine-o a repartir, doando brinquedos a mais ou que a criança já não quer, mas que estão em boas condições para outras crianças

* COM JÚLIA SERRÃO | TRADUÇÃO DE MARIA EUGÉNIO COLAÇO













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