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INTIMIDADE


Entre dois conceitos de beleza – um que exalta o tamanho 34, peito firme e juventude; outro que assegura que ser bonito não tem limite de idade –, as mulheres devolvem a sua imagem no espelho. Há mais amor-próprio do que pensávamos!

Por Júlia Serrão

 
Talvez não seja correcto dizer que nunca a beleza do corpo foi tão enaltecida como agora – os gregos já o faziam. Mas a verdade é que vivemos com este culto relativamente presente nas nossas vidas, à espera do que a medicina mais pode fazer para corrigir coisas que não gostamos em nós, para atrasar a idade, acabando com as rugas e a flacidez. Nunca se fez tanta cirurgia plástica por todo o mundo como hoje, sendo que nalguns países essa experiência acontece mesmo em idades precoces. Por cá, há alguma preocupação com o assunto, mas no geral não vivemos obcecadas. A sondagem Máxima provou mesmo que estamos satisfeitas com o nosso corpo.

Como elas se vêem
Marta está acima dos 45 anos, é uma mulher independente, tem bom nível intelectual e cultural e sentido de humor. Fisicamente, tem excelente aparência e sabe que os outros a acham interessante – vê-o nos olhos dos homens. Dir-se-ia que tem tudo para estar de bem consigo própria, no entanto não consegue conciliar-se com o seu corpo: “Começo a descobrir as marcas do tempo e isso deixa-me pouco à-vontade. É o tipo de preocupação recente, mas perturbadora. Até há três anos olhava o meu corpo como mais uma parte de mim, pois estava mais centrada em alimentar a minha intelectualidade. Olhei as minhas primeiras rugas como fazendo parte da minha história”, comenta. O que mudou? “Muitas mais coisas do que o corpo, e provavelmente isso pesa”, admite.


Face aos cânones de beleza, a sondagem Máxima
veio revelar que as mulheres portuguesas gostam
do seu corpo.
Rute tem 31 anos, ar descontraído e curvas bem torneadas. É inteligente e directa. Foi mãe do único filho há sensivelmente dois anos e o seu corpo já ‘voltou ao lugar’. “Sou magra mas não o suficiente para me enquadrar nos cânones delgadinhos da beleza de hoje. E a verdade é que não sou especialmente bonita, não tenho um corpo perfeito, mas gosto dele. Sobretudo porque acho que reflecte o que sou, tem as marcas justas do tempo e das coisas que fiz”, observa. A relação que manteve com o corpo ao longo dos anos foi sofrendo algumas mudanças. Por exemplo, lembra-se de na adolescência “as ancas e as mãos terem crescido muito depressa e o resto ter mantido as proporções pequenas” e não ter gostado. Por isso, não sabe o que irá sentir aos 40 e aos 50 anos. Diz que tem um amigo que lhe assegura que vai ser bonita quando for velhinha. E ela espera que sim, tão bonita, diz, “quanto a minha tia Laura que tem 84 anos e continua a ser uma mulher bonita, com muitos traços de beleza que ostentou quando era jovem. Espero resistir à tentação de parecer sempre nova”.

 

A maioria das mil mulheres inquiridas, isto é, 59 por cento, diz que está contente com o seu corpo.
Esta é a primeira conclusão a tirar da sondagem realizada pela Netsonda, uma empresa da especialidade, e que vem desmontar a ideia generalizada socialmente de que as mulheres portuguesas não estão contentes com o seu peso e a forma do seu corpo. As respostas demonstram precisamente o contrário – que elas estão perfeitamente pacificadas com a sua silhueta.

Outra das conclusões a tirar deste estudo é que à medida que os anos passam, as portuguesas gostam mais do seu corpo, e assim sendo podemos concluir que, mais uma vez, contrariamente ao que se pensava, elas não têm dificuldade em envelhecer com tudo o que isso significa em termos de alterações ao nível físico. As mais maduras são mesmo as que estão mais contentes: dos 45 aos 54 anos, 61,2 por cento; dos 35 aos 44 anos, 60,9 por cento; dos 25 aos 34 anos, 57,6 por cento; e dos 18 aos 24 anos, 55 por cento.

A última conclusão é que as portuguesas que vivem na região da Grande Lisboa são as que estão mais contentes com o seu corpo – 59,6 por cento –, logo seguidas de muito perto pelas do Grande Porto – 58,5 por cento. O resto do país soma igual valor: 58,5 por cento.

ESTRUTURA DA AMOSTRA

Das mil mulheres inquiridas, 20 por cento tem entre 18 e 24 anos; 27,6 por cento, entre 25 e 34 anos; 27,4 por cento, entre 35 e 44 anos; e 25 por cento, entre 45 e 54 anos.

Das mil mulheres inquiridas, 38,6 por cento reside na região da Grande Lisboa; 13,5 por cento, na região do Grande Porto; e 47,9 por cento, no resto do país.

METODOLOGIA
● A recolha de informação é realizada via Internet (CAWI), através da aplicação de um questionário standard de perguntas fechadas
● O trabalho de campo foi realizado online junto do Painel Netsonda e decorreu entre os dias 4 e 11 de Fevereiro de 2010
● Foram obtidas 1000 respostas válidas de mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 54 anos

Eu e os outros
Mas, afinal, eu estou contente com o meu corpo, logo tenho uma boa auto- -estima, ou porque tenho uma boa auto-estima estou contente com o meu corpo? As palavras de Rute parecem esclarecedoras: “Sou atraente e ágil, sem ter grandes preocupações com isso. Faz parte de mim e essa é a razão principal para gostar dele [do corpo]: porque gosto muito de mim. Sim, tenho um ‘problema’ de excessiva auto-estima.”

