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DOSSIER







Ria, divirta-se, coma bem, ponha o sono em dia, não pense no trabalho... Siga estes e outros conselhos para ter umas férias inesquecíveis e relaxadas. E aprenda, ainda, a enfrentarcom sucesso o regresso à cidade.

Por Cristina Azedo

João António e a mulher são a inveja de alguns amigos e um quebra-cabeças para muitos colegas. São ambos funcionários públicos, vivem num apartamento modesto na Margem Sul, têm carros utilitários, jantam pouco fora de casa, mas, quando chega às férias, partem à conquista do mundo. “Já fizemos muita Europa, Marrocos, metade do Sudeste Asiático e a Índia. Gostávamos de ir ao Japão, mas é muito caro”, conta Susana para desvendar que este ano estão mais voltados para o continente americano. “Vamos para uma cidade. Estamos empatados entre Nova Iorque e Buenos Aires.”

Para eles, as férias são isto: “Pirar-se.” “Só consigo descansar quando não ouço falar português. Por isso, tenho sempre de me pirar três semanas daqui”, diz João António, que adora viajar de avião. “É um bocado infantil, mas é como se estivesse a entrar numa daquelas máquinas de teletransporte da série Espaço 1999. Num momento estou no meio do stress do trabalho, noutro já estou a milhas.” Para Susana, um banho de diferença é retemperador: “Aprende-se tanto e nós, portugueses, que estivemos nos quatro cantos do mundo, sabemos tão pouco.” Nem mesmo preparar as malas para tanto tempo é capaz de a angustiar. “Levamos somente o essencial e começamos a selecção umas boas semanas antes. O nosso lema é viajar leves”, explica.


O poder do mar

Para a maioria dos portugueses, as férias rimam com mergulhos. E ainda bem. O oceano não é só uma bênção para o espírito, é também um verdadeiro medicamento natural.
Oxigénio – Melhoria no funcionamento cardiovascular, na assimilação de vitaminas,
no controlo da dor.
Iodo – É um verdadeiro estimulante e enche-nos de energia. Está presente, sobretudo, na costa do Atlântico.
Água salgada – Faz bem a todo o organismo com destaque para as articulações e a circulação sanguínea. Também ajuda à função respiratória.

São estas as férias ideais? Depende de quem as faz e do que se espera delas. Se uns encontram energia nas viagens, outros preferem relaxar à beira-mar e mexer-se o menos possível. O importante é aproveitar estes dias para recuperar forças para… voltar a cansar-se. É que as férias são, afinal, sinónimo de repouso ou, melhor, de paragem no trabalho.

Para muitos, a questão começa exactamente aqui. Embrenhados na rotina acelerada do quotidiano, sentem-se incapazes de desligar dos afazeres profissionais. E mesmo fisicamente longe do escritório, em espírito andam por lá, marcando presença através do telemóvel ou por e-mail. É um problema da modernidade, como explica a socióloga e psicóloga francesa Nicole Aubert. “As tecnologias da comunicação têm uma dupla face: por um lado, permitem ganhar tempo, libertar-se da necessidade da presença física, de viver ao ritmo do desejo imediato; por outro, geram a obrigação de estar sempre disponível, em tensão, em relação constante com o outro”, escreve no livro Le Culte de L’ Urgence – La Société Malade du Temps. E acrescenta em tom de alerta: “Há cada vez mais uma interpenetração entre a vida privada e a vida profissional, um funcionamento em tempo real e de forma permanente.”

Se esta organização social dificulta, cada vez mais, o afastamento mental do universo do trabalho, exercendo uma forte pressão sobre os indivíduos avaliados unicamente pela sua performance produtiva, também há outras razões para se prescindir da pausa laboral. “Não pensar na vida”, sentencia Odete Nunes, psicoterapeuta e docente na Universidade Autónoma de Lisboa. Por essência, o tempo de férias apela à calma e ao repensar do projecto de vida – para onde estamos a ir, quais as nossas motivações, o prazer que tiramos daquilo que fazemos e a sua utilidade. “Nem sempre essa reflexão é desejada, na medida em que pode desencadear alguma angústia, algum sofrimento, algum descontentamento face à vida”, diz a psicóloga. “Daí o apego ao trabalho, o dizer que não se gosta de férias, que não se precisa delas. A verdade é que uma cabeça ocupada não pensa em mais nada.”

