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Mia Rose personifica a Girl Next Door. É a menina bem comportada que recusa a excentricidade e que partilha a sua carreira com os seus fãs. Como se fosse uma igual. Contudo, é uma cantora que tem 93 milhões de acessos no Youtube. Um fenómeno. Nos próximos meses vai viver no Brasil e integrar o elenco de uma série da Globo. Tem 22 anos, tudo pode acontecer.
Por Anabela Mota Ribeiro Fotografia de Pedro Ferreira Styling de Helena Assédio Malte
Que recordações tem da sua infância em londres?
Vivíamos em Wimbledon. O meu pai é um homem de negócios, investe dinheiro em vários projectos e tem quantro restaurantes (os Al Fresco). A minha mãe ajuda-o. A minha mãe é portuguesa, o meu pai nasceu em Portugal apesar de ter vivido a vida toda em Inglaterra. Tenho dupla nacionalidade. Todos os domingos íamos ao parque e à missa. Eu fazia parte do coro. Gostava muito de representar e cantar. Aos nove anos fui a Fada Boa no Wizard of Oz [O Feiticeiro de Oz]. Eu cantava baixinho e com vergonha, mas era também determinada e tinha confiança em mim própria. É claro que isso vai-se perdendo pelos anos fora, nomeadamente na adolescência.
Filha Única?
Não. Tenho uma história curiosa: antes de me apaixonar pelo meu irmão, tinha muitos ciúmes dele. Uma vez, sem querer, tentei afogá-lo. Não foi bem afogar… O meu irmão estava a tomar banho e eu peguei num brinco da minha mãe e dei-lho a comer. Depois percebi que o Henrique estava mal e comecei a chamar a minha mãe aos berros, a chorar. A minha mãe foi para o hospital com ele, o meu pai deu-me uma palmada na mão para eu aprender. Desde esse dia fiquei muito carinhosa e preocupada com o meu irmão. Posso parecer uma psicopata!, mas o que é que se sabe aos três anos e meio?
Sente que teve uma vida especialmente privilegiada?
Sim. Os meus pais eram muito carinhosos. Eu tinha boas notas e era apreciada por causa disso. Nunca fui negligenciada. Quase tenho pena de ter tido uma vida tão facilitada. Tenho a percepção de que há pessoas com uma vida muito mais difícil do que a minha, que têm de lutar por aquilo que querem. O que conseguem resulta de uma luta. Por exemplo: para algumas pessoas é muito difícil entrar numa escola como a minha; e para mim foi tão fácil… Quando digo que tenho pena é porque gostaria de ter lutado mais. Não estou a ser ingrata em relação ao esforço dos meus pais; mas uma pessoa dá mais valor ao que tem quando lutou para o conseguir.
Regressou aos nove anos. Como foi a transição de Londres para Lisboa?
Dificílima. Chorei muito. Eu vinha a Portugal todos os anos, visitar a minha avó, que me ensinou o português que falo hoje; mas este não era o meu país. Em Inglaterra quase não falava português. O meu pai decidiu voltar para as suas raízes. Apesar de tudo foi mais fácil por estar numa escola inglesa, o St. Julians.
Fale-me mais da relação com a sua avó.
Tenho uma connexion muito forte com a minha vó. Sou mais parecida com ela do que com a minha mãe. Somos as duas Aquário. Ou seja, valorizamos a nossa liberdade, somos ambiciosas, acreditamos no nosso potencial.
“Eu não quero ser uma estrela, eu quero ser musicienne e respeitada pela minha música, pela mensagem que passo”
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Mia veste sweater em malha de algodão e malha metálica,
Balmain. Jeans em sarja de algodão, Current Elliott.
Brincos em ouro branco e diamantes, Garrad. Anel em
prata e quartzo com madrepérola, Stephen Webster.
Pulseiras em prata, cabedal e pele de raia, Lou Guerin.
Assistente de realização: Joana Lestouquet. Assistentes
de fotografia: Ricardo Lamego e Ana Viegas.
Maquilhagem: Sónia Pessoa, com produtos Giorgio
Armani, assistida por Sofia Lucas. Cabelos: Yohann
para &SoWhat, com produtos Sebastian.
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Como viveu a adolescência?
Tive muitas desilusões. Verdadeiros amigos, tenho uns cinco. Não estava à espera de ser eu o alvo. Vivi aquilo muito intensamente e não sabia como lutar contra as inseguranças que sentia. Se eu conseguisse mostrar às pessoas o meu exemplo, dizer-lhes que também passei por isso… Posso ser a Mia Rose, mas passei pelo meu bullying. Consegui convertê-lo em força: é um obstáculo que consegui superar. Já não fico afectada quando falam mal de mim.
