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EM DESTAQUE
Por Cristina Flora
Ilustrações
de Júlio Vanzeler

Todos queremos ser felizes. É um imperativo colectivo. Quando somos crianças, contam-nos histórias cujo final culmina, invariavelmente, com as personagens a vive-rem felizes para sempre. Nenhuma narrativa infantil termina com príncipes e princesas a viverem felizes na medida do possível. Não, aquela felicidade é eterna. Na nossa mente, está lançada a semente (ainda que ao nível do inconsciente) de uma tarefa árdua: um dia, também nós iremos alcançar essa fabulosa meta principesca.

Mais tarde, o horóscopo surge como um bom barómetro de resultados: procuramos sempre, nas três vertentes - amor, trabalho e saúde -, os sinais possíveis da tão esperada felicidade. E se por acaso a encontramos na nossa vida, sabe a pouco. Far-se-á sequer notar? Provavelmente, não a reconhe-cemos na altura em que a temos, devido a uma inexplicável cegueira. Os instantes de felicidade decorrem muitas vezes na ignorância dos mesmos. Só depois nos apercebemos de que fomos felizes.

"Richard foi a pessoa que Clarissa amou no seu momento mais optimista (…) Tinham-se beijado e caminhado juntos à volta da lagoa. Parecera o começo da felicidade, e às vezes, passados mais de trinta anos, ela ainda se sente chocada ao dar--se conta de que foi felicidade. O que continua a viver, intacto, na memória de Clarissa, é um beijo no crepúsculo. Ainda permanece essa perfeição singular, e é perfeição, em parte, porque pareceu, na altura, prometer tão claramente mais. Ela agora sabe: esse foi o momento, exactamente esse. Não houve ne-nhum outro." (in As Horas, de Michael Cunningham).

A felicidade é uma emoção? Um estado de espírito? Segundo diversos especialistas, a felicidade é uma das Seis Grandes (Big Six) emoções, que também incluem na sua lista a surpresa, o medo, o desgosto, a raiva e a tristeza. É um assunto capital, mas difícil de estudar. Uma questão à qual os especialistas têm tentado responder é se ela dependerá do nosso carácter e do modo de aceitar os acontecimentos ou se haverá outras condicionantes. Por tudo isto, os psicólogos têm dificuldade em acordar numa definição comum: a felicidade é "um bem-estar subjectivo", "uma soma de momentos de alegria", "um estado de humor positivo".

A maior parte considera a felicidade (a que preferem chamar "bem-estar subjectivo") como produto de duas componentes, como nos explicam François Lelord e Christophe André, psiquiatras e psicoterapeutas, em A Força das Emoções (editora Pergaminho): "O grau de satisfação - apreciado em diferentes domínios da vida (profissão, família, saúde, etc.). Trata-se de um juízo do indivíduo sobre a sua vida actual, em especial sobre o desvio entre as suas expectativas e o que realmente tem; a vivência emocional, experimentar com mais ou menos frequência emoções agradá-veis, o que certos autores chamam o nível hedónico. E, claro, a frequência de emo-ções desagradáveis (tristeza, cólera, ansiedade, vergonha, etc.) também é tida em conta. A investigação mostra que estas duas componentes, satisfação e emoção, são bem distintas, encontrando-se todavia em correlação. Quase cada momento do nosso dia é sentido como emocionalmente positivo ou negativo."

A boa notícia é que a maioria das pessoas sentem, a maior parte das vezes, emoções positivas. Assim, segundo estes especialistas, a felicidade dependeria mais da frequência das emoções positivas do que da sua intensidade: "Mais pequenas felicidades do que grandes momentos de êxtase." De facto, as pessoas capazes de sentir grandes alegrias parecem também predispostas a sentir emoções negativas igualmente intensas, que se repercutem também no seu nível de bem- -estar. E os médicos recordam as conclusões de uma paciente quase centenária que, em resposta à pergunta de saber como achava a vida, respondeu que tivera uma "boa vida" (apesar de oriunda da Europa de Leste e de ter vivido guerras, separações, lutos, exílios): "É certo que não houve muitas grandes felicidades, e com frequência desgraças, mas houve muitos bons momentos!"

Será a felicidade minimalista? E se a felicidade não for mais do que uma série de pequenas felicidades? Para a psicóloga Teresa Paula Marques, a dificuldade em reconhecer os momentos felizes, quando estes ocorrem, deve-se à perfeição de um ideal: "Construímos uma imagem demasiado idealizada do que é a felicidade, pelo que, quando temos momentos agradáveis ou felizes, tendemos a não os valorizar. Só perante a 'outra face da moeda' é que conseguimos percebê-lo."