O difícil regresso

Pensava que o problema era seu? Não é. Está estudado e tem nome: síndrome pós-férias. Surge devido à mudança brusca do estilo de vida e também à nossa falta de motivação para o trabalho. Se no próximo regresso ao escritório, andar apática, sonolenta, com pouca concentração, irritadiça e sem vontade de olhar para os colegas, dê a volta ao assunto. Eis algumas sugestões:
Devagar se vai ao longe – Volte progressivamente à vida normal, nada de grandes esforços nos primeiros dias e muito menos levar trabalho para casa.
Pense positivo – Enxote as nuvens negras. Não se culpe por tudo e por nada e parta para a acção. Se identificou problemas nas férias, agora pode começar a resolvê-los.
Relaxe – Se ainda não pratica desporto com frequência é altura de começar a fazê-lo. Assim não deixará as tensões acumular-se. Aprenda a respirar. Para quê todo esse stress?
Saudades de quê? – As férias foram boas, sim, mas agora está noutra etapa. Para quê ter saudades se pode aproveitar os fins-de-semana para divertir-se e relaxar? Aprenda a planear o seu descanso

Uma coisa é certa, porém. As férias não são um luxo ou o escape dos preguiçosos. São uma necessidade. Isso mesmo foi demonstrado, nos últimos anos, por vários estudos que tentaram perceber até que ponto uma pausa no trabalho é positiva para o nosso organismo.

Entre eles está uma investigação realizada nos Estados Unidos e apresentada no Wisconsin Medical Journal, em meados de 2005, que defendeu que as mulheres que tiram férias com frequência têm menos hipóteses de sofrer de tensão e depressão, bem como de se sentirem infelizes no casamento. “As férias proporcionam uma quebra com o stress quotidiano, afastando-nos do trabalho e da casa, e ajudando-nos a libertar a tensão acumulada”, afirmou, na altura, Cathy McCarty, investigadora principal deste trabalho que analisou cerca de 1500 mulheres, entre 1996 e 2001. Outros estudos mostraram ainda que um período de férias de duas semanas seguidas faz milagres pelo bem-estar físico, estado de espírito e qualidade de sono das mulheres.

Mas também os homens têm a lucrar com este descanso prolongado. Noutra investigação, também realizada nos Estados Unidos, ao longo de nove anos, junto de mais de 12 mil homens em risco de doença cardiovascular, descobriu-se que aqueles que gozavam, pelo menos, umas férias anuais corriam menos risco de morte do que os outros que optavam por saltar as pausas laborais. “As férias podem proteger a nossa saúde ao reduzirem o stress – um conhecido factor de risco para muitas doenças”, garantiu Brooks B. Gump, um dos autores do estudo publicado, em 2002, na especializada Psychosomatic Medicine.


10 conselhos para umas férias a 100%

Esqueça os planos complicados. Ter umas férias inesquecíveis, e relaxadas, é mais fácil do que pensa. Pegue nas sandálias, nos óculos de sol e siga estas sugestões:
Ponha o sono em dia – Se no resto do ano dorme a correr, aproveite para recuperar o sono perdido. Deite-se mais cedo ou acorde mais tarde. Ou, melhor ainda, faça uma sesta. Está provado que faz bem ao corpo e ao espírito. Bastam 30 minutos a uma hora.
Seja um bom garfo – Não é comer muito.
É comer bem. Opte por alimentos saudáveis, frescos e confeccionados de forma simples. Abuse dos peixes, dos vegetais e dos frutos. Está a armazenar saúde para uma boa temporada.
Mexa-se – Não fique colada à toalha. Caminhe à beira-mar, dê umas braçadas, jogue raquetas, ande de bicicleta. Vale tudo desde que não abuse do esforço físico. O exercício tonifica o corpo e liberta tensões.
Dê dois dedos de conversa – Conviva com a família e os amigos, ponha a conversa em dia, fale de tudo e mais alguma coisa. Seja enquanto saboreia um peixe assado, se estica na sangria ou goza o final de tarde numa esplanada.
Fuja dos locais in – Se quer descansar, acredite que não o fará num destino de moda, cheio de gente, de trânsito, de filas e de… stress. Poupe-se a confusões e escolha um local mais zen. Mas não tão zen que a ponha a morrer de tédio!
Alimente o espírito – Ler um bom livro, ouvir música, visitar locais culturais ou simplesmente fazer pequenas descobertas na natureza são actividades que acalmam o espírito e nos deixam mais preenchidos.
Contemple – Fique imóvel e observe os detalhes do que a rodeia. Repare na forma das ondas, nos desenhos das nuvens, nas cores das árvores. Nesse estado de receptividade, vai encontrar repouso mental e um novo poder de concentração.
Goze o tempo – Na correria do quotidiano, não damos pela sua passagem. Tudo é rápido e intenso. Nas férias, podemos arrumar o relógio e gozar cada minuto, percebendo o avançar do dia pelas mudanças de luz e pelo ritmo do nosso organismo.
Ria – As férias não estão a correr como gostaria? Lembra-se do ditado que diz que rir é o melhor remédio? Nada mais verdadeiro. A alegria é concomitante com a autoconfiança e a boa auto-estima. Entregue-se à boa disposição, não faça birras, relativize.
Não pense nisso – Se passou o ano a pensar nas férias, porque é que agora só pensa no trabalho?! Esqueça o chefe, a colega malvada e a pilha de coisas que ficaram por acabar. Não terá por aí melhor companhia? Aproveite-a!