A juntar a isso, há a mudança do corpo, as dúvidas acerca da imagem, de quem se é.
Oh my God, as minhas colegas eram fascinadas com o tema do crescimento das maminhas! Quem é que tinha e quem não tinha, quem é que ficava melhor nos biquínis. Nunca dei atenção a essas coisas, que achava fúteis. Nunca gostei de beber, fumar, sair à noite. Eu gostava de ser lembrada como uma menina graciosa. Nunca fui namoradeira. Tenho 22 anos e só tive dois namorados.
O seu perfil é o da menina bem comportada. Porque é conservadora e recatada?
Um homem nunca vai apreciar completamente uma mulher que tem um longo historial de namorados. Amor--próprio e autodisciplina são coisas importantes. Gosto de ser uma das poucas meninas neste mundo do entretenimento que podem dar o exemplo. Ser uma role-model. A Britney Spears: tenho pena que já não seja uma menina bem comportada. Ainda gosto dela, mas não tenho o mesmo respeito. Não precisava de se despir para ser ouvida.
É filha da geração YouTube.
Sou mesmo! Cresci rápido. Aos 18 anos estava a viver sozinha em Nova Iorque. Mais atrás: entrei numa faculdade inglesa para estudar literatura (queria ser jornalista). Mas cantar era um sonho. Aprendi a tocar guitarra na Internet, compunha as minhas próprias músicas. Nas férias de Natal, em Portugal, dois amigos aconselharam-me a pôr um vídeo no YouTube, a cantar uma música de que gostasse. Foi o que fiz no dia 29 de Dezembro de 2006.
Pôs o vídeo com uma atitude descomprometida ou preocupada? Postou um por dia.
Nos primeiros três, quatro dias, era uma brincadeira. Nem lia os comentários. Quando me apercebi do número de viewers e subscritores, comecei a pensar: “O que é que se está a passar?” Algumas coisas deitaram-me abaixo. As críticas menos boas. Comentários do tipo: “Nunca te despeças do teu emprego porque nunca vais ter um futuro a cantar.” Não estava à espera.
Era um processo solitário?
Comecei por fazê-lo com esses dois amigos. Depois passei a fazê-lo sozinha. Punha o gravador em cima de uns livros e gravava. Ainda sem a guitarra. Duas semanas depois, comecei a ter interesse de editoras, começaram a escrever sobre mim na Rolling Stone, no Sunday Times…
Como é que tão rapidamente se transformou num fenómeno?
As pessoas começaram por pensar que se tratava da estratégia de um PR [no mundo da música equivale a promotor de imprensa]. Mas não. Não sei dizer porque foi tão rápido. É certo que na altura não havia muitas meninas a pôr vídeos a cantar, e por isso era mais fácil encontrar as minhas músicas. Foi a coisa certa, no momento certo, com a imagem certa.
Nos vídeos parece uma pessoa comum. A rapariga da porta do lado.
E sou uma pessoa comum. Tenho este anel [no dedo mindinho], que é uma promessa que fiz: ter sempre os pés assentes na terra, não ficar diva. Comprei-o quando me ligaram da Universal Music a dizer que queriam que fosse viver para Nova Iorque e gravar o meu álbum.
Em nova iorque reuniu com tommy Mottola, um dos nomes mais poderosos da indústria discográfica, ex-marido de Mariah Carey. Como é que foi?
Lido bem com a pressão. Descalcei-me para tocar guitarra em frente a todos os CEO da Universal Music. Os meus pés doíam-me imenso! Eu tinha-me vestido tão bem e estava tão nervosa… Tinha uns sapatos Gucci, os mais caros que tenho. Toquei duas músicas minhas à guitarra e uma a capela. Era agora ou nunca! “Ó Maria, ou mostras o teu potencial ou podes ir para Portugal outra vez!”
Não se assustou com a rapidez de todo o processo?
Não tive tempo para parar e pensar. Era só trabalhar. Sou uma menina que canta no YouTube e é o que vou continuar a ser. O Tommy Mottola disse-me: “Vais ser uma estrela.” Eu não quero ser uma estrela, eu quero ser musicienne e respeitada pela minha música, pela mensagem que passo. Uma pessoa que inspira a vida de outras pessoas.
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