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MULHER & CARREIRA

Considerada louca e internada num manicómio por, em 1918, ter largado família e fortuna para amar o seu antigo chauffeur, Maria Adelaide Coelho da Cunha lutou contra tudo e todos. Uma aventura extraordinária, narrada por Manuela Gonzaga em Doida não e não!.

Por Laura Luzes Torres
Fotografia de Pedro Bettencourt



Em 1918, aos 48 anos, Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, abandonou o marido, o filho, o Palácio de São Vicente em Lisboa, a sua fortuna, as viagens, o teatro, a música, a ópera, para ir viver modestamente em Santa Comba Dão com o seu antigo chauffeur, Manuel
Claro, por quem se apaixonara. Ele tinha metade da idade dela e era mais novo que o filho do casal. O marido, Alfredo da Cunha, escritor, poeta e administrador daquele jornal, foi buscá-la e internou-a num manicómio, o Hospital do Conde de Ferreira, no Porto, onde Maria Adelaide suportou as piores condições e humilhações. Conseguiu fugir, mas foi novamente encontrada e internada. O Manuel foi preso. Por fim, e apesar de as nossas maiores sumidades em Psiquiatria a terem considerado louca, conseguiu sair com a ajuda de um advogado. Perdera todos os seus bens e fora interdita. Para se defender, escreveu Doida não!, a que o marido contrapôs Infelizmente Louca!. E Maria Adelaide voltou à carga com Doida não e não!. Tudo isto foi publicado nos jornais, causando escândalo e aceso debate entre os partidários de ambos. Depois de Manuel Claro sair da prisão, viveram juntos até à morte dela. Mas nunca casaram.

A escritora e jornalista Manuela Gonzaga, licenciada e pós-graduada em História, narra toda esta empolgante aventura em Doida não e não! (Bertrand Editora), após uma cuidada investigação. Encontrámo-nos no Palácio de São Vicente, à Graça, onde tudo começou.

Como é que, em 1918, uma mulher inteligente que lia, viajava, se interessava por todas as manifestações culturais e organizava saraus no seu Palácio, onde recebia a melhor sociedade portuguesa, decide ir viver para o campo com o ex-chauffeur, como uma modesta dona de casa?
Antes de ir, Maria Adelaide passou por uma livraria e fez uma assinatura de livros. Ela e o Manuel Claro, o antigo chauffeur, tinham uma tertúlia literária a dois, liam um para o outro. O Manuel era um homem sensível, educado, bonito por dentro, além de ser um bonito homem, e tinha vontade de se cultivar. Eles apanharam--se um ao outro desarmados, porque era tão improvável apaixonarem-se, que podiam estar à vontade... A vida de Maria Adelaide fora-se tornando cada vez mais árida, há uma máscara que ela usa e que começa a tornar-se insuportável.

Mais tarde, Maria Adelaide classificaria o seu casamento como “25 anos de deserto afectivo”. Por vezes, o marido só ia a casa para mudar de roupa. E uma vez esteve três meses sem lhe falar...
... e todos à sua volta pensavam que ela e o marido formavam um casal perfeito! No Palácio, para os amigos, ela declamava a poesia escrita pelo marido.

Às tantas, ela disfarçou esse mal-estar dizendo que tinha uma neurastenia.
Usa isso para tapar o desgosto e a aflição. Ao fim de um ano de agonia e êxtase, quando ela começa a perceber que a história com o Manuel é muito intensa e incontrolável, questiona-se sobre o que irá fazer à vida dela. Tinham encontros românticos, escaldantes, em quartos na Rua da Madalena e na Rua de São Nicolau. Podia continuar com uma vida de mentira, ter um amante, toda a gente fazia vista grossa. Só precisava de estar em casa à hora de jantar. Mas ela não aguentava esta situação. Quando corria o pano das óperas, das festas, dos saraus, estava muito sozinha. A Maria Adelaide descreve a sua saída do Palácio de São Vicente com uma indiferença que gela. É uma actriz que muda de cenário. Depois, passa a viver uma vida real. E reivindica com orgulho as suas origens camponesas.