Não vale, por isso, dizer que não sabe o que fazer com tantos dias livres à sua frente. Mesmo que possa sofrer de uma normal confusão inicial. “Na minha experiência como psicoterapeuta, ouço muitas vezes dizerem: ‘Amanhã entro de férias, era uma coisa que ansiava há tanto tempo e agora não sei o que hei-de fazer…’”, conta Odete Nunes. “É como se as pessoas que tivessem uma actividade intensa experimentassem, de repente, um vazio. Estão perdidas, não sabem o que hão-de fazer.” Daí a sentirem--se realmente mal é um pequeno passo. “Não é invulgar algumas pessoas terem, nos primeiros dias de férias, enxaquecas e até sintomas de doença. É como se estivessem num período de descompressão, no qual o organismo se ressente”, adianta a docente da Universidade Autónoma.

Não é para admirar. Quantos de nós perdem um minuto para pensar no esforço que exigimos diariamente ao nosso corpo? Como diz Odete Nunes, vivemos no esforço máximo. “É como se o organismo estivesse sempre esticado para além das suas capacidades”, sublinha. E insiste na importância das férias para recuperar o equilíbrio global: “Representam um período em que, efectivamente, se pode relaxar, fugir às rotinas, às solicitações de uma sociedade altamente competitiva, trazendo um momento de calma que retempera o organismo do ponto de vista físico e psicológico.”

Já percebeu que férias são férias, certo? A concentrar-se em alguma coisa, concentre-se unicamente no descanso. Esqueça a ideia de usar esses dias para fazer obras em casa, ir às Finanças tratar de burocracias, fazer um check-up clínico ou arrumar aquelas gavetas que já nem fecham. Também não se envolva em programas com grupos alargados de amigos. Pode parecer muito divertido, mas quando tiver de mediar as inevitáveis discussões e gerir opções diferentes, verá que pouco lhe apetecerá rir. O mesmo se poderá dizer das grandes reuniões familiares. Alguns dias chegam para matar saudades e pôr as conversas em dia, mais tempo do que a conta poderá originar os tradicionais choques de ponto de vista. “Quando não se está junto todos os dias, é difícil, de repente, passar para esse registo. Há necessidade de reorganizar toda a dinâmica relacional, surgindo, por vezes, alguns conflitos”, avisa a psicóloga Odete Nunes.

O melhor mesmo é recuperar o espírito de férias da infância e fazer da sua pausa laboral um momento de saudável loucura. Lembra-se do quanto se divertia na praia? Fazia castelos à beira-mar, escrevia mensagens para o espaço no areal, recolhia conchas na maré vazia, atirava-se aos mergulhos, jogava raquetas ou futebol. Então porquê ficar horas ao Sol a fingir que lê o livro dos tops? Seja espontânea e não tenha medo de libertar a criança que ainda há em si. Se não for nas férias, quando é que o pode fazer? Depois compre postais, escreva-os com o mesmo entusiasmo de antigamente e mande-os aos amigos a contar as suas aventuras. Eles vão ficar surpreendidos, mas perceberão o quanto se divertiu.

Se estiver realmente esgotada, que tal o método do dolce far niente? Sem compromissos na piscina, horas para as refeições, excursões marcadas e telemóvel desligado. “Vivemos numa sociedade tão agarrada à ideia de produção que nos sentimos culpados quando não estamos a fazer nada”, constata Odete Nunes. E exemplifica: “Até dizemos que estamos a trabalhar para o bronze, só para termos a sensação de que estamos a fazer qualquer coisa…” Se quer descansar, imponha--se. Não alinhe em todas as actividades que lhe propuserem no pacote de férias. Faça por ter tempo para o nada.

Não caia é no erro de fazer do nada uma desculpa para se pôr a pensar naquilo que a espera quando voltar ao escritório. Porquê angústias antes do tempo? Se bem que os especialistas recomendam, para bem da nossa saúde, uns dias prévios de mentalização à dura realidade. Ou seja, que não se estiquem as noitadas até ao último momento ou se saia directamente do aeroporto para a reunião das segundas-feiras com as chefias.

Para evitar aquela que é conhecida como síndrome pós-férias – um mal-estar geral, acompanhado de falta de motivação, que surge assim que se põem os pés no trabalho –, valerá a pena seguir algumas sugestões deixadas pelos especialistas em recursos humanos. Primeiro, uns dias antes do final das férias, vá voltando ao seu ritmo de sono habitual. Deite-se cedo e acorde próximo da hora que o terá de fazer no dia-a-dia. Depois, vá interiorizando a sua rotina quotidiana no escritório, o volume do correio por responder, as divergências com os colegas, o stress dos prazos apertados, as reuniões intermináveis. Mas também a boa disposição do seu departamento, os almoços de trocas de confidências, a alegria de ter conseguido mais um cliente para a empresa.

Se, mesmo assim, ao levantar-se na primeira manhã de regresso sentir uma certa preguiça, irritação e vontade de fugir para uma ilha deserta, não desanime. Olhe-se ao espelho e diga para si própria: “Sou normal! Não gosto de trabalhar!” E, no final do mês, quando receber mais um ordenado, poupe alguns euros. É certo e sabido de vai precisar de outras férias.














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