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O Sexo e a Cidade chegou ao grande ecrã. Mergulhámos nos segredos e folclore desta marca que fez com que milhares de mulheres se revissem nas quatro ex-solteironas de Manhattan, com Sarah Jessica Parker, aliás, Carrie Bradshaw, no centro das atenções.

por Rui Pedro Tendinha, em Nova Iorque l fotografia de craig blankenhorn

Quatro anos de hiato. Quatro anos sem as quatro amigas de Nova Iorque. Nesse intervalo, a série criada por Darren Starr tornou-se ainda maior. Como é possível sem novos episódios? Uma coisa chamada saudade. Saudade e syndication, o sistema de repetições por todos os canais regionais e de cabo na América, já para não falar de uma euforia em relação às caixas rosa de DVD com todos os episódios. Carrie e companhia mudaram culturalmente Nova Iorque e tornaram-se num fenómeno sociocultural sem comparação, desde 1998, o ano de estreia na HBO. Remaquilharam o pós-feminismo liberal, puseram o vocabulário sexual na televisão e reforçaram o paradigma do consumismo em Nova Iorque, a cidade de todos os gastos.

 
De repente, Manhattan tornou-se numa enorme produção de luxo de revista feminina. Para lá das roupas e do sexo, o mais importante tornou-se a especificação iconográfica na geografia da cidade. Comer um cupcake no bairro de West Village ou beber um Cosmo no Onial’s, no Soho, tornou-se uma declaração de independência feminina. E independência era precisamente o predicado de toda a equação. Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda não dependiam de ninguém. Sempre tiveram carreiras, dinheiro e sintomas de shopaholism, ou seja, não tinham medo do papão do consumismo. Tudo aquilo funcionava como guia de comportamento de cumplicidade feminina. E com elas a televisão americana mudou e passou a olhar para as mulheres como protagonistas na sua essência mais nuclear. Sem O Sexo e a Cidade não haveria Donas de Casa Desesperadas nem tão pouco séries como Gossip Girl. A amizade entre mulheres e as suas confissões tornou-se espectáculo de massas. E em sete temporadas, com a excepção da mais velha, Samantha, o grupo viveu a experiência de ser mulher em Nova Iorque aos 30 anos e, mais tarde, com 40. A sequela do cinema explora precisamente a superação do trauma dos 40. Quase que se adivinha que Carrie pode sentir que os seus 40 são os novos 20.

 
   
Entre o fim da última série e o filme, passaram-se quatro anos. Nesses quatro anos algo mudou na vida das amigas. Carrie está de casamento marcado com Mr. Big conforme se deduzia no último episódio da série. Samantha mantém-se fiel ao seu namorado, o actor Smith. Charlotte está encantada com a sua filha adoptada da China. Miranda atravessa uma crise conjugal. Mas graças a uma imprensa ávida de informação – a rodagem foi efectuada num ambiente de enorme secretismo mesmo apesar dos constantes banhos de multidões dos nova-iorquinos – e a um marketing cirúrgico, o final do filme tornou-se uma espécie de paranóia nacional, com o próprio candidato Obama a garantir que queria estar a assistir à estreia do filme. E nessa véspera de estreia tudo e mais alguma coisa era aumentado mediaticamente. Especulava-se que os nova-iorquinos podiam boicotar o filme por supostamente a série ter inflacionado o preço dos apartamentos em certos bairros onde se filmaram episódios, depois houve ainda a questão dos produtores terem preferido Londres para cenário da estreia mundial. Detalhes que ajudaram a fazer de Sex and The City – The Movie um evento global. Mas nada assustado com tudo isso está o realizador e escritor desta transposição para o grande ecrã, Michael Patrick King, também principal argumentista de cinco temporadas da série. Assumidamente gay, mas com um aspecto físico metrossexual, King está de sorriso estampado durante a ronda de entrevistas promocionais do filme. São dele máximas de Carrie tão fortes como “algumas histórias de amor não são romances épicos, muitas vezes até são mais curtas-metragens. Mas isso não quer dizer que essas curtas tenham menos amor”.