É verdade que hoje vivemos melhor do que os nossos antepassados, mas bem-estar é diferente de felicidade. O não estar mal não significa que se esteja bem. O psicólogo Abraham Maslow concebeu, em 1943, uma hierarquia das necessidades humanas, as quais, uma vez cumpridas, garantiriam a felicidade. O primeiro degrau da pirâmide é consagrado às necessidades fisiológicas (comida, água, abrigo e calor), seguindo--se o patamar da segurança (estabilidade e liberdade do medo), depois o amor (amigos, família, esposos e amantes), a auto--estima (realização, domínio, reconhecimento e respeito). E a culminar, bem no topo da pirâmide, fica a realização pessoal (talento, criatividade e plenitude).

A felicidade é uma fórmula ou um objectivo a conquistar, mais do que um estado? Parece-nos óbvio que, se uma pessoa num determinado nível de pobreza receber uma quantia avultada de dinheiro, ficará feliz. Mas o dinheiro não traz felicidade. Quanto mais di-nheiro as pessoas têm, mais precisam de investir na sua segurança e na dos seus. Veja--se o caso dos raptáveis no Brasil. Carros de vidros fumados e fé em Deus!

Alguns economistas europeus acham que se o rendimento cresce, as aspirações humanas acompanham a curva ascendente. Ou seja, queremos sempre mais. Mesmo no amor, já Luís de Camões avisava, "é nunca contentar-se de contente", a felicidade é exigente. O que pode fazer uma pessoa feliz pode ser trivial para outra. Ou o que nos poderia ter enchido de felicidade no passado, pouco ou nada vale, no presente.

Apesar de subjectiva, a busca da felicidade é universal, sistemática e excessiva. Para a psicóloga Teresa Paula Marques, esta procura desenfreada explica-se na medida em que "o ser humano tem de ter um sentido para a vida. Algo por que lutar. Chamamos-lhe felicidade, como lhe poderíamos chamar outra coisa qualquer, como satisfação ou realização pessoal. Mas o que é concretamente a felicidade? Talvez as definições sejam tão variadas que dificilmente consigamos chegar a um consenso. Penso que tudo depende dos valores de cada um de nós".

Desde sempre, filósofos e pensadores debruçaram-se sobre o tema, definindo-o com a sua visão particular. Platão, por exemplo, dizia que a felicidade é ter-se aquilo que se deseja. Mas, alertava, só se deseja aquilo que não se tem. Se só se deseja aquilo que não se tem, nunca se tem aquilo que se deseja. Eterno dilema… A verdade é que, quando um desejo é realizado, parece consumar-se no processo da sua própria satisfação. Quando se tem o que tanto se desejou, fica- -se vazio.

A solução proposta pelo filósofo contemporâneo André Comte-Sponville é a de orientarmos o sentido do desejo não para o que nos falta, mas para o que já temos e o que somos. Devemos esperar menos e amar mais. A felicidade será assim uma espécie de resignação ou aceitação da vida: "Devemos dizer 'sim' à existência. O que significa aceitar o sofrimento e o desgosto. Não há felicidade na vida se não se aceitar a morte. Não há felicidade no amor se não se aceitar o desgosto do amor. Aceitar não significa renunciar a transformar e isto é diferente de resignação." O que este filósofo nos quer dizer é que só aceitando a vida com todas as suas amarguras poderemos ser felizes.

A felicidade não é a ausência total da angústia
, do sofrimento e da tensão, mas é sentir a vida da maneira mais forte. Com tudo de bom e de mau que ela tem para nos dar. Saber viver o dia-a-dia, sem grandes expectativas. Ainda de acordo com o raciocínio deste filósofo, o que nos afasta da felicidade é o facto de corrermos atrás de desejos vãos: "Deseja-se o que não depende de nós, tanto negativamente (medo do desemprego) como positivamente (ganhar o totobola). Este tipo de desejo só pode fabricar a angústia ou a esperança. Enquanto que desejar aquilo que só depende de nós é fazer com que isso aconteça mesmo. Para sermos felizes é preciso ter vontade para concretizar aquilo que depende de nós e ter amor para o que não depende." A felicidade é saber aceitar o que não podemos modificar.