Que pressão foi exercida sobre três especialistas de renome – Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid – para diagnosticarem uma “loucura lúcida” a Maria Adelaide, que estava no seu perfeito juízo?
Penso que há vários motivos. Há relações de amizade com o casal e, basicamente, com o marido. Pertencem ao mesmo meio social. Por outro lado, há uma questão de género. Estes homens olham para a mulher com um olhar muito “complacente”, ou seja, a partir do momento em que a mulher assume a sua sexualidade, é louca. Uma senhora de 48 anos a agir assim? É da menopausa, diziam logo. Havia uma série de tabus ligados aos ciclos e à biologia da mulher, em que ela era imediatamente remetida para uma condição inferior. Mas como perceberam que isso não chegava porque a Maria Adelaide era muito lúcida, então toca a remexer no pó dos cemitérios, como ela dizia, para descobrir “loucuras” nos antepassados dela. Um cancro, uma doença de coração, problemas intestinais? Eram loucos! Aí, acho que houve uma enorme desonestidade mental. Mas era quase um braço de ferro: nós é que sabemos! Estamos perante a arrogância da ciência.

Através da escrita, Maria Adelaide denuncia as condições tenebrosas do manicómio onde esteve internada duas vezes, com uma fuga pelo meio.
Acho que está a tocar no ponto certo: esta mulher rasga um véu que existe sobre a sacralidade da ciência. Para lá dos aspectos positivos dos hospitais e dos médicos naquela época, há um aproveitamento dos meios que têm para destruir as pessoas, roubando-lhes o rosto, a voz, a fortuna, o direito à vida. O jornal A Capital, que publicou o texto de Doida não e não! sob a forma de cartas, fez depois uma reportagem sobre as horríveis condições em que os doentes viviam.

Ficamos a saber que as mulheres que, como ela, ousavam contrariar a nor-ma social, iam lá parar. Solteiras ou casadas, porque tinham tido um caso amoroso...
Ou porque queriam casar com alguém que não agradava à família. E, às vezes, simplesmente para lhes ficarem com o dinheiro. Eram as “doidas” mais maltratadas.

O marido de Maria Adelaide também aproveitou a “loucura” dela para vender o Diário de Notícias sem a consultar, um jornal que ela herdara do pai.
E a família dela foi conivente, esteve do lado de Alfredo da Cunha. A verdade é que ela nunca quis aquele dinheiro e sabia perfeitamente o que estava a fazer, embora depois tenha passado por grandes dificuldades. E o marido gastou uma fortuna no processo contra ela.

Em 2003, “do fundo falso de uma escrivaninha do palácio onde tudo aconteceu, emergiu uma verdadeira cornucópia de fontes”. Consultou-as?
Sim, e quero realçar o privilégio de ter tido acesso a toda a documentação existente no Palácio, reunida e catalogada pelos seus actuais donos, Clara e Augusto Ferraz, e de ter estado aqui seis meses a consultá-la, no mesmo sítio em que a Senhora de São Vicente esteve sentada há cem anos. Depois de, em 2007, ter publicado um artigo na Máxima sobre este Palácio, comecei a ser contactada por familiares e pessoas que conheceram a Maria Adelaide e o Manuel, e que me deram testemunhos importantes.

Crime de amor
A paixão que Manuel Claro, antigo chauffeur
da casa (em cima), despertou em Maria Adelaide Coelho
da Cunha teve consequências dramáticas para ambos.
O marido e o filho dela preferiram considerá-la louca, para poder desculpar os seus actos, do que aceitar a sua ânsia de liberdade e o seu amor por um homem de outra classe social. Curiosamente, “acabaram todos nos braços do povo”, como diz Manuela Gonzaga, a autora deste livro que já vai na quarta edição.













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