A psicoterapeuta Ana Crespo concorda que quando existe uma boa auto-estima também se gosta mais do corpo, porque a pessoa gosta mais dela própria. Mas recorda que a medida desse gostar também passa pelos outros, pois precisamos da confirmação do nosso valor. “O que o meu corpo representa, o que ele é capaz remete para o espelho, para o mundo. O nosso rosto é-nos devolvido pelo olhar dos outros, dá-nos o outro pelos afectos”, observa. “E, depois, o nosso corpo é um campo de forças diferentes que nos vai constituindo, que nos vai formando e obrigando a entrar naquilo que é a normalidade. Ou seja, nós somos feitos por forças de poder que nos ditam o que é e não é belo, o que é e não é aceitável. O corpo é social.”

Equilibrar o nosso mundo interior com o mundo exterior, que dividimos com os outros e onde existem padrões de beleza definidos, não é fácil. Há estudos que demonstram claramente que é difícil mantermo-nos indiferentes aos conceitos de beleza, juventude e idade existentes na sociedade. De alguma forma, eles afectam a nossa auto-imagem e a nossa auto-estima. Um dos mais conhecidos é o Dove Global Study 2006 Beauty Comes of Age (a beleza não tem limite de idade) levado a cabo pela marca Dove, em parceria com o grupo StrategyOne, aquando do lançamento de uma gama de cuidados corporais – o Dove pro- -age – para mulheres com mais de 45 anos. Mulheres com mais de 50 anos foram inquiridas em todo o mundo sobre o envelhecimento e as mudanças que daí advêm a nível de beleza, importância social, sexualidade e expectativas que sentiam que a sociedade lhes impunha. As respostas de monstraram que a maioria acreditava nos estereótipos que se alimentam relativamente à sua falta de produtividade e de que estarão longe do ideal de beleza.

O mundo dos afectos
Hoje, podemos falar no antes e no depois de Dove. A campanha inovadora e arrojada ajudou a mudar um pouco a perspectiva do mundo sobre os conceitos de beleza e juventude, ao colocar no ecrã mulheres com mais de 45 anos, bonitas, charmosas e sedutoras, que assumiam as suas rugas, e ao lançar o slogan: “Dove sabe que a Beleza real pode ter vários tamanhos, formas e idades.”

Seja como for, há factores de peso que influenciam o nosso olhar sobre nós, tornando-nos mais ou menos resistentes aos padrões de beleza existentes em determinado tempo histórico e social, garante Ana Crespo. “Estar ou não contente com o corpo tem a ver com a maneira como eu consigo, ou não, resistir ao padrão de poder dominante que me diz que o ideal de beleza é ser-se magro e jovem, por exemplo. Se eu tiver ganho mais flexibilidade em relação a mim, se eu estiver mais segura, eu resisto melhor. Pelo contrário, se estiver mais frágil, não vou aguentar sentir-me rejeitada”, explica, sublinhando o facto das pessoas “poderem ser gostadas com condições”.

Quando se está bem ancorada resiste- -se melhor ao exterior, em crise é mais complicado. “Não está garantido que se fique sempre forte para encarar tudo. Mas há uma diferença entre isso e estar completamente à mercê do poder [que dita o que é ideal].” O medo de ver os sinais da passagem do tempo é compreensível no contexto da sociedade do século XXI, mas é mais ou menos doloroso de acordo com a forma como a pessoa se sente no mundo, garante Ana Crespo, sublinhando: “Envelhecer não é fácil, mas a finitude é um bem. Pensamos a partir dela e é a partir dela que nos vamos constituindo como sujeitos.” E podemos pensar porque é verdade: a beleza está muito além da idade!

Nota: os nomes das testemunhas são fictícios

O CORPO E A SEXUALIDADE
Falámos com a sexóloga Marta Crawford sobre esta relação.

Podemos dizer que para haver sexualidade é preciso haver um corpo? É preciso um corpo mas também uma cabeça porque o sexo é muito de cabeça também. A pessoa pode viver a sexualidade de uma forma imaginada, mas mesmo essa fantasia reflecte-se no corpo, nas sensações que tem em termos corporais. No fundo, a recorrência à fantasia promove fisicamente um estado qualquer que nos é agradável – de excitação e de bem-estar – que despoleta alterações físicas como a excitação e a lubrificação. Acontece o mesmo quando se faz sexo virtual: não há corpos a juntarem-se mas há a reacção corporal que se está a sentir.

Uma mulher contente com o seu corpo é uma mulher mais segura na intimidade? Pode ser ou não, pois não é só o corpo que nos faz estar bem no sexo. Há outros factores presentes, que têm a ver com o que se sente pelo outro e com a nossa própria educação. Há mulheres gordinhas que não são propriamente ‘o modelo de mulher ideal’ e que têm uma sexualidade divinal. Há outras lindíssimas, com um corpo espectacular, que até estão bem com o seu corpo e que sexualmente não têm prazer. A pessoa até pode ser muito bonita, as pessoas dizerem-lhe, e a pessoa não se ver como os outros a vêem. Porque o facto da pessoa se sentir bem com o corpo não significa bom sexo ou disponibilidade para o sexo. Mas, de facto, há mulheres que se sentem mal com o seu corpo e isso tem um impacto na sua sexualidade – não se sentem atraentes, pelo que não têm disponibilidade para o sexo.

A auto-imagem é um dos factores para uma vida sexual satisfatória? É importante, mas não é o essencial. É importante que a pessoa se sinta bem consigo para se sentir bem com os outros, mas isso não quer dizer que se traduza directamente no sexo. Ou seja, sinto-me bem comigo, sinto-me bem como os outros, logo o sexo é maravilhoso. Não é assim. Mais uma vez lá está o que ficou dito: estar na sexualidade tem a ver com a educação e com a forma como a relação com o outro se proporciona.















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