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Todos queremos ser felizes. É
um imperativo colectivo. Quando somos crianças, contam-nos
histórias cujo final culmina, invariavelmente, com as
personagens a vive-rem felizes para sempre. Nenhuma
narrativa infantil termina com príncipes e princesas
a viverem felizes na medida do possível. Não, aquela
felicidade é eterna. Na nossa mente, está lançada a
semente (ainda que ao nível do inconsciente) de uma
tarefa árdua: um dia, também nós iremos alcançar essa
fabulosa meta principesca.
Mais tarde, o horóscopo surge como um bom barómetro
de resultados: procuramos sempre, nas três vertentes
- amor, trabalho e saúde -, os sinais possíveis da tão
esperada felicidade. E se por acaso a encontramos na
nossa vida, sabe a pouco. Far-se-á sequer notar? Provavelmente,
não a reconhe-cemos na altura em que a temos, devido
a uma inexplicável cegueira. Os instantes de felicidade
decorrem muitas vezes na ignorância dos mesmos. Só depois
nos apercebemos de que fomos felizes.
"Richard foi a pessoa que Clarissa amou no seu momento
mais optimista (…) Tinham-se beijado e caminhado juntos
à volta da lagoa. Parecera o começo da felicidade, e
às vezes, passados mais de trinta anos, ela ainda se
sente chocada ao dar--se conta de que foi felicidade.
O que continua a viver, intacto, na memória de Clarissa,
é um beijo no crepúsculo. Ainda permanece essa perfeição
singular, e é perfeição, em parte, porque pareceu, na
altura, prometer tão claramente mais. Ela agora sabe:
esse foi o momento, exactamente esse. Não houve ne-nhum
outro." (in As Horas, de Michael Cunningham).
A felicidade é uma emoção? Um
estado de espírito? Segundo diversos especialistas,
a felicidade é uma das Seis Grandes (Big Six) emoções,
que também incluem na sua lista a surpresa, o medo,
o desgosto, a raiva e a tristeza. É um assunto capital,
mas difícil de estudar. Uma questão à qual os especialistas
têm tentado responder é se ela dependerá do nosso carácter
e do modo de aceitar os acontecimentos ou se haverá
outras condicionantes. Por tudo isto, os psicólogos
têm dificuldade em acordar numa definição comum: a felicidade
é "um bem-estar subjectivo", "uma soma de momentos de
alegria", "um estado de humor positivo".
A
maior parte considera a felicidade (a que preferem chamar
"bem-estar subjectivo") como produto de duas componentes,
como nos explicam François Lelord e Christophe André,
psiquiatras e psicoterapeutas, em A Força das Emoções
(editora Pergaminho): "O grau de satisfação - apreciado
em diferentes domínios da vida (profissão, família,
saúde, etc.). Trata-se de um juízo do indivíduo sobre
a sua vida actual, em especial sobre o desvio entre
as suas expectativas e o que realmente tem; a vivência
emocional, experimentar com mais ou menos frequência
emoções agradá-veis, o que certos autores chamam o nível
hedónico. E, claro, a frequência de emo-ções desagradáveis
(tristeza, cólera, ansiedade, vergonha, etc.) também
é tida em conta. A investigação mostra que estas duas
componentes, satisfação e emoção, são bem distintas,
encontrando-se todavia em correlação. Quase cada momento
do nosso dia é sentido como emocionalmente positivo
ou negativo."
A boa notícia é que a maioria das pessoas sentem, a
maior parte das vezes, emoções positivas. Assim, segundo
estes especialistas, a felicidade dependeria mais da
frequência das emoções positivas do que da sua intensidade:
"Mais pequenas felicidades do que grandes momentos de
êxtase." De facto, as pessoas capazes de sentir grandes
alegrias parecem também predispostas a sentir emoções
negativas igualmente intensas, que se repercutem também
no seu nível de bem- -estar. E os médicos recordam as
conclusões de uma paciente quase centenária que, em
resposta à pergunta de saber como achava a vida, respondeu
que tivera uma "boa vida" (apesar de oriunda da Europa
de Leste e de ter vivido guerras, separações, lutos,
exílios): "É certo que não houve muitas grandes felicidades,
e com frequência desgraças, mas houve muitos bons momentos!"
Será
a felicidade minimalista? E se a felicidade
não for mais do que uma série de pequenas felicidades?
Para a psicóloga Teresa Paula Marques, a dificuldade
em reconhecer os momentos felizes, quando estes ocorrem,
deve-se à perfeição de um ideal: "Construímos uma imagem
demasiado idealizada do que é a felicidade, pelo que,
quando temos momentos agradáveis ou felizes, tendemos
a não os valorizar. Só perante a 'outra face da moeda'
é que conseguimos percebê-lo."
