
| |
Colar-se ao filhote é a tendência do momento. Estes novos pais-galinha cultivam a relação simbiótica. Correndo o risco de se perderem nela e de sufocar os seus queridos filhos. Algumas sugestões para uma separação saudável.
Por Valérie de Saint-Pierre
|
|
Extensão do domínio da casa
Sair alegremente de casa deixando lá a baby-sitter para ir jantar fora e ao cinema com os amigos, confiar sem acanhamento o bebé à avó para um domingo romântico, enfiá-los a todos no Clube dos Gnomos para esquiar em paz… muitas práticas outrora banais, mas que hoje são consideradas ultrapassadas por um crescente número de pais jovens? “Nunca sem os miúdos!” parece efectivamente ter-se tornado a divisa de inúmeros casais modernos com filhos pequenos. Já repararam como em alguns casos o jantar de sábado à noite se transformou sistematicamente em jantarezinhos de fim de tarde, “muito mais agradáveis”, onde cada um pode levar consigo as crianças? Os novos pais fusionais simplesmente não concebem divertir-se egoistamente só entre adultos.
Ideologia canguru Embora um qualquer progenitor naturalmente esgotado sonhe por vezes com um pequeno break, estes espécimes parentais adoram principalmente os cafés do sábado de manhã em que se vai com um exército de bebés. Outra coisa de que também gostam muito são as expedições tribais à piscina, ao museu ou à loja/atelier. Sonham com baby disco parties à americana, essas discotecas que abrem ao domingo à tarde para as diversões transgeracionais. E se decidem fazer uma viagem mais longa, ou é com as crianças ou nada feito: os circuitos família invadem os catálogos das agências de viagem. Os nossos amigos famosos, sempre com um Maddox (Angelina Jolie) ou uma Suri (Tom Cruise) atrelados, não são obviamente estranhos a esta ideologia canguru…
 |
 |
 |
À esquerda, Jessica Alba com a filha, Madonna e Lourdes, em baixo, Brad e Angelina com Maddox e com Clint Eastwood e Katie Holmes com Suri. À direita, Victoria Beckham com os filhos, em baixo, Heidi Klum e Seal com os filhos e Sarah Jessica Parker e o filho. |
Um tempo para si próprio é quase inquietante
Quando mais de 80 por cento das mulheres com idades compreendidas entre os 25 e os 49 anos trabalham, poder-se-á evidentemente dizer que, não tendo visto os seus pequerruchos durante a semana, ao pai e à mãe repugna por vezes a ideia de deles se afastarem um segundo que seja durante o fim-de-semana. Sobretudo se, quando eles próprios crianças, tiveram pais ‘correntes-de-ar’, mais apaixonados pelo seu trabalho do que pelos Legos. É humano; quem não experimentou já estes acessos de culpabilidade, antes de aceitar reco nhecidamente a oferta dos avós para ficarem com as crianças no sábado? A sábia teoria do quality time, destinada a compensar as nossas ausências, está sempre actual. Só que para estes novos pais também é necessário que o tempo seja fornecido em quantidade! Só se for para se enganarem um pouco… Os míticos “momentos para si próprio”, para o casal, para a vida social… que era necessário proteger a todo o custo de ventos e marés (o mantra dos anos 1990), viriam a tornar- se quase inquietantes. Futuramente, o mais simples para não desperdiçar o que quer que seja da preciosa felicidade familiar seria encontrar passatempos comuns. Ou tidos como tal… Estão fora de moda os restaurantes que permitem que os adultos jantem tranquilamente enquanto um mágico distrai vagamente os mais pequenos! Sinal de que a tendência está a ganhar força é que a oferta family friendly nunca foi tão florescente.
Actualmente em Paris, se se quiser vai-se ao cinema com o bebé sem recear os apupos: os outros espectadores também vieram com os seus rebentos! Um conceito vindo do Quebeque e que permite manter-se cinéfilo sem deixar o bebé, que chora aos nossos pés. Pode fazer tudo com a carne da sua carne. Incluindo cursos de culinária! Com um olho na criança e outro no peixe, aprende-se a preparar um lombo de bacalhau fresco e caviar de courgettes para os crescidos e uma bolinha de puré para as crianças. E depois saboreia-se em conjunto, sacando dos babetes!
Então e o casal no meio de tudo isto?
Um pesadelo? De qualquer forma ainda temos melhor (pior?). Tem vontade de mimo sem abandonar a cria nem por nada? Alguns spas passaram a ter, para meninas a partir dos seis anos, um mini-ritual ao lado das mães, por exemplo. Quanto às mães de adolescentes que não cortaram ainda o cordão umbilical, não se preocupem, pois as talassoterapias para mães-filhas estão também em plena expansão. Tal como os estágios de relooking, os cursos de maquilhagem ou os rituais hammam (tipo banho turco)… Um pormenor inquietante é que a oferta para o casal vai cada vez menos de vento em popa…
CUIDADO COM O MARKETING CONTEMPORÂNEO DA FAMÍLIA FELIZ!
Didier Pleux, doutorado em psicologia cognitiva, autor de Génération Dolto e de L’enfant Heureux (Edições Odile Jacob), está preocupado.
Apercebe-se desta deriva ficcional?
Os jovens pais de hoje são vítimas de uma espécie de marketing contemporâneo da família feliz... Aquela família onde se faz tudo em conjunto, onde está fora de questão não se levar o bebé ao aperitivo em casa dos vizinhos ou o casal ir sozinho uma semana de férias, sob pena de passarem por progenitores indignos...
Isso parte de boas intenções?
Talvez, mas de boas intenções está o inferno cheio! Paradoxalmente, as crianças que andam sempre coladas aos pais têm cada vez menos a prática de actividades próprias para crianças. Já não vão ao jardim, ou ao carrossel, vão ao restaurante, às lojas que não têm nada a ver com elas... Este desejo de partilhar tudo com os filhos leva à coisificação da criança, sem ter em conta as suas verdadeiras necessidades.
Coisificação também dos pais, não?
Sim, é nos dois sentidos. A criança concebe-os como uma extensão de si própria, em vez de crescer com um pouco de frustração em relação a eles e de perceber que há o tempo dos adultos e o tempo das crianças: se os pais vão ao cinema ela passa a tarde com a avó ou em casa de uma amiga e pronto! Isso vai permitir à criança criar outros laços, é menos sufocante. Não nos admiremos se aos 12 ou 13 anos, muitos dos nossos actuais pré-adolescentes rejeitem violentamente os pais e reclamem, através do seu telemóvel ou dos seus repentes, uma “vida privada” que parece prematura!
|
|
|

|