É preciso ousar ser feliz. Será que o facto de a felicidade ser pontual e não um estado permanente aterroriza os seres?

"Não concordo que tenhamos medo da felicidade", opina a psicóloga Teresa Paula Marques. "Acho é que a encaramos de um modo tão abstracto que, mesmo quando a sentimos, temos alguma dificuldade em identificá-la. Como estado permanente, não existe. Temos momentos em que alcançamos os objectivos que nos são caros, momentos de equilí- brio, de paz interior, em que certamente estaremos muito próximos da felicidade. Mas são estados temporários, pois no momento seguinte, traçamos outra meta e voltamos à luta."

Mas será a felicidade um valor culpável? É legítimo ser feliz quando tantos sofrem? Os que criticam a felicidade talvez sejam aqueles que têm mais dificuldade em encontrá-la. Não deve haver maior angústia do que querer ser-se feliz e não se ser capaz. A felicidade deixou de ser um valor presente na Constituição dos Estados Unidos da América e nos Direitos do Homem e passou a ser um dever, uma obrigação, com toda a angústia que provoca a ansiedade.

Pascal Bruckner, romancista e autor de Euphorie Perpétuelle (editora Grasset), defende que a felicidade é ilusória e fugaz. Irrita-o particularmente os votos que as pessoas fazem umas às outras: "Felicidades! Que sejas feliz!" Isto porque ninguém sabe bem o que é que se está a desejar ao outro. Afinal, qual é o conteúdo da felicidade? Para Bruckner, a felicidade engendra culpabilidade, na medida em que força os indivíduos a serem bem sucedidos em campos tão diversos como o psicológico, o sexual, o físico e o amoroso. E os que nunca alcançam as metas estabelecidas? Entram em depressão e os comprimidos antidepressivos são soluções a curto prazo… O autor defende que nós nos tornámos alérgicos às histórias tristes, ao mal-estar dos outros. Hoje em dia, espera-se uma boa disposição permanente.

Existem pessoas tremendamente felizes. O psiquiatra Christophe André, autor de Vivre Heureux, La Psychologie du Bonheur (Odile Jacob), defende que há pessoas mais aptas à felicidade por temperamento. Há quem nasça mais programado para o pra-zer, como há os menos sensíveis ao sofrimento e à doença. Porém, o meio familiar é vital nessa construção: "Os nossos pais autorizavam-nos a ser felizes? Entravam em profunda ins-tabilidade e depressão face aos problemas? É com o seu exemplo que nós aprendemos a gerir a felicidade."

A psicóloga Teresa Paula Marques considera que, mais do que indivíduos programados para ser felizes, existem pessoas que "conseguem sentir-se satisfeitas e realizadas com pequenas coisas e outras que possuem objectivos tão elevados e tão irrealistas que dificilmente os concretizam". Isto gera "uma vida de frustração e de infelicidade".

Para Christophe André, existe a felicidade-emoção (a contemplação de uma paisagem inesperada, a apreciação de uma obra ou as vibrações de um reencontro) e a felicidade-cons-trução, que coincide com a ideia de a felicidade ser um projecto que se trabalha todos os dias, um esforço progressivo e não um estado estável. A própria visão da felicidade evolui com a idade: "As crianças são os superdotados da felicidade. Na infância, a felicidade não é dissimulada. Os adolescentes acham-na medíocre, pois só querem o absoluto, as experiências extremas. E, quanto aos velhos, mais almejamos por uma felicidade calma e sábia."


Não basta pensar: "Eu quero ser feliz", para o ser, na prática. Um dos ingredientes mais belos da vida é a sua imprevisibilidade. Nunca sabermos o que o dia de amanhã nos reserva. Amarmos o que não é programado. O ideal de felicidade que abole o sofrimento e os aspectos desagradáveis da vida só nos traz apatia, aborrecimento e depressão. Não nos contentamos em ter as coisas. É a nossa luta para as conquistar que nos mantém vivos. Só assim progredimos para a felicidade. É a arma mais eficaz contra o desespero. A vida não é um mar de rosas. Se assim fosse, qual seria o seu interesse? Devemos aprender a moderar as nossas aspirações e desejos, mas sem nunca nos esquecermos que é dentro de nós que encontramos a felicidade - quando amamos e somos amados e, sobretudo, quando compreendemos que o mais importante não é ser amado mas saber amar, apesar de todos os receios e dificuldades. Amar a vida.



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