É verdade que hoje vivemos melhor do que os nossos antepassados,
mas bem-estar é diferente de felicidade. O não estar
mal não significa que se esteja bem. O psicólogo Abraham
Maslow concebeu, em 1943, uma hierarquia das necessidades
humanas, as quais, uma vez cumpridas, garantiriam a
felicidade. O primeiro degrau da pirâmide é consagrado
às necessidades fisiológicas (comida, água, abrigo e
calor), seguindo--se o patamar da segurança (estabilidade
e liberdade do medo), depois o amor (amigos, família,
esposos e amantes), a auto--estima (realização, domínio,
reconhecimento e respeito). E a culminar, bem no topo
da pirâmide, fica a realização pessoal (talento, criatividade
e plenitude).
A felicidade é uma fórmula ou um objectivo a conquistar,
mais do que um estado? Parece-nos óbvio que, se uma
pessoa num determinado nível de pobreza receber uma
quantia avultada de dinheiro, ficará feliz. Mas o dinheiro
não traz felicidade. Quanto mais di-nheiro as pessoas
têm, mais precisam de investir na sua segurança e na
dos seus. Veja--se o caso dos raptáveis no Brasil. Carros
de vidros fumados e fé em Deus!
Alguns economistas europeus acham que se o rendimento
cresce, as aspirações humanas acompanham a curva ascendente.
Ou seja, queremos sempre mais. Mesmo no amor, já Luís
de Camões avisava, "é nunca contentar-se de contente",
a felicidade é exigente. O que pode fazer uma pessoa
feliz pode ser trivial para outra. Ou o que nos poderia
ter enchido de felicidade no passado, pouco ou nada
vale, no presente.
Apesar de subjectiva, a busca da felicidade é universal,
sistemática e excessiva. Para a psicóloga Teresa Paula
Marques, esta procura desenfreada explica-se na medida
em que "o ser humano tem de ter um sentido para a vida.
Algo por que lutar. Chamamos-lhe felicidade, como lhe
poderíamos chamar outra coisa qualquer, como satisfação
ou realização pessoal. Mas o que é concretamente a felicidade?
Talvez as definições sejam tão variadas que dificilmente
consigamos chegar a um consenso. Penso que tudo depende
dos valores de cada um de nós".
Desde sempre, filósofos e pensadores debruçaram-se sobre
o tema, definindo-o com a sua visão particular. Platão,
por exemplo, dizia que a felicidade é ter-se aquilo
que se deseja. Mas, alertava, só se deseja aquilo que
não se tem. Se só se deseja aquilo que não se tem, nunca
se tem aquilo que se deseja. Eterno dilema… A verdade
é que, quando um desejo é realizado, parece consumar-se
no processo da sua própria satisfação. Quando se tem
o que tanto se desejou, fica- -se vazio.
A
solução proposta pelo filósofo contemporâneo André Comte-Sponville
é a de orientarmos o sentido do desejo não para o que
nos falta, mas para o que já temos e o que somos. Devemos
esperar menos e amar mais. A felicidade será assim uma
espécie de resignação ou aceitação da vida: "Devemos
dizer 'sim' à existência. O que significa aceitar o
sofrimento e o desgosto. Não há felicidade na vida se
não se aceitar a morte. Não há felicidade no amor se
não se aceitar o desgosto do amor. Aceitar não significa
renunciar a transformar e isto é diferente de resignação."
O que este filósofo nos quer dizer é que só aceitando
a vida com todas as suas amarguras poderemos ser felizes.
A felicidade não é a ausência total da angústia,
do sofrimento e da tensão, mas é sentir a vida da maneira
mais forte. Com tudo de bom e de mau que ela tem para
nos dar. Saber viver o dia-a-dia, sem grandes expectativas.
Ainda de acordo com o raciocínio deste filósofo, o que
nos afasta da felicidade é o facto de corrermos atrás
de desejos vãos: "Deseja-se o que não depende de nós,
tanto negativamente (medo do desemprego) como positivamente
(ganhar o totobola). Este tipo de desejo só pode fabricar
a angústia ou a esperança. Enquanto que desejar aquilo
que só depende de nós é fazer com que isso aconteça
mesmo. Para sermos felizes é preciso ter vontade para
concretizar aquilo que depende de nós e ter amor para
o que não depende." A felicidade é saber aceitar o que
não podemos modificar.