 
   
E sobre a questão dos boatos quanto às surpresas no desfecho do filme, é peremptório: “Demorou-me tanto tempo a escrever este argumento que estou agora bastante protector dele… Não quero que ninguém saiba o que se passa na última página do guião. Queria desde sempre que nunca se conhecesse muito do desfecho… Há aqui tantas direcções, tantas surpresas… O meu intuito era o público encontrar um final inesperado. Às vezes, na série já éramos imprevisíveis… Mas confesso: adoro esses rumores que apontam para uma tragédia! Mas aviso desde já que ninguém morre! Não quero que as plateias estejam sempre a pensar: ‘Será que é agora que esta vai morrer?!’ E escreva aí que o Mr. Big não morre. Se o matasse as fãs dele matavam-me a mim! Mas, sabe, o grande problema desta adaptação foi gerir tanta expectativa dos fãs…”

 
  Mais do que uma série ou um filme, Sexo e a  Cidade é uma marca. E uma marca que vende, desde Cosmopolitans, a sapatos e a estilos de vida... ou estilos de sonho. O Cinema é a nova fronteira.
   
Mais fácil para ele é entrar na mente de uma mulher sofisticada como Carrie. “Viver com três irmãs e uma mãe muito cómica fez-me sempre olhar para as mulheres como amigas. Nunca olhei para as mulheres como o sexo oposto. É canja para mim pensar em sapatos Manolo Blahnik quando penso em mulheres… Também devo dizer que durante a feitura da série trabalhei com algumas argumentistas. Para o filme consegui escrever tudo sozinho porque lembrava-me bem das histórias que essas argumentistas contavam. Em geral é muito fácil escrever sobre mulheres. Elas desabafam tudo”, explica o segredo. Seja como for, King foi escolhido para não desviar o tom da série. Curiosamente, o filme tem um peso dramático maior do que a série. Sente-se uma energia de comédia romântica com uma gravidade superior. Ainda assim, a prioridade para o realizador foi conferir o look de conto de fadas para adultos. Há ainda mais sexo do que na série e continuamos a nunca ver detalhes realistas como, por exemplo, progenitores de nenhuma das quatro senhoras. Elas são filhas de Nova Iorque, conforme King gosta de referir.

Relativamente ao carácter erótico, o realizador-produtor-argumentista fica feliz quando lê nas primeiras críticas que há muita nudez: “Há uma cena num duche que nenhum espectador acredita que nós temos coragem para mostrar aquele homem de frente… Desde o início que queríamos que o filme tivesse o R (restrito a  menores), pois se fosse permitido aos menores verem o filme sem os pais ninguém confiava no espírito Sex and City… Perderíamos a marca Sex and The City… E garanto que o filme mostra sexo sensacional, mesmo com esta nova Samantha tão tímida! As adolescentes que forem ver o filme talvez fiquem desapontadas quando virem mais tarde nas suas vidas outros homens nus sem nada a ver com aquele da cena do duche…”

 
   
Quanto à vertente da moda tudo é mais explícito, sem qualquer fantasia. E é o próprio que garante ter conseguido convencer todos os criadores de moda que desejou: “Não falta ninguém! Nem tivemos de recusar nenhum. De Prada a Gucci, passando por Vivienne Westwood, estão cá todos! Mesmo para a história do filme tivemos de referir de forma explícita os nomes de Louis Vuitton e Vivienne Westwood. Todos os criadores oferecem-nos mesmo os seus melhores vestidos! Para a questão do casamento sabíamos que não bastava apenas um só vestido de noiva… Mas o que é interessante é que também escolhemos acessórios baratos que se vendem na rua… Fiquei a aprender muito sobre os novos designers de sapatos da rua 14… Desde que começou a série, a cena dos criadores de sapatos evoluiu imenso.” Obviamente, nesse capítulo, tal como a série, a personalidade da estilista e fashionista Patricia Field foi preponderante. Se Sarah Jessica Parker é um ícone de moda deve-o às escolhas desta senhora que dita as tendências de Nova Iorque e que, recentemente, também foi a responsável pelo guarda-roupa de bom gosto de O Diabo Veste Prada. Dê por onde der, este novo Sexo e a Cidade será sempre delicioso papel de parede para escapismo de duas horas e meia ao som da música de Nina Simone, Fergie e, imagine-se, os Run DMC…

FOTOGRAFIAS: GETTY IMAGES; D.R. | CORBIS OUTLINE/VMI















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