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Além da imagem pública que lhe conhecemos pela televisão, está a presença luminosa de Sofia Carvalho, a facilidade de expressão, o comentário acertado, que além da palavra
aqui registada não cabe em espaço de escrita.
Por Leonor Xavier l Fotografia de Pedro Ferreira |
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O caminho certo
Sofia Carvalho traçou para ela um percurso feito de escolhas acertadas.
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Chega em passo muito leve e rápido, em meio segundo transforma um encontro formal de trabalho num conhecimento afectuoso, e logo o demonstra, em caloroso abraço. A sala despersonalizada na SIC, onde nos sentamos para que a conversa siga, quase clandestina, torna-se espaço de cumplicidade e de confiança. É muito bonita, na perfeição dos traços, na colocação da voz, na harmonia. Cuida-se de corpo e alma, está de bem com a vida. Directora da SIC Mulher, Sofia Carvalho demonstra o mérito na responsabilidade das suas funções.
Tem com a vida a boa relação que vejo em si?
Sou por natureza optimista, entusiasta. Por muitas contrariedades que possam surgir, fui educada para ser feliz. Os meus pais trabalhavam, tenho um irmão três anos mais velho. Nunca houve facilitismo em nossa casa, era importante estudarmos, arrumarmos as nossas coisas. Aprendemos a ter respeito pelo próximo, a praticar a justiça, a partilhar com os outros.
Acha que há uma crise de valores?
Sem dúvida. Tenho duas filhas de seis e oito anos, é difícil exercer a autoridade para educar, há grandes diferenças de quando eu tinha a idade delas. Comermos gomas era uma festa, acho que nem havia gomas. Tínhamos limites, contrariedades. Por isso sei entreter-me sozinha, gosto do meu espaço, gosto de desarrumar e arrumar. A nossa formação e educação eram diferentes, não tínhamos essa intervenção da televisão, tínhamos de ler, tínhamos outras actividades, havia diálogo. Ainda tento falar muito com as minhas filhas.
Foi uma aluna aplicada?
Queria fazer Marketing, mas a minha mãe achava que com aquele curso eu ia vender tecidos de porta a porta. Para ela, só existia Direito, Medicina. Para agradar aos meus pais, fiz três anos de Relações Internacionais, descobri que era um curso fantástico, que tinha um pouco de tudo. Finamente, tive coragem para entrar em Marketing, fiz três anos. Assim, tenho dois cursos inacabados, o que me dá uma inquietação cá dentro. Fico a remoer não ter acabado nenhum deles.
É uma mulher de fé?
Sou. Quando a minha segunda filha nasceu, passámos por momentos de muita aflição, e descobri mais ainda a importância da fé. No ambiente do hospital, senti que dar atenção aos outros é o nosso lado humano que devemos praticar.
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“A minha regra é viver um dia de cada vez. Sinto que tiro sempre o lado positivo das coisas. Por muito turbilhão que haja, acho que as aproveito.” |
Acha que ser bonita pode ser defeito?
Há pessoas que continuam a olhar para as mulheres bonitas com esse estigma do “menos capaz”, do “menos inteligente”, do “não pode” no trabalho. Eu não tenho filhos homens, acho que as minhas filhas têm imensa garra, tento que venham a ser mulheres bem sucedidas.
E como se sentem os homens das mulheres bonitas?
Haverá neles um misto de todos os sentimentos. Dependendo do homem, ele só pode sentir-se vaidoso. Se for um homem bem resolvido, vai ficar felicíssimo por estar ao lado de uma mulher bonita. Mais ainda se ele for inteligente. Se não for, vai ser uma sombra dela.
Como passou da publicidade para a televisão?
Sou independente desde muito cedo, aos 15, 16 anos queria ir às lojas, ter o meu dinheiro. Um amigo inscreveu-me numa agência de publicidade, como tinha um palmo e meio de cara e os clientes queriam “a loira de olhos azuis”, eu era a diferença e fui contratada. As pessoas diziam que era um trabalho fácil, na verdade não era nada de intelectual, mas obrigava-me a um grande esforço. Fui fazendo publicidade, até que um amigo me disse que havia um casting para locução de continuidade na TVI. Eu nem sabia bem o que era aquela locução, mas inscrevi-me e concorri ao lugar. Éramos centenas, fui seleccionada, ficámos cinco. Comecei então a traba-lhar na TVI.