É preciso ousar ser feliz. Será que o facto de a felicidade
ser pontual e não um estado permanente aterroriza os
seres?
"Não concordo que tenhamos medo da felicidade", opina
a psicóloga Teresa Paula Marques. "Acho é que a encaramos
de um modo tão abstracto que, mesmo quando a sentimos,
temos alguma dificuldade em identificá-la. Como estado
permanente, não existe. Temos momentos em que alcançamos
os objectivos que nos são caros, momentos de equilí-
brio, de paz interior, em que certamente estaremos muito
próximos da felicidade. Mas são estados temporários,
pois no momento seguinte, traçamos outra meta e voltamos
à luta."
Mas será a felicidade um valor culpável? É legítimo
ser feliz quando tantos sofrem? Os que criticam a felicidade
talvez sejam aqueles que têm mais dificuldade em encontrá-la.
Não deve haver maior angústia do que querer ser-se feliz
e não se ser capaz. A felicidade deixou de ser um valor
presente na Constituição dos Estados Unidos da América
e nos Direitos do Homem e passou a ser um dever, uma
obrigação, com toda a angústia que provoca a ansiedade.
Pascal
Bruckner, romancista e autor de Euphorie Perpétuelle
(editora Grasset), defende que a felicidade é ilusória
e fugaz. Irrita-o particularmente os votos que as pessoas
fazem umas às outras: "Felicidades! Que sejas feliz!"
Isto porque ninguém sabe bem o que é que se está a desejar
ao outro. Afinal, qual é o conteúdo da felicidade? Para
Bruckner, a felicidade engendra culpabilidade, na medida
em que força os indivíduos a serem bem sucedidos em
campos tão diversos como o psicológico, o sexual, o
físico e o amoroso. E os que nunca alcançam as metas
estabelecidas? Entram em depressão e os comprimidos
antidepressivos são soluções a curto prazo… O autor
defende que nós nos tornámos alérgicos às histórias
tristes, ao mal-estar dos outros. Hoje em dia, espera-se
uma boa disposição permanente.
Existem
pessoas tremendamente felizes. O psiquiatra
Christophe André, autor de Vivre Heureux, La Psychologie
du Bonheur (Odile Jacob), defende que há pessoas mais
aptas à felicidade por temperamento. Há quem nasça mais
programado para o pra-zer, como há os menos sensíveis
ao sofrimento e à doença. Porém, o meio familiar é vital
nessa construção: "Os nossos pais autorizavam-nos a
ser felizes? Entravam em profunda ins-tabilidade e depressão
face aos problemas? É com o seu exemplo que nós aprendemos
a gerir a felicidade."
A psicóloga Teresa Paula Marques
considera que, mais do que indivíduos programados para
ser felizes, existem pessoas que "conseguem sentir-se
satisfeitas e realizadas com pequenas coisas e outras
que possuem objectivos tão elevados e tão irrealistas
que dificilmente os concretizam". Isto gera "uma vida
de frustração e de infelicidade".
Para Christophe André, existe a felicidade-emoção (a
contemplação de uma paisagem inesperada, a apreciação
de uma obra ou as vibrações de um reencontro) e a felicidade-cons-trução,
que coincide com a ideia de a felicidade ser um projecto
que se trabalha todos os dias, um esforço progressivo
e não um estado estável. A própria visão da felicidade
evolui com a idade: "As crianças são os superdotados
da felicidade. Na infância, a felicidade não é dissimulada.
Os adolescentes acham-na medíocre, pois só querem o
absoluto, as experiências extremas. E, quanto aos velhos,
mais almejamos por uma felicidade calma e sábia."
Não basta
pensar: "Eu quero ser feliz", para o ser,
na prática. Um dos ingredientes mais belos da vida é
a sua imprevisibilidade. Nunca sabermos o que o dia
de amanhã nos reserva. Amarmos o que não é programado.
O ideal de felicidade que abole o sofrimento e os aspectos
desagradáveis da vida só nos traz apatia, aborrecimento
e depressão. Não nos contentamos em ter as coisas. É
a nossa luta para as conquistar que nos mantém vivos.
Só assim progredimos para a felicidade. É a arma mais
eficaz contra o desespero. A vida não é um mar de rosas.
Se assim fosse, qual seria o seu interesse? Devemos
aprender a moderar as nossas aspirações e desejos, mas
sem nunca nos esquecermos que é dentro de nós que encontramos
a felicidade - quando amamos e somos amados e, sobretudo,
quando compreendemos que o mais importante não é ser
amado mas saber amar, apesar de todos os receios e dificuldades.
Amar a vida.
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