A locução de continuidade era um bocadinho extenuante, fazíamos turnos, eu não tinha horas de sair, havia dias em que acabava de madrugada. Como já era casada, fazíamos vida de guarda-nocturno e de mulher-a-dias. Também estava a fazer o curso e tinha aulas de manhã no IADE. Aquele trabalho foi uma opção minha. Até que não quis mais.
Mas não desistiu.
Um dia, o Artur Albarran falou-me de uma reunião sobre o projecto de um programa interessante na TVI, que tinha a ver com jornalismo. Assim surgiu o Novo Jornal, apresentado por três pessoas, o Artur, eu e a Bárbara Guimarães. Eu tinha saído da locução e queria acabar o curso. A televisão é um vício que as pessoas têm de saber controlar, a minha primeira preocupação foi dizer: “Não sou jornalista.” Aceitei aquele desafio, e acabámos por ter formação como jornalistas, a Bárbara e eu. Fiz vários horários. Gostei da informação, mas não era o que eu queria. Tive uma proposta para fazer um anúncio a um detergente e aproveitei o pretexto para sair.
Dessa vez, saiu mesmo?
Saí. Tinha uma filha de quatro meses e fiquei quatro anos em casa. Eu costumava dizer que o importante não é a quantidade, mas a qualidade do tempo que as mães passam com as crianças. Hoje, tenho dúvidas sobre isso. É muito bom poder estimular uma criança com tempo.
A grande questão das mulheres é o tempo?
Sim, o tempo é a grande questão que as mulheres até sabem gerir, porque não podem perder tempo.
É o seu caso?
Tenho ajudas cruciais. Ao final do dia preciso de sentir “missão cumprida”, o que só é possível com ajudas familiares. A minha equipa tem três pessoas muito novas, ninguém ainda tem filhos, mas olhando à minha roda, sinto dificuldade com as mulheres que trabalham e têm filhos porque há as consultas, as reuniões nas escolas.
Parece tão pouco autoritária, como é a sua liderança?
Eu sou diplomata, consigo levar a água ao meu moinho, fui educada para ser assim. Estou sempre preocupada com aqueles que estão perto de mim, tenho um sexto sentido. Preciso de sentir que estão motivados, isso faz parte da liderança. Tenho a sorte de ter uma equipa que é coesa. Estamos em sintonia, não há uma hierarquia.
Como aconteceu a SIC Mulher?
Havia sempre um risco. Quando se sai, pode acontecer não se voltar. Pensei: “Vão-se esquecer de mim.” Um dia, estava eu a almoçar, e disseram-me: “Tenho uma proposta para si. É ser directora de um canal temático.” “Será que sou capaz?”, pensei. Era impossível dizer que não. Gosto tanto da SIC Mulher. Porque para além de achar que é o grande desafio da minha vida, o objectivo era fazermos um Canal dedicado à mulher determinada, conhecedora, sensível, atraente. Era a construção de algo apelativo para estas mulheres, que existem e merecem um espaço.
Porque foi convidada para assumir a imagem de uma jóia?
Sou uma mulher muito feminina, gosto de jóias, tenho um estilo próprio, clássico. O mais importante é a pessoa sentir-se bem, sentir-se confortável, imperando o bom senso. Acho que os acessórios são a diferença, uso sempre uma peça, uma jóia simples e ao mesmo tempo feminina e bonita. Não necessariamente um diamante. Talvez por isso tenha sido convidada para ser a imagem da Pomellato, uma marca italiana de jóias de muito sucesso, com que me identifico.
Tem algum conselho a dar, alguma regra ou princípio?
A minha regra é viver um dia de cada vez. Sinto, como já disse, que tiro sempre o lado positivo das coisas. Acho que não acreditar é não viver. |
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